<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416</id><updated>2012-01-04T21:00:56.227-02:00</updated><title type='text'>O Fio da Navalha</title><subtitle type='html'>Cuspir Palavras, Lâminas e Ácido de Bateria. Cacos de Vidro. Destruir Inimigos. Defender Amigos. Pagar de Poeta, Ser Soldado.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>64</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-2655046401084089620</id><published>2011-06-13T00:45:00.003-03:00</published><updated>2011-06-13T00:47:55.173-03:00</updated><title type='text'>O Incrível Peñarol e o Renascimento de Gigantes (Parte I)</title><content type='html'>&lt;a href="http://elabola.blogspot.com/2011/06/o-incrivel-penarol-e-o-renascimento-de.html"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/-Ope9buwX_Hk/TfWH05qvVZI/AAAAAAAAAdc/h243psLb4ro/s1600/Pe%25C3%25B1arol%2B-%2BEscudo.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 266px; height: 348px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-Ope9buwX_Hk/TfWH05qvVZI/AAAAAAAAAdc/h243psLb4ro/s400/Pe%25C3%25B1arol%2B-%2BEscudo.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5617545453117592978" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://elabola.blogspot.com/2011/06/o-incrivel-penarol-e-o-renascimento-de.html"&gt;Texto sobre o Peñarol&lt;/a&gt;, incrível time uruguaio!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-2655046401084089620?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/2655046401084089620/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=2655046401084089620&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2655046401084089620'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2655046401084089620'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2011/06/o-incrivel-penarol-e-o-renascimento-de.html' title='O Incrível Peñarol e o Renascimento de Gigantes (Parte I)'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-Ope9buwX_Hk/TfWH05qvVZI/AAAAAAAAAdc/h243psLb4ro/s72-c/Pe%25C3%25B1arol%2B-%2BEscudo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-1497116350173841417</id><published>2011-03-07T09:35:00.003-03:00</published><updated>2011-03-07T23:20:29.465-03:00</updated><title type='text'>Nossa Senhora de Copacabana</title><content type='html'>O carro acelerou na sua direção. No meio da pista, intensificou o movimento de chegar ao outro lado da avenida. Até isso pode ser perigoso pro seu tipo de gente. Apertou o passo em direção à calçada. O carro mudou de faixa. Só podia ser sacanagem. O cara ia parti-la no meio com aquela brincadeira. O coração já disparado. Emendou dois ou três passos em ritmo de corrida. O carro acompanhou o movimento. Subiu no meio-fio a tempo. O carro passa zunindo. Quase lhe arranca a perna. Virou-se na direção do sedan vermelho e esticou o dedo médio no ar. “Filho da puta!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas pessoas no bar a olhavam. Algumas ainda faziam cara de choque com a violência gratuita. A maioria não parecia impressionada. Ajeitou o longo cabelo negro, endireitou a coluna sobre o salto e empinou o nariz. Olhou por alguns segundos para a praia escura do outro lado da rua. Pé ante pé, forçando uma elegância que seus dezenove anos não possuíam, atravessou a fachada do bar. Não dava trela praquela gente dali. Cambada de esnobes do caralho. Subiu a Avenida Atlântica, em direção aos pontos menos movimentados, onde as regras daquelas esnobes não se aplicam. Onde qualquer um pode ser quem quiser, sem ninguém ligar pra quantos anos você tem. Essas desgraçadas não dividem o espaço com as menores porque sabem que perderiam os clientes. É por isso. Ética era o cú delas. Ela sabia que no fim do dia, o que conta é a grana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhou até depois do Palace. Assim que atravessou a Siqueira Campos, avistou quem era do seu interesse. As três não estavam em frente aos bares que se esticam por parte da calçada. Por política da boa vizinhança a força. Jéssica estava sentada sobre o capô de um Vectra. À sua volta, Nicole e Aya conversavam num tom alto. Não viu Suzan nem Paola. Aproximou-se das três companheiras decidida a não contar sobre o carro que lhe ameaçara. Mas assim que Jéssica a recebeu com um “Porra, Kimberly... Demorou pra caralho, hein!”, chorou e contou o que lhe sucedera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kimberly fungou, cortou o choro e secou os olhos antes de borrar a maquiagem barata. Um tanto envergonhada da própria fragilidade, restabeleceu a ordem. “Cadê as outras duas peruas?”. Com clientes, responderam as três. Aya completou a informação. “A Suzan tá com aquele neguinho bonitinho que vem aqui direto. A Paola saiu com um bacana num carrão, disse que ia levar ela prum motel na Barra.” Kimberly aquiesceu. “Vocês anotaram a placa do carro?”. Ninguém respondeu. “Não, né!? Porra, vocês são foda! Já falei pra não dar mole com essas coisas, cacete! Tá cheio de safado aí querendo sacanear a gente... Puta merda... Alguém lembra pelo menos a marca do carro?”. Dessa vez a resposta foram três cabeças em movimento de negativa. “Puta que pariu... Vocês são de fuder...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite avançava. Um homem se aproximou do grupo. Kimberly apresentou-se a recebê-lo. Na casa dos trinta, o homem trajava calça jeans e uma camisa social azul, com a manga dobrada até o cotovelo. Uma pequena mochila nas costas. Um tanto acima do peso ideal, foi a avaliação unânime das moças. Kimberly aproximou-se devagar. O homem hesitou. Ela pegou-lhe a mão e pousou sobre o próprio seio. Passou o braço pela cintura e puxou o corpo do gordinho contra o seu. Desceu a mão até a bunda do sujeito. Num movimento rápido, puxou as notas de dinheiro que sentiu no bolso da calça. O homem não pareceu perceber o movimento, ocupado que estava em firmar os dedos no seio jovem que guardava na mão. Kimberly escorregou a outra mão até a virilha do cliente. Ele repetiu o gesto, pousando a sua mão pesada entre as pernas da jovem. Sentiu o volume que o short curto guardava. Acariciou-o, apertou de leve. Sentiu enrijecer. Pousou os lábios no ouvido de Kimberly e perguntou quanto ela cobrava. Ela respondeu que cinqüenta paus o programa completo. “Porra, não tenho isso tudo. Não dá pra fazer por vinte?”. Kimberly, com um movimento rápido, arrancou a mão do homem de seu sexo. “Dá não.”. Virou as costas e voltou para junto das amigas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem levou a mão ao bolso de trás. Sentiu que algo faltava. “Devolve meu dinheiro.”. Kimberly olhou-o com uma das sobrancelhas em pé. “Devolve a porra do meu dinheiro, se não eu chamo a polícia.”. Nicole sussurrou “Acho que é melhor tú devolver.”. Kimberly sacou as notas de dentro do decote. Duas notas de dez. Botou na cara uma expressão de asco, pegou uma das notas e jogou no chão. “Toma. Pega.”. O homem abaixou-se, tomou a nota nas mãos e guardou no mesmo bolso. “Me devolve a outra também.”. Kimberly fungou discretamente. Guardou o catarro espalhado sobre a língua. Andou em passos lentos. O homem não se mexeu, mas os olhos estavam inquietos, mais abertos que o normal. A moça prendeu as bochechas do sujeito entre os dedos, forçando-o ao ridículo de um bico. Aproximou seu rosto do dele e falou em tom duro, sem o esforço habitual de suavizar a voz masculina. “Se você acha que eu vou ficar me roçando em maricona gorda por nada, você tá muito enganado. Maricona gorda que gosta de pau. Se quiser, chama a polícia, mas eu não roço em viado de graça. Seu lixo.”. Cuspiu o catarro no meio dos olhos do homem. Deu meia-volta e sentou-se no capô do carro ao lado de Jéssica, olhando com escárnio para o gordinho. Ele cambaleou, incerto de como proceder. Olhou nos olhos de Kimberly. E de cada uma das outras. Ameaçou falar, mas os lábios não responderam ao comando. Por fim, aceitou a derrota, cravou os olhos nos próprios sapatos e andou. Não sabia bem para onde, mas sabia que para longe daquela puta dos infernos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um Gol branco parou na esquina da Siqueira Campos. Suzan desceu, fechou a porta às suas costas e juntou-se ao grupo a tempo de ouvir as outras comemorarem a vitória e lamentarem o lucro tão baixo de apenas dez reais. Baixada a euforia, Kimberly olhou por cima dos ombros em todas as direções. “Onde diabos será que tá a Paola?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Fusion parou na mesma esquina da Siqueira Campos. Quando o sinal abriu, contornou o grupo pela Atlântica devagar. As moças apertavam os olhos, mas os vidros escuros impediam que vissem dentro do carro. Ainda devagar, o carro entrou na rua seguinte, sem deixar o quarteirão. Parou ainda na esquina. O vidro baixou. A buzina soou rapidamente num toque único. A mão do motorista fazia sinal para que uma delas se aproximasse. Kimberly desceu do capô e caminhou. Não muito devagar, mas sem pressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu a volta no carro e parou ao lado da janela do motorista, um coroa que achou bonitão. “Boa noite.”. “Boa noite.”, ela respondeu. O homem precisou de alguns segundos para começar a falar. “Quanto é pelo oral?”. Kimberly respondeu que eram trinta reais. “E se for pra eu fazer em você?”. Kimberly sorriu. “Deixo por vinte e cinco.”. “Ok. Mas sem camisinha.”. “Fechado.”, ela respondeu ameaçando dar a volta para entrar no carro. O homem não deixou que ela se movesse. “Não. Pode ser por aqui mesmo.”. A moça desabotoou e baixou o short. Deu um passo à frente, encostando as coxas à porta do carro, e enfiou o pau para dentro da cabine. O homem pegou o membro com as duas mãos, beijou-lhe a base, apoiou a cabeça na própria língua e pôs os lábios em volta. Sugou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kimberly precisou de dez minutos para gozar. O cara engoliu tudo. Limpou as bordas da boca com as costas da mão enquanto a moça guardava o pacote de volta no short. Quando estendeu a mão pelo pagamento, o homem já virava a chave do carro na ignição. “Hoje você trabalhou de graça, garoto.”. Kimberly jogou o corpo para dentro do carro pela janela e agarrou o par de óculos escuros que estavam no console, e os trouxe nas mãos quando o automóvel arrancou e seu corpo foi ao asfalto. O homem parou e desceu do carro. Uma nove milímetros na mão. “Garoto é o seu cú, seu viado filho da puta. Me dá o meu dinheiro.”. O sujeito apontou a arma na direção de Kimberly. “Não brinca comigo que eu te mato, moleque. Me devolve logo essa merda e tú não se machuca.”. A moça não fez menção de devolver os óculos. As outras, ao terem a atenção chamada pela cena, correram na direção de Kimberly. O homem apontou a arma para elas e gritou que não avançassem mais. Depois voltou a arma pra a direção da puta que chupara. Não tinha mais a intenção de atirar, com tantas delas ali. Enfiou a mão livre no bolso da calça e sacou o celular. Polícia. Atlântica com a Figueiredo Magalhães. Confusão com as meninas da noite. “Agora vocês tão fudidas. Acho melhor me devolver logo essa porra desse óculos, e eu deixo vocês irem nessa antes da polícia chegar.”. Kimberly olhava fundo nos olhos do homem. E ele entendia perfeitamente que ela o estava mandando tomar no cú. “Porra de quadrilha de travequinhos do caralho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viatura parou na calçada da Atlântica. Os dois policiais desceram rapidamente do carro e mandaram que o homem baixasse a arma. “Elas vão fugir, porra.”. “Cidadão, eu não quero ter que repetir a ordem.” E virando-se para Kimberly, “Se você correr, eu mesmo te pipoco.”. O homem baixou a arma. Um dos policias manteve posição, às costas da moça. O outro caminhou até o homem e perguntou que porra era aquela. “Vim aqui pegar uma garota, aí me entra no carro essa porra aí. Quando vi que não era mulher, mandei descer do carro.” Kimberly gritava que era mentira, mas o policial só fez um gesto com uma das mãos. Significava para ela calar a merda da boca antes que ele se irritasse. O homem continuou, “Ele pegou o meu óculos, tentou me roubar. Eu tenho licença pra arma, só tava me defendendo.”. O policial tomou a nove milímetros nas mãos. “Me mostra a identidade e a licença da arma.”. O homem andou até o carro e voltou com os documentos em mãos. A identidade vinha encapada em couro vermelho, com o Brasão da República embutido. Foi o que entregou primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor sabe que a licença não é pra arma automática, né doutor?”. Kimberly se desesperou. “Doutor!? Tú vai acreditar nele, vai me fuder!?”. O policial olhou mais uma vez para a moça e disse, pausadamente e em tom duro, “Não falei com você ainda, então cala esta merda desta boca.”. Kimberly parou de falar, mas agitava o corpo impaciente, indignada. O policial devolveu os documentos do homem. Caminhou até a moça e esticou a mão espalmada em sua direção. “Devolve o óculos do homem.”. “Mas é mentira dele, ele me chupou e não quis pagar. Peguei essa merda, porque é o meu direito, o cara não quis me pagar!”. O policial respirou fundo por três segundos. Olhou Kimberly nos olhos e deitou a mão em sua cara, estalando um sonoro tapa. As outras moças ameaçaram avançar, mas o outro policial sacou a arma e apontou-lhes. “Não perguntei nada. Mandei devolver o óculos.”. A moça não se moveu. O policial não hesitou. Agarrou Kimberly pelo braço e girou-o. O estalo foi quase tão alto quanto o tapa. A moça foi ao chão. Gritava. O policial tirou os óculos das suas mãos e devolveu ao homem. “Vai pra casa, doutor, tá tudo certo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o carro arrancou, o policial voltou-se para Kimberly, que ainda se contorcia no chão. “A próxima vez que eu pegar você e a sua quadrilha de sacanagem por aqui, eu vou fazer igual os parceiros da Quinta da Boa Vista mês passado, que passaram metralhando os travecos na calçada. Tá ouvindo? Porra.”. Virou-se para o restante das moças. “Tira uma voluntária de vocês aí pra liberar uma de graça pra mim e pro meu parceiro. Cadê aquela mais escurinha? Paola?... Não sabem, né... Deve tá fazendo merda, pra variar. Tem problema não, decidem aí entre vocês mesmo quem que vai pro sacrifício. E é pra hoje.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, os jornais, como de hábito, traziam notícias. Encontraram um corpo nas pedras, abaixo da Avenida Niemeyer, na altura da favela do Vidigal. Um travesti identificado pela polícia como Paulo Henrique de Oliveira, mas a notícia só trazia sua idade. Dezesseis. A polícia acredita que tenha sido empurrado pela ribanceira à beira da rodovia por algum cliente com quem tenha brigado. É o segundo caso de travesti morto nas mesmas circunstâncias este ano. A taxa de criminalidade na área, no entanto, vem caindo vertiginosamente desde que as UPPs foram instaladas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-1497116350173841417?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/1497116350173841417/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=1497116350173841417&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1497116350173841417'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1497116350173841417'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2011/03/nossa-senhora-de-copacabana.html' title='Nossa Senhora de Copacabana'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-6679444559202125608</id><published>2011-01-22T16:40:00.002-02:00</published><updated>2011-01-22T16:43:45.340-02:00</updated><title type='text'>Sobre Caninos e Outras Lendas Modernas</title><content type='html'>O ódio já comia as minhas veias. Esperava em silêncio pela gota d’água. A vagabunda começou a falar, em pé, no meio de uma floresta pálida. O filho da puta foi se aproximando devagar. A fala da vagabunda era infantil. Me irritava. “Você é incrivelmente rápido e forte.”, ela dizia. E o filho da puta ia se acercando. “Sua pele é branca, e gelada.”, ela continuava. E ele se aproximando com passos lentos, numa breguice de dar nojo. “Seus olhos mudam de cor.”. Ela não parava. “E às vezes você fala como se viesse de outra época.” Eu apertava os olhos de raiva. “Você nunca come ou bebe. Você não sai à luz do dia.” E o filho da puta, devagar devagarinho, chegava cada vez mais perto, aproximando-se por trás da vagabunda até parar às suas costas. “Quantos anos você tem?”. “Dezessete.”, ele responde sussurrado. “Há quanto tempo você tem dezessete anos?” pergunta a vagabunda de voz falsamente trêmula. “Há muito tempo” responde o filho da puta com aquele ar canastrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei o que você é.”, a vagabunda diz em tom de revelação para retardados. O ar de canastrão volta ao filho da puta, “Diga... Em voz alta.” Viado!, pensaram ou disseram todas as pessoas com mais de dois neurônios pra queimar diante da horrorosa cena. “Vampiro.”, disse a vagabunda, contrariando a irônica expectativa geral. “Está com medo?” ele pergunta, galante. A vagabunda rodopia jogando o cabelo como se dançasse música brega nos cabarés de Belém e responde olhando o filho da puta nos olhos: “Não.” Eu já mal conseguia me conter quando o filho da puta puxou a vagabunda pelo braço por alguns metros, depois desistiu e pendurou-a nas costas. Em super-velocidade, ele a carregou montanha acima. No topo, onde uma pequena rajada de luz solar vencia a espessa crosta de copas de árvores, ele soltou a vagabunda no chão, postou-se debaixo do feixe de luz e desabotoou a camisa. A pele do filho da puta brilhava como se fosse recoberta por um pó de diamantes do qual até o cavaleiro de Andrômeda se envergonharia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O insulto foi insuportável. Não me agüentei. Com a forte sensação de que ainda não havia presenciado o pior que aquele espetáculo tinha a oferecer, levantei-me da poltrona do cinema. Joguei o saco de pipoca e o copo de coca-cola na tela e saí, disparando todos os palavrões que o meu repertório foi capaz de armazenar. E, acredite, são muitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já com os pés na rua, ainda me escapavam alguns “seu filho duma égua parideira da buceta cabeluda arrombada” e “seu resto de foda” e uns “caralho de asa”. O vento frio cortava as peles mais sensíveis. O ódio crescia quente na minha alma a ponto de ser perigoso. Na verdade crescia no meu peito. Alma mesmo eu não tenho. Um ódio impossível de conter. Ódio da raça humana inteira. Esquecido das minhas restrições e fobias, aproveitei a madrugada para aplacar minha ira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhei pelo deserto da noite. A cidade oferecia sua luz vacilante, como se esquecesse de iluminar alguns de seus lugares mais convidativos. Próximo a um dles, um terreno baldio, avistei a mulher andar apressada. Parecia ter medo de andar à noite na rua. Sozinha. Mal sabia o quanto tinha razão. Mas a razão não a ajudaria naquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avancei em passos rápidos na sua direção, e mesmo que não fizesse barulho ao tocar o chão de concreto da calçada, por vezes fui obrigado e esconder meu corpo quando a presa voltava sua cabeça para os lados e, raras vezes, para trás. Quando ela passava em frente ao terreno, segurei-lhe pelos ombros e joguei seu corpo no meio do mato. Antes que ela pudesse compreender o que tinha acontecido, eu já estava montado sobre seu corpo estendido no chão. Tapei-lhe a boca com uma das mãos, que ela mordeu com força, mas não afastei um dedo. Abaixei meu rosto até o seu, colei meus lábios no seu ouvido e falei: “Vocês precisam aprender a nos respeitar.” Olhei-a nos olhos, franzi o cenho, e acendi minhas pupilas vermelhas. Deixei os caninos botarem à sua vista só pelo prazer de ver o pavor tomar conta das suas faculdades. Diverti-me com suas tentativas inúteis de morder minha mão com mais força e debater o corpo frágil. Quando cansei de seus esforços patéticos, cravei os dentes feito um animal na sua jugular e bebi o sangue, num frenesi do viciado que finalmente consegue mais uma dose. Quando terminei, com um único golpe quebrei-lhe o pescoço. Limpei o sangue me que escorria pelo queixo num pedaço da sua camisa, que queimei com o isqueiro do meu bolso. Lamentei o fato da mulher não ser a mãe do diretor do maldito filme e voltei para casa, sem vontade de usar o resto da noite para nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Idiota. É isso que eu sou. Um idiota. Quando abri os olhos, no pôr-do-sol, a ressaca moral me atormentava. Não devia ter feito nada daquilo. Imbecil. Não deveria beber a merda do sangue, mas quando se é um monstro maldito, às vezes é difícil conter a besta dentro de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei da cama, acolhido pela completa escuridão do quarto. Desliguei o aparelho de ar condicionado. Afastei de leve as pesadas cortinas que cobriam a janela e abri as venezianas de ferro. Inspirei fundo o ar noturno, mas isso também não me acalmou. Tirei a cueca que me cobria as partes pudentas e enfiei-a no cesto de roupas-sujas. Mas a cena do descontrole na noite anterior teimava em se repetir na minha cabeça durante o banho. A essa hora o leitor menos atento já percebeu, mesmo sem um momento catártico de revelação, que o seu narrador é um maldito vampiro. E pergunta-se intrigado se vampiros tomam banho e dormem em camas. Bom, a verdade nua e crua é que há tantos vampiros desinteressados da higiene pessoal quanto há humanos. Há os mais selvagens, que se enfiam em florestas, outros em esgotos. O fato é que a simples condição de ser um amaldiçoado não te obriga a ser um rato. Eu mesmo sou da turma dos civilizados. Já completei meus trezentos e quarenta e sete anos, e sou um apaixonado pela era moderna e suas possibilidades. Mais uma coisa. Também não mordo pescoço de homem. Não sou viado. Nem todo vampiro é, que fique claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vesti uma calça jeans e uma camisa sem escolher muito. O ronco do carro deixando a garagem do prédio não me distraia a cabeça. Lembrei dos olhos da mulher. Devia ter quebrado logo a porra do pescoço. Idiota. Não era pra beber o sangue. Parei o carro no estacionamento de outro prédio. Passei meu cartão-chave no dispositivo ao lado da porta e entrei o cubículo de acesso aos elevadores. Nono andar. Entrei e cumprimentei o segurança. Sim, eu trabalho. Tenho emprego fixo. Mas isso não chega a ser uma questão de ser civilizado. Tem mais a ver com neuroses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que tanto quanto o sangue, a classe vampírica é chegada numa lenda e numa fofoca. Coisa de gente desocupada. Dois ou três séculos nesse mundo, e você também se encheria de tédio e começaria a inventar histórias e cuidar da vida dos outros, acredite. Ok, o que é fato é que há vampiros que se foderam por aí porque beberam o sangue de alcoólatras, ou bêbados, e ficaram viciados. Não suportaram mais o sangue limpo, e só podem beber o batizado. É degradante. Apresentem os sintomas. E um vampiro alcoólatra não é uma criatura mais agradável que um humano. Bem pelo contrário. O mesmo já aconteceu com viciados em heroína, cocaína e outras coisas desse tipo. A lenda nessa história é que algumas doenças causam o mesmo efeito. E o meu cagaço é morder um aidético. Cagaço mesmo. Tenho mais medo dessa porra que de água benta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje essa é a razão para eu trabalhar. Quando a epidemia da AIDS se espalhou, parei de morder gente. Tentei viver de sangue de animais por um tempo, mas a degradação foi insuportável. Tentei muita coisa, mas a melhor estratégia foi pagar prostitutas para beber-lhes o sangue da menstruação. Fiz isso durante muito tempo. Acredite, não chegou nem perto de ser o pedido mais estranho que a maioria delas já ouviu. E as prostitutas são o lugar mais seguro nessas ocasiões. Ninguém se cuida mais que elas nesse sentido. Bem, que a maior parte delas, mas essa é uma distinção fácil de se fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dava pra viver assim, no entanto. Essas moças não costumam trabalhar na época do mês que mais me interessava. Eu tinha que criar vínculos, virar cliente fiel pra conseguir driblar os rodízios, as folgas. O sistema funcionou até que eu terminasse a faculdade que comecei como primeiro passo do meu plano genial, hoje já em prática. Sou o responsável por analisar e catalogar as amostras de sangue, pra um laboratório do banco de sangue. Turno da noite. O sangue cai na minha mão e eu testo. E decido se vai ser catalogado no banco de dados, ou se vai virar o meu jantar. Plano perfeito. Funciona bastante bem, só que os vampiros não vivem só do alimento. Nós somos monstros, sádicos por natureza, por instinto. E às vezes as coisas saem do controle. Não devia ter mordido aquela mulher. Não pensei em nada. Arrisquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E percebi a seriedade da situação quando o segurança do laboratório me devolveu o cumprimento. “Viu, doutor, mataram a filha daquela atriz da novela.” A televisão para que o homem apontava exibia uma foto da moça que eu matei. A voz do repórter, em off, decretava a sentença. “... ataque brutal, aparentemente por algum animal ainda não-identificado, já que não há sinais de violência sexual. Roberta lutava contra o vírus HIV há cerca de dois anos.” Você já viu um vampiro de sangue gelado?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-6679444559202125608?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/6679444559202125608/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=6679444559202125608&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6679444559202125608'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6679444559202125608'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2011/01/sobre-caninos-e-outras-lendas-modernas.html' title='Sobre Caninos e Outras Lendas Modernas'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-4961991680888570316</id><published>2010-10-30T11:00:00.001-02:00</published><updated>2010-10-30T11:00:46.160-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TMwW-EjlWtI/AAAAAAAAAa4/xUFcZ7IN43k/s1600/Dilma.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TMwW-EjlWtI/AAAAAAAAAa4/xUFcZ7IN43k/s400/Dilma.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5533823297762187986" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-4961991680888570316?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/4961991680888570316/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=4961991680888570316&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/4961991680888570316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/4961991680888570316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/10/blog-post.html' title=''/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TMwW-EjlWtI/AAAAAAAAAa4/xUFcZ7IN43k/s72-c/Dilma.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5541926100559469958</id><published>2010-10-02T10:49:00.002-03:00</published><updated>2010-10-02T10:54:06.868-03:00</updated><title type='text'>Quando o Urubu de Baixo Caga no De Cima</title><content type='html'>O blog &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Gol de Canela&lt;/span&gt;, organizado por Gregório Diniz e L. H. Pinton tem uma coluna onde exibe textos de alguns convidados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive a honra de estreiar a coluna nesse blog parceiro com um texto sobre a situação atual do meu amado Flamengo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://gol-de-canela.blogspot.com/"&gt;http://gol-de-canela.blogspot.com/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem quiser conferir, o blog é bastante interessante. E a referida coluna se encontra abaixo das postagens comuns, e antes dos palpites da rodada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;abraços&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5541926100559469958?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5541926100559469958/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5541926100559469958&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5541926100559469958'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5541926100559469958'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/10/quando-o-urubu-de-baixo-caga-no-de-cima.html' title='Quando o Urubu de Baixo Caga no De Cima'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-9221377578504617318</id><published>2010-09-20T03:25:00.007-03:00</published><updated>2010-09-20T14:20:01.310-03:00</updated><title type='text'>De Martelos e Feiticeiras</title><content type='html'>&lt;blockquote&gt;"¡Qué otra cosa es una mujer, sino un enemigo de la amistad, un castigo inevitable, un mal necesario, una tentación natural, una calamidad deseable, un peligro doméstico, un deleitable detrimento, un mal de la naturaleza pintado com alegres colores!"&lt;br /&gt;- Malleus Maleficarum&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As frestas na madeira eram generosas. Permitiam a visualização quase perfeita do espetáculo torpe. A ruiva, ajoelhada sobre a cama, baixou lentamente a alça direita do vestido. A mulher loura, com olhos injetados de luxúria, ergueu o galão de vinho tinto e derramou a bebida sobre colo da outra. Dobrou o corpo, provocativa, e lambeu o seio desnudo. Começou circulando a língua pelo bico rosado e enrijecido. Logo já guardava quase por completo a protuberância de carne dentro da boca. A ruiva pendeu a cabeça para trás e gemeu forte olhando para o teto da casa. O ferreiro assistia à cena de pé, ao lado da cama, com a mão enfiada dentro das calças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto esticava o pescoço na análise daquele absurdo, o monge sentiu seu rígido efeito lhe consumir a virilha. Os dedos dos pés formigavam, pressionados contra o couro da sandália pelo peso do corpo. O toco de árvore onde subira o clérigo começava a estalar sob seus pés esticados. Mas os olhos agarravam-se à cena que acontecia do outro lado da parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas mulheres despiam-se num contundente frenesi. O ferreiro tirou a camisa e aproximou-se do leito, enquanto as duas valquírias, já nuas em pêlo, lhe abriam as calças por entre lambidas longas no seu torso. O monge soltou uma das mãos que seguravam as pedras da parede e pousou sobre sua virilidade latejante. Forçou o corpo o quanto pode para não perder o acesso à construção de madeira que ligava a parede ao telhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As frestas continuavam generosas, e o espetáculo inescrupuloso continuava solto. Uma tira de couro da sandália do monge arrebentou. Seu pé perdeu a firmeza, e o religioso perdeu o apoio. No desequilíbrio, seu corpo tombou do generoso toco de árvore e foi ao chão com um baque seco. Atordoado com a possibilidade de ser descoberto, naqueles infelizes momentos em que o desespero nos drena a razão dos atos, o monge correu. Correu, a cegos tropeços, para o lado mais burro. Correu para a frente da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao cruzar a porta, arregalou os olhos diante da besteira que fizera. A folha de madeira descolou-se dos umbrais, seguida de um feminino grito abafado de “Meu Deus, o monge Kraemer!”. O clérigo, em um súbito ataque de dignidade, endireitou a postura e encarou-os nos olhos. O ferreiro e a mulher loura transpiravam vergonha e submissão. Com as mãos e os braços, cobriam pateticamente pedaços dos corpos despidos e fitavam os pés do monge. Kraemer já sentia-se com a dignidade restaurada e empinava o nariz para passar o sermão mais duro que conseguia formular. Quando seus olhos cruzaram com os da mulher ruiva. Confortavelmente nua, não tentava cobrir o corpo. Os olhos, vidrados na insistente rigidez que saltava o hábito na altura do púbis sagrado do religioso, subiram e fitaram insolentes os olhos de Kraemer. Provocativa, escolheu com cuidado as palavras pelo movimento que elas lhe exigiam dos lábios vermelhos. “O padre quer participar?”. E inclinou de leve a cabeça em direção ao interior da casa, reforçando o convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O monge sentiu as pernas falharem. A luxúria invadiu-lhe os pensamentos e por alguns momentos ensaiou um passo à frente, na direção daquela mulher. Mas aqueles olhos lhe metiam medo. O verde profundo daquele olhar libidinoso lhe gelava as tripas e dava um nó. As pernas bambeavam. E a rigidez do membro perdeu-se num instante. A trombeta do arcanjo Gabriel que trazia no meio das pernas adormeceu na flacidez do abandono. Kraemer separou os lábios, mas as palavras faltaram. O controle sobre seu corpo e suas convicções fora abalado. Esteve a um passo do abismo de se ver controlado pelo irracional desejo e seu objeto. A visão turvou. Estava enojado com os próprios pensamentos. Empinou novamente o nariz e pôs-se a andar, com passos nervosos de quem combate a vontade de correr. Não decidira para onde ir, andava para longe daquela gente, para longe daquele ultraje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz quase nenhuma das lamparinas de azeite espalhadas pelos alpendres do vilarejo era suficiente para distinguir o caminho. E foi suficiente para o monge reconhecer a casa do ferreiro e, em anexo, o cômodo onde o homem trabalhava. Kraemer forçou a porta de madeira, que cedeu com surpreendente facilidade. Arrastando as sandálias pelo chão de terra batida, o monge tomou nas mãos o pesado martelo de forja que repousava sobre a mesa. Tomando o cuidado de fechar a porta atrás de si, voltou para a casa da mulher ruiva por um caminho diferente. Escondeu-se no breu entre algumas árvores e esperou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se passaram mais de dez minutos e o ferreiro e a mulher loura deixaram a casa num ar de flagrante desconforto. Cada um tomou seu rumo e, na escuridão da noite, rapidamente saíram de vista. O monge esperou ainda mais dez minutos antes de deixar seu posto. Com o andar forte, mas calmo e seguro. Parou defronte a porta da casa e tocou a maçaneta. Estava trancada. Posicionou o corpo com o martelo em punho e golpeou a tranca. A porta abriu-se em meio ao estrondo. Kraemer entrou. A mulher estava parada no meio da sala, em pé, olhando assustada para o monge dominicano que lhe invadia a casa com um gigantesco martelo de forja nas mãos. Não houve tempo para diálogo. O clérigo ergueu a ferramenta e atingiu a ponta do queixo da mulher com um golpe cruzado. Ela caiu a dois metros de distância, desacordada. Kraemer aproximou-se e ajoelhou ao lado da vítima inerte. Afagou os cabelos ruivos e virou o corpo da mulher, posicionando sua barriga para cima. A pouca roupa cobria sua pele clara de forma aleatória e esparsa. O monge correu a mão trêmula pelos seios, apertando-os gentilmente. Desceu pela barriga até a pelugem avermelhada do púbis e enroscou as pontas dos dedos levemente nos pêlos da mulher. Kraemer ofegava, arfava. O coração dava solavancos dentro do peito. Mirou o rosto da mulher e notou seu maxilar deslocado. Levantou-se e pôs o martelo no ar mais uma vez. A ferramenta desceu em cheio na bochecha esquerda da moça. O monge sentiu os ossos esfarelarem. Repetiu o movimento. De novo, e de novo. A violência dos golpes aumentava à medida que sentimento de medo e insegurança no peito do religioso iam dando sinais de sumiço. O último golpe, que já veio acertar uma pasta de sangue e migalhas de ossos e cérebro, extinguiu de dentro do monge o medo. Ele apoiou o martelo na parede e saiu, com os votos eclesiásticos renovados pela experiência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram cem anos mais tarde. Chegava ao continente a notícia da vitória de D. António Prior do Crato na Batalha da Salga sobre as forças do novo rei de Portugal, D. Felipe II de Espanha, I de Portugal. Mas a consolidação do poder de D. António sobre a Ilha Terceira não era assunto que desviasse a atenção daqueles homens de sua missão. Estavam ocupados com assuntos mais urgentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao sinal do monge, os verdugos suspenderam o homem mais uma vez. Puxaram as cordas que, passando por roldanas, amarravam o suspeito nú com os braços e as pernas estendidos para o alto. Abaixo do seu corpo, uma pirâmide de madeira descansava com sua ponta estendida na direção do períneo do interrogado. O monge fez o sinal de baixar e os carrascos soltaram as cordas. A queda livre jogou o corpo com força sobre a ponta da pirâmide, que atingiu-lhe o saco com força suficiente para abrir um corte na pele fina. Os carrascos seguraram a corda antes que o homem tombasse e puxaram-nas, içando mais uma vez o suspeito.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TJcBOOqdIpI/AAAAAAAAAao/Y8Wi7UTPNDw/s1600/Trono+de+Judas.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 218px; height: 357px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TJcBOOqdIpI/AAAAAAAAAao/Y8Wi7UTPNDw/s400/Trono+de+Judas.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5518881212331795090" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nós entendemos que a culpa não era do senhor. – continuou o monge – Portanto, serás poupado. Mas se, e somente se nos contar exatamente o que nós queremos. É verdade, senhor, que a tua senhora preparava-te chás de ervas misteriosas para aplacar-te as enfermidades?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o homem nada respondesse, o monge fez mais um sinal aos verdugos. Eles baixaram o corpo do acusado lentamente até apoiá-lo pelo cú na ponta da pirâmide de madeira. Com a ponta espetando continuamente o rabo do suspeito, o monge prosseguiu com as perguntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senhor, é do nosso conhecimento e a sua senhora lhe ministrava doses de um chá feito de ervas desconhecidas para curar-te enfermidades intermitentes. É também do nosso conhecimento que o senhor participou do processo de preparação desse chá. O senhor entende a gravidade dessas acusações? – um sinal aos verdugos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os carrascos afrouxaram as mãos sobre as cordas e aumentaram o peso depositado sobre a ponta da pirâmide. E a pressão que a ponta devolvia ao cú do suspeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nós compreendemos a sua posição, senhor. Não foste o primeiro homem levado pelas mãos por sua mulher ao pecado. – Mas o acusado nada respondia com suas caretas de dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um desagradável cheiro de queimado começou a tomar o recinto. O monge sorriu com o canto da boca. Aproximou-se do suspeito e perguntou num tom levemente mais cruel do que o anterior&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sentes o cheiro? Este é o cheiro da tua senhora confessando teus pecados junto com os dela. Vou pintar-te a imagem do que se passa naquela sala ao nosso lado. Ela está pendurada, mais ou menos como tú. Mas só pelos braços. O corpo desce reto, perpendicular ao chão. Nua em pêlo. A corda que lhe amarra os pulsos também passa por uma roldana até as mãos de um verdugo como estes que te dominam. Só que abaixo da tua mulher não há o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Culla di Giuda&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;La Veille&lt;/span&gt;, como embaixo de ti. Embaixo da tua mulher há um tonel, um caldeirão cheio de azeite fervente. Sabes o que é interessante no azeite? Ele é um tanto viscoso. Entranha na carne. Os danos são irreparáveis. Nós sabemos tratar as bruxas por aqui, senhor. Do jeito que elas merecem. – o homem chorava, mas pela expressão o monge não conseguia distinguir se a dor era pela pirâmide que lhe invadia pouco a pouco o cú, ou se era pelo sofrimento da mulher. – A tua confissão aqui serve para a ela também, você sabe. Então, o senhor quer fazer o favor de nos contar de uma vez por todas o que acontecia naquela casa com esses malditos chás, pra que nós todos sejamos poupados desse cheiro de carne queimada? Diz-nos logo que queria tua senhora com as poções do demônio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada. O homem chorava em silêncio. O monge já um tanto impaciente fez mais um sinal aos carrascos, que suspenderam o corpo do homem o máximo que o aparato permitia. E soltaram numa segunda queda livre, desta vez, sacudindo as cordas e o suspeito no ar de um lado para o outro. O choque seco quebrou as últimas vértebras do cóccix do acusado. Os urros foram altíssimos. O homem desatou a gritar palavrões e blasfêmias, a sacudir-se sobre a pirâmide em meio aos gritos. O monge baixou a cabeça, desapontado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nesse estado, ele não diz mais nada por hoje. Eu tenho uma execução marcada, não posso esperar o escândalo acabar. Mas amanhã minha tarde está livre. Ocupo-me dele então. – sentenciou ao retirar sua presença baixa e atarracada do cômodo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cheiro de carne queimada empesteava o ar do edifício. O monge abriu a porta da sala onde interrogavam a mulher com azeite. Levou as mãos ao nariz e à boca, atacado pelo cheiro forte. A mulher estava mergulhada até a cintura no líquido e já perdia a consciência. O monge virou-se para o encarregado do interrogatório e pediu que suspendesse tudo até o dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixe essa bruxa até amanhã na cela se acostumando com as novas pernas que não funcionam, para ver se ela muda de idéia e colabora. – E bateu a porta, sem vontade de assistir ao espetáculo de retirada da moça de dentro do azeite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na saída do prédio para o pátio interno, o monge avistou uma cara conhecida. O homem estava escorado em uma pilastra e fitava as pedras do chão, absorto em pensamentos que não pareciam bons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que há contigo, homem de Deus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem ergueu os olhos para o monge, um tanto surpreso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fui escalado para a execução de logo mais, excelência. Mas não sei se posso levar a cabo meu trabalho. Tenho dúvidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que tipo de dúvidas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não estou seguro de que é certo tirar a vida de uma mulher grávida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Grávida de Satanás, homem! Não se esqueça! – o homem baixou os olhos, como se o argumento do monge não fosse ainda suficiente. Então, ele sacou das vestes um exemplar do livro do monge Kraemer e continuou – Está vendo isso aqui? Isso aqui é o nosso guia nesta guerra. Escuta bem, homem de Deus, o que te explico. O Demônio, com a permissão de Deus nosso senhor, procura fazer o máximo de mal aos homens, a fim de apropriar-se do maior número de almas possível no inferno. Mas esse mal é feito através do corpo, que é o único lugar a que o Demônio tem acesso. Lembra-te que o espírito dos homens é governado por Deus. Mas na carne, no corpo, o Demônio pode se entranhar. E ele o faz através do sexo. Foi pelo sexo que o primeiro homem pecou, rapaz. E é pelo sexo o caminho para que os outros o sigam. As mulheres estão essencialmente ligadas ao sexo. É sua principal característica. É dessa forma que elas tornam-se agentes por excelência do Demônio. Afinal, as criaturas que vieram de uma costela torta de Adão estão fadadas a andar errado, não concordas? – o homem parecia seguir a linha de raciocínio, e o monge deu o golpe final em suas dúvidas. – Satã é o senhor do prazer. As feiticeiras ganham seus poderes quando copulam com o Demônio. Poderes terríveis, capazes de causar estragos enormes na vida dos homens e das mulheres direitas. Elas podem causar estragos em colheitas, fazendo oferendas de crianças a Satanás. Podem causar a impotência nos homens, e prender-lhes em ardis que tornam para eles impossível desvencilhar-se de paixões desordenadas. Elas tomam controle da alma e da cabeça dos homens pelo desejo, e lhe consomem a razão dos pensamentos ao lhes impedir de consumar esse fogo. Essa bruxa que vais justiçar hoje não deixou dúvidas durante o julgamento, rapaz. Nem poderia. Mulher solteira, morando com um gato! Grávida. De certo o gato era a forma animal de um desses demônios assistentes, maldito. Mas havemos de encontrar esse bicho também, tú verás!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sino da catedral tocou suas badaladas de praxe. O monge botou a mão sobre o ombro do homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai cumprir tua missão sagrada e salva o mundo desse perigo, rapaz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem sorriu e caminhou junto ao monge até o pátio externo, em cujo centro estava armado um palco de madeira com dois postes cravados lado a lado. Uma pequena multidão se aglomerava a uma distância segura do palco, num burburinho até tímido. Da carceragem, dois carrascos traziam pelos braços a condenada. Tomaram a mulher nua no colo e seguraram-na com a cabeça para baixo, para que os tornozelos fossem amarrados no alto do poste. Amarraram também seus pulsos nos pés dos pilares de madeira. O rapaz que conversara com o monge gordo tomou sua posição às costas da mulher, enquanto outro carrasco estava à sua frente. Cada um dos dois segurou sua extremidade da serra de lenhador, e posicionaram a lâmina entre as pernas da mulher. O monge leu a sentença e deu o sinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os verdugos encostaram os dentes da serra na vagina da condenada e deram início ao movimento. A moça gritava a plenos pulmões, mas não se distinguia palavras no seu urro. Como a posição lhe escorria todo o sangue do corpo em direção à cabeça, pouco sangrava a ferida que lhe partia o corpo em dois. Os condenados nunca morriam antes que a serra lhes atingisse o umbigo. Os mais fortes agüentavam a serra até o peito. A mulher agüentava firmemente, até que metade da sua barriga já estava aberta e ela pode identificar o seu feto, partido em dois pedaços, escorrer pelas suas feridas e bater no chão de madeira. Os gritos então cessaram. A sentença estava cumprida.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TJcBgtDyjjI/AAAAAAAAAaw/f2fPG3zEU18/s1600/Serra.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 291px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TJcBgtDyjjI/AAAAAAAAAaw/f2fPG3zEU18/s400/Serra.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5518881529728765490" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-9221377578504617318?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/9221377578504617318/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=9221377578504617318&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/9221377578504617318'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/9221377578504617318'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/09/de-martelos-e-feiticeiras.html' title='De Martelos e Feiticeiras'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TJcBOOqdIpI/AAAAAAAAAao/Y8Wi7UTPNDw/s72-c/Trono+de+Judas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-8771576967670275181</id><published>2010-07-25T15:29:00.006-03:00</published><updated>2010-07-27T13:03:31.326-03:00</updated><title type='text'>Um Conto Pneumático</title><content type='html'>Era macho. Daqueles que passam fio dental e comem a carninha. Ou melhor, daqueles que não passam fio dental. Tiram a carne do vão entre dentes com o palito, ou com a unha. E comem. A carne, o palito e a unha. A barriga protuberante era só raramente escondida por uma camisa desbotada do flamengo de 95. O numero cinco do argentino Mancuso pintado às costas. Jamais admitiria, mas a verdade dos fatos é que já havia alguns anos que a barriga lhe atrapalhava a ver o próprio pau. As mãos tinham a pele grossa e calejada eternamente suja daquela poeira preta e da graxa dos carros que consertava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado numa cadeira de assento de madeira que parecia pequena demais para o seu tamanho, assistia sem muito interesse a nova zelândia e eslováquia pela copa do mundo. Na tela da televisão, um amontoado de jogadores brancos com físico de revista de musculação mostravam não ter muita intimidade com a bola, enquanto um narrador sem graça tentava acertar a pronuncia dos seus nomes. O borracheiro olhou de lado para o garoto que lhe ajudava no serviço por uma mixaria. Estava com a cabeça afundada entre os ombros, numa postura entediada. O boné azul com a propaganda de um político corrupto pendurado entre os dedos. Pensou em contar-lhe uma história de quando era caminhoneiro. Pensou em contar aquela da vez em que deu carona pruma mulher na esperança de trepar com ela, e descobriu que era um travesti. Desistiu. Lembrou que os pudores do garoto evangélico não reconhecem esse tipo de humor. A diversão de uma história depende do ouvinte tanto quanto do contador. E a experiência lhe mostrara que aquele ouvinte só reconhecia um tipo específico de história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um carro parou na frente da borracharia e o garoto pulou da cadeira animado, enfiou o boné na cabeça e saiu em sua direção. Voltou menos de dois minutos depois. “Aí, preciso de ajuda aqui. A moça pegou um buraco e amassou a roda. Rodou com o pneu murcho e rasgou tudo.” O borracheiro levantou seu corpo flácido com dificuldade. Na frente da loja estava parado um Corolla prata, com o porta-malas aberto. Uma mulher bem arrumada estava de pé ao lado do carro. Parecia bonita. Quando era novo, no furor do ódio juvenil, daquele gosto pela subversão, ele sentia tesão em mulheres assim. Queria comer todas as madames do mundo. Comer com fúria. “Essa aí se eu pego, eu machuco ela todinha.” dizia. Hoje, velho e calejado, com mais derrotas nas costas, as tratava sempre por senhora e evitava olhar no olho e no decote. Uma das portas de trás se abriu, e pularam fora do carro um menino e uma menina. O borracheiro foi até o porta-malas e puxou lá de dentro a roda amassada com o pneu cortado e deixou para depois a calota quebrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Peguei um buraco. Não sei trocar pneu, aí fui assim mesmo até um posto. O menino trocou pra mim.” A mulher explicou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Moça, esse aqui não vai ter jeito não. Não tem vulcanização que resolva, tá cortado demais. Aqui só um pneu novo. A gente tem desse pneu aí se a senhora quiser...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas usado, né?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É. Semi-novo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Semi-novo, semi-novo. Porque não falam usado logo de uma vez? É usado mesmo. Isso é pra cobrar mais caro...” Como o borracheiro não respondesse, ela voltou ao que interessava “Quanto sai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Depende do pneu. Tem uns ali pra mostrar e a senhora escolhe. Tem de oitenta reais, de noventa, de cem...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O de cem é o mais novo? Pode pôr o de cem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O borracheiro levou a roda com o pneu cortado para dentro da loja. Pegou um martelo e puxou uma cadeira para perto do pneu. Sentou-se e começou a martelar o ferro amassado que, bem aos poucos, ia voltando à forma original. O menino entrou na loja e foi direto pra frente da televisão. Em poucos segundos reconheceu em campo o zagueiro de um time inglês que ele acompanhava. A menina sassaricava pelo cômodo, fazendo força para não encostar em nada. Certamente queria evitar sujar-se na poeira preta e na borracha esfarelada que cobria o lugar. A cada porrada que o borracheiro dava no ferro da roda, ela piscava o olho sobressaltada com o barulho. A mãe vigiava cuidadosa, sem movimentos bruscos, mas com atenção completa nos dois filhos. O borracheiro mantinha a cabeça baixa para o seu serviço. Não se permitia olhar a menina que passava pra lá e pra cá, feito um espectro opressor de menos de um metro e meio que lhe atraía a atenção, mas não o olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a roda de ferro parecia redonda de novo, apesar do machucado visível onde amassara, ele deitou-a na desmontadora. À medida que a máquina girava a peça, ele enfiava uma espátula entre o ferro e a borracha, descolando o pneu danificado até soltar. O garoto ajudante buscou um pneu semi-novo no estoque e lhe entregou. Repetiu a operação na desmontadora, agora com o objetivo de montar a roda. A máquina girava a roda de ferro e ele ia encaixando, com as mãos mesmo, o pneu de borracha na circunferência. De frente da televisão o menino comemorou um gol. Da nova zelândia. Um a um. Aos quarenta e cinco do segundo tempo. O menino repetiu essa informação umas dez vezes. Quarenta e cinco do segundo tempo. Incrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o pneu encaixado, o borracheiro enfiou o bico de um compressor de ar no pneu para calibrar a peça. Levou o conjunto para fora e mergulhou num tanque cheio de uma água preta de fuligem para checar se havia bolhas de ar denunciando um ponto mal encaixado qualquer. Nada de bolhas. Deitou o pneu ao lado do carro. Enfiou o macaco debaixo do veículo e girou a manivela até a roda sem calotas do Corolla sair do chão. Com a chave de roda, retirou os quatro parafusos e desencaixou o step.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A senhora quer que ponha aquela calota que está no porta-malas mesmo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela tá quebrada, né?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É, tá machucadinha...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode pôr, depois eu vejo com meu marido se a gente compra um jogo novo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O borracheiro encaixou a peça de plástico e recolocou os quatro parafusos, firmando a roda no lugar. Tirou o macaco debaixo do carro e guardou o step no compartimento abaixo do porta-malas. Fechou a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Prontinho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quanto eu devo?” perguntou a mulher tirando a carteira da bolsa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só os cem reais do pneu mesmo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sacou duas notas de cinqüenta, lhe entregou e guardou a carteira de novo. Chamou os filhos de volta ao carro, deu a partida e saiu. Ele enfiou uma das notas no bolso. Entrou na loja e estendeu a outra para o garoto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É o da semana. Vai pra casa. Eu fecho tudo aqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É, hoje tem jogo do Brasil.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O garoto sorriu, foi aos fundos da loja, pegou a mochila e foi embora. O borracheiro guardou as ferramentas que estavam espalhadas pelo lugar, desligou a tevê e empurrou para dentro da loja a estante de ferro com rodinhas que exibia alguns pneus do lado de fora. Puxou a tampa do ralo do tanque e começou a descer as portas de correr. Quando encostou no chão a última delas, passou o cadeado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não tinha chegado à primeira esquina quando um garoto franzino lhe apareceu no caminho. Tirou um trinta e oito de dentro da bermuda surrada e anunciou o assalto. Ele espalmou uma das mãos num pedido de calma ao ladrão e enfiou a outra no bolso de trás da bermuda. Puxou os setenta reais que trazia e entregou. O garoto tomou o dinheiro da sua mão e partiu em desabalada carreira. O borracheiro respirou fundo. Assaltado por um pivete a duas quadras de casa. Ia assistir ao jogo do Brasil sem nem uma cervejinha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-8771576967670275181?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/8771576967670275181/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=8771576967670275181&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8771576967670275181'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8771576967670275181'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/07/um-conto-pneumatico.html' title='Um Conto Pneumático'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-1369900720524253234</id><published>2010-07-11T13:54:00.004-03:00</published><updated>2010-07-11T13:58:15.569-03:00</updated><title type='text'>Raven Blues</title><content type='html'>Bateram à porta. Três batidas leves. Eu sabia de quem eram as mãos delicadas a socar a madeira. Não disse para que entrassem, mas me ignoraram o silêncio e entraram. Três mulheres. Esposa e filhas. A cada visita que delas recebo, maior é o esforço que desprendo para lembrar-me disso. Seus nomes há muito já me escaparam da memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto minha esposa me levava à boca colheradas do seu caldo verde, minhas filhas me contavam trivialidades das vidas que levavam do lado de fora daquele quarto. A mais nova me alisava a cabeça já lisa enquanto eu continuava a tentar contar o número de rachaduras na parede sem me perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando as duas moças deixaram o quarto, ainda me restavam as últimas colheradas de caldo verde. Olhei no fundo dos olhos da mulher que de mim cuidava. Janelas da alma, se é verdade que existe tal coisa, são de fato, os olhos. Os seus revelavam a tristeza que o seu sorriso tentava disfarçar. Eu vi o ar de choro que aquela doce mulher tentava conter. Vi as migalhas de um coração cansado. Vi o desespero mudo do seu olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caldo verde chegou ao seu fim. Como chegava ao fim aquela tarde. O céu já parecia sangrar quando voltei a ficar sozinho no quarto. Entretive-me a contar as rachaduras das paredes. Quando perdi a conta pela enésima vez, dei-me conta da sua presença. Seu pequeno corpo estava pousado na janela aberta. As penas negras brilhavam e os olhos frios pareciam vasculhar a minha alma. Era um belo corvo. Imponente, amedrontador. Mas, ainda assim, um belo pássaro. “És uma bela ave.”, eu disse. O corvo pareceu aquiescer, mas não desviou o olhar penetrante que me lançava. “Chamar-te-ei Nevermore, se não te importas. É o nome de um dos teus em um poema que li há muito. Se ainda me ajudasse a memória, o declamaria para ti.”. O corvo deteve-se ainda alguns segundos a olhar-me. E então alçou vôo sem nada me responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei com novas batidas à porta. Uma, duas, “Entre!”, consegui gritar já atordoado com aquilo. Mais uma vez me acordavam no meio da tarde por causa daquele caldo verde. Nesse dia, só minha esposa e minha filha mais nova atravessaram a porta. Explicaram-me que a mais velha teve um contratempo qualquer com o filho, que estava na escola. Explicaram isso tudo antes mesmo que eu perguntasse por onde andava a mulher. Nem mesmo sei se perguntaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha filha parecia atordoada. Estava claramente distante. Não me importei. Quem mais me chamava a atenção era a mulher sentada à beira da minha cama e seu vaivém incessante com a colher cheia de caldo verde. Vieram tarde dessa vez. A noite já ensaiava a tomada do céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corvo voltou. Dei por ele ao ver os olhos trêmulos de minha filha pousados em suas penas negras. Mas o corvo fitava a mim, não a ela. A mesma postura da tarde anterior. Os olhos frios, fixos nos meus. “Chamo-o Nevermore.”, eu disse. “Como o do poema.”, sussurrou minha esposa. Aquiesci apenas. “Veio ontem me visitar. A esta mesma hora, creio.”. “É horripilante.”, resmungou minha filha. O corvo deixou seu lugar na janela e perdeu-se pelo fim de tarde. Não pareceu ofendido com o comentário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma batida apenas, e a maçaneta girou. Apenas uma mulher atravessou o batente da porta. Minha esposa chegou-se perto de mim e pôs o maço de cigarros na palma da minha mão. Eu tremia como tremem os fracos, mas fui, ainda assim, capaz de levar um dos cigarros à boca e acendê-lo com o isqueiro prata que nunca deixava o seu lugar embaixo do meu travesseiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estás certo de que queres fazer isso?”, ela me perguntou. “Estou já com um pé no mundo dos idos. Não há mais, neste mundo, arma que me possa ferir.”. Ela não pareceu concordar, mas furtou-se de dizer qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por todo o tempo em que a olhei, pensei estar olhando alguém conhecido. Mas, de súbito, ao atentar para o passado, dei-me conta de que não reconhecia, naquela mulher à beira da minha cama, a menina com quem casei há tantas tardes. Não reconheci o olhar vivo e admirado de adolescente. Ou os cabelos, outrora longos, que mudavam de cor com as fases da lua. Não, a mulher que eu agora fitava não era aquela menina, mas a mulher a quem eu dizia amar quando me deitava na sua cama depois de possuir outras. Talvez ela soubesse que eu tinha outras mulheres. Talvez tenha aceitado a humilhação por algum motivo. Amor, quem sabe. A verdade era que eu nunca teria a coragem necessária para descobrir. Aquela menina com quem casei saberia. Mas não a vejo mais. E, verdade seja dita, a não ser que minta o espelho e me traia minha mente, o garoto com quem ela se casou também não se faz presente nesse corpo moribundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nevermore retornou. Mais uma vez pousou seu corpo na janela. Os olhos permaneciam imóveis a fitar os meus. A mulher levantou-se. Caminhou hesitante até o corvo e acariciou-lhe a pequena cabeça. Ele não pareceu tomar conhecimento do afago. Insistia em olhar-me frio, como se tivesse algo a dizer. Deteve-se por um tempo maior dessa vez, mas, por fim, ganhou os ares de mais um fim de tarde ainda sem dizer-me o que tinha a dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fumava outro cigarro quando ele retornou em definitivo. Apareceu cedo dessa vez, antes de qualquer batida na porta. Antes que qualquer companhia adentrasse o quarto. Antes mesmo que viessem os raios do sol. Não pousou na janela, mas ao pé da cama. Fitava-me de modo diferente. Seu olhar era muito mais que frio, era quase cruel. “Não devias estar a fumar. Não sabes que essa porcaria pode pôr-te fim à vida?”. Sua voz era horrenda. Metálica e rouca, reverberava pelo quarto. Gelou-me o sangue nas veias, aquela voz. O escárnio que traziam aqueles olhos me enfureceu. “Quem és?”, perguntei. “Bem sabes quem sou.”. “Vai-te daqui, demônio! Volta para as sombrias chamas de onde saíste! Vai assombrar outra alma que esta já de assombro não precisa! Vai-te retro pelos umbrais que adentraras!”. O corvo nada dizia. Nada fazia. “Vieste me levar, criatura do inferno?”. Ele se chegou perto do meu ouvido devagar e sussurrou: “Vim. Chegou a tua hora, velho.”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tudo isso hás de saber, já que de tudo nesse mundo e no outro tens ciência. Mas responde-me, deus de poucos, pra que me torturaste com aquele bicho das profundezas? Por que me levar de súbito, à vista de tão horrenda cena? Vai-te também pro inferno que há de ser teu lugar, se com tanto cinismo me respondes e me torturas! Se era o tormento de minha alma que querias, aqui o tens! Deste-me algo para temer pela eternidade, maldito sejas! Deste-me uma última lembrança que nem mesmo o demônio me concederia. A morte é um prato a ser servido morno. Para evitar o choque do espírito sem corpo. Mas serviram-mo frio. E isso não hei de perdoar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---------------------------&lt;br /&gt;Este é um dos primeiros textos que apareceram neste blog, ainda em 2006. Republiquei com algumas modificações graças ao sentimento nostálgico que me gerou uma conversa com fundo de rock n' roll.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-1369900720524253234?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/1369900720524253234/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=1369900720524253234&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1369900720524253234'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1369900720524253234'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/07/raven-blues.html' title='Raven Blues'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-2723171840233133643</id><published>2010-07-01T01:55:00.004-03:00</published><updated>2010-07-01T02:13:48.743-03:00</updated><title type='text'>Matador</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Segunda-Feira, 9h33min&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Café com leite. Afoito demais. A bebida me queimou a língua. Não fosse o som dos meus próprios dentes triturando o sanduíche de queijo, o silêncio reinaria naquela cozinha. A torradeira cuspiu mais duas torradas de pão de fôrma. Ela espetou as fatias de pão torrado, uma de cada vez, com um garfo e deitou-as no prato. Sentou-se à mesa de frente pra mim. Raspou a manteiga com uma faca e espalhou aquela gordura pelas torradas. Ela ficava linda naquela camisola preta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tô grávida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus olhos fitavam o café com leite na xícara. E assim permaneceram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É meu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela largou os talheres ruidosamente e levantou-se empurrando a cadeira para trás e pisando firme. Bateu a porta do quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que era meu. E é claro que eu não tinha dúvidas disso. Mas o perdão, para ser completo, leva um tempo proporcional ao tamanho da cagada. Mesmo quando se ama com todas as suas forças a autora da cagada. E eu ainda não tinha perdoado completamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Segunda-Feira, 10h12min&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Entrei na loja com os braços para trás naquela postura de quem procura algo, mas não sabe muito bem o quê. Dona Flora me sorriu de trás do balcão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ô meu filho, quanto tempo. Sumiu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É. Muita correria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Trabalho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Também... – Dona Flora sempre me pergunta sobre o trabalho. Sempre se ando trabalhando muito, se anda difícil. Mas nunca me perguntou o que é que eu faço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, não tá fácil pra ninguém. Então, o que vai ser hoje?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aquele buquê de rosas caprichado que a senhora sabe fazer. Vou ser papai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ô, mas que notícia boa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me levou até alguns jarros cheios de flores pra que eu escolhesse as que eu quisesse. Escolhi seis vermelhas e seis cor-de-rosa. Dona Flora pegou duas vermelhas a mais. Presente, ela disse. Dia de festa, o buquê ia ser mais encorpado. Sorri balbuciando um obrigado. Ela levou as flores até uma mesa nos fundos da loja e começou a preparar o buquê em meio a recomendações sobre o bebê. Olhei por alguns instantes aquela silhueta gorda, os sovacos com pêlos grossos que apareciam na camiseta cavada. O cabelo já ficando grisalho e a verruga horrorosa no queixo. Uma figura hedionda. Mas é um doce de pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei um dos cartões em branco do balcão, a caneta bic quatro cores que está sempre ali por cima e rabisquei um “Para a futura mamãe mais linda desse mundo, as desculpas de um idiota que te ama.” em tinta vermelha. Meti o cartão em um daqueles envelopes pequenos, onde escrevi o nome dela. Peguei a cartela de adesivos de contra-capa de caderno que Dona Flora usa para lacrar os envelopes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou escolher um adesivo aqui pra fechar, tá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tudo bem, meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Segunda-Feira, 15h54min&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Eu detesto esse sofá. O couro gruda na pele ao menor sinal de calor. No frio, é gelado de doer. Acho que o Medeiros nunca sentou nele. Por isso que gosta. Ele pousou o fone no gancho com uma expressão contrariada no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Essa garota só me liga pra pedir dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava falando da filha. Que ele ama acima da pose de durão. Olhou pra mim, como que limpando as perturbações da mente, na intenção de ir direto ao assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E aí, leu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Li. - Fechei a pasta que segurava nas mãos e pousei o documento no lugar vazio ao meu lado no sofá. – Não vejo problema. Serviço tranqüilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ótimo. Quero que você resolva isso o mais rápido possível. É pro senador Magalhães e você sabe que esse corno sempre cobra pressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É um filho da puta, isso sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ei, deixa desse papo comunista e faz o serviço, falou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já disse que vou fazer o serviço. Mas que o cara é um belo filho da puta, ele é. – Levantei. O Medeiros saiu de trás da escrivaninha e veio abrir a porta pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, mas é esse filho da puta que vai garantir a manutenção daquele teu carrão esse mês. – Ele ficou parado, com a mão na maçaneta da porta aberta me olhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A Mônica tá grávida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não liga não. Pai é quem cria... – respondeu com aquele sorriso de escárnio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Babaca. – respondi enquanto atravessava a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Segunda-Feira, 19h17min&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Ela entrou em casa trazendo o buquê de rosas nos braços. Passou reto pela sala em direção à cozinha sem me olhar nem de esguelha. Ouvi o som da torneira aberta, depois fechada. Ela voltou à sala com as flores num jarro de água que ela posicionou no meio da mesa de jantar. Sentou-se ao meu lado no sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se você acha que eu vou te desculpar toda vez que você for bonitinho depois de me magoar, você tá muito enganado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegou meu braço, passou por seus ombros e pousou a cabeça no meu peito pra assistir ao programa de esportes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o jantar hoje é por sua conta, não tô afim de cozinhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Terça-Feira, 16h49min&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Entrei no bar já com a boca seca e fui direto ao balcão pedir uma cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rapaz, quem diria! – um tapa nas minhas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o Garcia. Não via essa figura tinha um tempão. Me deu um abraço e se encostou ao meu lado. O Garcia salvou minha vida uma vez. A gente foi fazer um trabalho juntos numa boate. Um traficantezinho de merda tava começando a querer voar sozinho, sem o aval dos tubarões da área. O serviço era passar o cara no banheiro da boate. Só que alguém vendeu a gente. Quando entramos no banheiro, o safado tava com mais três putos esperando. A sorte é que o dono da boate tava fechado com a gente e confiscou a arma dos viados na entrada. Assim mesmo eu quase tomei uma facada. O Garcia agarrou o filho da puta quando a lâmina já tava na altura das minhas costelas, pelas costas. Na briga o traficante cortou a cara do Garcia. A cicatriz tá lá até hoje. Mas apagamos os quatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quais são as novas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A Mônica tá grávida, cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, liga não, velho. Pai é quem cria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não ri da piada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então suspende a cerveja que a gente vai comemorar direito. – virou pro garçom – traz duas doses de Jack.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho um serviço pra fazer hoje à noite. Vou ter que fazer vigília, maior merda. Não quer ir comigo não, pra fazer companhia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou, claro. Onde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Num bar. Sol Poente, eu acho. Conhece?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Conheço. Pé sujo do caralho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Terça-Feira, 22h01min&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Já fazia uma hora que a gente tava tomando conta do cara. Só vigiando de dentro do carro. Jessé Nogueira de Jesus. Vulgo Noguinho. Apelido feio do caralho, mas com esse nome, até que ele não pode reclamar. Pinta de malandro. Chapéu, camisa de botão aberta no peito, tocava caixa de fósforo na roda de samba do boteco. E uma coroa de outra mesa não desgrudava o olho dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual é a história desse maluco? – me perguntou o Garcia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Comeu a esposa do senador Magalhães.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele e mais uns trinta, ao que parece. Por que só ele que vai rodar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei. Vai ver o senador cansou desse papo e resolveu mandar um recado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então o malandro aí só deu azar. Que timing de merda... Tomar no cú também, tem que ter muito amor ao dinheiro pra encarar aquela velha, hein...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ri. Não deixava de ser verdade. Metade da malandragem da cidade já tinha passado a coroa do senador na cara. A outra metade já sabia a senha pra seguir a fila. E o otário do Noguinho ia virar exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Garcia, tenho um favor pra te pedir, cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Preciso que você levante pra mim o endereço de um cara lá da repartição da Mônica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, por que eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porque eu não posso. Todo mundo me conhece lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Puta que pariu... Pra que você quer isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não pergunta. – eu sabia que ele ia perguntar do mesmo jeito. Pedi o favor ao cara, ia acabar tendo que explicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como assim não pergunta? É ciúme?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É claro que é. Tá escrito na tua cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá bom. É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, sai dessa. Tú vai ter um filho com a mulher...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu respirei fundo. Ia ter que abrir o jogo. Olhei bem pra cara dele e comecei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é o que você tá pensando, Zé Roela. É que tem um viado na repartição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É o cara que você quer saber o endereço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É. Mas ele é viado mesmo. Bicha. Queima-rosca, cú frouxo, boiola, baitola...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já entendi. Que que tem o viado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Comeu a Mônica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O viado!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É. Faz um mês mais ou menos, eu viajei pra apagar um direitão que tava ameaçando botar bomba num colégio público no interior. Teve uma festa do pessoal do trabalho da Mônica nesse fim de semana. A gente tava meio brigado, ela tava puta comigo. Bebeu pra caralho e achou que seria divertido tentar levar o tal do viado pro caminho da masculinidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Caralho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É. E só me contou semana passada. Que deu pro desgraçado do viado, e que tava arrependida, não sei o que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o cara continuou viado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Faz diferença?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Curiosidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Continuou. Mora com um outro cara lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que merda. E o que você vai fazer com o endereço dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou matar o cara, Garcia. O que você acha que eu vou fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pára com isso. Tú não ama essa mulher?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amo demais. Esse tem sido o problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então perdoa e segue a tua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tô tentando. Mas é difícil pra caralho. Se eu matar o cara, eu sei que melhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá legal. Depois me dá o endereço da repartição e o nome do viado que eu arrumo o endereço dele pra você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Quarta-Feira, 04h58min&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Porra, situação esquisita. A coroa do bar levou o Noguinho pra um motel. Eu e o Garcia fomos atrás e pegamos um quarto também. Parada estranha dividir quarto de motel com amigo. Esperamos até dar tempo dos dois caírem no sono. Fui até o box onde estava o carro e passei por baixo do toldo vermelho. Meti a mão na maçaneta. A porta estava aberta. Essas coroas adoram fazer idiotices assim, não sei por quê. Entrei pisando o mais leve que conseguia. E com meus anos de treino, é bastante leve. Subi os dois degraus que elevavam o piso do quarto em relação ao hall de entrada e fui direto em direção à cama. A mulher estava deitada, com o lençol cobrindo parte da nudez. Parecia um sono tranqüilo e pesado. Mas estava sozinha. Olhei pela transparência da cortina e vi o malandro encostado ao parapeito da sacada. Fumando, apreciando a vista da cidade. Afastei um pouco o pano que cobria a janela com o cano da pistola, ergui o braço e puxei o gatilho. O som do silenciador não foi suficiente para acordar a mulher de seu sono embriagado. O corpo de Noguinho caiu no chão da varanda com um buraco no crânio. Catei a cápsula vazia que caiu no chão e fui embora. O serviço estava feito. Só tive alguma pena do transtorno que ia causar àquela senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Quarta-Feira, 17h30min&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Entrei sem bater. O segurança já tinha avisado que era pra aparecer rápido. O Medeiros estava sentado atrás da escrivaninha. Tinha o tronco jogado pra frente, apoiado nos dois braços sobre o tampo de madeira. No sofá de couro no canto da sala estava uma mulher. Já tinha alguma idade. Não chegava a ser velha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Boa tarde. – disse para a senhora. - Me chamou, Medeiros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chamei, senta aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei ao lado da mulher. O Medeiros desandou a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O negócio é o seguinte. Essa senhora é Cristina Santiago Magalhães. – levantei as sobrancelhas. Ele continuou. – Esposa do senador. Ela conseguiu nosso contato com o motorista do homem. Já sabe que fomos nós que passamos o Noguinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele deu uma pausa, acho que pra medir a minha reação. Não mudei nem o ritmo da respiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela quer que a gente pegue o senador. E quer que seja o mesmo cara que fez o serviço do Noguinho. O que você acha? O cara topa fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que topa. Vai fazer algumas exigências, você sabe. Passar senador é serviço complicado. – respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dinheiro não é problema. – ela adiantou logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sei. Não era de dinheiro que eu tava falando. Mas acho que ele pega o serviço sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Medeiros levantou e escoltou a perua, se despedindo e dizendo que entrava em contato o quanto antes. Quando fechou a porta, virou-se pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A velha foi rápida, rapaz. Descobriu que o cara tava morto e já ligou os pontos. Tive que pedir pro pessoal revistar ela antes de deixar entrar e tudo... Então você pega o trabalho, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pego. Mas é o meu último. É a minha demissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que papo é esse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha mulher ta grávida, Medeiros. Não dá pra continuar nesse serviço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, tú quer me foder? É o meu melhor, caralho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não dá mais. É muito arriscado. Vou ser pai, caralho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pai eu também sou. E que risco você corre? Os cana são tudo apalavrado com a gente, te cubro em tudo. Porra, cê tá de sacanagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não dá. – fui contundente. Pra encerrar o assunto. – ano passado quase levo uma facada. Se não fosse o Garcia ter se fodido por mim, eu tinha rodado. Com filho a história muda, Medeiros. Faço esse serviço e tô fora. Como é o senador Magalhães, faço até de graça. Te dou esse bônus de despedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E vai viver de quê, seu puto? Vai estudar pra concurso público por acaso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu me viro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Quinta-Feira, 03h42min&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Tive que forçar a porta do apartamento. Tava escuro pra cacete, não dava pra ver muita coisa. Quando é assim, eu fico imaginando as coisas. Marca do aparelho de som, da TV. Imaginei a sala dos caras toda decorada. Não entendo muito dessas coisas, mas até que imaginei uma decoração de bom gosto. O quarto eu imaginei tipo um quarto de motel. Cheio de extravagâncias de viado. Soltei meus preconceitos ladeira abaixo sem freio. Fodam-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois viados estavam dormindo. De conchinha. Apontei o silenciador pro desgraçado da repartição da Mônica e estourei a cabeça do safado. O outro não acordou. Caralho. Resolvi matar assim mesmo. Acho que desenvolvi uma certa raiva pela classe. Ou só quis ser misericordioso mesmo. Estourei a cabeça do segundo e comecei a bagunçar algumas coisas do quarto, como se procurasse um cofre. Enfiei uma meia dúzia de enfeites sem muito valor no bolso e saí fora de alma lavada.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Sexta-Feira, 9h16min&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Quando saí do banho, ela estava me esperando em pé, de braços cruzados, e o jornal em uma das mãos. Não batia o pé, mas balançava a perna direita nervosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi você, não foi? – me acusou já sem conseguir conter o choro nervoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fui eu o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, deixa de ser cínico! Você matou os dois!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E jogou o jornal na cama, como se me ordenasse que lesse. Abri o armário e comecei a me vestir sem dar bola para o periódico. Ela sentou na cama e meteu a cara entre as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você disse que me perdoava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E perdoei. Não foi você que eu matei, foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Caralho, você não pode ser frio desse jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que ela me tirou do sério. Frio eu não podia ser. Se fosse não tinha precisado apagar aquele viado filho da puta. Mas não me alterei. Falei com calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você ainda vai entender o que eu fiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que eu queria chorar em certas situações. Mas eu não choro. Nunca. Coisa de filho da puta, eu sei. Mas eu não consigo. Acho que não tem jeito, todo mundo tem que ser um pouco filho da puta pra fazer mal aos outros. E eu vivo disso, afinal de contas. Sentei-me do lado dela e com todo o carinho que consegui reunir, disse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha pra mim. – ela levantou o rosto e me olhou nos olhos – Eu te amo pra caralho. Mas eu não tenho esse coração bom de novela. Eu perdoei você, mas precisava descarregar o ódio. Se tivesse guardado, eu ia ter dificuldades de te olhar no olho pra sempre. Descarreguei. Agora já era. E aquele merda não era exatamente um inocente nessa história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não se jogou nos meus braços, nem quis me beijar numa feitura de pazes. Mas eu sabia que também já não me achava o monstro de minutos atrás. Ia ficar tudo bem. Ela ia entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu matei ele? – ela perguntou entre soluços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Eu matei. – dei uma pausa pra informação ser processada com clareza - Vou fazer o serviço do senador hoje à noite. É o último. Já avisei pro Medeiros que depois desse eu tô fora. Depois de hoje é só pensar no nosso filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela aquiesceu ainda sem me olhar. É, ia ficar tudo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Sexta-Feira, 21h&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;O safado estava sentado numa poltrona de couro. Um copo de uísque em uma das mãos. Um charuto enfiado entre os dedos da outra. Eu estava seguro, tinha um turno inteiro de seguranças do velho ajudando no serviço. Por isso escolhi usar a doze. Derrubei um enfeite de vidro de propósito às costas do filho da puta. Ele levantou sobressaltado. Olhou na minha cara como se já esperasse que aquilo fosse lhe acontecer um dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aquela vagabunda...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi tudo o que ele teve tempo de dizer. Puxei o gatilho, na esperança de que fosse a última vez na minha vida. O tiro abriu uma cratera no meio da barriga nojenta do cretino. Ele rodopiou feito uma porta-bandeira antes de cair pra trás sem muito tempo nem pra agonizar. Meti a mão coberta por uma luva na maçaneta e fui embora. Os seguranças ficaram de maquiar o lugar. Pra parecer roubo. Essa confusão já não era mais minha. Eu tinha uma família pra cuidar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-2723171840233133643?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/2723171840233133643/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=2723171840233133643&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2723171840233133643'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2723171840233133643'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/07/matador.html' title='Matador'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-7512195285885308404</id><published>2010-06-22T21:37:00.002-03:00</published><updated>2010-06-27T15:04:06.275-03:00</updated><title type='text'>Sobre a Saudade</title><content type='html'>...Era como se o teu corpo nu estirado na cama me atraísse o toque por feitiço ou campo magnético. No deslizar da mão pelo teu rosto, teu pescoço. O toque leve que lhe corria o sobressalente osso da clavícula antes de escorrer pelo teu colo. As pontas dos dedos que contornavam o arredondado dos seios, e então os dedos inteiros, a mão espalmada no carinho firme do pressionar a consistência da suave carne mamária. O calor da pele macia encharcada de um suor doce e do carinho que descia pela barriga ao encontro do perfeito triângulo do teu púbis. Os dedos que se apertam e enroscam entre os pêlos, tão negros, e a pele fina do teu sexo num escorregadio afeto. E de novo o toque da mão espalmada que lhe aperta as coxas e corre o liso das pernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que a carne se dissolve no toque, evaporada num desamor úmido e atormentado. O calor da presença esfria e o arfar da respiração cala. O peso do corpo já não marca o colchão. O vazio físico, já sem cor, sem nada, é um abismo infinito, de peso insuportável. E assim mesmo não se faz digno de comparação com o vazio que me apunhala a alma quando o travesseiro já não guarda mais o teu cheiro...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-7512195285885308404?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/7512195285885308404/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=7512195285885308404&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/7512195285885308404'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/7512195285885308404'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/06/sobre-saudade.html' title='Sobre a Saudade'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-7999004414008907611</id><published>2010-06-04T16:14:00.003-03:00</published><updated>2010-06-05T00:46:19.222-03:00</updated><title type='text'>Novo Blog</title><content type='html'>Minhas crônicas esportivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estreiando hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://elabola.blogspot.com/"&gt;http://elabola.blogspot.com/&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-7999004414008907611?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/7999004414008907611/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=7999004414008907611&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/7999004414008907611'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/7999004414008907611'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/06/novo-blog.html' title='Novo Blog'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-360837766241964445</id><published>2010-03-23T20:22:00.001-03:00</published><updated>2010-03-23T20:25:27.334-03:00</updated><title type='text'>Serviço Sujo</title><content type='html'>Tranquei a porta do apartamento pelo lado de fora. Apartamento apertado de quarto e sala num bairro de classe média alta. Já faz duas semanas que encosto minha carcaça aqui. O preço do aluguel é uma escrotidão, mas não sou eu que estou pagando. Não pagaria tanta grana por essa lata de sardinha. O chefe acha que o serviço vale o preço, azar o dele. Desci os dois lances de escada e acenei para o Ivan quando atravessei a portaria. Ele não estava acostumado com cumprimentos dos moradores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na maior parte do tempo, não tem gente andando pelas ruas do bairro. Carro tem de monte. O tempo todo. Ônibus é raro, apesar das trocentas paradas para eles distribuídas pelas quadras. Ontem o Ivan me disse que costumava ter bastante van. Mas esse último governador tirou essas merdas de circulação. Só quem usava era aquela gente desimportante que limpa as privadas dos homens com a caneta na mão. Esse povo não se importa de esperar pelos ônibus de hora em hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gente mesmo só aparece na rua em hora marcada. De manhã, lá pelas sete, sete e meia, as calçadas e os gramados centrais que dividem a autopista são tomados pelas hordas de empregadas domésticas chegando às casas dos patrões. Uma multidão de mulheres de pele dura, escura. Cabelos arrumados, apesar de mal cuidados. A maioria ostentando varizes nas pernas de aparência cansada. Trazem, penduradas nos ombros, bolsas de couro falso. Às vezes só uma sacola plástica de supermercado com uma muda de roupa. O olhar aceso, de quem está acordado há horas. Os empregados do pouco desenvolvido comércio local são poucos, misturados nas mesmas hordas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco mais tarde. Nove e meia, dez da manhã, a diferença é flagrante. Nas calçadas pipoca uma outra gente. Velhos advogados ou engenheiros de sucesso, fazendo sua caminhada habitual para manter a saúde. Peruas e coroas menos chamativas vivendo do dinheiro de outros advogados e engenheiros de sucesso. Gente mais nova. Aquelas esposas, de corpos bem formados, de empresários da nova geração. O ar petulante de quem nunca fez nada por ninguém na vida. De quem já nasceu ganhando. Similar, o olhar e os corpos, ao das filhas de juízes, desembargadores e arquitetos. E saem os novos empresários e advogados com seus torsos nus e musculosos, e a expressão pós-moderna na cara de quem assiste aos programas sobre sexo nas madrugadas da GNT. Saem também as versões femininas do novo profissional de sucesso. Mulheres seguras, de corpos bem construídos que tomam suco de clorofila e gostam de ser escravizadas e abusadas na cama, cansadas que estão de sua posição de poder no mundo lá de fora. É um desfile do padrão de beleza. Os únicos que se dão ao direito de mostrar-se pela rua com pelancas e barrigas salientes são os mais velhos. A juventude que não ostenta beleza de modelo não mostra as curvas por essas calçadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já era fim de tarde quando voltei à portaria do prédio. Naquela hora em que de novo as calçadas e as paradas de ônibus são ocupadas pelo proletariado doméstico, agora na romaria de volta. Antes da metade do poder saudável que não conseguiu tempo para sair pela manhã tomar seu lugar no início de noite. Era o final do turno de doze horas do Ivan. O salário corresponde ao turno de oito, como determina a humanitária lei trabalhista. Encostei-me no balcão com aquela postura de quem espera o tempo passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Jogou feio o mengão ontem, né não?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tú não tem cara de rico.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega me assustei. Ele continuou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não que seja da minha conta. Mas tú não tem cara. Nem jeito. Não é coisa de rico bater papo com porteiro todo dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E aqui só mora rico?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Mora gente também. Não me leva a mal, tú até que é um bom papo, mas é que é estranho tú tá aqui todo dia trocando idéia comigo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sou rico não. Sou empregado que nem tú. Quem paga o aluguel do apartamento é o meu patrão. Tô aqui só fazendo um serviço pra ele. Quando acabar, volto pra casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que porra de serviço? Conhecer o porteiro?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Haha. Não posso contar. Tem nada a ver contigo não. Só que boa parte do serviço é esperar. Gosto de falar contigo enquanto espero.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Papo de bandido do caralho...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sorri. Ele não estava de todo errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta abriu sem ranger. Consertaram aquela merda. O chefe levantou-se de trás da mesa e veio apertar a minha mão. Apontou o jogo de sofás no canto da sala. Eu sentei em um. Ele desabotoou o paletó com o broche do partido e sentou-se no outro sofá, me olhando com aquela cara de me conta tudo, não esconda nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O garoto não tem limites. Às vezes aquele apartamento é puteiro, às vezes é salão de festa, às vezes boca de fumo. Às vezes é tudo ao mesmo tempo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lhe entreguei o envelope pardo que trazia nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aí tem foto, tem umas anotações, tem tudo. O pai, o deputado, sabe de tudo. Banca tudo, às vezes até participa. Um dia foi pra lá com três garotas. Deviam ter uns quinze anos. Tavam com cara de que tavam cheiradas. No dia seguinte o vizinho de baixo disse que ouviu uns gemidos, uns tapas. Tirei foto dele chegando e saindo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quer dizer que ele alugou o apartamento pro filhão, mas pega emprestado de vez em quando...” O chefe sorria, saboreando a vitória que despontava no horizonte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Teve um vizinho que chamou a polícia numa das festas do moleque. Ele ligou pro pai, o deputado chegou deu uma carteirada, uma grana, e a polícia meteu o pé. A festa continuou. Não tenho foto do dinheiro. Depois que a polícia saiu, ele entrou no apartamento do vizinho que chamou os home. Não sei o que eles conversaram. Mas isso ta tudo anotado nesses cadernos aí. Aquela reunião que deu no jornal, que ninguém sabe se existiu? Do plano das imobiliárias lá?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Existiu. Consegui a foto da maioria. O garoto chegou umas duas horas depois que a reunião começou. Levou umas cinco meninas. Não vi a hora que acabou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ótimo.” O sorriso era largo. Ele se levantou num gesto claro de que a conversa estava no fim. Também me levantei. Ele me acompanhou até a porta dando tapinhas nas minhas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou ler esse material todo e depois a gente conversa melhor. Esse direitão vai se foder na minha mão, você vai ver. É uma coisa que o tempo no sindicato me ensinou, que todo mundo tem podre, é só procurar direito. Esse filho da puta vai desistir rapidinho dessa história de ser governador. Se conseguir outro mandato na câmara já vai estar no lucro.” Ele sorria pra mim, procurando aprovação. Eu sorri de volta. Tomara que aquele porco se foda mesmo. Mas o chefe não sabe que eu anulo meu voto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-360837766241964445?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/360837766241964445/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=360837766241964445&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/360837766241964445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/360837766241964445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/03/servico-sujo.html' title='Serviço Sujo'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5779150949844433635</id><published>2010-03-07T18:04:00.002-03:00</published><updated>2010-03-07T21:41:11.650-03:00</updated><title type='text'>Canis rugaris</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;“SUAVE MARI MAGNO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembra-me que, em certo dia, &lt;br /&gt;Na rua, ao sol de verão, &lt;br /&gt;Envenenado morria&lt;br /&gt;    Um pobre cão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arfava, espumava e ria, &lt;br /&gt;De um riso espúrio e bufão, &lt;br /&gt;Ventre e pernas sacudia&lt;br /&gt;    Na convulsão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum, nenhum curioso&lt;br /&gt;Passava, sem se deter, &lt;br /&gt;    Silencioso, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Junto ao cão que ia morrer, &lt;br /&gt;Como se lhe desse gozo&lt;br /&gt;   Ver padecer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Machado de Assis)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gozou e tirou de dentro rapidamente. Não era daqueles que ficavam enganchados depois de trepar. Lambeu vagarosamente a vulva quente de sua amante. De dentro dos carros parados no sinal de trânsitos algumas pessoas apontavam, comentavam, algumas riam. Outras simplesmente ignoravam a cena. Saciado, desceu do concreto quente da calçada em frente à loja de materiais de construção e deitou-se encostado ao pneu de um dos carros estacionados junto ao meio-fio. Aquela sombra era conforto merecido num dia quente como aquele. Pousou a cabeça preguiçosamente sobre as patas dianteiras não sem antes lamber a ferida purulenta que trazia aberta no membro direito. Dormiu apreciando o cheiro de óleo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despertou com o tremor do veículo. O cano de descarga vomitou uma fumaça preta e o cheiro de gasolina deu o sinal. Pulou para fora da sombra que lhe abrigava o corpo raquítico de pêlos queimados e fedorentos. Voltou à calçada e caminhou pelo concreto como se tentasse decidir a direção que tomaria. A liberdade em dosagens extremadas tem a característica de dificultar escolhas. Com os caninos não é diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidiu que tinha fome. Não era muita, mas o suficiente para caçar o que mastigar. Caminhou sem pressa. Contrariando o hábito mais comum de sua espécie, trazia a língua guardada dentro da boca fechada. Na frente do açougue que costumava rodear, passeou entre as poucas pernas que ocupavam o local. Nunca conseguia agrado dos clientes. O que não lhe impedia de rodear-lhes com o focinho atento. Talvez gostasse de ver o desconforto e algumas caras de nojo que despertava. Quando a loja se viu vazia de consumidores, um dos açougueiros lançou um pequeno pedaço de músculo na sua direção. Freqüentador antigo do açougue, mais antigo e fiel que muitos dos clientes, sua presença habitual era premiada com esporádicos pedaços de carne. Prendeu entre os dentes o pedaço que lhe foi oferecido, deitou-se na porta da loja e pôs sua aparência doentia a mastigar a comida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite chegou tão quente como o dia que a precedia. Nos becos com cantos de parede cagados, alguns mendigos jantavam lixo e o chorume lhes escorria pelas barbas grossas e compridas. Alguns outros cães acompanhavam o mesmo cardápio. Uns pivetes cheiravam cola ou vasculhavam bolsas recém roubadas na esperança de achar algo que eles pudessem trocar por uma pedra para seus cachimbos de durepox.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No bar em frente e nas bibliotecas, intelectuais afeminados, impotentes ou naturalistas de pêlos nos sovacos gastavam seu suposto poder intelectual para explicar as coisas. Quaisquer coisas. O tesão estava no exercício, não no resultado. Bêbados do álcool e de seus egos. Cegos. Eles nunca viram as tripas da cidade. Nunca viram as entranhas do mundo. E nunca verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No canto do asfalto, a carcaça do cachorro fedia aberta no meio. A marca de pneu sobre o abdômen esmagado. Os pedaços do que lhe sobrou das vísceras espalhados. O fluxo de carros não diminuiu por sua causa. Os transeuntes se detiam por instantes. Pareciam interessados no aspecto estético da cena. Não pareciam formar opinião. A criatura que viveu na mais utilitária filosofia. Que quando algo encontrava que não pudesse comer ou foder, mijava em cima. A criatura que conheceu as tripas da cidade, agora lhe exibia também as suas. Morreu sem dar sentido à vida que viveu sem objetivo. Mas a cidade não parecia se interessar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5779150949844433635?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5779150949844433635/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5779150949844433635&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5779150949844433635'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5779150949844433635'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/03/canis-rugaris.html' title='Canis rugaris'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-8757162384710578895</id><published>2010-02-11T22:27:00.008-02:00</published><updated>2010-02-16T16:21:59.566-02:00</updated><title type='text'>A César o que é de César...</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/S3SiW7XXdEI/AAAAAAAAANc/S2phmxvpmuM/s1600-h/Arruda.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 285px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/S3SiW7XXdEI/AAAAAAAAANc/S2phmxvpmuM/s400/Arruda.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5437149164919551042" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, o regozijo justificado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Justo agora que eu perdia a fé que algum dia esse sistema me faria sorrir, o judiciário me apronta essa delícia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem palavras para descrever o profundo gozo que experimento agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai fazer parte do bloco d"O Quê eu Vou Falar em Casa", daquela galera que sai na quinta-feira à noite e só volta na quarta-feira de cinzas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/S3riDbBIigI/AAAAAAAAANk/bKeznUYbVQ0/s1600-h/Arruda2.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/S3riDbBIigI/AAAAAAAAANk/bKeznUYbVQ0/s400/Arruda2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5438908048423291394" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-8757162384710578895?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/8757162384710578895/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=8757162384710578895&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8757162384710578895'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8757162384710578895'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/02/cesar-o-que-e-de-cesar.html' title='A César o que é de César...'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/S3SiW7XXdEI/AAAAAAAAANc/S2phmxvpmuM/s72-c/Arruda.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5182667468742821811</id><published>2010-01-10T17:57:00.002-02:00</published><updated>2010-01-20T15:12:24.713-02:00</updated><title type='text'>Caixão Lacrado</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Quarta-Feira, 19h&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Achamos o garoto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A notícia vinha como uma rajada de ar congelante no estômago. Acharam. As perguntas que seus olhos faziam eram “Onde?” e “Em que estado?”. A segunda pergunta vinha com uma continuação subentendida que ela não ousava pensar com clareza: “Vivo ou morto? Inteiro ou partido?”. Nenhuma delas foi respondida de pronto. Não diretamente, ao menos. Mas o tom fraco da voz ao anunciar a notícia e a pausa que seguiu o anuncio não eram bom presságio. Os movimentos das mãos foram ficando pesados, controlados demais. À beira do descontrole, na verdade. As pernas ameaçavam falhar. Os olhos explodiram em lágrimas que rasgavam a pele como canivetes. Um nó do tamanho de uma laranja se formou na garganta. Não passava nada. Nem voz, nem ar, nem choro. Nem os quarenta e cinco palavrões que conseguiu pensar. Nem o pedido para que a agonia se acabasse. Não conseguiu perguntar se o filho estava vivo ou morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem parado à sua frente compadeceu-se. Engoliu em seco o resto de hesitação e, vacilante, escolhendo bem cada palavra, sacramentou a má notícia. “Ele morreu. Achamos o corpo no iemeéle. Estava lá já tinha dois dias.”. Ela não perdeu o controle. O golpe foi duro. E foi assimilado. Sentou-se no sofá às suas costas com os membros tremendo levemente. Mas com mãos ainda capazes de acender um cigarro. “E agora? O que eu preciso fazer pra enterrar o meu filho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Segunda-Feira, 16h&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ombro apoiado na porta da padaria. Mastigava uma das pontas de um palito de dente. O sol rachava lá de cima, o calor batia no asfalto e refletia nos corpos de quem estivesse pelo caminho, arrancando litros de suor quente. Viu um táxi estacionar do outro lado da rua. O movimento era pequeno. Algumas pessoas passavam pela rua principal, perpendicular. Mas naquela pequena travessa, não havia mais ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele aproximou-se do carro. Parou ao lado da porta do motorista enquanto um homem com aparência velha descia. Os cabelos grisalhos, a barriga saliente, o bigode de pêlos grossos, negros mesclados com brancos. A camisa trazia os primeiros botões abertos, e uma corrente pendurava em meios aos pêlos brancos de seu peito uma medalhinha de ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o homem jogou o corpo para fora do carro, o garoto cravou-lhe a mão na parte de trás da gola da camisa e o empurrou no chão. Antes que o taxista pudesse compreender bem o que estava acontecendo, sentiu a mão do garoto tomar-lhe as chaves que estavam no bolso da camisa. O homem se arrastou um ou dois metros para o meio da rua e o garoto arrancou com o táxi, dobrando na avenida principal, na orla da praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem muita objetividade, sem tomar um caminho muito reto, o garoto dirigiu até a estrada. Como as cidades são bastante próximas nessa região do estado, tomou o rumo de casa, mas gastou tanto tempo quanto pode, sem conseguir decidir onde esconderia o carro até o dia seguinte. As estradas não costumam ser muito cheias nos dias de semana. A direção era tranqüila. Algumas horas mais tarde, entrava com o carro na rotatória que dá acesso à cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os minutos passavam arrastados e as ruas tinham pouco movimento. Na pista que seguia a direção contrária, vinha uma viatura de polícia em baixa velocidade. Cruzaram-se, o táxi e a viatura. E o retrovisor do garoto mostrava os policiais fazendo um retorno bem atrás dele. O pé esquerdo afundou a embreagem, a mão direita trouxe o cambio para uma marcha menor. O pé esquerdo voltou e o direito forçou o acelerador o quanto podia. A viatura o perseguiu. A alta velocidade embaralha as coisas, a pouca claridade as esconde. Por alguns minutos, ele conseguiu contornar as adversidades. Mas à frente no tempo e no destino, havia uma curva. E ele passou reto. Uma árvore lhe segurou com toda a sua força. A árvore quebrou vidro e quebrou osso. Retorceu ferro. E retorceu carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os policiais chamaram uma ambulância. Procuraram, mas com o garoto não havia celular, não havia documento que fosse. Nem uma pista. A ambulância o levou direto para o hospital, onde chegou vivo. E saiu morto. Direto para o instituto médico legal. O mais novo habitante de um gavetão. Um gavetão de uma instituição mal-cuidada e que cuida mal. Sobretudo dos que não têm voz. Um gavetão que tantos outros já acolheu em seus braços podres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Quinta-Feira, 15h&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol castigou a cerimônia sem trégua. Os choros eram muitos, mas silenciosos. A resignação parecia ter feito ninho naqueles peitos castigados. Nunca há muito que se possa dizer em horas assim. Por mais que haja quem teime com essa verdade, não há muito a se dizer. Basta olhar com algum cuidado o rosto da mãe que enterra seu filho com caixão lacrado pra que os vermes que já lhe saem pelos buracos do corpo não venham freqüentar a festa. Não há cadeia de palavras em língua nenhuma capaz de ser mais eloqüente que o corpo dessa mãe. Assim como não haverá remédio para a ferida purulenta que se abre nesse momento. Quem disse uma vez que o tempo cura tudo, nunca sofreu dor de verdade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5182667468742821811?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5182667468742821811/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5182667468742821811&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5182667468742821811'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5182667468742821811'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2010/01/caixao-lacrado.html' title='Caixão Lacrado'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5891775601209932282</id><published>2009-12-22T15:59:00.003-02:00</published><updated>2010-01-04T17:14:56.174-02:00</updated><title type='text'>Sobre Anéis, Dedos e Trocadilhos...</title><content type='html'>Ontem teve maratona "O Senhor dos Anéis". Os três filmes em sequência. Nove horas e vinte minutos de Terra-Média. Muito bom. Devia fazer uns dois anos desde que assisti à série pela última vez. Gostei de novo. Mas gostei mneos do que gostava. Quer dizer, o filme é demais. Impecável. A estória é um absurdo de tão boa. Mas me incomodou um pouco a limpeza do filme. Resolvi, então, escrever um final que me agradaria mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu escrevi um final diferente para "O Senhor dos Anéis". Sam, aquele gordinho meio bicha, casa-se com Rosinha, aquela hobbit feia. Até aí é plágio puro. Acontece que no meu final, o casamento funciona um pouco diferente. Ele bate nela e nos filhos. Regularmente, pra descontar a frustração. Frustrado porque, na verdade, ele queria era dar o anel pro senhor Frodo. Mas o cara nunca lhe quis comer o brioco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frodo, por sua vez, depois da instantânea fama miojo estilo BBB, vira um bêbado solitário e decadente, que conta a história de quando salvou o mundo para levar pra cama uma ou outra vagabunda mais fácil entre um porre desclassificante e outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Merry e Pippin morrem em decorrência de alguma idiotice infantilóide que aprontam. Aragorn casa-se com Arwen, a elfa gostosa, e a trai com Éowyn, aquela loirinha marromeno de Rohan. Arwen descobre, mas como já havia desistido da vida eterna mesmo, acaba aceitando uma relação a três pra não perder a viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Legolas e Gimli, amigos inseparáveis, viram atores pornô. Legolas, o galã elfo metrosexual com o pau de dez centímetros. E Gimli, o anão pitoresco com o pau de trinta. Os dois revolucionam a indústria ao produzirem e protagonizarem o filme que trás uma cena dos dois em um ménage com a primeira Orc Fêmea do mundo. Na cena, Gimli, no melhor estilo interior de Minas Gerais, solta a famosa frase: "Até que ela (a orc fêmea) não é ruim, mas aquela égua do filme passado era melhor." A frase cai na boca do povo e vira mais um motivo para se zoar um orc. Como se os que já existiam fossem poucos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elron, o elfo pai, desiste daquelas viadagens elficas, bota um terno preto, um par de óculos escuros, corta o cabelo e vai brigar com um certo Sr. Anderson em um outro filme mais divertido. Galadriel, inconsolável, resolve viajar pelo mundo como uma sexóloga que ensina as mulheres a dizerem para seus maridos o que querem na cama através da telepatia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gandalf e Bilbo passam seus cem últimos anos reumáticos jogando gamão e lembrando do time do Botafogo da década de sessenta. Sauron renasce. Dessa vez num vibrador, deixando no ar a idéia de que haverá um quarto filme, provando a tendência de Hollywood de estragar boas estórias com sequências caça-níqueis como Rambo 2, a Missão; A Morte de Jason 3, Ele Renasce de Novo; Rocky 5; O Hobbit...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5891775601209932282?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5891775601209932282/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5891775601209932282&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5891775601209932282'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5891775601209932282'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/12/sobre-aneis-dedos-e-trocadilhos.html' title='Sobre Anéis, Dedos e Trocadilhos...'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-2521200528577804912</id><published>2009-11-20T14:30:00.004-02:00</published><updated>2009-11-20T14:41:53.858-02:00</updated><title type='text'>A Copa da Tradição</title><content type='html'>Terminaram as Eliminatórias para a Copa de 2010. O torneio do ano que vem será marcado pela tradição. Os sete campeões mundiais estão classificados, além de seleções com história na competição, como Espanha, Holanda, Portugal, Camarões, Paraguai. Só uma das trinta e duas seleções classificadas disputará uma Copa do Mundo pela primeira vez. A seleção da Eslováquia. Sinal dos tempos. O leste europeu mostrou, nestas eliminatórias, o motivo de suas seleções fazerem boas campanhas nas copas da guerra-fria. A Eslováquia classificou-se sem a necessidade da repescagem. Sua irmã República Tcheca, dessa vez ficou pelo caminho, mas não esqueceremos a seleção Tcheca da Copa e da Eurocopa passadas. Bonito de se ver. A Rússia caiu para a Eslovênia. Pena, mas é um país do Leste por outro. A Ucrânia foi até a repescagem, mas infelizmente perdeu a vaga para a Grécia. Não hei de esquecer também as belíssimas seleções da Romênia de 94 e da Bulgária de 94 e 98. E da antiga Iugoslávia, Sérvia e Eslovênia se classificaram. A Bósnia vendeu caro sua vaga para os metro-sexuais de Portugal na repescagem. A Croácia, que já abocanhou um terceiro lugar em 98, ficou pelo caminho, mas não pagou mico. Imaginem o que não faria a seleção da Iugoslávia se não tivesse sido desmembrada? Com uma seleção dessas seleções e o Petkovic de camisa dez? Eu, por exemplo, torceria por eles na Copa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As seleções mais tradicionais da África, que ficaram de fora do Mundial passado, dessa vez não deram mole. Camarões e Nigéria estão de volta. Junto com as fortes seleções de Gana e Costa do Marfim, e as figurantes Argélia e África do Sul. Seis representantes do continente africano. Um recorde a ser exaltado. Na Copa da inclusão comedida, onde a África do Sul serve de escape para se chamar o mundial de “Copa da África”. A Copa é da África mesmo, do continente. É a primeira por lá. Mas vocês, senhores suíços da Fifa que querem proibir a paradinha nos pênaltis, não enganam ninguém. Todo mundo aqui sabe que esse papo de “Copa da África” e não “Copa da África do Sul” vem daquela idéia mais velha que o futebol de que na África, assim como os pretos que nela vivem, é tudo igual. Por essas e outras, ano que vem quebrarei minha tradição individual. Vou deixar de lado minha eterna torcida pela Holanda. Vou torcer pela África. Assim, como os velhos caquéticos da Fifa gostam. Pela África. Por qualquer dos seis países que conseguir o feito inédito de dar o título mundial não só para um país fora do eixo Europa-América do Sul, mas para um país africano. Vou torcer pela colônia. Seja inglesa, seja francesa. Se o bonito futebol holandês merece ganhar, um dia, uma Copa, o futebol africano merece ainda mais. Merece, dentro da sua casa, rugir na cara pálida dos atuais donos do futebol: "Aqui quem manda é a gente!" &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os jogos da repescagem foram ruins no geral. Tanto como futebol como pelos resultados. A camisa pesou na maioria dos casos, mas em alguns foi uma pena. A mão de Thierry Henry matou um cruzamento e empatou o jogo para a França. E tirou da Copa o povo irlandês que eu tanto admiro. Os bósnios montaram uma seleção forte, repleta daqueles coadjuvantes muito bons dos principais times do centro do futebol europeu. Um time que sabe jogar com a bola no chão. Domina, dribla e passa bem. Mas um time muito novo. A experiência e a técnica mais refinada dos metro-sexuais colonizadores da seleção de Portugal falou mais alto. Dois jogos duros. Dois gols de Portugal, um em cada jogo. E três bolas bósnias na trave portuguesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seleção da Rússia jogou um futebol bonito. Tem uns dois ou três craques de bola no time. Arshavin é o principal deles. E venceu o primeiro jogo, em casa, por dois a um. Mas subiu no salto e perdeu o segundo jogo por um a zero. Acabou desclassificada pelo critério mais ridículo já inventado no futebol. O gol fora de casa que, como dizem alguns comentaristas mestres em matemática, vale por dois. Uma pena. Espero que a Eslovênia faça um bom papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grécia e Ucrânia fizeram os dois jogos mais chatos da repescagem. Duas seleções burocráticas e retranqueiras. Infelizmente passou a pior das duas. A Ucrânia é uma seleção dura, joga feio, e se defende mais do que ataca. Mas perto da seleção grega, é um ícone do futebol arte. Os gregos são ridículos, e da mesma forma ridícula que venceram a Eurocopa de 2004, se classificaram agora para sua segunda Copa do Mundo. Horrível. Se repetir a campanha de 94, terá feito seis jogos em mundiais, perdido os seis e marcado zero gols. Patético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na África e na América do Sul, tivemos aquele futebol literalmente brigado que caracteriza as duas escolas. A guerra entre Argélia e Egito no Sudão terminou com a seleção mais fraca de futebol, mas mais forte no psicológico, vencedora. A Argélia vai à Copa, muito provavelmente, fazer figuração. Ninguém garante que o Egito fosse fazer papel melhor, mas o time sabe mais de futebol. Isso é indiscutível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro campeão do mundo, o Uruguai, eliminou a Costa Rica no estilo uruguaio de se jogar futebol. Um time talentoso e desorganizado. Raçudo, brigão, catimbeiro e lindo de se ver jogar. A Costa Rica é dirigida por Renê Simões. O que diz muito sobre um time na hora das decisões. E a celeste olímpica honrou a camisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por último, a Nova Zelândia passou pelo Bahrein. Ninguém prestou atenção. Ninguém lembra. Ninguém ligou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-2521200528577804912?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/2521200528577804912/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=2521200528577804912&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2521200528577804912'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2521200528577804912'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/11/copa-da-tradicao.html' title='A Copa da Tradição'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-7968404711031191437</id><published>2009-10-24T13:35:00.007-02:00</published><updated>2009-11-03T13:32:49.177-02:00</updated><title type='text'>Noir Bom Tem Cheiro de Café e Gosto de Cigarro</title><content type='html'>*I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela falava nervosamente, sem parar. Descarregava um caminhão de informações em cima de mim com aquela fala chiada, dificultando meu entendimento da situação. Só respirava quando precisava se concentrar para engolir um gole do seu café, ou o choro que teimava em interromper sua narrativa. Era difícil me concentrar na história que ela contava. Eu não conseguia parar de olhar para aqueles lábios vermelhos movendo-se tão rápido, deixando um rastro azul da fumaça do cigarro. Ou o queixo delicado, que se encolhia toda vez que sua voz embargava e os olhos azuis enchiam-se de lágrimas. Eu não podia ver uma mulher chorando. Levantei a mão espalmada num sinal para que ela parasse de falar. Ela parou. Tomei mais um longo gole de café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Moça, a senhora me desculpe, mas eu não sou o Humphrey Bogart. Isso aqui não é um filme americano dos anos quarenta não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me olhou como se tivesse dificuldade de entender o que eu acabara de dizer. Os olhos azuis apertados, mirados direto dentro dos meus. A testa franzida e as sobrancelhas ligeiramente levantadas. Que rosto lindo. O cotovelo direito apoiado na mesa, sustentando o antebraço esticado para cima, mantendo o cigarro preso entre os dedos finos e longos, próximo à boca vermelha. Que mulher linda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que, exatamente, o senhor quer dizer com isso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirei fundo e tirei um cigarro, três vezes mais vagabundo que os dela, de dentro do maço amarrotado que trazia no bolso da camisa. Levei calmamente o cilindro à boca e o prendi entre os lábios. Sem babar. Detesto quem baba no cigarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quero dizer que não sou um detetive particular desses durões de queixo quadrado que a gente vê nos filmes por aí.” – risquei o isqueiro e acendi um dos meus vícios – “Quando a senhora me pediu ajuda para encontrar sua amiga, me meter com bandido não era exatamente o que eu tinha em mente. Essa gente é perigosa. Eu fui polícia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o que o senhor tinha em mente, então?”, a pergunta veio num tom meio cantado, diferente da fala chiada que fizera questão de exprimir até então. Veio como um ataque direto à minha masculinidade. Um jeito elegante de me chamar de frouxo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dar alguns telefonemas, ir a alguns abrigos, hospitais. Coisa muito mais simples do que a senhora tá me pedindo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela baixou a cabeça num misto de decepção e resignação. Fitou sua xícara por alguns instantes. Correu o dedo indicador acompanhando os detalhes dourados pintados na porcelana branca. Os cachos louros de seu cabelo escorreram para o seu rosto, mas não esconderam por completo as lágrimas que começavam a escorrer por suas bochechas. Tentou disfarçar o choro virando o rosto e fingindo que olhava alguma coisa pela janela da cafeteria no vigésimo andar daquele prédio comercial. Merda. Não posso ver uma mulher chorando. Eu ia ceder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá legal. Eu procuro a moça. Procuro da maneira que eu puder. Da maneira que for necessária. E prometo que encontro. Mas a senhora precisa me ajudar. A senhora me dis...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você.”, um sorriso. Estava funcionando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você me disse que ela só tinha a mãe. Eu quero conversar com essa senhora. Preciso que você me dê todas as informações possíveis sobre a moça e sobre as pessoas com quem ela estava metida. Mas não vai sair barato.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se o senhor encon...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você.”. Ela sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se você encontrar a Nina, o investimento vai ser bem feito. Eu só quero a minha amiga de volta. Quanto o senhor cobra?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei. Depende do cliente. Ainda estou pensando no seu caso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pago cem por dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Moça, nesse serviço nem toda a grana fica pra gente. Às vezes a gente não acha quem dê informações. Mas sempre acha quem venda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cento e cinqüenta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E a gasolina?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mais a gasolina. Contanto que você não dê passeios demais às minhas custas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sorri, para mostrar que entendera o trato. Eu estava fazendo uma puta besteira. E sabia muito bem disso. Ia me arrepender seriamente de ter me metido nessa confusão. Meu estômago já dava saltos gelados na minha barriga. Não tinha certeza de que minhas pernas me responderiam, se tivesse que levantar dali naquele momento. Mas, o que mais eu podia fazer? Não podia ver uma mulher chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Falo com a dona Leda ainda hoje. Combino esse encontro e te aviso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Combinado. Você tem meu telefone.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora preciso ir. Obrigada por fazer isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sorri, como quem diz ‘Não é nada. Sempre arrisco meu pescoço por mulheres bonitas que não conheço direito.’ Ela levantou-se. O vestido de seda branca era justo com suas curvas. Um corpo delicado, e ao mesmo tempo sólido. Não consegui evitar uma olhada para suas coxas grossas, em cuja metade o seu vestido terminava com uma faixa de transparência maliciosa, daquelas que prometem visões do paraíso, mas acabam antes do recheio principal. Era linda. O tipo de mulher que sabe que é linda. E que se aproveita disso. Provavelmente era o que ela estava fazendo comigo. Não que eu me importasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estalou um beijo na minha bochecha e sussurrou um até logo, colocando os óculos escuros no rosto. Pela grife dos óculos, sua conta bancária era invejável. Segui seu rebolado com os olhos até que ela saísse da cafeteria. Tirei a agenda do bolso da camisa procurei o nome do Guedes. Pedi ao garoto cheio de espinhas na cara que passava um pano no balcão de madeira para usar o telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Interurbano ou local?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Local.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É um e cinqüenta o minuto.” Disse tirando o aparelho de trás do balcão e colocando-o à minha frente. Eu aquiesci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alô?”, aquela voz pastosa de quem estava dormindo. Ou trepando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alô, Guedes? Te acordei?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mais ou menos. Que horas são?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onze da manhã já, seu cretino.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Porra.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá afim de almoçar comigo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode ser.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Beleza. Te busco aí antes de uma da tarde. Tenho uma história pra te contar”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Combinado.”&lt;br /&gt;-----------------------&lt;br /&gt;*Primeiro capítulo de uma história ainda sem título que pretende ser um Romance Noir um dia. O resto está na cabeça. Quem sabe um dia não vai para o papel...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-7968404711031191437?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/7968404711031191437/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=7968404711031191437&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/7968404711031191437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/7968404711031191437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/10/noir-bom-tem-cheiro-de-cafe-e-gosto-de.html' title='Noir Bom Tem Cheiro de Café e Gosto de Cigarro'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-2559423470670906433</id><published>2009-10-15T00:01:00.002-03:00</published><updated>2009-10-15T00:23:01.377-03:00</updated><title type='text'>Raça, Amor e Paixão</title><content type='html'>Caralho!, ele pensou, Tenho que fazer tudo sozinho. Os tricolores comemoravam. Filhos da puta. Dentro da sua casa. Na frente da sua nação, do seu povo. Dos seus súditos. Os tricolores vieram, se encolheram, se apequenaram, tomaram sufoco. E na única subida ao ataque os putos marcaram. E essa porra desse goleiro mascarado não colabora. Isso lá é jeito de sair do gol, cacete! Vagabundo. Nunca ganhou bosta nenhuma na vida e já subiu no salto. Essa nova geração do futebol tem muito o que aprender. Geração de porcelana. Frescuras demais. Cortes de cabelo de viados demais. Chuteiras coloridas demais. E futebol pouco. Caráter, menos ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo bem. O Rubro-Negro não é time de morrer de véspera. O camisa dez, que humildemente trazia o número quarenta-e-três às costas, caminhou lentamente na direção do próprio gol. Enquanto os adversários comemoravam o gol marcado e se abraçavam na lateral do campo, ele entrou debaixo das traves, pegou a bola debaixo dos braços e caminhou. Lentamente, sem pressa, ele caminhou na direção do círculo central. A todos os companheiros que o olhavam com algum desespero, alguma agonia apressada, ele respondia com um olhar calmo. Inabalável. Passo em baixa velocidade após passo, crescia a aura de confiança em torno daquela figura. A certeza de que o jogo não acabaria daquele jeito. Sua postura e seus olhos azuis transpiravam a mensagem de que eles virariam aquele jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baixou a bola na marca que dividia o campo de jogo ao meio. Deu alguns passos calmos para fora do grande círculo e fez um leve sinal com a cabeça para que o Zé e aquele cara meio grosso com a camisa nove reiniciassem o jogo. Eles rolaram a bola, Zé rolou para o maestro. Ele pisou na bola e levantou a cabeça com a frieza, não de quem tem fé ou acredita, mas de quem sabe que enquanto o árbitro não soprar o apito, há tempo de sobra para se decidir um jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O time respondeu ao comando. Partiu para cima, sufocou o adversário ainda com mais força do que havia feito antes de sofrer o gol. O lateral armador rubro-negro, aquele baixinho de sangue quente espanhol, pegou um rebote do goleiro. Emendou de primeira com o pé direito, que não é o bom, e o zagueiro salvou em cima da linha. Mais tarde, o cara meio grosso da camisa nove ajeitou uma bola pra trás e o lateral direito reserva - que não é craque, mas é sério e entende o espírito do time em que joga - acertou um foguete de pé direito. O goleiro pegou. Quando o relógio anunciava aos gritos o último minuto do primeiro tempo, apareceu uma falta dois passos à frente da linha do meio-de-campo. Foi a vez dele. O gringo camisa dez, que joga com a quarenta-e-três por humildade, ajeitou a bola. O time foi todo para a área do adversário. Ele bateu com os três dedos. Daqueles lançamentos que os comentaristas esportivos mais velhos tanto sentem saudade de ver. A bola atravessou metade do campo. E encontrou, perfeita, a cabeça do quarto-zagueiro, um nordestino magricelo e meio baixo que sangra sem remorso pelo time preto e vermelho. A cabeçada pôs a bola na direção exata do canto inferior do gol. Primorosa. O goleiro saltou e deu-lhe um tapa assustado. Escanteio. A sorte não estava do lado dos pobres nesse dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só sabe o que aconteceu naquele vestiário quem estava lá. Felizes eles não estavam. Mas duvida-se muito, a ponto de ter gente que aposta a mãe nisso, que tivesse alguém cabisbaixo. Porque o Rubro-Negro não é disso. E o líder desse time não é disso. Certamente ele não falara muito. No Flamengo, não há necessidade de se falar muito. Quem naquele time entende o espírito da coisa, se mata no campo de jogo sem precisar ser convencido por ninguém de que esse é o melhor caminho. Simplesmente sabe. Aqueles que não entendem isso, passarão pelo time, como tantos outros passaram, e serão esquecidos. Alguns talvez ainda façam sucesso em algum outro lugar mais fácil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele certamente se lembrou dos seus tempos de garoto. Da sua estréia como profissional, aos dezesseis anos, com a camisa vermelha do Radnički Niš. Da vitória por quatro a zero sobre um time de Sarajevo. Do tempo em que os companheiros de clube lhe chamavam Rambo. Naquele lugar de prédios de concreto aparente, ração de comida e gente dura. Foi assim que ele aprendeu o que é o futebol. Vinte anos de bola depois, em sua segunda passagem pelo clube, encontrou no Rubro-Negro Carioca a expressão máxima desse ideal de jogo. Petkovic nasceu na Iugoslávia. País que hoje não existe mais. Apesar de analista geopolítico nenhum do mundo conseguir lhe convencer desse desatino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo tempo começou com o time tocando a bola, crente, como seu líder, de que venceria aquele jogo a todo custo. O técnico, aquele negro que fora ídolo na cabeça-de-área desse mesmo Flamengo trinta anos antes, tirou o lateral armador para colocar aquele garoto raçudo que um dia foi craque e hoje é coração. Mais tarde, tirou também o cara meio grosso da camisa nove para colocar um garoto da base que nunca se deu muito bem no time profissional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um arremesso lateral próximo à área dos tricolores. Jogada despretensiosa. Bola na área e o negrinho baixinho que um dia foi craque e hoje é coração chegou antes do tricolor na bola e a dominou com a ponta da chuteira. O tricolor chegou atrasado e tudo o que ele conseguiu chutar foi a batata da perna do negrinho. O árbitro apitou o pênalti e os tricolores gastaram alguns poucos minutos com reclamações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a hora dele brilhar. O líder e craque do time. O especialista em bolas paradas. O gringo mais querido do país. O dez da nação. A bola colocada na marca penal. O goleiro adversário, um dos jogares mais politicamente corretos e mais chatos da história do futebol. Aquele baluarte da mediocridade esticava os braços para os lados tentando diminuir o gol. O iugoslavo, parado na meia-lua da área, esperava a autorização do juiz. Soou o apito. Ele partiu decidido para a bola. Pé direito. Canto esquerdo. Bateu mal. Meia-altura. Fraca. O goleiro pegou. O gringo se deu ao direito de, por um milésimo de segundo, aceitar que a sorte não estava do lado certo naquele dia. E levou rapidamente as mãos à cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o bandeirinha anulou o pênalti. O goleiro tricolor se adiantou à cobrança. Queimou a largada. Não pode. Repete-se a cobrança. Os tricolores ficaram loucos. Seis ou sete deles rodearam o bandeirinha e argumentaram sabe-se lá o que os jogadores argumentam numa hora dessas. Voltar atrás é que os árbitros não vão. Enquanto os adversários retardavam a segunda cobrança, a torcida sentiu-se necessária. E mais de sessenta mil pessoas começaram a gritar Pet! Pet! Pet! O gringo, assim que percebeu a marcação do trio de arbitragem, voltou ao seu posto na meia-lua e, com o rosto sereno, esperou. O lateral direito reserva, aquele que não é craque, mas é sério, encostou ao seu lado e disse, Mermão, você é o nosso ídolo, e um pênalti não vai mudar isso, Foda-se o pênalti. O maestro acenou levemente com a cabeça, indicando que entendera o recado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o goleiro tricolor voltou ao seu lugar debaixo das traves, ainda tentou catimbar a cobrança, saindo do gol para conversar com o árbitro, na esperança de desconcentrar o craque rubro-negro. O goleiro voltou ao seu lugar. O juiz apitou. O iugoslavo partiu para a bola, jogou a perna direita para trás, no movimento de quem vai bater com força na bola. O goleiro saltou para o mesmo lado da primeira cobrança. E assistiu, do chão, a bola viajar lentamente pelo ar e morrer, jocosamente na parte superior da rede. Rigorosamente no meio do gol. Com a finta no goleiro humilhado, a bola no filó e o placar empatado, o gringo correu apontando para a torcida com o braço direito estendido no ar. Depois rugiu para os companheiros. Uma comemoração de quem aprendeu futebol com gente dura. Da época em que jogador de futebol não rebolava depois de marcar um gol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais alguns minutos mandando no jogo. Uma bola lançada pelo mesmo lateral direito para aquele garoto da base que não costuma se dar muito bem no time profissional. Um passe com o peito deixa a bola nos pés do iugoslavo. Ele domina com o pé direito, puxa bola para o esquerdo, e rola perfeita entre dois zagueiros do time adversário para o Zé que, na corrida, chega de frente para o goleiro. Ele só tem o trabalho de completar a assistência perfeita com um toque cruzado para o fundo do gol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí pra frente, a tremedeira nas pernas tricolores e os carrinhos e desarmes precisos do dedicado time Rubro-Negro se encarregaram de conduzir o jogo para o seu fim. Um jogo em que o Flamengo foi Flamengo. Um jogo que arrancaria do poeta a verdade que versa: Tudo o que esse time precisa é um técnico preto e oprimido e um camisa dez que saiba jogar futebol. Não é por coisa pouca que um time chega a ter a maior torcida do mundo. E contra a sabedoria da massa, ninguém agüenta. A sorte, por exemplo, quando joga contra o Flamengo, joga no time errado. E perde.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-2559423470670906433?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/2559423470670906433/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=2559423470670906433&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2559423470670906433'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2559423470670906433'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/10/raca-amor-e-paixao.html' title='Raça, Amor e Paixão'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-525285217649642155</id><published>2009-08-15T14:30:00.003-03:00</published><updated>2009-08-15T14:54:38.225-03:00</updated><title type='text'>(...)</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/Sobw6Yo58AI/AAAAAAAAAJ0/YcAQOWflNlk/s1600-h/Blog3.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 179px; height: 200px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/Sobw6Yo58AI/AAAAAAAAAJ0/YcAQOWflNlk/s320/Blog3.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5370244491522994178" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, com alguma surpresa, vi esses dias este blog indicado a este selo. A autora da indicação foi minha prima. &lt;a href="http://www.eoqueijo.blogspot.com/"&gt;Minha priminha&lt;/a&gt;, e por mais que os adolescentes tenham horror a esses diminutivos, ela é minha priminha. Vi essa moça nascer, não literalmente, claro. Frequentei a casa em Varginha(MG), que dava fundo para o terreno baldio onde teriam visto aquele ET (hehe). Ela era ainda a mais novinha do motim de revoltados que se juntavam e enburravam quando nossos pais resolviam ir à Praia Seca, em Araruama. Praia que ninguém parecia gostar. Lembro da sua viagem psicodélica ao examinar uma garrafa de azeite com forma estranha em uma pizzaria. Se você não lembra disso, prima, eu lembro. E conto e queimo o filme mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que essa garotinha hoje é uma moça. E eu fico me perguntando de onde saiu toda essa maturidade que os seus textos transbordam. De mim é que não foi. Da irmã hippie, também creio que não (já tô sabendo do seu comentário quanto à minha habilidade de fazer miojo, dona Mariana). Não sei. E, sinceramente, não importa. Não tanto quanto o fato de que essa maturidade existe. E os textos são de uma densidade, uma profundidade, que ao ler, as vezes tenho a sensação de que ela faz uns clássicos da delicadeza, enquanto o primo meio bronco aqui nunca consegue fazer mais que um Duro de Matar. Parabéns, Marina. Parabéns de verdade. Pelo selo e pelo talento. E te agradeço muito pela lembrança dos meus textos na sua vez de homenagear.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O protocolo diz que devo indicar mais quatro blogs para o prêmio. Bom, desculpem, mas vou me reservar o direito de quebrar a corrente dessa vez. De mudar um pouco o ritual. Já faz algum tempo desde que fiz isso pela última vez, mas acontece que meus blogs preferidos continuam os mesmos que indiquei da última vez. Com uma ou outra novidade, que já ganharam o selo. Todos os blogs das pessoas que indicaria tem link nessa página, vale a pena uma olhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fim dos parênteses.&lt;br /&gt;Beijos, Marina, obrigado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-525285217649642155?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/525285217649642155/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=525285217649642155&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/525285217649642155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/525285217649642155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/08/blog-post.html' title='(...)'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/Sobw6Yo58AI/AAAAAAAAAJ0/YcAQOWflNlk/s72-c/Blog3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-6659385997773626825</id><published>2009-07-30T20:42:00.004-03:00</published><updated>2009-08-13T14:37:02.584-03:00</updated><title type='text'>As Armas de Jorge</title><content type='html'>Eu tenho uma insônia do caralho. Por isso rodo de madrugada. O relógio de metal no meu pulso marcava nove e meia da noite. Eu fechei os últimos botões da camisa, escondendo o desenho no peito e as medalhas que pendiam do pescoço. A noite estava quente como o bafo do demônio, e a janela do meu apartamento pequeno já estava fechada. Algumas pequenas gotas de suor começavam a se desprender dos pêlos do meu sovaco e escorriam geladas pela lateral do meu corpo. Peguei as chaves do carro em cima da mesa, apaguei o cigarro no cinzeiro sujo. Parei por um instante de frente para uma vela e a imagem do santo guerreiro que repousam na cômoda. Fiz o sinal da cruz e saí recitando as orações mentalmente. São Jorge, guerreiro vencedor do dragão, rogai por nós. São Jorge, militar valoroso, que com a vossa lança abatestes e vencestes o dragão feroz, vinde em meu auxílio, nas tentações do demônio, nos perigos, nas dificuldades, nas aflições. Cobri-me com o vosso manto, ocultando-me dos meus inimigos, dos meus perseguidores. Protegido por vosso Manto, andarei por todos os caminhos, viajarei por todos os mares, de noite e de dia, e os meus inimigos não me verão, não me ouviram, não me acompanharão. Sob a vossa proteção, não cairei, não derramarei o meu sangue, não me perderei. Assim como o Salvador esteve nove meses no seio de Nossa Senhora, assim eu estarei bem guardado e protegido, sob o vosso manto, tendo sempre São Jorge à minha frente armado de sua lança e do seu escudo. Amém. Ó São Jorge, meu guerreiro, invencível na Fé em Deus, que trazeis em vosso rosto a esperança e confiança, abra os meus caminhos. Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer algum mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrar. Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, a Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos. Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel Ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós, sem se atreverem a ter um olhar sequer que me possa prejudicar. Assim seja com o poder de Deus e de Jesus Cristo e da Falange do Divino Espírito Santo. Amém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite começou mal. Ainda estava cedo para aquele tipo de cena. Primeira corrida do turno. Um negão com cara de bandido batia boca com um traveco no banco de trás. Eu tentava não prestar muita atenção à confusão, tentava prestar atenção à rua já começando a se esvaziar. Mas é difícil ignorar certas coisas. Principalmente quando elas acontecem no banco de trás do seu carro. A confusão era sobre dinheiro. Claro. Dois terços das confusões no mundo são sobre dinheiro. O cara dizia que o traveco lhe devia cem pratas. O traveco negava. Dizia que o dinheiro era dele, ganhou com o próprio suor, essas coisas. O bate boca ficava mais áspero a cada segundo. Palavras duras. “O meu cú é arrombado toda noite e metade da grana é sua por que? Por que você não engole a porra de um desses clientes que você me arruma e fica com o dinheiro? A grana da porra que eu engulo é minha.” Baixo nível. As respostas também eram. “Se não fosse por mim você não engolia porra nenhuma nem ganhava dinheiro nenhum, sua vadia.” Eu queria acabar logo aquela corrida. Antes que os dois se estapeassem, esfaqueassem, sei lá. Mas não deu tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sangue do negão ferveu e ele enfiou a mão na cara do traveco. O tapa estalou alto, e ele fechou o punho anunciando o próximo golpe. Levei a mão direita até o trinco do porta-luvas e o abri. Puxei a quarenta e cinco que me custou quase seiscentos paus e eu nunca usei. Apoiei a arma no espaço do banco entre as minhas pernas e soltei  a trava de segurança. Fechei o porta-luvas, joguei o carro no primeiro recuo e meti o pé no freio. Desci rápido do carro e abri a porta de trás com a Sig Sauer P250 apontada para o cara. “Desce, filho da puta.” Ele me olhou como se não tivesse certeza se eu atiraria, mas foi tirando o corpo de dentro do carro devagar, até que ficou em pé na minha frente. “Vaza.” Ele olhou com o canto do olho para o traveco no banco de trás do carro. O lábio cortado, começando a inchar. “Essa guerra não é sua.” “Vaza.”, repeti. “Você vai me pagar por isso.” Ele virou as costas, enfiou as mãos nos bolsos do casaco e começou a andar, deixando a ameaça no ar. Mantive a arma apontada na sua direção, até ele já ter andado uns trinta metros. Entrei no carro, engatei a primeira e saí rápido. “Pra onde agora?” perguntei. Entre lágrimas, ele me deu um endereço de uma quitinete. “Valeu.” “Não admito porrada no meu táxi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite na cidade grande não é para menininhos. Disso pode-se ter certeza. É para gente grande. Marcada. Cicatrizada. Pra gente com o caráter tão duro quanto o punho. Senão o mundo te engole. Mastiga. Tritura pele, carne, osso, dignidade, sanidade. Depois engole. Não cospe nem o bagaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando encostei o carro perto da portaria do prédio, as duas moças se aproximaram. “Alicia?” “Sou eu.”, respondeu a loira, que sentou-se no banco da frente. Saia curta, preta. As coxas grossas completamente nuas. Uma bota com um cano até o meio da canela e um salto quinze. A blusa branca deixava os braços e a parte inferior da barriga seca e dura à mostra e o decote mostrava o colo, o inicio dos seios e as duas tiras do sutiã vermelho. Corpo de atriz de novela. Ela me entregou um pedaço de papel cortado reto, com régua. O nome de um hotel de luxo que eu já conhecia e o endereço. “Mas precisamos passar pra buscar uma amiga no caminho, tudo bem?” Por mim estava tudo bem. A morena vestia um sapato de salto alto, meia-calça escura e um short curto, que também lhe exibia as pernas. E uma tira de pano vermelho que só lhe cobria os peitos e seu equivalente às costas. A primeira parte do caminho desenrolou-se sem muita conversa. Alguns comentários esparsos que as duas trocavam. Minha mão por umas duas ou três vezes resvalou na coxa esquerda da loira quando precisei manobrar a alavanca do câmbio. Ela não pareceu se importar. Não moveu a perna. Eu tinha que me encolher todo para evitar que acontecesse de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parei o carro. A terceira moça também já esperava na portaria. Ruiva. Não parecia cabelo tingido, parecia natural. Mesmo padrão. Pouco pano, muita pele à mostra. E salto alto. Eu contive um sorriso. Ruiva, Loira e Morena. Parecia alguma fantasia clichê. A moça entrou no carro e cumprimentou as outras duas. “Esses caras são meio doentes, né?” perguntou. A loira sorriu ao meu lado. “Vai se acostumando. Até que essa de uma loira, uma morena e uma ruiva tá leve. Já vi coisa pior.” E, virando-se pra trás para olhar nos olhos da moça, “Você também vai ver.” Ela sorriu, mas prosseguiu com as perguntas. “Mas e essas roupas?” “Dona Mirtes disse que o que eles pediram foi: uma morena, uma loura e uma ruiva. Vestidas como se trabalhassem na rua, não na sua agência.” “São doentes. Eu disse. Querem fantasiar que estão comendo uma puta de rua, mas não tem coragem de encarar as feiosas que ficam nas ruas. Doentes. E quanto vão pagar afinal?” Foi a vez da morena responder. “Dona Mirtes disse que a gente fica com trezentos cada uma. Ela deve tá cobrando pelo menos uns mil e duzentos por nós três.” “A parte dela não é muito grande não? Quer dizer, são os clientes dela, mas é o nosso rabo.” “Você ainda é nova. Vai aprender que nessa vida tudo é assim. Você é o burro de carga dos outros. Até um dia ser esperta e dar sorte o suficiente pra mudar de papel e arranjar alguém pra ser o seu burro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parei o carro. As duas de trás desceram. A loira perguntou quanto devia. O taxímetro marcava quarenta e um e setenta. “São quarenta merréis.” Ela tirou uma nota de cinqüenta da bolsa e me entregou. Tirei um bolo de notas do bolso da camisa, puxei uma de dez e a entreguei. Ela sorriu. “Boa noite para o senhor.” “Boa noite pra vocês também, meninas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ainda terminava meu café quando me chamaram no rádio e pediram que buscasse uma Bianca num festival de música eletrônica no estacionamento do autódromo. Cheguei lá em poucos minutos e encontrei um casal de garotos cuidando de uma menina que parecia passar mal. Desci do carro e os ajudei a colocá-la no banco de trás, onde os dois também se acomodaram. Seus movimentos eram pouco precisos, quase que em câmera lenta, as línguas se enrolavam ao falar. O cheiro de álcool era flagrante no seu hálito, no seu suor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o caminho, a menina deixava a cabeça pender para todos os lados, solta na ponta do pescoço fino. Os olhos, quando abertos, não pareciam focalizar nada. A outra menina e o rapaz se beijavam. Ele parecia animado com os beijos e logo começou a percorrer o corpo da menina com a mão. Ela parecia cansada demais, ou alcoolizada demais, para reagir. Não parecia à vontade, mas não o repelia. A mão do rapaz corria seus seios por cima da blusa, depois baixou para a barriga, escondeu-se por dentro da roupa e voltou aos seios. Ela tentou afastar-la uma ou duas vezes, mas ele insistiu nas carícias e ela não parecia ter energias para ser mais firme. A mão desceu mais uma vez e pousou entre as pernas da menina por um tempo. Ele deve ter forçado a mão contra sua pele, pois ela logo a tirou de lá. Mas aquela mão voltou, algumas vezes. Assim como explorou outros lugares. Nunca violenta, mas sempre insistente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando parei o carro, a menina que passava mal abriu a porta de supetão, começou o vômito no banco do carro e terminou no asfalto. Desci do carro e os casal me acompanhou. Ajudamos a menina a se levantar. Ela me olhou com vergonha e murmurou um pedido de desculpas. Me sentindo deprimido, respondi que estava tudo bem. A moça se virou para o rapaz e disse que talvez fosse melhor ele não dormir ali essa noite. “Porra, Bianca, mas a gente combinou!” “Eu sei, mas eu to cansada, a Lu não ta bem... Acho melhor não.” Ele fechou a cara, pensou por alguns segundos e saiu pisando firme “Então se vira pra pagar a porra do táxi, que eu vou pra casa a pé mesmo.” “Quanto é?” ela me perguntou. “Vinte e cinco.”, respondi quase me sentindo orgulhoso da menina. “E a lavagem do banco?” “Não é nada. Pode deixar.” Ela me entregou os vinte e cinco e voltou-se para a amiga. Eu ainda lhe sorri um sorriso paternal, mas ela não notou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi a primeira vez que tive de limpar vômito do banco de trás. Já aconteceu de ter de limpar esperma também. E já era dia claro quando terminei. Com os olhos pesados e as pernas doendo, tirei o carro da garagem da empresa. Quando parei no portão, ouvi uma pequena explosão, o barulho do vidro da porta do motorista estourando. Meu ombro deu um tranco e ardeu. O negão que eu tinha expulsado do meu táxi no início do turno avançou, meteu a mão na maçaneta e abriu a porta do carro. Agarrou a parte de trás da gola da minha camisa e me puxou para fora. Estava transtornado, os olhos injetados, mexia-se compulsivamente. Caí de bruços no chão e assim fiquei. Ele encostou o cano curto do revolver na parte de trás da minha cabeça e puxou o gatilho. Pipocou. Mas não sei se ele percebeu. Fiquei imóvel. Ele enfiou a mão no bolso da minha camisa e levou o maço de notas que guardo para o troco. Fugiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não conseguia mais ouvir seus passos, me virei com dificuldade. Não conseguia mexer o braço esquerdo. Com a mão direita, abri os botões da camisa. Tirei. A secretária da empresa apareceu ofegante dizendo que tinha uma ambulância a caminho, que ela tinha visto tudo. Quando mostrei meu peito nu, ela sorriu. A minha tatuagem com o desenho de São Jorge estava manchada de sangue, mas via-se bem o furo da bala sobre o desenho do escudo do santo. No ombro. “Quebrou a clavícula. Nada mais grave”, me disse o médico mais tarde.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-6659385997773626825?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/6659385997773626825/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=6659385997773626825&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6659385997773626825'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6659385997773626825'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/07/as-armas-de-jorge.html' title='As Armas de Jorge'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-1942978485438683077</id><published>2009-05-20T18:53:00.003-03:00</published><updated>2009-05-20T18:56:48.318-03:00</updated><title type='text'>Porra de Shakespeare*</title><content type='html'>(Ao amigo que me propôs o argumento)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O disco vermelho acendeu-se e os carros foram parando um a um, enfileirados diante do semáforo. Ele levantou calmamente o corpo da pequena ilha de concreto onde esperava e caminhou pelas paralelas faixas brancas pintadas no asfalto. Parou diante dos carros e, sem cerimônias, num gesto brusco e decidido, levantou a camisa encardida e rasgada. Nada disse. Não deu piruetas no ar, não ofereceu doces nem canetas para vender. Levantou a camisa em silêncio, sabedor de que era o suficiente. O recado estava dado. De forma clara. Os ossos das costelas apertados pela pele da barriga que já não tinha para onde afundar na sua faminta timidez. As ancas sobressaltadas, com os ossos a ameaçar rasgar a pele seca, dura, escura. O peito magro parecia fazer força para inflar-se. Fedia. Mas fedia menos do que aparentava. Se a fome tivesse rosto, certamente teria a mesma barba crespa, vasta e suja, o mesmo maxilar quadrado e sobressalente. Teria os mesmos olhos injetados, a mesma boca carcomida pelas intempéries. A visão não dava a menor possibilidade para interpretações outras. O silencio daquele homem gritava nos ouvidos dos motoristas, dos leitores e de todos os cidadãos “Eu tenho fome.” Mas seu rosto sem expressão não emendava nenhum complemento. Nem “Tenham pena.”, nem “Ajudem.”, nem “E odeio todos vocês.” Não sorriu seu sorriso sem metade dos dentes. Também não chorou. Nem xingou. Mais do que a fome, via-se a cara da morte, tomando conta, aos poucos, daquele amontoado de ossos. A morte já gastara um tempo considerável naquele corpo. Deixava as marcas de suas mordidas e da sua peçonha lenta. Mas não parecia ainda preparada para terminar o serviço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De dentro de um sedan negro de vidros fechados, um pai atencioso apontava para a cena e explicava para os filhos a importância de se ter estudo. De se ter um emprego. Certamente aquele homem ali não estudara, não se esforçara, não trabalhava. E era por isso que estava naquela situação. Os meninos, assustados, decidiriam estudar com afinco, pelo menos até terem idade mental suficiente para entender o tamanho da canalhice que lhes dizia o pai. Se é que chegará esse dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não recolhera mais que algumas moedas pequenas quando o sinal tornou a mudar de cor. Retirou o corpo degradado do asfalto onde os carros agora se moviam e foi em direção à rodoviária que beirava a pista. Atravessou a multidão e seus movimentos caóticos que superlotavam a estação com os passos mais firmes e decididos que conseguiu dar. Saiu do outro lado da rodoviária e, de olho em outro semáforo, esperou alguns segundos para atravessar a rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava em meio aos carros, com sua bandeja de doces pendurada no pescoço. Linda. O sorriso franco, como sempre, estampado no rosto. Mostrava todos os dentes. Todos brancos. Um fenômeno. Devia ter pouco mais de vinte anos, embora aparentasse bem mais. A pele morena enegrecida pelo sol, um boné branco enfiado na cabeça e um rabo de cavalo escapulindo pela abertura na parte de trás. O corpo franzino, as pernas cobertas até o joelho por uma saia rota, que um dia talvez tenha sido azul. Os olhos verdes pareciam sorrir mais que a própria boca. Era a coisa mais linda que ele já havia visto naquele mundo tão errado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele conseguiu atravessar a rua, o sinal onde ela trabalhava se abriu. A moça postou-se ao lado do poste negro que segurava as luzes do sinaleiro, esperando que a luz vermelha se impusesse novamente. Ele aproximou-se, hesitante. Estendeu timidamente a mão com algumas moedas, pedindo “Uma jujuba, por favor?”. A moça sorriu e pegou um pacote de jujubas na bandeja. “Você já almoçou?”. Ele sacudiu timidamente a cabeça em negação. “Então, vai almoçar. Comer doce assim faz mal pra você.” Disse ela, guardando a jujuba de volta junto das outras. “Vai almoçar? Depois eu te dou uma jujuba.”, completou sorrindo. “Não quero nada dado. Eu posso pagar.” “Então vai almoçar que, quando você voltar, eu te vendo uma jujuba. Não vai acabar até lá, prometo que deixo uma guardada pra você.” “E você? Já almoçou?” “Também não.” “Quer almoçar comigo?” Ela sorriu, tímida. “Só posso ir daqui uma meia hora.” Ele sentou-se encostado a uma mureta de concreto. “Eu espero.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dois pê-efes e duas doses de pinga, faz favor.” Os dois sentaram-se junto ao balcão. “Os copos precisam ser limpos?” perguntou um atendente. “Não, ninguém aqui é fresco.” Respondeu ela. Ele sorriu. O atendente pôs dois copos americanos na mesa e encheu de aguardente. Ele envolveu com os lábios a borda do copo sentindo o resíduo espesso de cebola e de lingüiça. O líquido desceu áspero, queimando o fundo da garganta. Certamente derrete os órgãos internos de quem abuse dos seus efeitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois levaram menos tempo para raspar o fundo dos pratos do que na espera pela comida. Comiam em silêncio, sem conversar. Mas não se importavam. Quando duas pessoas conseguem ficar em silêncio juntas sem que isso seja um incômodo é sinal de entrosamento. Às vezes de amor. “Você vai vir naquele show amanhã?”, perguntou ele de repente. “Aquele na esplanada, né? Não sei.” “Você podia vir. A gente podia se encontrar.” “Nove e meia na estação do metrô, então.” Ele sorriu entusiasmado. “Vô tá te esperando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se produziu naquela noite. Depilou as pernas, os sovacos. Lavou com especial atenção, depilou e perfumou a boceta. Os cabelos lisos estavam soltos sobre seus ombros. Sobre o corpo, o vestido que lhe custara quase cinqüenta reais e só havia usado no casamento da irmã. Passou um dedo de perfume atrás das orelhas, outro na base do pescoço e no vão dos seios. Calcinha nova. Pegou a bolsa que deixara separada em cima da cama e saiu de casa. Atravessou um sem número de terrenos baldios e ruas sem asfalto e sem luz até chegar à estação do metrô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou todo o caminho remoendo a ansiedade, antecipando diálogos, imaginando respostas, sentenças que diria ou ouviria. Esfregava as mãos uma na outra e perguntava as horas a cada cinco minutos. Quando o trem finalmente parou, correu para a porta, tentando ser a primeira a sair do vagão. E lá estava ele. Barba aparada. Camisa azul de botão que parecia nova, assim como a calça jeans. Ele esperava de pé, de frente para os trens que chegavam. Ela queria correr em sua direção. Conteve-se. Caminhou aparentemente segura e sem pressa e cumprimentou-o com um leve toque de mãos. “Olha o que eu tenho pra gente.” disse ele sorrindo, exibindo um vinho daqueles que vêm em garrafas de plástico. Ela sorriu. “Vamos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O show não dava mostras de estar no fim, mas os dois já estavam cansados e um tanto impacientes quando veio a pergunta. “Por favor, irmão, que horas são?” O homem virou-se e disse que eram duas e meia da manhã. Ela arregalou os olhos verdes. “Nossa. O metrô hoje só funciona até as três. Preciso voltar pra casa.” Ele aquiesceu num movimento de cabeça resignado. Mas ela não se despediu. Foi a deixa. Ele inflou o peito e disse “Espera, que tem uma coisa que eu quero fazer.” E forçou os lábios contra os dela. Ela sorriu em meio ao beijo, as bocas se abriram, as línguas se abraçaram. Imagino que anjos devem ter aparecido, o chão deve ter sumido e a musica deve ter parado. Ela pendurou-se em seu pescoço e com a boca colada em sua orelha sussurrou, até onde pode-se sussurrar algo audível num show, “Você podia vir pra casa comigo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele soltou-lhe as alças do vestido e o tecido correu corpo abaixo, expondo a nudez da moça, deu um passo para trás a fim de contemplar a vista. Era um corpo jovem, mas que já havia sido marcado pelas vicissitudes da vida. Queria chorar. Queria cair de joelhos e idolatrá-la. Queria protegê-la, queria impedir que qualquer coisa de ruim lhe acontecesse dali pra frente. E, ao mesmo tempo, queria foder com ela. Toda vez que olhava para ela, seu desejo de protegê-la de tudo no mundo crescia. Assim como crescia o seu pau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-----------------------------&lt;br /&gt;Pós-escrito&lt;br /&gt;*Não me convence. A maior história de amor de todos os tempos é sobre um casal de nobres playboyzinhos do século catorze, cheios de firulas, empregados, parentes bajuladores. E dinheiro. E poder. Só o que não tinham os dois pombinhos era alguma coisa melhor pra fazer das suas vidas vazias. De jeito nenhum! Não me convence. Um casal em que o varão usa naturalmente a expressão “Ai de mim!” não me convence. Ler as pomposas passagens de um macho falando do canto dos pássaros como uma dama chega a ser nauseante. Não que o assunto seja ponto importante, Tom Jobim (que não era menos playboy, mas certamente era menos afetado), falou de pássaros sem parecer uma moça. Rogério Skylab também (*sorriso irônico). Mas como são doces as palavras daquele inglês pomposo saindo da boca do italianinho em seus delírios de erudição. Façam-me o favor. Que me perdoem os eruditos, ou os cães aduladores que lhes emplastam os ovos com a baba peçonhenta da pequeneza, mas Romeu e Julieta é muito chato. E me espanta particularmente ninguém implicar com o fato de ser um quase-plágio dos celtas Tristão e Isolda. Imagino como não se sentiram indignados com tamanha ofensa os viris celtas do pub mais sujo da Irlanda ou da Escócia quando se depararam com um Romeu queima-rosca pensado por um inglês. Eu quero contar histórias de amor de gente com marcas de mordida. De gente que se sacrifica de verdade. De quem sofre o que eu, Romeu e Julieta, por sorte e não por mérito, escapamos de sentir. Quero contar histórias de gente mastigada pela cidade, pela vida. E que - ainda assim - ama, não como quem ama uma boneca de porcelana, mas como quem ama gente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-1942978485438683077?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/1942978485438683077/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=1942978485438683077&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1942978485438683077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1942978485438683077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/05/porra-de-shakespeare.html' title='Porra de Shakespeare*'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-961000508372353647</id><published>2009-04-09T15:21:00.006-03:00</published><updated>2009-04-30T20:04:56.408-03:00</updated><title type='text'>Gosto de Concreto</title><content type='html'>&lt;meta equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8"&gt;&lt;meta name="ProgId" content="Word.Document"&gt;&lt;meta name="Generator" content="Microsoft Word 12"&gt;&lt;meta name="Originator" content="Microsoft Word 12"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:trackmoves/&gt;   &lt;w:trackformatting/&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:punctuationkerning/&gt;   &lt;w:validateagainstschemas/&gt;   &lt;w:saveifxmlinvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt;   &lt;w:ignoremixedcontent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt;   &lt;w:alwaysshowplaceholdertext&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;   &lt;w:donotpromoteqf/&gt;   &lt;w:lidthemeother&gt;PT-BR&lt;/w:LidThemeOther&gt;   &lt;w:lidthemeasian&gt;X-NONE&lt;/w:LidThemeAsian&gt;   &lt;w:lidthemecomplexscript&gt;X-NONE&lt;/w:LidThemeComplexScript&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;    &lt;w:dontgrowautofit/&gt;    &lt;w:splitpgbreakandparamark/&gt;    &lt;w:dontvertaligncellwithsp/&gt;    &lt;w:dontbreakconstrainedforcedtables/&gt;    &lt;w:dontvertalignintxbx/&gt;    &lt;w:word11kerningpairs/&gt;    &lt;w:cachedcolbalance/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;   &lt;m:mathpr&gt;    &lt;m:mathfont val="Cambria Math"&gt;    &lt;m:brkbin val="before"&gt;    &lt;m:brkbinsub val="&amp;#45;-"&gt;    &lt;m:smallfrac val="off"&gt;    &lt;m:dispdef/&gt;    &lt;m:lmargin val="0"&gt;    &lt;m:rmargin val="0"&gt;    &lt;m:defjc val="centerGroup"&gt;    &lt;m:wrapindent val="1440"&gt;    &lt;m:intlim val="subSup"&gt;    &lt;m:narylim val="undOvr"&gt;   &lt;/m:mathPr&gt;&lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:latentstyles deflockedstate="false" defunhidewhenused="true" defsemihidden="true" defqformat="false" defpriority="99" latentstylecount="267"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="0" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Normal"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="heading 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 7"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 8"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 9"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 7"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 8"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 9"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="35" qformat="true" name="caption"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="10" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Title"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="1" name="Default Paragraph Font"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="11" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Subtitle"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="22" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Strong"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="20" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Emphasis"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="59" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Table Grid"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" unhidewhenused="false" name="Placeholder Text"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="1" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="No Spacing"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" unhidewhenused="false" name="Revision"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="34" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="List Paragraph"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="29" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Quote"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="30" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Intense Quote"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="19" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Subtle Emphasis"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="21" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Intense Emphasis"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="31" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Subtle Reference"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="32" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Intense Reference"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="33" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Book Title"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="37" name="Bibliography"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" qformat="true" name="TOC Heading"&gt;  &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;style&gt; &lt;!--  /* Font Definitions */  @font-face 	{font-family:"Cambria Math"; 	panose-1:2 4 5 3 5 4 6 3 2 4; 	mso-font-charset:0; 	mso-generic-font-family:roman; 	mso-font-pitch:variable; 	mso-font-signature:-1610611985 1107304683 0 0 159 0;} @font-face 	{font-family:Calibri; 	panose-1:2 15 5 2 2 2 4 3 2 4; 	mso-font-charset:0; 	mso-generic-font-family:swiss; 	mso-font-pitch:variable; 	mso-font-signature:-1610611985 1073750139 0 0 159 0;}  /* Style Definitions */  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal 	{mso-style-unhide:no; 	mso-style-qformat:yes; 	mso-style-parent:""; 	margin-top:0cm; 	margin-right:0cm; 	margin-bottom:10.0pt; 	margin-left:0cm; 	text-align:justify; 	line-height:115%; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:11.0pt; 	font-family:"Calibri","sans-serif"; 	mso-fareast-font-family:Calibri; 	mso-bidi-font-family:"Times New Roman"; 	mso-fareast-language:EN-US;} .MsoChpDefault 	{mso-style-type:export-only; 	mso-default-props:yes; 	font-size:10.0pt; 	mso-ansi-font-size:10.0pt; 	mso-bidi-font-size:10.0pt; 	mso-ascii-font-family:Calibri; 	mso-fareast-font-family:Calibri; 	mso-hansi-font-family:Calibri;} @page Section1 	{size:595.3pt 841.9pt; 	margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; 	mso-header-margin:35.4pt; 	mso-footer-margin:35.4pt; 	mso-paper-source:0;} div.Section1 	{page:Section1;} --&gt; &lt;/style&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;&lt;/span&gt;  &lt;meta equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8"&gt;&lt;meta name="ProgId" content="Word.Document"&gt;&lt;meta name="Generator" content="Microsoft Word 12"&gt;&lt;meta name="Originator" content="Microsoft Word 12"&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:trackmoves/&gt;   &lt;w:trackformatting/&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:punctuationkerning/&gt;   &lt;w:validateagainstschemas/&gt;   &lt;w:saveifxmlinvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt;   &lt;w:ignoremixedcontent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt;   &lt;w:alwaysshowplaceholdertext&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;   &lt;w:donotpromoteqf/&gt;   &lt;w:lidthemeother&gt;PT-BR&lt;/w:LidThemeOther&gt;   &lt;w:lidthemeasian&gt;X-NONE&lt;/w:LidThemeAsian&gt;   &lt;w:lidthemecomplexscript&gt;X-NONE&lt;/w:LidThemeComplexScript&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;    &lt;w:dontgrowautofit/&gt;    &lt;w:splitpgbreakandparamark/&gt;    &lt;w:dontvertaligncellwithsp/&gt;    &lt;w:dontbreakconstrainedforcedtables/&gt;    &lt;w:dontvertalignintxbx/&gt;    &lt;w:word11kerningpairs/&gt;    &lt;w:cachedcolbalance/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;   &lt;m:mathpr&gt;    &lt;m:mathfont val="Cambria Math"&gt;    &lt;m:brkbin val="before"&gt;    &lt;m:brkbinsub val="&amp;#45;-"&gt;    &lt;m:smallfrac val="off"&gt;    &lt;m:dispdef/&gt;    &lt;m:lmargin val="0"&gt;    &lt;m:rmargin val="0"&gt;    &lt;m:defjc val="centerGroup"&gt;    &lt;m:wrapindent val="1440"&gt;    &lt;m:intlim val="subSup"&gt;    &lt;m:narylim val="undOvr"&gt;   &lt;/m:mathPr&gt;&lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:latentstyles deflockedstate="false" defunhidewhenused="true" defsemihidden="true" defqformat="false" defpriority="99" latentstylecount="267"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="0" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Normal"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="heading 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 7"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 8"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="9" qformat="true" name="heading 9"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 7"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 8"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" name="toc 9"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="35" qformat="true" name="caption"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="10" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Title"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="1" name="Default Paragraph Font"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="11" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Subtitle"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="22" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Strong"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="20" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Emphasis"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="59" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Table Grid"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" unhidewhenused="false" name="Placeholder Text"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="1" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="No Spacing"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" unhidewhenused="false" name="Revision"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="34" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="List Paragraph"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="29" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Quote"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="30" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Intense Quote"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 1"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 2"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 3"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 4"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 5"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="60" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Shading Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="61" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light List Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="62" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Light Grid Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="63" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 1 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="64" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Shading 2 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="65" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 1 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="66" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium List 2 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="67" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 1 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="68" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 2 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="69" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Medium Grid 3 Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="70" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Dark List Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="71" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Shading Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="72" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful List Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="73" semihidden="false" unhidewhenused="false" name="Colorful Grid Accent 6"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="19" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Subtle Emphasis"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="21" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Intense Emphasis"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="31" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Subtle Reference"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="32" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Intense Reference"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="33" semihidden="false" unhidewhenused="false" qformat="true" name="Book Title"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="37" name="Bibliography"&gt;   &lt;w:lsdexception locked="false" priority="39" qformat="true" name="TOC Heading"&gt;  &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;style&gt; &lt;!--  /* Font Definitions */  @font-face 	{font-family:"Cambria Math"; 	panose-1:2 4 5 3 5 4 6 3 2 4; 	mso-font-charset:0; 	mso-generic-font-family:roman; 	mso-font-pitch:variable; 	mso-font-signature:-1610611985 1107304683 0 0 159 0;} @font-face 	{font-family:Calibri; 	panose-1:2 15 5 2 2 2 4 3 2 4; 	mso-font-charset:0; 	mso-generic-font-family:swiss; 	mso-font-pitch:variable; 	mso-font-signature:-1610611985 1073750139 0 0 159 0;}  /* Style Definitions */  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal 	{mso-style-unhide:no; 	mso-style-qformat:yes; 	mso-style-parent:""; 	margin-top:0cm; 	margin-right:0cm; 	margin-bottom:10.0pt; 	margin-left:0cm; 	text-align:justify; 	line-height:115%; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:11.0pt; 	font-family:"Calibri","sans-serif"; 	mso-fareast-font-family:Calibri; 	mso-bidi-font-family:"Times New Roman"; 	mso-fareast-language:EN-US;} .MsoChpDefault 	{mso-style-type:export-only; 	mso-default-props:yes; 	font-size:10.0pt; 	mso-ansi-font-size:10.0pt; 	mso-bidi-font-size:10.0pt; 	mso-ascii-font-family:Calibri; 	mso-fareast-font-family:Calibri; 	mso-hansi-font-family:Calibri;} @page Section1 	{size:595.3pt 841.9pt; 	margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; 	mso-header-margin:35.4pt; 	mso-footer-margin:35.4pt; 	mso-paper-source:0;} div.Section1 	{page:Section1;} --&gt; &lt;/style&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable 	{mso-style-name:"Tabela normal"; 	mso-tstyle-rowband-size:0; 	mso-tstyle-colband-size:0; 	mso-style-noshow:yes; 	mso-style-priority:99; 	mso-style-qformat:yes; 	mso-style-parent:""; 	mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; 	mso-para-margin:0cm; 	mso-para-margin-bottom:.0001pt; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:11.0pt; 	font-family:"Calibri","sans-serif"; 	mso-ascii-font-family:Calibri; 	mso-ascii-theme-font:minor-latin; 	mso-fareast-font-family:"Times New Roman"; 	mso-fareast-theme-font:minor-fareast; 	mso-hansi-font-family:Calibri; 	mso-hansi-theme-font:minor-latin; 	mso-bidi-font-family:"Times New Roman"; 	mso-bidi-theme-font:minor-bidi;} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Estendi o pote. O homem despejou um pouco de sua cerveja dentro. Era um daqueles potes de plástico, de sorvete. Achei esse pote em uma lata de lixo há alguns anos. Eu sorri em agradecimento, ele aquiesceu. Virei o gole de cerveja, limpei a boca na manta esburacada pelas traças que trazia jogada por sobre os ombros e continuei a andar pelo botequim. Fui até o balcão. Parei ao lado de um homem que bebia cachaça. Ele me pagou uma dose dupla. O atendente, que já me conhecia de longa data e não gostava de mim, pôs uma dose de cachaça num copo e deixou sobre o balcão. Peguei o copo e despejei a bebida no meu pote. “Vou levar pra viagem.” O homem que me pagou a bebida sorriu. O atendente fez cara de nojo. Me acostumei a despertar esse tipo de reação nas pessoas. Não sei se é o cheiro ou a barba. Ou o cheiro da barba. O fato é que as pessoas normalmente têm nojo de mim. O português encheu o copo americano de novo. Despejei a segunda dose no pote e agradeci a generosidade do homem mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;Saí do botequim andando em direção à esquina da Matilde, bebericando minha dose de cachaça. A esquina da Matilde era ladeira acima. Minhas pernas inchadas sempre reclamavam da subida. Mas eu gostava da Matilde. Valia o esforço. Matilde era uma prostituta muito gente fina. Me ajudou várias vezes nessa vida. É ela que cuida de mim, passa veneno nos meus cabelos e na minha barba quando tenho piolhos por causa da convivência com aquela gente dos abrigos por onde ando às vezes. Quando quebrei a perna, ela que cuidou de mim. Me deixou ficar em sua casa enquanto não tirava o gesso, fez comida pra mim, pagou as consultas no hospital. Quando tirei o gesso, ela ofereceu a casa pra eu ficar mais tempo, até morar, quem sabe. Não quis. Não ia dar certo. Não fui feito pra morar em casa com mulher. Disse isso a ela. Que não aceitava ficar atrapalhando, sendo sustentado por ela. Ela não precisava de um bêbado na vida, que já era difícil o bastante. Além do mais, eu sei que não sou exatamente o tipo de pessoa com quem se pode contar. Tinha medo de me acomodar com a situação. De dever explicações que sabia não ter mais paciência para dar. Não fiquei na casa. Mas a amiga eu mantenho&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Matilde estava especialmente bonita. Os cabelos pretos jogados sobre os ombros, coxas de fora, salto alto. Um contraste com a minha barba enorme, densa feito bloco de concreto e fedorenta feito cachorro molhado, e o meu sorriso de dois dentes. Apesar dela também não ostentar muitos em sua boca. “Oi, bonitão.” Me disse, estalando um beijo na minha bochecha. Sorri sem-graça. “Como vão as coisas?” Perguntou rindo-se da minha timidez. “Vão como sempre foram.” “Isso é mal.” “Ainda não. Mal vai ser o dia que a cachaça secar.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um gordão chegou, combinou um preço com a Matilde e os dois saíram de mãos dadas. A Matilde cobra uma mixaria. Se eu tivesse dinheiro, pagaria três, quatro vezes o preço que ela cobra. É o maior mulherão. Ela devia se valorizar mais. É. Devia mesmo. Vou dizer isso a ela na próxima vez que a gente se esbarrar por aí. Mas, me corta o coração mesmo é ver a coitada apanhar daquele cafetão. E da polícia. Não sei qual é pior&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi gritos. Voz de mulher. “Pára, pára.” Voz conhecida. Procurei pela voz e vi a Hilda caída no chão. Vestido rasgado, filete de sangue descendo pela boca. Três garotos com roupas de classe média estavam em volta dela. A Hilda é minha ex-namorada. Quer dizer, acho que dá pra chamar assim. A gente trocou uns beijos uma vez. Mas ela me trocou por outro. Um malandro que andava por essas bandas. Foi morar com ele e tudo. E espalhou pra turma que meu pau era pequeno. Vaca. Se fodeu. O malandro, depois de muito bater nela, deu-lhe um pé na bunda. Agora ela tá por aí. Vagando sem teto que nem eu. E tomando porrada de filhinho de papai entediado. Eu reconheci um dos garotos. Era o mesmo que quebrara minha perna. Sentei no meio-fio e assisti ao show em meio a goladas de cachaça. Os garotos chutavam a barriga da coitada, chutavam o rosto, tudo o que dava. Até que a arrastaram pelos cabelos pro beco, e eu vi as silhuetas deles revezando-se sobre a silhueta dela. Ela pediu “Por favor” e “Pelo amor de Deus” pra eles pararem várias vezes. Não adiantou porra nenhuma. Eles nunca param&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém interveio. Nem eu, todo inchado e bêbado sentado na calçada, nem as pessoas do botequim, nem as putas pela rua. Ficou todo mundo fingindo não escutar os gritos e torcendo para aquilo acabar logo&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eles acabaram, deixaram a silhueta da minha ex-namorada largada no beco, subiram as calças e foram embora de nariz empinado e sorriso no rosto. Eu andei até o beco, achei a Hilda no chão. Chorando, com o vestido trucidado. Toda vermelha de tanta porrada e a cara enfiada na calçada. O rosto sujo de alguma coisa que escorria das caçambas de lixo ao redor. Entreguei meu pote pra ela. “Bebe. Vai te ajudar, eu prometo. Vai tirar o gosto de concreto da boca.” Ela sorriu e deu uma golada. Ouvimos um barulho de freada, muito alto. Mais tarde me disseram que foi um motorista bêbado que atropelou os três estupradores. Um morreu na hora, o outro quebrou a bacia e o último teve um braço arrancado. Disseram também que todo mundo na rua, quando viu a cena, correu pra ajudar. “Porra nenhuma.”, pensei, cético e amargurado, mas crente na justiça divina. “Essa gente gosta é de sangue. Correram foi pra ver a desgraça de perto. Olhar a morte no olho. A morte dos outros. Quando for a deles, os covardes vão desviar o olhar, como todo mundo.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Arial&amp;quot;,&amp;quot;sans-serif&amp;quot;;"&gt;"&lt;br /&gt;___________________________________________&lt;br /&gt;*Versão revista do texto postado nesse blog em 16 de setembro de 2007 sob o título de Antropologia Urbana.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-961000508372353647?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/961000508372353647/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=961000508372353647&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/961000508372353647'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/961000508372353647'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/04/gosto-de-concreto.html' title='Gosto de Concreto'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-6237397917555871810</id><published>2009-04-05T02:24:00.001-03:00</published><updated>2009-04-05T02:27:16.321-03:00</updated><title type='text'>Odisséia</title><content type='html'>“Pra onde você vai agora?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pra casa da minha avó.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Entra aí que eu te levo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri a porta do carro pra que ela entrasse. Ela sentou o corpo no banco do carona. Fechei a porta e dei a volta no carro. A barriga tremeu. Roncou. Cacete. Sentei-me ao volante torcendo pra dar tudo certo. Dei a partida e saí com o carro. Uma curva, outra. Um retorno. A barriga tremeu de novo. Roncou de novo. O cú piscou. Queria ser religioso nessas horas. Mas não era. Não tinha um deus pra quem eu pudesse pedir pra segurar a merda mais um pouco. Meu diálogo era só com o meu rabo mesmo. E ele não dava sinais de que queria cooperar. Mais uma curva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eita, olha quem ta ali!.”, ela disse me apontando um amigo que andava ao sol. Certamente estávamos indo para o mesmo lado. Parei o carro rapidamente na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Entra aí, Zé.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele entrou. Não me lembro, em absoluto, da conversa daí pra frente. Mas papeamos os três. Mais os dois, eu dirigia. E rezava. Depois de um outro retorno, o cú piscou mais uma vez. Os pêlos do meu braço se arrepiaram. Tentei esconder. Vislumbrei a possibilidade de usar um banheiro qualquer, uma moita. Qualquer coisa. Comecei a duvidar de que daria tempo de chegar em casa. Curva, curva, curva. Encostei o carro. “Falou, moleque.” Engatei a primeira, segunda, terceira, curva. Cú piscando. Curva. Parei o carro na frente do prédio. Eu queria pedir pra subir, pra usar o banheiro. Queria muito. Dona Lili nunca mais olharia na minha cara, se a bomba que eu estava pra soltar fosse tão feia quanto eu imaginava. Não me importava. Qualquer coisa seria mais fácil de agüentar do que aquilo. Eu queria pedir pra subir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tchau, amor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tchau.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela desceu do carro, me jogou um beijo que eu não lembro se retribuí. Arranquei com o carro. Retorno, curva, quebra-mola. Não! Quebra-mola é maldade. A barriga virou de cabeça pra baixo. Todo arrepiado de novo. Saquei o celular e disquei o número da minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alô.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alô, mãe?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oi. Já chegou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Ué, já terminou o que tinha que fazer?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já. A loja tava fechada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já posso te buscar então?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então deixa pra lá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que você queria?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada. Depois eu te explico. Tô chegando aí.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curva. Faixa meio vazia. Agradeci. Sessenta por hora. Pardal. Cento e vinte. Sessenta. Pardal. É o último aqui. Cento e vinte. Reduzi. Curva. Curva. Cento e vinte. Curva aberta a cento e vinte mesmo. Sessenta. Pardal. Pisei fundo de novo. Setenta. Pardal. Pisei de novo. Curva. Sinal verde! Quase chorei de alegria. Rotatória, curva. Puta que pariu! Um Gol preto andando a vinte por hora! Não dava pra ultrapassar. Caralho! Agonia. Muita agonia. O Gol virou à esquerda, enfim. Pisei fundo, curva. Vaga! Desliguei o carro e desci. Minha mãe já vinha em minha direção. Ainda bem. Comecei a acreditar que tudo ficaria bem de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oi, mãe.” Entramos no carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que você queria aquela hora?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Queria perguntar se você se importava de esperar mais um pouco, se ainda não tivesse terminado de resolver as coisas. Queria passar em casa antes. Aí voltava pra te buscar. Acho que to passando mal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que foi?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dor de barriga.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vixe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rotatória. Ia ter que entrar na via principal. Sinal fechado pra eles. Agradeci aos céus. Retorno. Caralho. No retorno não tinha sinal. Era esperar parar de vir carro. Ia demorar. A quantidade de carros que vinha me ocupar a pista era um absurdo. Cidadezinha pra ter carro. Puta merda. Não, merda não. Por enquanto não. O cú piscava, os pêlos se eriçavam. A barriga era um terremoto permanente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esse retorno a essa hora é um inferno.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ô.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente. Um Versailles vinho mantinha uma distância boa de um Celta prata. Não dava pra ficar ali, mas dava pra passar à faixa da direita, que estava livre. O Versailles passou. Entrei na pista. Faixa da direita. Pé fundo no acelerador. Ou não. Muito carro. O Celta passou por mim, pulei pra faixa da esquerda. Ninguém passava de sessenta por hora. Agonia. Muita agonia. Eu já balançava compulsivamente a perna esquerda. A barriga roncava. Eu me arrepiava. Gotas de um suor gelado escorriam da minha testa pelo rosto. Freio! Dois carros à minha frente, freando para não entrarem na traseira de um inconseqüente que cruzou a faixa fechando todo mundo para pegar um retorno. O susto serviu, pelo menos, pra dar uma trancada. Mas o mal-estar só aumentava com a agonia. Começamos a andar de novo. Ninguém passava de sessenta. As duas faixas cheias de carro. Desespero. O suor frio pingava. Liberou a faixa da direita, pulei pra ela. Pisei fundo. Costurei alguns carros, sem precisar reduzir a velocidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Filho, me deixa aqui no supermercado então, que eu tenho uma coisa pra fazer. Vai pra casa, resolve sua vida aí e depois volta pra me pegar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei no recuo para o estacionamento. Parei o carro. Minha mãe desceu. Arranquei com o carro. Precisava voltar à via principal para pegar a entrada para a quadra onde moro. Puta merda. Milhões de carros de novo. Muitos. Muitos carros. O desespero me consumia. Não conseguia pensar. Quase entrei na pista umas três vezes sem ter espaço. Cacete! Eu já estava nessa pista! Sair pra voltar é brincadeira! A entrada era logo ali! Abriu uma brecha. Enfiei o carro e fui até o acostamento. Fui pelo acostamento mesmo até a entrada da quadra, torcendo para que nenhum policial do posto ali em frente visse a manobra e me mandasse parar. Não viram. Entrei. Agora estava perto. Era uma rotatória e uma curva. Ia dar tudo certo. Desci até a rotatória. Colei em um Uno verde escuro, que estava colado na traseira de uma van escolar. A van fazia a manobra devagar-quase-parando. Xinguei um sem número de gerações do motorista da van. Por que é que quando estamos chegando perto do destino, a dor de barriga vai piorando? Por que é mais difícil de segurar uma caganeira quando se está perto de casa? A van terminou a rotatória. Quebra-mola. A van entrou à direita. Dei graças a deus, em quem eu já até acreditava a essa altura do campeonato. O Uno não acelerou. Manteve-se à minha frente à mesma velocidade de quando perseguia a van escolar. Uma loira dirigia, papeando, como estivesse em um salão de beleza, com os outros três ocupantes do carro. Tentei a ultrapassagem. Uma bicicleta. Sim, uma bicicleta vinha no meio da outra pista, no sentido contrário. Um carro despontava às suas costas. Não dava pra passar. Voltei a colar na traseira do Uno e esperei a eternidade que ele levou para liberar minha entrada à direita. Entrei, por fim. Desci até a casa quase sem saber se era mais difícil conter as lágrimas ou a merda. Parei o carro e acionei o portão eletrônico. A grade de ferro demorou três vezes mais que o normal para deslizar e abrir espaço pro meu desespero. Entrei, mandei o portão fechar às minhas costas. Parei o carro, peguei a chave de casa no porta-luvas e corri. Entrei em casa e fechei a porta sem trancar. Disparei para o banheiro. Entrei, tranquei a porta. Levantei a tampa do vaso, baixei as calças, a cueca e me sentei. Raios e trovões e terremotos. Um fedor terrível. E uma enxurrada de excremento. E o alívio. Uma conferida na cueca. Nem um pingo. Nenhuma freada. Vitória!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando terminei, levantei-me e olhei para o lado. Sem papel. Sem problemas. Tomo um banho. Apertei o botão da descarga. A água inundou a cavidade da privada. Encheu. E a água não desceu. Entupiu. Vida escrota.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-6237397917555871810?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/6237397917555871810/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=6237397917555871810&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6237397917555871810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6237397917555871810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/04/odisseia.html' title='Odisséia'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-6521339493435602262</id><published>2009-03-22T11:55:00.002-03:00</published><updated>2009-03-22T11:58:37.041-03:00</updated><title type='text'>Surpresa</title><content type='html'>A cabeça parecia ter três vezes o tamanho normal. Gosto metálico na boca seca. Princípio de náusea. Virei o rosto no travesseiro. Lá estava ela. Nua. Respirando fundo em seu sono. Achei-a feia. Não feia a um ponto repugnante. Mas feia. Quis lembrar-me do nome dela. Quis muito. Não consegui. Virei-me na cama e fitei o teto. Deixei que alguns minutos corressem. Não era a primeira vez que acordava em uma cama estranha, com uma mulher estranha, depois de uma noite como aquela. Os poucos flashes de memórias da noite anterior a que ainda tinha acesso invadiam-me a mente tão dolorosos que não gastava minhas energias tentando lembrar de nada. Olhava para o teto. Só olhava para o teto. Quase não me mexia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela revirou-se ao meu lado e sua mão encontrou meu peito. Estalou a língua como se tentasse descolá-la da boca. Suspirou fundo e, ainda soltando o ar, sussurrou um “Bom dia”. “Bom dia”, respondi forçando, mas não muito, um sorriso nos lábios. “Quer tomar café?”, a pergunta veio da pequena fresta entre seus lábios e o travesseiro, contra o qual seu rosto estava amassado. “Pode deixar que eu me viro, se não quiser levantar ainda.” “Tem certeza?” “Claro.” “Tá bom, então. Você sabe onde fica a cozinha.” Não, eu não sabia onde era a cozinha. Mas num apartamento daquele tamanho não seria difícil de achar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andar só de cueca na casa dos outros é como andar pelado na multidão. Não me lembrava se ela tinha filhos que podiam acordar e me ver pela casa daquele jeito. A idéia também só me ocorreria tarde demais. Quando cheguei à cozinha, que não fora mesmo difícil de encontrar, pus-me a abrir alguns dos poucos armários à procura de uma leiteira. Encontrei uma. Enchi com água do filtro de barro, acendi o fogão e encaixei o fundo da leiteira na grade de uma das bocas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conseguia lembrar-me bastante bem do momento em que cheguei à festa na noite passada. Mas o que aconteceu depois disso, durante a festa, só me chegava em alguns poucos flashes. Lembro que bebia uísque com gelo de água-de-coco. Não lembrava de ter bebido nada diferente durante a festa. Na verdade, só de pensar no cheiro do malte e do álcool, meu estômago já embrulhava. A boate estava cheia, demorei a encontrar Paula, a aniversariante. Quando a encontrei, depois do abraço e dos votos de praxe, ela me apresentou a loira. A loira! É ela a culpada pela ressaca que me acompanha agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri a garrafa térmica que estava em cima da mesa e despejei o resto de café na pia. Abri mais algumas portas de armário e encontrei um funil e uma caixa de filtros de papel. Acomodei um filtro de papel, acompanhando o contorno interno do funil e deixei separado ao lado da garrafa. Um pote grande de plástico trazia uma etiqueta com “café” escrito. Enchi o funil até a metade com o pó de café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu gostei da tal loira. Gostei muito. Jéssica. Ela me cumprimentou com um beijo estalado no rosto e um sorriso lindo. Acho que eu já estava apaixonado a essa altura. Ela era a mulher mais bonita da festa, sem dúvidas. Conversamos durante muito tempo. Uma mulher linda, que gostava de futebol, filmes violentos e fast food. Eu queria casar com ela. E ela também gostou de mim. A noite apresentava um potencial de perfeição altíssimo. Eu estava encantado, hipnotizado. Não devia existir outra mulher no mundo com características tão perfeitas. Nós nos beijamos. Além de tudo a desgraçada beijava bem. Eu estava absorvido pelo massagear calmo de sua língua e pelas curvas de sua cintura, que eu tomei em meus braços. De repente tudo acabou. Ela me afastou. Cortou o beijo antes do fim. Baixou os olhos e, livrando-se de meu abraço anunciou a tragédia. “Não posso. Me caso semana que vem.” “Eu odeio ele.” “Ela”, corrigiu, “Vou casar com uma mulher.” Girou nos calcanhares e saiu. Não a vi mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A água ferveu. Apaguei o fogo e peguei a leiteira. Despejei parte da água na garrafa térmica, mexi, e despejei na pia. Repeti o processo. Quando julguei que a garrafa devia estar limpa, encaixei o funil com o filtro e o pó de café na boca da garrafa e enchi de água até a boca. Esperei a água baixar, e enchi mais uma vez. Repeti o movimento até que a água fervida se acabasse. Fechei a garrafa térmica, joguei no lixo o filtro e o pó que sobrou e deitei na pia a leiteira e o funil. Achei na geladeira um bolo pela metade, e cortei um pedaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rejeição da loira foi demais pra mim. Resolvi beber de verdade. Enchi o pote. Passei da conta. Foi quando encontrei essa feiosa que está no quarto agora. Eu estava terrivelmente bêbado, ela se aproximou, se insinuou. Não lembro de termos conversado muito. Trocamos poucas palavras no caminho. Não lembro sobre o que. Foi ela que me trouxe pra cá. Não lembro muito bem do que fizemos naquele quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sentei à mesa com uma xícara de café e um pedaço de bolo com gosto de geladeira. Passava os olhos pelo apartamento enquanto comia. O enjôo já estava melhorando. Foi quando aconteceu. Barulho de chave na porta de entrada. Quando olhei na direção da porta, ela se abria. Um homem parou na entrada quando percebeu minha presença. Por algum motivo suas feições não me eram estranhas. Baixei os olhos para os porta-retratos na mesinha de canto. Meu sangue gelou. Lembrei de onde conhecia aquele rosto. Me lembro de ter pego aquele mesmo porta-retrato nas mãos na noite anterior. “Você é casada?”, perguntei meio espantado. “Ele está viajando.” O desespero tomou conta da minha mente. O homem levou a mão direita ao bolso dentro do casaco e puxou um Taurus .38 com um olhar algo confuso e algo decidido lançado na minha direção. Tudo o que eu consegui dizer foi “Você só devia voltar na terça-feira.” Ele puxou o gatilho. Nos segundos em que o buraco no meu peito ainda não me matara ele respondeu, “Era pra ser uma surpresa.”. E foi, de fato, uma surpresa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-6521339493435602262?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/6521339493435602262/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=6521339493435602262&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6521339493435602262'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6521339493435602262'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/03/surpresa.html' title='Surpresa'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-4870730872537707641</id><published>2009-02-18T17:51:00.011-03:00</published><updated>2009-02-18T19:10:09.509-03:00</updated><title type='text'>Paris, Texas: A Redenção De Um Solitário</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não sou dado a fazer críticas cinematográficas. Não por escrito, pelo menos. Sempre fui um apaixonado por cinema. Até onde consigo voltar minhas memórias, o mais perto que consigo chegar dos meus primeiros dias, me confirmam isso. Sempre gostei muito dos filmes. Mas nunca passou disso. Nunca fui de conhecimentos lá muito técnicos. Sinceramente, nunca me peguei imaginando se uma cena seria melhor filmada num plano geral, ou num plano médio. Entendo a diferença. Mas não é o que me chama mais atenção quando sento pra assistir alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, por razão de uma matéria na faculdade, me vi obrigado a passar para o papel minhas impressões sobre algum filme que eu escolhesse. O filme de Wim Wenders “Paris, Texas” ganhou a palma de ouro, no Festival de Cannes, em 1984. Assim como o Prêmio Ecumênico do Júri e o Prêmio FIPRESCI no mesmo festival. Recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e ao Cesar, também de Melhor Filme Estrangeiro. Ganhou o Prêmio Bodil de Melhor Filme Europeu e ganhou o BAFTA de Melhor Diretor, além de ter sido indicado nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora. Mas nada disso corresponde à razão por que escolhi escrever sobre “Paris, Texas”. O fato é que, já que ia ter que escrever de qualquer jeito, melhor pegar um filme que eu goste. E “Paris, Texas” faz parte do meu Top 5. Ao lado de “O Poderoso Chefão” (Francis Ford Coppola, 1972), “Era Uma Vez no Oeste” (Sergio Leone, 1969), “Os Imperdoáveis” (Clint Eastwood, 1992) e “Taxi Driver” (Martin Scorsese, 1976). Acontece que, como sou fã do cinema americano, “Paris, Texas” é o mais Cult, mais alternativo dos cinco. Bom, achei que, lidando com os cults da faculdade de comunicação, onde pegava a matéria, era melhor do que escrever sobre bang-bangs e filmes de gangsters.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem ainda não assistiu, recomendo fortemente “Paris, Texas”. Como recomendo fortemente os outros quatro. Mas acredito que o texto é melhor absorvido por quem já assistiu ao filme. Portanto, se eu fosse você, assistira antes de ler esse ensaio (que, aliás, está repleto de spoilers). Na verdade, nem precisa ler o ensaio, é o de menos. Mas assista ao filme, vale a pena.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304248208111833986" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 210px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SZx5pGUCE4I/AAAAAAAAAGk/bT5UzxecxXM/s320/Paris,+Texas.bmp" border="0" /&gt; &lt;p align="center"&gt;(PARIS, TEXAS; Wim Wenders, Alemanha/França, 1984)&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Introdução&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O expectador que assiste a “Paris, Texas” pela primeira vez é, logo de cara, apresentado a Travis (Harry Dean Stanton). Vagando pelos secos pedaços de terra do Deserto de Mojave, belissimamente captado pela fotografia de Robby Müller, Travis é um verdadeiro trapo. Um terno negro e um boné vermelho de beisebol sujos de poeira e ensopados de suor. O corpo magro, a pele do rosto castigada pelo sol inclemente do deserto, a barba grande e vasta e os olhos injetados como os de alguém que ainda se recupera de um enorme porre. Travis desmaia em uma birosca no meio de lugar nenhum, desidratado, e é socorrido por um médico local. É quando o expectador descobre que Travis está mudo. Mais tarde, percebe também indícios de amnésia, além de ser informado que ninguém tem notícias daquele homem há quatro anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece natural, diante de um diagnóstico tão perturbador, que esse expectador imagine se tratar de um filme sobre o que aconteceu na vida daquele homem para levá-lo àquele estado. Que tipo de problema seria capaz de fazê-lo acabar assim. Se enganaria o expectador, se assim pensasse. O que Wim Wenders nos apresenta nessas belíssimas primeiras cenas – de um filme repleto de belas cenas – é nada mais que o início da história. Não há flashbacks em “Paris, Texas”. Apesar desse passado misterioso e, certamente, trágico ser premissa do filme e estar presente durante toda a projeção, se revelando aos poucos, o objetivo principal do filme não é mostrar toda sorte de tragédias que podem ocorrer na vida de um homem. O objetivo é, pelo contrário, narrar a redenção desse homem. Seu ressurgimento das cinzas de sua própria vida e da de seus entes mais próximos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Paris, Texas: Um road movie com destino à cicatrização das feridas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O road movie é um gênero clássico do cinema estadunidense. Muitas vezes referido no Brasil por sua tradução literal, filme de estrada, o gênero costuma abrigar “&lt;em&gt;personagens solitárias, errantes, que vagam incessantemente de um lugar a outro, fugindo de um passado tão doloroso quanto misterioso, única forma encontrada de expiar a culpa que carregam pela sua história.&lt;/em&gt;”. É mais ou menos assim que Travis é apresentado no início do filme. Um belíssimo plano geral e uma leve plongée reverenciam a vastidão e a aridez do deserto visto de cima, e Travis é um ponto negro vagando sem rumo por aquela imensidão. Errante. Solitário. Esmagado contra o chão, engolido pela paisagem ao seu redor. O vazio interior do personagem nos é apresentado tão profundo e devastador quanto o vazio do deserto, aquele vácuo de civilização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico que atende Travis por conta de seu desmaio consegue, através de um cartão que encontra na carteira do andarilho, contatar Walt (Dean Stockwell), irmão de Travis. Walt sai de Los Angeles, onde mora, até o sul do Texas para buscar o irmão, de quem não tem notícia alguma há quatro anos. Quando chega à clínica, no entanto, o médico lhe explica que seu irmão está mudo, e que desapareceu de novo na manhã daquele mesmo dia. Walt encontra o irmão andando sem rumo próximo a uma estrada. Travis demora e reconhecê-lo, mas concorda em entrar no carro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304250012797197842" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 250px; CURSOR: hand; HEIGHT: 190px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SZx7SJSjXhI/AAAAAAAAAG8/KcJ4pl-Td60/s320/Paris,+Texas6.bmp" border="0" /&gt;Walt teria que buscar Travis pela estrada ainda mais uma vez, depois que o protagonista foge dos cuidados do irmão enquanto estava sozinho em um quarto de hotel. Dessa vez, Travis segue uma linha de trem cujo destino é o horizonte. Ele só volta para o carro com o irmão e para a viagem até Los Angeles quando Walt o convence que não há nada para Travis naquele destino incerto. É a partir daí que temos a realização plena do road movie. Travis não concorda em viajar de avião, e os dois irmãos seguem a viagem de carro. E é também a partir daí que o contato com o irmão vai despertando em Travis as primeiras lembranças do que aconteceu à sua vida, e o início de sua viajem rumo à redenção quando, já com vinte e cinco minutos de projeção, Travis quebra seu silêncio e diz sua primeira palavra: “Paris”.&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304249567522960066" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SZx64Og5ssI/AAAAAAAAAG0/77ihFM2RUEc/s320/Paris,+Texas5.jpg" border="0" /&gt;Como bem coloca Diego Anami, "&lt;em&gt;é interessante o fato de sermos conduzidos à história do protagonista aos poucos, na mesma medida em que ele vai se deparando com seu passado, vamos nos deparando com os elementos da história, a linha narrativa do filme seguindo a perspectiva de Travis gera empatia e é interessante, há um grande passado que é premissa do filme, porém, enquanto o protagonista não se confronta com tal, nós não o sabemos. Portanto, mesmo que Paris, Texas utilize uma narrativa linear clássica, há uma forma um tanto fragmentada no modo como somos conduzidos pela história junto com o pouco comunicativo Travis.&lt;/em&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira das lembranças de Travis na construção desse caminho rumo à sua redenção nos é apresentada através de uma fotografia que o protagonista traz consigo. Na foto, não há nada mais que um terreno vazio, um pedaço de deserto, muito parecido com o cenário por onde Travis vagava. A Walt ele explica que aquela é uma foto de um pedaço de Paris. Um terreno que comprara pelo correio alguns anos antes. Na cidade de Paris, estado do Texas. Mas só algum tempo depois de dar essa explicação é que Travis consegue se lembrar por que comprara o tal terreno. Sua mãe lhe dissera que fora em Paris, Texas que “fizera amor” com seu pai pela primeira vez. Travis vê aquele pedaço de chão como sua origem. Como o lugar onde foi concebido. E é esse o seu ponto de partida no pedaço de sua vida que é narrada por Wim Wenders.&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304250320895346114" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 214px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SZx7kFC4BcI/AAAAAAAAAHE/qrGmeqY-O7c/s320/Paris,+Texas10.jpg" border="0" /&gt;Walt explica que quando Travis desaparecera, quatro anos antes, Hunter (Hunter Carson), filho de Travis, aparecera em sua porta e ele e Anne (Aurore Clément), sua esposa, passaram a cuidar do menino. Hunter só conseguia dizer que alguém o levara de carro até a casa de Walt e Anne e não sabia explicar o que tinha acontecido a seu pai, Travis, ou sua mãe, Jane (Nastassja Kinski). Walt explica também que tentou encontrar Jane e não conseguiu, assim como não conseguiu encontrar o próprio Travis. Assim é posto, portanto o primeiro desafio de Travis: a reconciliação com o filho, assim que ele e Walt chegam a Los Angeles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à reaproximação de Travis e Hunter, “&lt;em&gt;a câmera de Wenders acompanha o processo de longe, sem pressa.&lt;/em&gt;”. Assim como Travis age sem pressa em relação a Hunter, entendendo a dificuldade do menino em assimilar a nova situação, dando o espaço de que ele precisa. ”&lt;em&gt;Wenders evita os closes, prefere deixar algum espaço entre seus personagens e a platéia. Assim, não invadimos por completo as intimidades de Travis e Hunter.&lt;/em&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após uma tentativa frustrada de reaproximação – Travis pede para buscar Hunter na escola, mas o menino o rejeita, ele não quer voltar para casa a pé, “Todo mundo vai de carro...” – Travis, Walt, Anne e Hunter sentam-se para assistir a um vídeo caseiro, em Super-8, feito por Walt alguns anos antes, quando Travis, Jane e Hunter ainda estavam juntos em um fim de semana na praia acompanhados por Walt e Anne. Intercalando cenas de uma família feliz no passado e as reações de Travis no presente ao assistir às cenas, Wenders produz um dos mais belos fragmentos da história do cinema. De uma força e sutileza incríveis. O filme em Super-8, inundado de luz, granulado, de câmera na mão e embalado pela música de Ry Cooder mostra uma família feliz em um típico filme caseiro. O presente sempre cheio de pontos escuros, em jogos de luz e sombra perfeitos, é triste, comedido e silencioso.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=Dt42lwoHp9U"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=Dt42lwoHp9U&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ao fim do filme caseiro, Hunter, que era até então separado de Travis por um balcão, está ao lado do pai. E é assim que o chama, de pai, quando despede-se de todos, mandado para a cama por Anne. A memória de tempos felizes trazida pelo vídeo serve de empurrão para a reaproximação definitiva dos dois. Assim como serve de empurrão para que Travis decida que deve remediar a situação em que se encontram os personagens daquela estória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, Travis procura se parecer com um “pai”. Com a ajuda da empregada da casa, muda as roupas, o olhar, a postura e o caminhar. A tentativa de transformar sua figura em uma figura de um pai é recompensada quando vai buscar Hunter na escola. Desta vez os dois voltam andando. Hunter em uma calçada, de um lado da rua. Travis do outro. Os dois vão olhando-se, sorrindo, e fazendo graça um para o outro. Ao fim da cena, Travis atravessa a rua em direção a Hunter e o lírico acorde da guitarra de Ry Cooder reforça o simbolismo da belíssima cena. Travis e Hunter terminam o caminho andando lado a lado. Pai e filho reconciliados enfim.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304250739464430082" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 260px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SZx78cVhYgI/AAAAAAAAAHM/i9jf7pRJ-l8/s320/Paris,+Texas11.jpg" border="0" /&gt;A segunda parte da redenção de Travis se apresenta quando Anne conta-lhe que Jane ligava, logo que deixara Hunter com ela e Walt, para saber do menino. Conta também que já não falava com Jane há pouco mais de um ano, mas que ela a havia pedido para abrir uma conta bancária para Hunter e depositava, no dia cinco de todo mês uma quantia em dinheiro para o futuro do filho. A seu pedido, o banco havia rastreado os depósitos. Vinham de um banco em Houston, Texas. E é através dessa informação que Travis decide tentar encontrar Jane. Quando conta a Hunter o que vai fazer, o menino se prontifica a ir junto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia cinco de novembro, Travis e Hunter chegam a Houston. Os dois vão ao banco em que Jane faz os depósitos na esperança de encontrá-la. Pai e filho separam-se para cobrir uma área maior, e comunicam-se por um par de walkie-talkies. Tanto Travis quanto Hunter, no entanto, caem no sono. O menino acorda exatamente a tempo de reconhecer a mãe em um dos carros que está saindo do banco. Travis demora a acordar e atender o chamado do filho pelo walkie-talkie, o que obriga os dois a seguirem de longe o carro de Jane até seu local de trabalho pelas movimentadas vias expressas de Houston.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Travis entra sozinho, deixando Hunter no carro, à procura de Jane, para descobrir que a mulher trabalha em cabines de peep-show. A cena é perfeita. A subjetiva frontal nos coloca na perspectiva de Travis, que vê Jane dentro da cabine através de um vidro especial que não permite que ela o veja. E ele não se identifica. Uma delicada composição de quadro põe Jane no centro da tela, onde reina absoluta. O centro da atenção de Travis e da nossa.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=zL3xjLymeLo&amp;amp;eurl=http://www.ufscar.br/rua/site/?p=761"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=zL3xjLymeLo&amp;amp;eurl=http://www.ufscar.br/rua/site/?p=761&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A experiência é um baque para Travis, que deixa o estabelecimento, visivelmente atordoado, direto para um bar, nos arredores da cidade. É quando mostra a Hunter a fotografia do terreno em Paris, Texas. “Comprei quando estávamos juntos, eu, você e sua mãe. Esperava que nós pudéssemos morar lá um dia.”. “Na terra?”, pergunta Hunter, do fundo de sua marcante objetividade. Travis sorri. É isso. Paris, Texas não será possível. Não há maneira de os três voltarem a formar uma família. Em Paris, Texas não há uma casa, ou um trailer onde viver. Só há terra. Assim como na relação entre Travis e Jane há amor, mas não há estrutura que a mantenha de pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia seguinte é decisivo, é a hora de terminar a viajem pelo passado. Travis deixa Hunter em um quarto de hotel, com uma mensagem de despedida na memória de um gravador, e segue em direção a Jane.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo encontro entre os dois é apresentado de forma diferente. De volta à cabine de peep-show, dessa vez não há subjetivas. Vemos Jane fazendo parte da composição do quadro, atrás do vidro, fragilizada. Travis, no primeiro plano, recusa a condição de voyeur instaurada pela cabine virando sua poltrona de costas para o vidro, como que tentando estabelecer uma igualdade de condições em relação a Jane, que não pode vê-lo. Ao expectador não é permitido o mesmo subterfúgio. Nossa condição de voyeurs é irremediável e fragiliza os personagens. Sobretudo Jane. Os movimentos de Travis aparentam ser controlados demais, deixando claro que o homem está, na verdade, à beira do descontrole. A forma cuidadosa como apóia o telefone em cima da mesa, como levanta-se e vira sua poltrona de costas para Jane deixam claro o esforço desprendido por Travis para manter-se controlado.&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304250973118182690" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 180px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SZx8KCw6tSI/AAAAAAAAAHU/AGs3zYpnbMk/s320/Paris,+Texas8.jpg" border="0" /&gt;A partir desse quadro, Travis começa a narrar a história dos dois, sempre em terceira pessoa, para Jane que, desde o início demonstra identificar-se com a narrativa familiar. A partir do momento em que não há dúvidas para ela que a estória contada no tom monocórdio da voz de Travis diz respeito à sua própria história, Jane deixa de conter o choro e é só a partir de seu choro que Wenders passa a utilizar close-ups em seu rosto fragilizado. Essa é a grande prova de que Paris, Texas é uma estória sobre a redenção de um homem, não sobre sua queda. A opção de Wenders – e do roteirista Sam Shepard – de privilegiar esse relato e não nos mostrar em flashback as imagens dramáticas da tragédia por que passaram Travis, Jane e Hunter, deixam claras as prioridades da estória. Ao fim do relato, ela aproxima-se do vidro, demonstrando ter reconhecido seu interlocutor. Travis volta sua poltrona para a posição normal e, então, em uma genialidade gritante de Wenders e Müller, as imagens dos rostos de Travis e Jane sobrepõe-se no vidro. Suas almas, ainda unidas. Mas seus corpos agora não dividem sequer o mesmo cômodo. &lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5304251286572186610" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 182px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SZx8cSeLO_I/AAAAAAAAAHc/NrkPuX6sBsA/s320/Paris,+Texas13.jpg" border="0" /&gt;Quando Jane entra no quarto de hotel de Hunter, depois de receber de Travis a informação necessária para encontrá-lo, Wenders nos brinda com o mais belo abraço da história do cinema. Mãe e filho reconciliados, enfim. A cena final ainda nos trás Travis dirigindo, aparentemente sem rumo. Errante e solitário, como no início do filme. Agora, no entanto com a certeza do dever cumprido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=_ki9CjApBZ4"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=_ki9CjApBZ4&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um hino da solidão&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Dois aspectos contribuem imensamente tanto para a narrativa quanto para a beleza da paisagem fílmica de Paris, Texas. A primeira é a música de Ry Cooder. A segunda, a fotografia de Robby Müller.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ry Cooder é um especialista na técnica de slide guitar. Não trai essa condição em Paris, Texas. Com frases que retomam a canção “Dark was the night, Cold was the ground” de Blind Willie Johnson, Cooder intercala a secura e melancolia de sua guitarra com a aridez do deserto texano e a solidão de um homem que busca a redenção consigo mesmo. Os acordes exercem com perfeição o papel ora dramático, ora lírico da trilha sonora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buscando um estilo musical típico do sul dos Estados Unidos e apresentando canções em um formato exclusivamente instrumental e realizadas por um único violonista – expressão da solidão de um único conjunto de cordas ao invés de orquestras inteiras – Cooder mostra-se em perfeita harmonia com o ambiente apresentado por Wim Wenders.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro aspecto importante é o que Pedro Marcondes chamou de “&lt;em&gt;respeito ao silêncio com longos planos marcados pela sonoridade ambiente, como um entendimento da reflexão pessoal.&lt;/em&gt;”. Essa opção por respeitar os momentos de silêncio – marca não só da trilha sonora, como também dos diálogos esparsos, tornando o ritmo do filme mais lento – é um dos principais fatores que tornam a abordagem de Paris, Texas realista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, devo concordar com a conclusão a que chega Pedro Marcondes de que “&lt;em&gt;a mais valiosa lição desta trilha(...)é, sobretudo, a utilização da música como uma ferramenta cíclica, repetitiva, assim como sentimentos que invariavelmente nos invadem e perturbam.&lt;/em&gt;”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fotografando a incomunicabilidade&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A fotografia de Robby Müller é a perfeição. O abuso dos planos gerais de tirar o fôlego fragiliza e diminui os personagens, fazendo questão de integrá-los ao todo, sempre grandioso que os cerca e aumentando o espaço entre eles. Com externas sempre inundadas de luz, seja na vastidão e aridez do deserto, seja na melancólica e deserta paisagem urbana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além dos grandiosos planos gerais, as cores quentes também marcam profundamente a fotografia de Paris, Texas. Ao longo de todo o filme, as cores são dotadas de uma vivacidade tocante. O vermelho predominante e saturado marca na construção do humor dos personagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jogo de luz e sombra é digno de um filme dirigido por um alemão. “&lt;em&gt;O contraste e as sombras também estão muito bem colocados. Silhuetas e recortes que escondem rostos, mas mostram muito mais, fecham a construção de uma fotografia exemplar e original...&lt;/em&gt;”. Uma cena marcante nesse aspecto é quando Travis cantarola uma música típica da fronteira entre os Estados Unidos e o México enquanto lava os pratos. No andar de cima, Anne, nua, da cama abre mais a fresta da porta para ouvir a canção. As sombras do quarto escuro, a luz que vêm do corredor iluminado, as belas cores em tons escuros da cena e a composição de quadro com Anne parcialmente envolta nos lençóis deitada na cama conseguem transformar a tomada das costas nuas de uma mulher em uma cena marcada por uma sensualidade tocante, poética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A estética da bondade&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Paris, Texas apresenta uma característica pouco comum, tanto no cinema quanto na literatura. É um filme sem vilões. É um filme exclusivamente de mocinhos. Seus personagens são realistas, tem defeitos e qualidades, mas são todos dotados de uma moral absolutamente respeitadora no que diz respeito ao trato com outros seres humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Travis é um solitário. Ainda mais no início do filme que em seu final, mas é um solitário sempre. Lugar nenhum lhe parece familiar, então ele nunca pára. Ninguém lhe parece familiar, então não conversa. No entanto, à medida que vai se reintroduzindo na vida em sociedade, Travis se mostra capaz de gentilezas, como engraxar os sapatos da família e lavar a louça. Apesar de sua fragilidade no início do filme, Travis se mostra firme no seu objetivo de reunir mãe e filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jane é felicidade. Sua presença nos primeiros noventa e sete minutos de filme se resume aos diálogos, fotos e ao filme em Super-8. No entanto, ela é sempre sinônimo daquele passado feliz onde era figura presente. Jane é amor, daí vem a convicção de Travis – em muito influenciado pela relação com a própria mãe, de quem fala durante o filme – de que é imprescindível a re-união entre ela e Hunter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hunter é a objetividade de uma criança inteligente encarnada. Surpreende no seu movimento espontâneo de reaproximar-se de Travis e no vigor do desejo que demonstra em reencontrar a mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Walt é um pai de família. Mora nos subúrbios, tem dificuldades financeiras com a casa que foi muito cara e seu trabalho lhe toma tempo demais. É a figura do sonho americano. Demonstra com Travis e com Hunter e mesma paciência, e mostra-se sempre prestativo. É o grande responsável por garantir os aspectos práticos da empreitada de Travis, como dinheiro e cartões de crédito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anne é uma mulher carinhosa e uma mãe zelosa. Mostra para com Travis um carinho de mãe. Em todas as cenas em que os dois dividem a tela, ela demonstra uma atenção especial a ele, e quase sempre procura tocá-lo, seja com um braço passado por seu ombro, um beijo no rosto ou um afago com as costas da mão em seus cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A América segundo Wim Wenders&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Laura Cánepa explica que "&lt;em&gt;o Cinema Novo alemão foi uma escola com características únicas: os temperamentos individuais e os interesses estilísticos de cada um dos seus diretores eram muito variados, fazendo com que seu movimento fosse reconhecido sobretudo por suas condições de produção.(...) Esse sistema, que deu independência econômica aos cineastas em relação às bilheterias, permitiu-lhes trabalhar de maneira bastante pessoal e até idiossincrática, desenvolvendo trabalhos autorais e personas com status de grandes estrelas do mundo do cinema.&lt;/em&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais adiante, comenta: “&lt;em&gt;(...)de todos os cineastas do Cinema Novo alemão, Wenders foi o que mais discutiu a presença da cultura norte-americana em seu país, o que ajuda a explicar sua relação tão próxima e ao mesmo tempo tão crítica a Hollywood.&lt;/em&gt;”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paris, Texas é um belo exemplo dessa relação de Wenders com a cultura norte-americana. Todo o filme é marcado por um olhar estrangeiro sobre os Estados Unidos da América. Um olhar cheio de reverência, e ao mesmo tempo, cheio de melancolia. Wenders elogia e ataca a América a todo o tempo. A cena em que Travis e Hunter estão no banco em Houston é marcante. A câmera começa a percorrer os arredores, acompanhando os binóculos de Travis, quase que aleatoriamente, até que encontra, tremulando ao vento, a bandeira americana. Vista por um estrangeiro, sob as lentes dos binóculos, com direito a fade-out e acorde da guitarra de Ry Cooder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luiz Carlos Oliveira Jr comenta o interesse de Wenders nos Estados Unidos: "&lt;em&gt;O cinema de Wim Wenders chega aos EUA e encontra um espaço amplo, com planícies a perder de vista, paisagens semidesérticas que cedem sua face lisa à projeção de miragens. Ele não vai a Nova York, não quer se deparar com arranha-céus, mas sim com as cidades de baixa estatura, na horizontal, intercaladas aqui e ali por vácuos de civilização – por isso vai ao Texas, vai a Los Angeles. Os grandes planos gerais de Paris, Texas revelam uma paisagem monótona, com quarteirões uniformizados e pouquíssimos prédios, ou sem quarteirões e sem prédios, a terra se unindo ao céu num horizonte que mergulha na profundidade de campo.&lt;/em&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, Wenders passeia pelo blues, pelas imagens do deserto, os sons da cidade grande e o road movie. Assim Wenders representa o que lhe interessa e fascina. Assim, enxerga nos Estados Unidos um país submerso em imagens. E assim o retrata em Paris, Texas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A começar pela fotografia do terreno em Paris, Texas. As lembranças são todas motivadas por imagens. No início do filme, Travis vaga pelo deserto em busca do terreno da foto, que acredita ser sua origem. Quando deixa o quarto de hotel para vagar sem rumo de novo, Travis o faz após ver sua imagem no espelho do banheiro, e tudo o que ela representa, sua busca, seu passado dolorido. Ao chegar à casa de Walt, Travis se vê fascinado pelas fotografias na parede da escada. O filme em Super-8 funciona como um álbum de recordações, instigando a memória de Travis e Hunter, principalmente, através das imagens de um tempo feliz. Travis busca uma figura de pai para si, na ânsia de reaproximar-se do filho, e assim que isso acontece, os dois folheiam um álbum de antigas fotografias da família juntos. Durante a viajem para Houston, Travis dá uma fotografia de Jane a Hunter, para que ele se lembre dela por alguma outra fonte, diferente do filme Super-8. Jane, em sua cabine de peep-show, é também imagem a ser consumida, fetichizada. E no fim do filme, Hunter abraça a mulher que entra em seu quarto de hotel por que a reconhece da fotografia e do filme caseiro. Walt trabalha com outdoors publicitários, que Travis diz achar muito bonitos. Que melhor maneira de representar a enxurrada de estímulos visuais que a vida urbana da América proporciona? São as imagens que ligam os pontos da história do filme. As imagens e, principalmente, as memórias que elas despertam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica também a importância da tecnologia nesse mundo, nessa América que Wenders enxerga. A tecnologia da filmadora, capaz de produzir o filme Super-8. A tecnologia das máquinas fotográfica. A tecnologia da luz e dos espelhos da cabine de peep-show. A tecnologia que fascina Hunter, quando repete teorias físicas, ou quando se vê surpreso por ir procurar pela mãe em Houston, onde fica o centro espacial. Até mesmo a tecnologia de um par de walkie-talkies que ligam Travis e Hunter, comunicando-se por termos de filmes de ação. E a mediação da tecnologia nas relações humanas. O gravador que se despede de Hunter em nome de Travis, e a tecnologia do interfone da cabine de peep-show, de que Travis, nem Jane abrem mão em seu diálogo de reencontro. O que preocupa Wenders é a dificuldade dessa gente de se comunicar olho no olho. A necessidade de um aparato que facilite a fala em terceira pessoa de Travis. A dificuldade de se comunicar, enfim. Quão atual será essa crítica?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Bibliografia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;ABREU, Felipe. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984): A sutileza e a força de Wim Wenders. Disponível em http://www.ufscar.br/rua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANAMI, Diego Y. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984) – Uma reflexão: A reconstrução após as cinzas. Disponível em http://www.ufscar.br/rua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CÁNEPA, Laura Loguercio. Cinema Novo Alemão. In: MASCARELLO, Fernando. Historia do Cinema Mundial. Campinas, SP: Papirus, 2006.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARREIRO, Rodrigo. Paris, Texas: Wim Wenders leva a temática da incomunicabilidade ao poeirento deserto dos EUA. Disponível em http://www.cinereporter.com.br&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FRANÇA, André. Paris, Texas. Disponível em http://www.andrefranca.com/andre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARCONDES, Pedro. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984): A reflexão pela música de Ry Cooder em Paris, Texas. Disponível em http://www.ufscar.br/rua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARTIN, Marcel. A Linguagem Cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OLIVEIRA JR, Luiz Carlos. Sobre Paris, Texas. Disponível em http://www.paralelocentro.com.br &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-4870730872537707641?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/4870730872537707641/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=4870730872537707641&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/4870730872537707641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/4870730872537707641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/02/paris-texas-redencao-de-um-solitario.html' title='Paris, Texas: A Redenção De Um Solitário'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SZx5pGUCE4I/AAAAAAAAAGk/bT5UzxecxXM/s72-c/Paris,+Texas.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-8244188622820035903</id><published>2009-01-22T01:00:00.003-02:00</published><updated>2009-01-26T18:56:42.354-02:00</updated><title type='text'>Terrorismo de Deus</title><content type='html'>“Terremoto é o terrorismo da natureza. É programático, é estratégico. A natureza é terrorista, é estratégica. Terremoto é o terrorismo da natureza. É programático, é estratégico. A natureza é terrorista. É a estratégia de deus.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Música alta, batidas graves daquelas que se sente no estômago. A banda cantava. A pequena multidão aos pés do palco parecia dançar e repetir a letra sem atentar muito pro seu significado. Três moleques dançavam com garrafas de doses individuais de vodca nas mãos. Eu nunca os tinha visto antes. Estava há pouco mais de um minuto observando e já odiava os três. As calças jeans com riscos de azul claro e escuro, formando estampas abstratas. As camisas pareciam ser de um número menor do que eles deveriam estar usando. Apertadas. Curtas. E de cores berrantes. Os tênis pareciam ter sido limpos minutos antes do show começar. Agora estavam já um pouco sujos, principalmente nas molas aparentes que os enfeitavam. Os braços jogados pro alto, as pernas arqueadas para encaixar na primeira bunda que lhes cruzasse o caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Os inocentes pagam por nada representarem. Por serem destituídos. Por nada deixarem. Por serem sem destino, sem nome. Pelo crime de não fazerem falta. Terror. Error. No poder wachear. Ni poder ser escuchado. La naturaleza se aliviana. Y el hombre se encaja.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproximaram-se de um grupo de três moças que dançavam juntas. Foram poucos momentos de conversa mole até um deles enlaçar uma delas pela cintura, enfiar o nariz em seu pescoço e ganhar um beijo em retribuição. E ali se enroscaram sem o menor pudor. As mãos corriam os corpos de parte a parte e as línguas se esfregavam com tamanha força que, fossem feitas de pedra, fariam fogo. A menina não parecia ter mais que dezesseis anos. Os seios já chamavam a atenção. Os cabelos eram negros e muito lisos. Duas grandes argolas de prata pendiam de suas orelhas. Estava escuro para ver a cor dos olhos com nitidez, mas a pele era de um moreno claro comum. O corpo não era exatamente de uma modelo. Não era, isso percebia-se com clareza, a mais bonita das três. No entanto, também não era a mais feia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Error. No poder wachear. Ni poder ser escuchado. La naturaleza se aliviana. Y el hombre se encaja. Mas quem tem groove tem tudo. Yeah. Quem tem groove tem tudo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros dois garotos não tiveram a mesma sorte. Nenhuma das outras duas moças se prestou a esfregar-se neles. Deixaram então o amigo a se divertir, e foram tentar a sorte com um grupo de mulheres já mais velhas, mais velhas inclusive que eles. Das quatro mulheres, apenas uma não exibia aquele corpo de freqüentadora de academia. Os cabelos louros - imagino que todas as quatro deviam isso aos produtos das farmácias próximas às suas casas - eram bem cuidados e lisos. A pele bronzeada no sol do clube, ou na câmara artificial de seus spas. Os garotos as entretiveram por um tempo, certamente lhes massageando o ego, que em muitos casos é o mesmo que massagear o clitóris. Uma delas parecia mais animada com a conversa e, enquanto falava, arrastava a mão pelos braços e pelo peito de um nos moleques. Quando ele finalmente segurou-lhe os cabelos e forçou a boca contra a sua, a mulher pendurou-se em seu pescoço e sua saia curta mostrou-lhe um pedaço da minúscula calcinha branca. As carnes de sua bunda, como as da perna, que já andava a mostra, eram tão rígidas que pareciam forçar a pele a esticar-se, até quase rasgar. Era, sem dúvidas, muito mais bonita que a ninfeta que o outro garoto agarrava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deus é o terror. É o terror dos inocentes. Deus é o terror. É o terror dos inocentes. A cegueira do terrorista é o terror. É a cegueira de deus. Deus é o terror. É o terror dos inocentes. Deus é o terror. É o terror dos inocentes. A cegueira do terrorista é o terror. É a cegueira de deus.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como nenhuma das três demonstrasse o apetite da amiga, o último dos garotos despediu-se, um tanto contrariado e pôs-se a vagar só, a procura de uma vítima. Puxou conversa com uma morena linda, de olhos castanhos e cabelos ondulados. A moça não teve tempo de terminar o ‘não’ que ensaiava com a cabeça. O marido apareceu do meio da multidão, abraçou-lhe com dois copos de cerveja nas mãos e encarou o moleque como se perguntasse se ele entendera o recado. Ele entendeu. Desculpou-se timidamente e saiu. Esperou uma loira de vestido vermelho sair do meio de um grupo de meninas e, no meio do caminho até a banquinha de bebidas, ofereceu-se para enfiar a língua em sua boca. A idéia não pareceu atrativa à menina, que deixou o garoto falando sozinho. Tentou uma estratégia mais ousada. Ofereceu sua garrafa de vodca a uma moça mais gordinha. Ela aceitou. Conversaram por alguns instantes. O moleque decidiu que era hora de arriscar. Encostou-se ao ouvido da moça e cochichou algo que imagino ser o que ele gostaria de fazer com ela. A gordinha não teve dúvidas. Cuspiu imediatamente a dose de vodca que trazia ainda na boca no rosto do rapaz e devolveu-lhe a garrafa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas quem tem groove tem tudo. Yeah. Quem tem groove tem tudo. Yeh. Mas quem tem groove tem tudo. Yeah. Quem tem groove tem tudo. Yeh. Mas quem tem groove tem tudo. Yeah. Quem tem groove tem tudo. Yeh. Mas quem tem groove tem tudo. Yeah. Quem tem groove tem tudo. Yeh.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça que trabalhava na banca de bebidas reagiu rápido. Abandonou seu posto de trabalho e foi até onde o garoto permanecia estático, pasmo. Tomou-lhe pela mão e levou até o carro velho que estava parado atrás da banca, onde estava guardado o estoque do que seria vendido. Seu rosto era um desses rostos de gente pobre. Aqueles rostos de vinte anos que aparentam quarenta. O corpo franzino, enfiado em uma saia rota e uma camisa de propaganda de alguém que foi candidato a deputado federal há uns cinco anos. Seus olhos, no entanto, eram os olhos de alguém, não que sonha, mas que sabe que dias melhores a esperam no dobrar da esquina. Ela ofereceu ao garoto um pano para que ele se enxugasse, e ajudou-lhe a tirar a camisa molhada. Ele pegou a mão fina da moça e acariciou o próprio peito. Ela lançou-lhe um olhar espantado e, quando ele curvou o corpo para beijá-la, afastou-se em recusa. O garoto tirou a carteira do bolso de trás da calça, pegou algumas notas e ofereceu a ela. Ela recusou com veemência. Ele guardou a carteira de volta no bolso e avançou em direção a ela. Segurou-lhe pelos braços, virou-a de costas e a pôs apoiada no capô do carro. Levantou-lhe a saia, puxou a calcinha de lado e abriu as próprias calças. Ele foi rápido. Mas imagino que a moça não tenha tido a mesma sensação. Quando terminou o serviço, fechou as calças, vestiu a camisa e voltou para o show cantarolando “Deus é o terrôoor. É o terror dos inoceentees.”*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Da música “Quem Tem Bit Tem Tudo”, gravada pela banda Mundo Livre S/A.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-8244188622820035903?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/8244188622820035903/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=8244188622820035903&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8244188622820035903'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8244188622820035903'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/01/terrorismo-de-deus.html' title='Terrorismo de Deus'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-281591678231546382</id><published>2009-01-12T12:40:00.010-02:00</published><updated>2009-01-14T17:38:01.263-02:00</updated><title type='text'>No Deserto Não Nascem Rosas</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtYCC8ct2I/AAAAAAAAAFg/od8usBG51g0/s1600-h/Hamas.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5290418979450173282" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 288px; CURSOR: hand; HEIGHT: 288px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtYCC8ct2I/AAAAAAAAAFg/od8usBG51g0/s320/Hamas.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtXw3XE1ZI/AAAAAAAAAFY/yCbC3qB3sWQ/s1600-h/ETA.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5290418684282852754" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 276px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtXw3XE1ZI/AAAAAAAAAFY/yCbC3qB3sWQ/s320/ETA.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5290417773011075298" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 213px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtW70m9AOI/AAAAAAAAAEw/wuej-VmOB8U/s320/Hezbollah.png" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5290418367941703922" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 238px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtXec5d-PI/AAAAAAAAAFI/4YdEZFCLFF4/s320/IRA.jpg" border="0" /&gt; &lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5290418526649263810" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtXnsITJsI/AAAAAAAAAFQ/w15zycBJ8Gc/s320/Palestina4.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtXXk_8XSI/AAAAAAAAAFA/anCfMrhkFrY/s1600-h/Palestina2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5290418249857260834" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 291px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtXXk_8XSI/AAAAAAAAAFA/anCfMrhkFrY/s320/Palestina2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtXOhjn4CI/AAAAAAAAAE4/q8ZCN36T-vM/s1600-h/IRA5.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5290418094314348578" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 183px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtXOhjn4CI/AAAAAAAAAE4/q8ZCN36T-vM/s320/IRA5.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Só faz poema sobre a beleza da vida quem não está em guerra.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-281591678231546382?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/281591678231546382/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=281591678231546382&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/281591678231546382'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/281591678231546382'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/01/no-desrto-no-nascem-rosas.html' title='No Deserto Não Nascem Rosas'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SWtYCC8ct2I/AAAAAAAAAFg/od8usBG51g0/s72-c/Hamas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5271450639954980072</id><published>2009-01-10T02:31:00.000-02:00</published><updated>2009-01-10T02:32:56.885-02:00</updated><title type='text'>Mendicância</title><content type='html'>No escuro breu&lt;br /&gt;Da noite que tudo envolve,&lt;br /&gt;O corpo nu,&lt;br /&gt;Na calçada gelada estirado,&lt;br /&gt;Arfava,&lt;br /&gt;Babava.&lt;br /&gt;O gélido ar riscava a garganta.&lt;br /&gt;Secava o pulmão indigente.&lt;br /&gt;Os dedos roxos e duros e doloridos.&lt;br /&gt;O pequeno retângulo de papelão&lt;br /&gt;Alguns centímetros distante demais.&lt;br /&gt;E os solavancos dos músculos retesados,&lt;br /&gt;De uma tremedeira angustiada,&lt;br /&gt;A hora derradeira anunciavam.&lt;br /&gt;E o coração, já gelado,&lt;br /&gt;Já duro, já seco,&lt;br /&gt;Já amargo,&lt;br /&gt;Já abandonado,&lt;br /&gt;Rendia-se.&lt;br /&gt;Silenciava.&lt;br /&gt;Sem o trago reconfortante&lt;br /&gt;Do cigarro ou da cachaça,&lt;br /&gt;Morria sozinho.&lt;br /&gt;Debatendo-se no escarro dos outros,&lt;br /&gt;No mijo quente e próprio.&lt;br /&gt;Na bosta sem consistência&lt;br /&gt;Do corpo sem importância.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5271450639954980072?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5271450639954980072/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5271450639954980072&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5271450639954980072'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5271450639954980072'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2009/01/mendicncia.html' title='Mendicância'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-3486356863615862064</id><published>2008-10-12T11:17:00.002-03:00</published><updated>2008-10-12T11:23:05.247-03:00</updated><title type='text'>Táticas de Guerra</title><content type='html'>Não existe tipo humano nesse mundo mais confiante que o ex-gordo. Por causa da mudança drástica, entende? O gordo não é levado a sério. O gordo é desengonçado. É execrado pela moral dietética moderna. O gordo chama atenção. O gordo ocupa espaço demais. A bunda do gordo sobra para os lados livres do assento da cadeira. O gordo não pode sentar na poltrona do meio do avião. O gordinho da galera é motivo de piada. Quando não é referência, escala de medida. Oposto perfeito do magro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era um ex-gordo. Aproveitava-se da nova condição de ser ouvido com atenção. Um poço de confiança, um predador. Sempre bem vestido, barbeado. A fala sempre mansa. Buscava ser admirado pelas pessoas, mas tinha o cuidado de não demonstrar isso. Quem o conhecia em sua nova fase o definia como um cara seguro de si. Auto-suficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já ela, procurava esconder o fato que já foi uma mulher normal um dia. Daquelas que assistem Friends. Que perdem ligeiramente o controle diante de certa quantidade acessível de chocolate. Daquelas que choram na TPM, ou ao menor sinal de drama na tela do cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso foi antes da desgraça. O ex-marido a trocara por uma mulher mais lisa. Menos rugas, menos celulite. Quinze anos mais magra e uns vinte quilos mais nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de um mês chorando a própria sorte, entrou na academia. Passou a freqüentar o salão de beleza com mais freqüência. E pôs-se a destruir o coração de todo e qualquer homem que fosse ingênuo o bastante para se entregar à dureza de seu olhar firme e à sensualidade das suas recentes curvas perfeitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que um casal como esse poderia querer numa noite de sábado? Exatamente! Sexo depravado, melado, absorvente. E absolutamente casual. Sem ligações no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a vida, como o futebol, é uma caixinha de surpresas. E apaixonaram-se. Hoje, meus pais estão já velhinhos e ainda juntos. Moram sozinhos, só os dois, em uma casa a trinta metros da praia. Desde aquele sábado, nutrem uma mútua e enorme dependência afetiva. De uns anos pra cá, convivem também com uma dependência física. Papai abre a porta do carro pra mamãe, carrega as sacolas de compras, tira o chapéu em cumprimento e ostenta um branquíssimo bigode. Mamãe é incapaz de esconder o olhar de orgulho sempre que fala no velho. “O amor nos faz ridículos.”, meu pai dizia. E ainda diz. “Mas não adianta tentar resistir. O ridículo sempre nos vence. Como ser sóbrio à vista de um sorriso como aquele ali?”, e apontava pra mamãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que estória linda.”, ela disse quase gritando para se fazer ouvir em meio à música alta. Ela piscava à minha frente com um franco sorriso intermitente, por conta da luz da danceteria naquele sábado à noite. E uma hora depois, eu arrancava-lhe a calcinha em algum motel barato da cidade. Essa estória sempre funciona. Elas sempre abrem a guarda depois de ouvi-la. Quem disse que as mulheres modernas não gostam mais de romance?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-3486356863615862064?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/3486356863615862064/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=3486356863615862064&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3486356863615862064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3486356863615862064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/10/tticas-de-guerra.html' title='Táticas de Guerra'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-3732146324734182156</id><published>2008-08-31T04:53:00.002-03:00</published><updated>2011-11-22T00:57:32.352-02:00</updated><title type='text'>Coprofobia</title><content type='html'>Merda é algo nojento pra cacete. Não acredito que haja muitas incongruências de impressões nesse sentido. Ou seja, é difícil achar quem discorde. Mas eu me permito ir mais longe. Não há nada - Nada! - que cause um horror tão devastador, tão angustiante, quanto o causado por aquele maldito caroço de milho incrustado na bosta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora uma tremenda cagada. Daquelas que só somos capazes de protagonizar poucas vezes na vida. Daquelas que nos aliviam tanto peso que nos julgamos capazes de correr três maratonas seguidas quando levantamos do vaso. Uma sensação deliciosa. A ponto de ser coroada com um cigarro. Uma montanha de bosta socada no fundo da privada. E dois corocinhos de milho caprichosamente posicionados. Um par de olhos fitando, apreensivos, seu criador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descarga. É aí que o mundo volta a ser horrível. A água inunda a cavidade de porcelana, irriga o monte fecal e a merda não desce. O vaso entope. Descarga de novo e os dois carocinhos de milho sobem, girando na água barrenta, sempre me olhando. Sobem até quase transbordar. Param. E descem lentos, preguiçosos, sem força suficiente para serem jogados cano adentro, para longe da minha vista. E lá repousa a montanha de bosta. Lá repousam os dois olhinhos, agora jocosos. Torço o nariz e penso “Que merda!”. A minha consciência, como que divertindo-se com meu calvário completa “Literalmente.” Eu rio, mais pelo desespero que cresce do que pela piada negra. Tento a descarga de novo. A pororoca de merda sobe, os carocinhos vêm me olhando no fundo dos olhos. A água desce devagar, nojenta, fraca, débil, irritante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia muito que eu pudesse fazer diante daquela cena escatológica. Era muita merda esparramada pelo fundo do vaso sanitário. Nem de brincadeira eu ia enfiar um desentupidor ali. Daria mais resultado catar tudo com a mão - devidamente coberta por um saco plástico – enfiar numa sacola de supermercado e dar fim naquele horror. Mas dar fim como? Não ia jogar um saco de bosta no lixo da cozinha. Tudo tem limite. Tentei a descarga mais uma vez. E lá vinha a pororoca de novo. Lá vinham os olhinhos malditos enfiados no tolete de merda. Eu queria chorar. Tive, então, a idéia brilhante de deixar aquilo ali por algum tempo, na esperança da merda dissolver um pouco, afim de facilitar uma descarga futura. Não custava tentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Custou. De meia em meia hora, passava por ali e tentava uma nova descarga. Nenhuma deu resultado. E cada vez que tentava, aquela merda toda se revirava, escurecia e fedia cada vez mais. O banheiro estava empesteado. Inutilizável. Lá pela terceira ou quarta tentativa, as moscas já vieram me rodear quando levantei a tampa da privada. E sempre a mesma coisa. Pororoca de merda. Caroço de milho rodando, caroço de milho no fundo do vaso me olhando. Será que eu devia estar achando isso engraçado? A situação do banheiro já estava calamitosa. A minha situação, desesperadora. Eu não sossegava. Cada vez que fechava os olhos via aquele monte de merda me olhando com os olhinhos amarelos. Quem mandou comer aquele creme de milho!? Passei o dia nessa agonia. Passei também a noite. Fechava os olhos no quarto escuro e tudo o que via eram os carocinhos de milho girando num lago de cocô. Eu suava frio. Quando conseguia cochilar, sonhava com aquele horror ressurgindo do fundo do vaso e me perseguindo pela casa, pela rua. Acordava aos prantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, minha mulher me encontrou tremendo, deitado no chão do quarto. Cheio de tiques nervosos, sem conseguir formular uma frase que fizesse sentido. Eu via a pororoca de merda com seus olhinhos de milho em todo lugar. Ela chamou uma ambulância. Quando cheguei ao hospital, me encaminharam para a emergência psiquiátrica. O enfermeiro me acomodou na cama e comentou com um colega “Olha só. Cara casado, com filhos, renda boa. Viu a mulher dele aí no saguão? Uma beleza. Trinta aninhos muito bem distribuídos. E dá um ataque desses. A vida é uma merda mesmo.” Eu sorri aliviado. Estava em boas mãos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-3732146324734182156?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/3732146324734182156/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=3732146324734182156&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3732146324734182156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3732146324734182156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/08/que-merda.html' title='Coprofobia'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-2478573033978737955</id><published>2008-08-17T20:27:00.001-03:00</published><updated>2008-08-17T20:29:38.506-03:00</updated><title type='text'>Harlem Blues</title><content type='html'>Andar na rua 125 me entristece hoje em dia. Entristece e irrita. Caralho. Loja de departamento, especulação imobiliária, dinheiro branco entrando. Eu paro de frente pro velho Teatro Apollo. Não chego a chorar. Mas também não contenho a primeira lágrima. Meu pai trabalhava no Apollo. Era faxineiro. Hoje, esse letreiro amarelo e vermelho é a única coisa que me lembra o velho Harlem. James Brown e B.B. King já tocaram aí. Muito mais gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu era garoto, os brancos endinheirados não vinham aqui. Tinham medo de não saírem vivos. Filhos da puta. Eu queria que o pesadelo deles fosse verdade. Mas descobriram que não era. Agora tão trazendo o progresso pra cá. O progresso. Entra o dinheiro, entram as lojas de desconto, os brancos, os ternos. Entram todos pela porta da frente. E arrastam pra fora os pretos, os pobres, as putas. Os drogados. Todos defenestrados pela porta dos fundos. A porra do progresso. O fedor do Harlem está mudando de suor pra lavanda. O Harlem está começando a feder a consultório de dentista. Sinto falta do cheiro de gasolina. E de pólvora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro na Malcolm X Boulevard. Tento não imaginar o que esses grandes pretos do passado pensariam se vissem no que o Harlem está se transformando. Meu pai me contava que o Harlem já foi um bairro da elite, há muitos anos. Antes das migrações negras, ele dizia. Tem gente que diz que o bairro está voltando às suas origens. Eu não acredito nisso. Não posso. A fidelidade aos meus anos de garoto me impede. Muita gente brigou pela dignidade desse lugar. Ali, Malcolm X, Luther King. Não, o Harlem é dos pobres. Dos pretos. Dos cucarachas. Foi assim que eu conheci o Harlem. Foi assim que aprendi a amá-lo. E é assim que deve permanecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ta na hora, negão.” Era o Harry, que me esperava na varanda da casa, já perto da 135th. Fiz que sim com a cabeça. Um Ford antigo parou perto da gente. Jim no volante. Entramos no carro. Eu na frente, Harry atrás. Tirei a Desert Eagle do cinto e deixei no meu colo. Passei a maior parte do caminho alisando o gatilho da pistola. O Jim olhava pra mim e ria. “Que cara de babaca você faz quando começa a masturbar essa porra dessa arma.” “Vai se foder.” Passamos pelo Schomburg Center. Aprendi a gostar desse lugar. Passamos pelo Harlem YMCA, “Malcolm X já ficou ali, cara.” Entramos na Frederick Douglas Blvd.&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A boate tava meio vazia. Lucille fazia o número dela no poste de ferro. Eu trazia a arma na mão. Kate nos guiava até um quartinho nos fundos da boate. Falava rápido, explicava várias coisas sobre como o cara fora parar ali, e como ela descobriu quem ele era. Quando chegamos na porta, ela enfiou a chave na fechadura, bateu de leve na madeira e entrou. Pediu pra menina que atendia o cara sair. Nós entramos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha pistola o tempo todo na reta da sua testa. Ele ficou amarelo de medo. As pernas tremiam escandalosamente. Jim acertou-lhe uma coronhada que botou o coroa desacordado. Amarramos os braços e as pernas. Amordaçamos sua boca. Kate chamou um dos seguranças pra nos ajudar a carregar o cara até o carro. Trancamos o figura no porta-malas e caímos fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei em casa, minha mãe estava chorando, sentada no sofá com as mãos cobrindo o rosto negro e enrugado. Soluçava. Dizia que tinham pego meu irmão. “Quem, mãe?” “A polícia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Mark apareceu aqui, desesperado, dizendo que pegaram ele.” “Onde?” Ela explodiu em lágrimas de novo. Os soluços pioraram. Pareciam espasmos. “Ele estava lá de novo, meu filho. Naquele lugar horrível.” “Puta merda...” “Não fala assim. Ele estava lá. A polícia chegou batendo em todo mundo e saiu carregando o Antony. Ninguém mais sabe dele. Não apareceu mais.” Eu fechei os olhos com força. Engoli o choro e a vontade de quebrar a mesa à minha frente. “A senhora fica em casa, mãe. Eu vou resolver isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí de casa pisando firme. O sangue ardia nas veias de tanto ódio. Rangia os dentes, respirava fundo. Minutos andando. Pareceram horas. Semanas. Engolindo em seco por todo o caminho. Tive vontade de soltar uma seqüência de palavrões emendados. Não diminuiria a angustia, só me faria sentir ridículo quando acabasse meu repertório. Calei.&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais fundo eu descia a escada, mais úmido ficava o ar. Vários fedores condensados. Suor, sexo, vômito. Mijo. Fumaça. Cada vez mais escuro. Arranhei o braço várias vezes me apoiando na parede de reboco aparente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escada acabava num salão abandonado. Alguns sofás velhos, todos rasgados e cheios de traças estavam espalhados por todo lado, assim como tapetes não em melhor estado. Pretos e latinos magros, doentes, ocupavam o lugar. Um porto-riquenho especialmente franzino trepava com uma negra de pele cinza em um dos tapetes. Mark estava deitado em um sofá de olhos fechados. A seringa ainda estava pendurada em seu braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acorda, filho da puta.” Dizia dando-lhe tapas no rosto. Ele abriu os olhos com dificuldade. “Cadê meu irmão?” Ele piscou lentamente e fechou os olhos de novo. Outro tapa. “Cadê meu irmão, porra?!” Ele murmurou um “Não sei” sem nem abrir os olhos. Puxei a pistola, encostei-lhe no joelho. “Fala comigo, cretino.” Ele não esboçou reação. Puxei o gatilho. O estrondo do tiro e o grito de dor do desgraçado assustaram os outros fodidos do salão. Encostei o cano da pistola na sua testa. “Só vou perguntar mais uma vez. Cadê o meu irmão?” “Não sei, caralho! Os canas bateram aqui, pegaram ele com pedras de crack. Encheram o coitado de porrada na frente de todo mundo. Ele desmaiou. Os caras desesperaram, jogaram ele dentro do camburão e se mandaram. Não sei dele desde ontem!” “Quem eram os canas?” “Não conheço. São os caras novos. Aqueles que tão chegando na área por causa dos brancos que tão se mudando   pra cá. Dizem que tem uns comerciantes que pagam por fora pra eles darem essas batidas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Eu estava na metade do caminho para a delegacia. Os sacos de lixo estavam espalhados pelo chão de um dos becos. Tinha alguém deitado encostado à parede. Parecia um mendigo dormindo, mas a posição não me parecia nada confortável. Entrei no beco. O rosto do sujeito estava virado para a parede. Cheguei perto e cutuquei. Não tive certeza se ele estava respirando. Às vezes parecia que sim, às vezes que não. Virei o corpo pra mim. Meu estômago gelou. Era o Antony. Todo fodido. O rosto moído de porrada. E respirava.&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toquei a campainha. Senhora Johnson atendeu a porta. “Posso falar com o Harry?” “Entre, meu filho. Ele está lá embaixo, no porão, com o Jim e o moço que vocês pegaram.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desci com a arma apontada pro cara. Ele estava amarrado numa cadeira, pelado, com um corte na testa. “Vou perguntar uma vez só. É verdade que vocês pagam os policiais novos no bairro por fora pra dar batida em antro de drogado?” Ele fez que sim com a cabeça. “Jim, com o nosso cara de dentro, dá pra descobrir o nome dos canas da batida de ontem?” “Dá sim, fácil.” O telefone tocou. Harry foi atender. Olhei nos olhos do comerciante. Acho que ele sabia o que ia acontecer. Começou a amarelar de novo. Começou a chorar. O Harry voltou com o semblante sério. “Era sua mãe. O Antony morreu, cara.” Baixei a cabeça por uns instantes. Jim se virou pro branquelo. “Deu azar, cara.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxei o gatilho. Senhora Johnson, lá em cima, na cozinha, deixou a panela cair com o susto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-2478573033978737955?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/2478573033978737955/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=2478573033978737955&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2478573033978737955'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2478573033978737955'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/08/harlem-blues.html' title='Harlem Blues'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5952413480884307882</id><published>2008-07-30T03:08:00.001-03:00</published><updated>2008-07-30T03:10:20.405-03:00</updated><title type='text'>Fumaça</title><content type='html'>Parei de fumar. E o primeiro engraçadinho que me vier com um sorriso e um “Parabéns!” eu juro que quebro os dentes. Não parei por um motivo escroto qualquer. Não parei porque faz mal e agora eu quero vida nova. Não vou começar a acordar cedo pra correr no parque e tomar suco de graviola com leite. Vão se foder seus antitabagistas de vida saudável e ridícula. Continuo com meus pequenos prazeres sujos e proibidos. Só parei de fumar. E não digo isso com orgulho. Digo com vergonha, para ser sincero. Não fiz nenhum esforço pra parar. Pelo contrário. Nunca quis parar. Fiz esforço foi para continuar, mas não deu. Há duas carteiras que cada cigarro que acendo entre os lábios traz um gosto repulsivo. Simplesmente não gosto mais. Meu corpo não gosta mais. Como um dia deixou de gostar de Fanta Laranja, hoje não gosta mais de cigarro. O cigarro deixou de ser um dos meus pequenos prazeres sujos e proibidos. Corpo filho da puta. Burro! Como vou viver sem a droga do meu cigarro agora? Sem o meu Marlboro? O que os caras da Phillip Morris vão pensar de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei em trocar de cigarro. Comprar um mais fraco. Um de filtro branco, talvez? Para ver se não perdia o hábito. Só até o gosto pelo estoura-peito voltar. Desisti da idéia. Cigarro de filtro branco é ridículo. Coisa de quem não agüenta o tranco. Coisa de bambi. De tricolor. Além do mais, com que cara eu vou chegar pro cara da banca e pedir um Free!? E a vergonha? Tá maluco. É a mesma coisa que vestir uma camisa do Fluminense. Não. De jeito nenhum. Isso eu não faço. Com o todo o respeito ao velho Nelson Rodrigues, isso eu não faço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me entendam mal. Nunca fui um fumante compulsivo. Mas sempre fui um fumante convicto. É a posição política da coisa, entende? No mundo de hoje, fumar é ir contra o sistema. Fumar é lembrar de tempos melhores. É anunciar ao mundo que se está cagando e andando para as suas novas tendências degradantes e robotizantes. Fumar é como ostentar um vasto bigode. É como usar chapéu panamá. Ser um monogâmico fiel, abrir a porta do carro para as moças. Fumar é como preferir os seios que cabem numa mão em concha aos seios estadunidenses, enormes como uma bola de futsal, mas muito mais vulgares. É como admitir em voz alta não ser viciado em sexo e não ter gosto por rodízio de mulheres como se o mundo fosse uma grande churrascaria. Enfim, fumar é desses hábitos que um dia foram glorificados, e hoje são demonizados. Fumar é relembrar dos anos cinqüenta, onde nada era perfeito, mas as coisas que importavam tinham sua posição correta na escala de prioridade. Fumar é ouvir o Elvis até hoje. Fumar é lindo. E até duas carteiras atrás, era gostoso. Caralho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tom Waits e Iggy Pop defendem, entre baforadas de Marlboro, que o bom de parar é que agora se pode apreciar um cigarro sem culpa. Já que parou mesmo, que mal pode fazer um cigarrinho de vez em quando?&lt;strong&gt;*&lt;/strong&gt; É bonito. Pra quem um dia foi viciado. Eu, que nunca tive disso, que nunca precisei da nicotina pra fazer minha mão parar de tremer, só tinha prazer fumando, nunca desprazer. Eu já estava nesse cigarrinho de vez em quando. Talvez se aplique a mim também, de qualquer jeito. Vou acender um cigarro de vez em nunca, na esperança de que um dia eles voltem a ser gostosos. Até lá, preciso compensar a falta de despeito político. Acho que vou arrumar um chapéu panamá, já que o do meu pai não posso pedir emprestado. Não me cabe na cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;*Cena do filme &lt;strong&gt;Sobre Café e Cigarros&lt;/strong&gt; de Jim Jarmusch&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5952413480884307882?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5952413480884307882/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5952413480884307882&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5952413480884307882'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5952413480884307882'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/07/fumaa.html' title='Fumaça'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5400520587082127202</id><published>2008-06-25T01:50:00.002-03:00</published><updated>2008-06-25T01:55:23.134-03:00</updated><title type='text'>Calma, que o Petróleo é Nosso</title><content type='html'>Ela apertava o tubo de pasta de dente no meio. Meireles soltava um grunhido baixo toda vez que encontrava o tubo amassado na metade. Era, das pequenas coisas do casamento, a que mais lhe irritava. Nunca reclamou com Lúcia. Quando via o tubo, grunhia, amaldiçoava. Depois guardava no lugar e seguia sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcia sentava-se ao seu lado nas partidas de futebol na tevê. Por vezes fazia perguntas sobre o impedimento, ou outras regras do jogo. Mas na maior parte do tempo, se restringia a comentar a beleza física de alguns jogadores. “Muito lindo.”, suspirava. Ou, mais centrada: “Nossa, mas esse goleiro é bonitinho, não?”. Meireles suspirava de raiva. Não tanto por ciúme, que não sentia, mas por ver o esporte ser tratado com tamanha falta de respeito. Isso o irritava. Isso e o maldito tubo de pasta de dente apertado no meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O Casamento&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casaram-se sem paixão. Meireles para fazer gosto ao pai, que já andava pelas últimas. E Lúcia por que já estava passando da hora. Não se amavam, nem mesmo se conheciam. Abraçaram a conveniência das núpcias sem frios na barriga, mãos trêmulas ou juras de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado do casamento insípido foi um cotidiano sonolento. Não se amavam, não se odiavam. Suportavam-se. O sexo, quase extinto entre os dois, nunca fora ardente, nem mesmo na época em que era praticado. Os beijos na boca resumiram-se a um mero estalar rápido de lábios. Limitados a cumprimentos. Mal se tocavam durante os dias. Nem brigavam. Nunca conversaram sobre ter filhos, nem tiveram crises de ciúme. Nunca discutiram a respeito da cor da parede do quarto, ou da cortina da sala. Suprimiam suas frustrações. Simplesmente tanto fazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A Cunhada&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almoçavam com freqüência na casa dos pais de Lúcia, em Copacabana. Sempre aos domingos. Era, muito provavelmente, o ponto do casamento que mais agradava Meireles. Não por um motivo nobre qualquer, como a socialização e a beleza da família reunida. Mas por ser a oportunidade garantida de ver Amelinha, irmã mais nova de Lúcia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina já andava em tempo de escolher pretendentes. “Na flor da idade”, pensava Meireles. Amelinha usava sempre vestidos curtos, acima do joelho, que lhe exibiam as pernas grossas, e finos na cintura, acentuando as curvas das ancas. Os seios eram sempre cobertos por inteiro pelos vestidos fechados, sem decote, mas mostravam-se fartos, mesmo sob a camada de pano. A boca vermelha, de lábios grossos, exalava volúpia. E os olhos verdes lhe deixavam ainda mais pretos os cabelos, e mais morena a pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meireles delirava. Passava longos minutos observando a menina. Seus movimentos, seu corpo, seu jeito de falar. Jurava que já tivera seus olhares correspondidos por Amelinha mais de uma vez. Nunca teve coragem, no entanto, de fazer mais que observar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O Poeta&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, Meireles perdeu a hora. Acordou absolutamente atrasado para o trabalho. Tomou um banho rápido, fez a barba e correu para o ponto de ônibus. Sentou-se ao lado de um senhor, e logo começaram a conversar. O homem dizia ser escritor. Chamava-se Rodrigues. Olhos atentos, um vasto bigode grisalho. Como os cabelos penteados para trás, na maior parte do tempo escondidos por um chapéu. Conversaram sobre o América. E não foram além.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodrigues cortou a conversa sobre futebol para comentar uma pequena que passava. “Espia só, que moça linda. Passa aqui todo dia nesse horário. É batata. Não fura nunca. É por ela que eu espero. Venho sempre, só pra vê-la passar.” Meireles olhou curioso na direção que o velho apontava. Só havia uma mulher de quem ele pudesse estar falando. Era Lúcia, que passava na outra calçada, em direção ao açougue. Meireles sabia que ela ia sempre ao açougue. Comprava carne todo dia. Não gostava de estocar. Sua primeira reação foi virar-se para o velho e dizer “Mas é a minha mulher!” Conteve-se, contudo. Rodrigues olhava maravilhado para Lúcia, hipnotizado. Os olhos começaram a encher-se de lágrimas. “Que pernas!”, comentou entre suspiros, “É uma pena que seja casada.”. “Como sabes que é casada?”, perguntou Meireles. “Leva uma aliança no dedo. Já notei. Esse deve ser um sujeito de sorte.” O ônibus parou junto à calçada. Meireles despediu-se do velho e entrou na condução, sem conseguir dizer mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, em casa, Meireles olhava a mulher com olhos já diferentes. Resolveu parar para prestar atenção às pernas. Eram realmente lindas. Espantava-se por nunca ter notado. Lembravam as de Amelinha. Mas eram ainda mais bonitas. Meireles não sabia bem por quê, mas achou as pernas da esposa mais bonitas que as da cunhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, atrasou-se para o trabalho de novo. Propositadamente, dessa vez. Queria conversar mais com o tal Rodrigues. Quando chegou ao ponto de ônibus, sentou-se ao lado do velho de novo, e fingiu estar surpreso com o reencontro. “Vieste ver a pequena junto comigo, não?”. “Confesso que fiquei interessado pela moça.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Lúcia passou, o velho começou uma verdadeira palestra. “Veja o que é a perfeição, meu caro. Veja que pernas. Veja os seios. Não são grandes a ponto de serem vulgares. Também não são pequenos, daqueles que parecem um par de ovos fritos. Perfeitos. Veja a graça do andar, do rebolado. É um rebolado decidido, de mulher feita. Como o olhar. É uma mulher que sabe muito da vida, pouco tem a aprender. Não é como essas meninas de hoje em dia. Vulgares, exibidas. Andam por aí com um rebolado forçado, grosso, mascando esses horríveis chicletes de boca aberta, lambendo lábios para os homens.”. Meireles sentiu um arrepio na espinha. Emocionara-se com as palavras do velho poeta, é verdade, mas o arrepio era de medo. Pegou-se com medo do velho. Com medo de perder Lúcia para Rodrigues. Talvez fosse o charme. O jeito de enfiar o charuto debaixo do bigode. Talvez fosse sua devoção. Teve medo que Lúcia o conhecesse um dia, e preferisse o amor do poeta ao seu. Sentiu-se inseguro em relação à mulher pela primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lua de Mel&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava na cozinha. Meireles jogou a pasta em cima de uma cadeira e abraçou a esposa pelas costas. Beijou-lhe o pescoço demoradamente. Não jantaram nessa noite. Entregaram-se, os dois, a uma paixão avassaladora. Experimentaram pela primeira vez, depois de cinco anos de casamento, o descontrole do desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, Meireles trouxe o café até a cama. Lúcia buscou-lhe os chinelos e o ajudou a se vestir para o trabalho. Ele sentou-se na cama para amarrar os sapatos. Puxou a mulher para perto de si pelo pulso. Ela sentou em seu colo. “Tenho duas coisas a te pedir, meu amor.”. “Fala, meu filho. Qualquer coisa.”. “Não quero que vás ao açougue de manhã cedo. Muda esse horário.” Ela aquiesceu. Meireles suspirou, e fez o pedido mais difícil. “E, por favor, aperta o tubo de pasta de dente no final, sim?”. No domingo seguinte, Meireles nem notou a presença da cunhada no almoço da família.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5400520587082127202?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5400520587082127202/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5400520587082127202&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5400520587082127202'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5400520587082127202'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/06/calma-que-o-petrleo-nosso.html' title='Calma, que o Petróleo é Nosso'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-2311975791960024847</id><published>2008-05-28T10:33:00.001-03:00</published><updated>2008-05-28T10:43:45.279-03:00</updated><title type='text'>Marginal</title><content type='html'>Cravo-te os dentes nos lábios&lt;br /&gt;Cravas-me as unhas nas costas&lt;br /&gt;Aperto-te a carne&lt;br /&gt;No furor de  fundi-la à minha&lt;br /&gt;Espremo-te contra a parede crua&lt;br /&gt;Bebo-te o suor&lt;br /&gt;E o veneno do hálito&lt;br /&gt;Arranco-te as lágrimas&lt;br /&gt;Arranco-te os gritos&lt;br /&gt;Explodimos, tu e eu,&lt;br /&gt;No gozo bandido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abotoa-me a calça&lt;br /&gt;Arreio-te a saia&lt;br /&gt;Perco-te no escuro do beco&lt;br /&gt;No cheiro de lixo, de mijo&lt;br /&gt;De Sexo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-2311975791960024847?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/2311975791960024847/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=2311975791960024847&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2311975791960024847'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/2311975791960024847'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/05/marginal.html' title='Marginal'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5487599329530487270</id><published>2008-04-15T20:05:00.006-03:00</published><updated>2008-04-16T20:15:13.506-03:00</updated><title type='text'>No Deserto As Rosas Não Nascem</title><content type='html'>Era noite. Mas não era uma noite qualquer. Eu sabia disso. Desde a hora em que acordei naquele dia eu sabia que algo grande estava para acontecer. Algo grande. Não sabia o quê. Mas essa sensação só fizera crescer durante o dia. Agora eu tinha certeza absoluta. O rumo de muita gente estava para mudar nas próximas horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não conhecia nenhum dos quatro trabalhadores. Mas sentia a raiva correr quente e áspera pelas minhas veias. Eu via nos olhos de todos os presentes no enterro que eu não era o único. Quatro mortos. Quatro dos nossos. Não fora um acidente. Todos ali sabiam disso. O veículo dos colonos batera no carro dos quatro trabalhadores de propósito. E matara os quatro. Quatro dos nossos. Mais quatro. Isso não ficaria assim. Nós não íamos deixar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós marchamos. Deixamos o cemitério e marchamos. Pelas poças de lama que chamam de rua nesse lugar. Pelas casas simples de reboco e teto de zinco. Nós marchamos. Furiosos. E mais pessoas se juntavam a nós ao longo da caminhada. Nós gritávamos, cantávamos, amaldiçoávamos. Nós marchamos. Com os olhos espremidos e amedrontadores. Com os punhos em riste socando o ar. Com as vozes unidas e embebidas de ódio puro e mortal. Nós marchamos. Até o quartel-general dos colonos nós marchamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando invadimos, alguns soldados estavam do lado de fora da construção, sentados a uma mesa jogando baralho. Naquele momento, eles não eram mais o nosso pesadelo. Naquele momento, eles não eram mais as figuras que nos amedrontavam, seqüestravam e torturavam. Eles não eram mais o demônio a ser temido. Não eram mais intocáveis. Não eram invencíveis. Um homem junto a mim enrolou seu kaffiyeh no rosto, deixando somente seus olhos a mostra. Outros fizeram o mesmo. Naquele momento, aqueles soldados eram alvos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Milhares de pedras. Foi isso que caiu na cabeça dos soldados. Nós jogávamos pedras do tamanho de punhos com a mesma gana que jogávamos as pequenas. Os soldados tentavam nos empurrar para trás. Não recuamos. As pedras continuaram voando. Começaram a atirar contra o céu negro. As pedras continuaram voando. Uma delas acertou o rosto de um soldado bem à minha frente. Ele me olhou com olhos esbugalhados de medo, o sangue escorria do corte na maçã do rosto. Eu sorri para a ele. O sorriso mais sádico que consegui. Vieram jipes e caminhões para nos impedir. As pedras continuaram voando. E os soldados começaram a recuar. Entraram no quartel em pânico e lá ficaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando voltava pra casa, já depois da meia-noite, ainda ouvia a agitação de várias manifestações que ainda eclodiam. Vi um gato enterrado na lama da rua. Sua barriga tinha sido pisada contra o barro. Estava morto. Pisoteado, ao que parecia. Ao seu lado, uma lata enferrujada com uma planta crescendo em seu interior. A planta era de um verde inspirador. Peguei a lata e a levei comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechei a porta do quarto que dividia com meus sete irmãos. Caminhei ruidosamente sobre o chão de terra até uma prateleira, presa à parede de alumínio comprimido. Pus a lata com a planta em cima da prateleira. Quando meu irmão mais novo perguntou o que aquela planta horrível fazia ali, respondi que no deserto não nascem rosas. Na guerra, os poemas são secundários. Que aquele restinho de verde era o melhor que podíamos fazer. Disse que a chamava de Intifada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5189612835980314594" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SAU1YOpqB-I/AAAAAAAAADY/hrLtUc2moN0/s320/Palestina3.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5487599329530487270?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5487599329530487270/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5487599329530487270&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5487599329530487270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5487599329530487270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/04/no-deserto-as-rosas-no-nascem.html' title='No Deserto As Rosas Não Nascem'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/SAU1YOpqB-I/AAAAAAAAADY/hrLtUc2moN0/s72-c/Palestina3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-1912922021621021619</id><published>2008-03-28T17:30:00.002-03:00</published><updated>2008-04-10T11:56:42.259-03:00</updated><title type='text'>Balas de Morango e de Chumbo</title><content type='html'>A chave deslizou fechadura adentro. O som dos pinos de travamento subindo chegou alto aos meus ouvidos. O estacionamento era subterrâneo, e não muito grande. Entrei no carro. Pus a chave no contato e girei. Acendi os faróis, apertei o cinto de segurança e bufei. Estava cansado. Fora uma noite difícil na delegacia. Soltei o freio-de-mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parei o carro. Sinal vermelho. Vi garotos invadindo a pista. Três, quatro. Um deles parou ao lado da janela do meu carro. A bandeja de madeira cheia de doces pendia do pescoço, fazendo o garoto curvar. Não comprei nada. Mantive a atenção no motorista do carro à minha frente. Pegou duas moedas que estavam espalhadas pelo assoalho do carro e comprou um pacote de balas de morango. Daquelas que você mastiga e grudam no dente. Devia haver mais ou menos uns quinze carros parados no sinal. Só o homem à minha frente comprou doces.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os garotos voltaram para a esquina de onde saíram. Uma mulher os esperava, sentada no chão, encostada a um muro cinza e enrolada em uma manta suja. Estendeu a mão ao garoto que vendera a bala. O garoto disse algo que, por conta da distância, não ouvi. A mulher ouviu. E não gostou. Levantou-se de um pulo. O garoto, que parecia o mais novo do grupo, uns sete, oito anos, recuou assustado botando a mão com as moedas pra trás do corpo franzino. O sinal abriu. E o estalo do tapa só foi ouvido por quem prestava atenção à cena. Eu, a mulher e os meninos. O garoto menor rodopiou e caiu sentado na beira da calçada. Ainda no chão, envergonhado, estendeu a mão e depositou as moedas na mão da mulher. O carro atrás de mim buzinou de leve. Saí com o carro, deixando pra trás o grupo de garotos e um sorriso triunfante de mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite seguinte, recebemos um chamado. Fomos, eu e uns colegas, resolver uma briga de bar, perto da esquina em que vira os garotos. Uns branquelos daqueles que usam camisetas rosa-choque e bermudas verde-limão tinham quebrado tudo num bar. Por causa de garotas. Não acreditei. Pra mim eles são todos veados. Depois de alguma discussão, o Machado ainda levou uns três pra prestar esclarecimentos. Ele e o França voltaram na viatura. Eu disse que me viraria sozinho. Tinha algo pra resolver antes de voltar à delegacia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui até a esquina dos garotos. Entrei em um botequim e fui até o banheiro. Pus um casaco preto por cima da farda, peguei a arma que trazia presa ao tornozelo e prendi no cinto. Tirei uma máscara de esqui do bolso e enrolei na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andei até a esquina e parei ao lado da mulher, que estava em pé, encostada no mesmo muro e enrolada na mesma manta. Mostrei discretamente o cano da arma. “Vem comigo.”. Ela arregalou os olhos, mas não resistiu quando a arrastei pelo braço até um beco próximo dali. Os garotos nos seguiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pus a máscara no rosto e mandei que a mulher ajoelhasse. Ela começou a chorar, mas teve o cuidado de chorar em volume baixo. Acho que pra não me irritar. Talvez ela ainda tivesse esperanças de escapar. Chutei-lhe as pernas finas e ela ajoelhou-se. Tirei a arma do cinto e encostei o cano na nuca da mulher. Os garotos se agitaram. Pedi a eles que tampassem os ouvidos com as mãos. O menor recusou-se. Perguntei se ele queria trocar as balas de morango pelas de chumbo, oferecendo-lhe o cabo da arma, ainda encostada à nuca da mulher. Ele disse que não. Que não tinha força pra puxar o gatilho. E ficou esperando que eu fizesse o que ameaçava. Só encolheu os ombros quando dei o tiro. Não piscou, não gritou. Só encolheu os ombros de leve e sorriu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-1912922021621021619?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/1912922021621021619/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=1912922021621021619&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1912922021621021619'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1912922021621021619'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/03/balas-de-morango-e-de-chumbo.html' title='Balas de Morango e de Chumbo'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-3279425544084873651</id><published>2008-03-08T13:39:00.005-03:00</published><updated>2008-03-08T13:45:04.236-03:00</updated><title type='text'>Fazendo Emendas...</title><content type='html'>Bom... Eu peço desculpas, pois este post será muito pouco original... Acontece que poucas vezes na vida eu perdi as palavras, e essa ocasião é uma delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mesmo assim, tenho a pachorra de dizer que este post é uma declaração de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho uma foto. Da qual não me orgulho muito, é verdade, mas pelo mesmo motivo por que não me orgulho de nenhuma foto que me mostre o rosto. Essa foto está na mesa do meu computador. Na verdade, olho pra ela nesse exato momento. Na imagem, um sofá preto à frente de uma parede branca. No sofá estou eu. Uns 3 anos de idade aproximadamente. Fantasiado de Tartaruga Ninja, de Leonardo, o azul. Ao meu lado, a moça a quem declaro meu amor. Devia ter 1 aninho apenas, se minhas contas e minha memória não me pregam peças. Fantasiada de gatinha. Meu sorriso era largo, franco. No rosto dela, uma expressão perturbada. Um quase choro, incomodada com as frescuras da fantasia, que lhe pinicavam a pele. Eu sei que ela também se lembra dessa foto. E sei que também não se orgulha dela. Mas não há nada mais prazeroso que expor quem se ama ao ridículo, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje ela me dedicou um selo (foram três selos, na verdade) em seu blog. Hoje ela contou uma história que eu não conhecia. É verdade, Mari, que nossas mães nos arrumavam fantasias estranhas. É verdade que éramos, e acredito que ainda sejamos, melhores amigos. É verdade que, apesar de nunca termos morado perto, sempre que a gente se encontra parece que nos falamos no dia anterior. E é verdade também que nós crescemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso tudo, essa moça hoje diz que escreve por minha causa. Que ter lido os meus rabiscos fez com que ela também se arriscasse a dar seus vôos. E diz que montou o blog com medo que eu lesse e achasse um lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabendo, hoje, de tudo isso, prima, eu só posso dizer que me sinto muito honrado, além de muito feliz, por ter despertado algo tão óbvio e bonito, que é o seu talento. E, como acontece naturalmente nos processos da vida, digo feliz que a criatura superou seu criador mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, não tenhas medo. És um achado. Já provaste isso. =)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E acrescento o seu blog nas minhas indicações que você ainda não tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5175411730989422898" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/R9LBjIADmTI/AAAAAAAAADQ/nbyHekdSFEg/s320/premio1.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://outroquintal.blogspot.com/"&gt;Outro Quintal (Belo Blog da minha prima Mariana)&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijos, prima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desculpem o jabá, galera.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-3279425544084873651?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/3279425544084873651/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=3279425544084873651&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3279425544084873651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3279425544084873651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/03/fazendo-emendas_08.html' title='Fazendo Emendas...'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/R9LBjIADmTI/AAAAAAAAADQ/nbyHekdSFEg/s72-c/premio1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-55299575463341734</id><published>2008-03-07T00:36:00.001-03:00</published><updated>2008-03-07T00:38:50.426-03:00</updated><title type='text'>As Cartas Bóiam em Garrafas</title><content type='html'>Minha querida e para sempre amada Lucy,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peço, primeiro, que perdoe, meu amor, as linhas tortas e os garranchos. As idéias mal-acabadas. Escrevo pela primeira vez um texto com algo a mais que cinco palavras repetidas. E o vinho me aumenta a burrice. A professora me faz repetir essas letras, me diz que já sei escrever. E agora, velho como estou, sinto insegurança. Espero estar a acertar os traços. Espero que de onde estejas, poças me ler as linhas com clareza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já são dois anos, Lucy meu amor. Tantas noites, tantos dias desde que você se foi. Já há muito que levo a vida sozinho. Tenho levado aquelas flores brancas pra você toda semana. Não furei nenhuma. Aquelas flores, que Jimmy queria tanto ver, não fosse nosso menino cego. Espero que goste. São cheirosas. Eu gosto, apesar de não entender de flores, você sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto saudades de Jimmy. E me dói lembrar que você não acreditava que eu o amasse. Tenho pensado em tantas coisas, Lucy. Na maldade que fizeram com Jimmy, no acidente de George. Lembro de George caindo naquele poço como se tivesse acontecido ontem. Lembro dos gritos, do sangue. E lembro de Jimmy no dia em que aquele branco filho de uma puta lhe derramou ácido nos olhos. Lembro de você ter me acusado de não amá-lo, pois não chorei nesse dia. Foram duras suas palavras pra mim naquele dia. Mas eu chorei muito, Lucy. Chorei sem que você visse. Chorei e choro. Eu amava Jimmy. Quando você se foi, Lucy, ele parou de falar. Morreu de tristeza, nosso garoto. Poucos meses depois de você, minha querida. Sem dizer nem uma palavra. Mas disso deves bem saber. Deves estar com ele em teu colo agora, a cantar uma canção bonita, daquelas que cantavas quando ainda estavam conosco. Sei que está cuidando bem de nossos dois meninos aí, meu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A guerra acabou, Lucy. Os bacanas lá do norte venceram. Mas as mudanças aqui tardam a chegar. Os irmãos continuam cantando aquelas músicas tristes, soprando suas gaitas e fazendo chorar seus violões. O algodão continua sendo a nossa vida. E continua sendo pouco. O cachorro morreu. Acho que foi de velho. Levei-o até Greensville e o enterrei à margem do Mississipi. Descansará em paz lá. É um lugar calmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, como sinto sua falta, Lucy. Sonho contigo quase todo dia. Todo dia, Lucy, todo dia quero ser enlaçado pelos seus braços macios. Todo dia quero amar você, beijar-te o rosto lindo. Todo dia eu choro, minha querida Lucy. Todo dia eu lembro da sua doçura. Todo dia eu lembro da minha rispidez, da minha violência que, por vezes, te machucaram. Nunca te quis mal. Sempre te amei, Lucy. Sempre. Me sinto culpado por ter desposado de ti. Você não merecia um preto xucro do Mississipi. Um perdedor, sofrido e beberrão. Me sinto culpado por teres me amado. E eu a ti. Nunca quis te machucar, minha Lucy. Perdoe meus atos sem perdão. Perdoe o amor de um brutamontes. Sinto sua falta. Já não canto nas missas na igreja, baby.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que não receberás essa carta. Portanto, a guardarei no bolso da camisa. E a entregarei pessoalmente, assim que chegar a minha hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuide dos meninos até que eu me junte a vocês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinceramente seu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-55299575463341734?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/55299575463341734/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=55299575463341734&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/55299575463341734'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/55299575463341734'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/03/as-cartas-biam-em-garrafas.html' title='As Cartas Bóiam em Garrafas'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-4571833364513564424</id><published>2008-03-04T00:30:00.005-03:00</published><updated>2008-03-04T00:51:21.468-03:00</updated><title type='text'>Homenagens...</title><content type='html'>Como sempre acaba acontecendo em tudo o que eu digo, paguei a língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No post comemorando o primeiro aniversário desse blog, disse que ele(o blog) nada me rendera. Nem novos amigos ou reconhecimento. Paguei a língua. Agradeço aqui a honra a mim concedida pelo &lt;a href="http://pseudocerteza.blogspot.com/"&gt;Caio Sarack&lt;/a&gt; ao me indicar pro "Eu tenho um blog de Elite".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5173725981048165090" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/R8zEXkGV0uI/AAAAAAAAABw/-VedVq_7iBo/s320/BlogElite.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Então, seguindo a corrente, aqui vão meus indicados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://danyltonpenacho.blogspot.com/"&gt;Contra a Maré&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.velhausuraria.blogspot.com/"&gt;Velha Usuária&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obrigado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-4571833364513564424?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/4571833364513564424/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=4571833364513564424&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/4571833364513564424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/4571833364513564424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/03/homenagens.html' title='Homenagens...'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/R8zEXkGV0uI/AAAAAAAAABw/-VedVq_7iBo/s72-c/BlogElite.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5311197858344557936</id><published>2008-02-25T15:08:00.003-03:00</published><updated>2008-02-25T15:11:48.810-03:00</updated><title type='text'>The Killer Won’t Be Up Until Dawn</title><content type='html'>“Direto pra sala de interrogatório.”, eu disse quando o Guedes veio me avisar que tinham chegado com o garoto. Caso mais besta. Não dava pra ser mais óbvio. Toda vez que um crime de racismo vem à tona, culpam um branquelo azedo da zona sul. Dessa vez foi mesmo um branquelo azedo da zona sul. Um moleque. Dezoito anos, o nariz entupido de pó e o cérebro, de merda.  O garoto tinha matado um casal de pretos num ponto de ônibus. Os policiais da ronda pegaram o infeliz no ato, enquanto escrevia “Macacos de merda” na barriga da moça com um canivete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirei os óculos e limpei o suor do rosto com o lenço de bolso. Bebi o resto da água que esquentava no copo, passei o lenço na careca, pus os óculos e saí da sala. No corredor, a caminho da sala de interrogatório, encontrei o cabo Ramires. “O pessoal da Jaula tá louco, doutor. Já tão sabendo o que o garoto fez.”, ele me disse. Jaula era como chamávamos uma das celas que tínhamos ali. Uma que só tinha detentos de cor negra. Todos perigosos, todos pretos. Pretos como o cabo Ramires, que depois de relutar, agora também usava o apelido para a cela. “Tão fazendo a maior baderna.”, completou. “Vem comigo, Ramires.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos os dois na sala. O garoto estava lá, sentado. Algemado. Os tornozelos presos aos pés da cadeira. Os olhos castanho-claros exalavam arrogância. Eu já estava incomodado. Tirei o lenço do bolso e sequei a careca de novo. “Bom dia.”, eu disse, ríspido. Sentei-me de frente pra ele. Ramires se manteve em pé, às minhas costas. Tirei os óculos, cansado do plantão. Olhei fundo nos olhos do moleque. “Então, filho. O que aconteceu?”. Ele não me respondeu. Manteve os olhos fixos nos meus de modo desafiador. “Acho bom responder o doutor, garoto.”, disse Ramires. O garoto não desviou o olhar, piscou lentamente e perguntou “O que esse orangotango tá fazendo aqui, respirando o mesmo ar que a gente?”. Ramires levou a mão ao cacetete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O garoto parou de falar quando bateram na porta. O Guedes entreabriu a porta e pôs a cabeça pela fresta. “Posso falar com o senhor?”. Levantei e saí da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, doutor? Como tá?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O garoto é um marica. Chegou aqui querendo pagar de machão, mas deu a história na primeira porrada no joelho. E, Guedes, me faz um favor. Cala a boca dessa negada da Jaula. Se um filho da puta qualquer dos direitos humanos houve esses vagabundos gritando que ‘cabe uma bunda branquinha na jaula apertadinha’ eu vou ter que escrever milhões de relatórios.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Certo. Deixa comigo. Tenho aqui uma primeira avaliação dos corpos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Manda”, eu disse enxugando mais uma vez a careca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esse moleque tem problema, doutor. Atacou os dois com um canivete. O corpo do homem tem trinta perfurações. Vinte e duas no peito, três na barriga e cinco no pescoço.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Prossiga.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O garoto é doente, tô te falando. A mulher tem cinqüenta e sete perfurações no corpo. Quarenta e uma na barriga, doze no pescoço, três no peito. E um pedaço de carne mijada arrancado. Mais aquela frase linda na barriga.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Carne mijada?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um pedaço da vagina da vítima, doutor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Respeito com a moça morta, Guedes. Caralho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desculpe. Pelo que parece, ele tentou arrancar o clitóris da garota. Fez isso com a precisão de um açougueiro cego e com mal de Parkinson. Delicado, o menino.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso ele não contou. Tá certo, Guedes. Obrigado.”, eu disse voltando para a sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada, doutor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei na sala com sangue nos olhos. Queria dar um tiro naquele garoto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá legal, moleque. Por que rasgar a vagina da moça?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela já era rasgada, doutor. Como toda boceta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei o cacetete da mão de Ramires e acertei o queixo do garoto. Ele não chegou a cair da cadeira, mas os olhos encheram de lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não to de brincadeira com você, filho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Rasguei por que animal não merece gozar. Macaco não devia trepar. Já tem muito no mundo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ramires avançou, mas segurei-lhe o braço. Fiz um sinal com a cabeça e ele voltou a se postar às minhas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, você tá limpando o mundo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Exatamente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É um gari.”, eu disse sorrindo pro Ramires.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não me arrependo, vocês tão ouvindo? Faria de novo se tivesse a chance.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não se arrepende, é...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vou perder o sono por eles. Não vou acordar de madrugada com remorso, não vou ver o sol nascer sem dormir de arrependimento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso eu posso garantir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei-me, fui até a porta e abri. Gritei pelo Guedes. O sargento postou-se à minha frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tranca o garoto, Guedes. O interrogatório acabou.”, fiz uma pausa, olhei para o garoto e continuei, “Joga ele na Jaula.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na Jaula, doutor?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É, Guedes. Faz o que eu mandei. Eu já tava querendo me aposentar mesmo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa noite, eu dormi como não dormia há anos. Não acordei de madrugada com remorso. Não vi o amanhecer sem dormir de arrependimento. Nem o garoto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5311197858344557936?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5311197858344557936/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5311197858344557936&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5311197858344557936'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5311197858344557936'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/02/killer-wont-be-up-until-dawn.html' title='The Killer Won’t Be Up Until Dawn'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-8317706221231729854</id><published>2008-01-06T16:13:00.000-02:00</published><updated>2008-01-06T16:15:34.209-02:00</updated><title type='text'>O Tijolo</title><content type='html'>Fechei a porta de lata do ginásio com um estrondo. Uns cascos de ferrugem foram ao chão. Detesto essa porta escandalosa. O ar viciado me invadiu os pulmões em cheio. O fedor do suor diluído no ar, o cheiro do couro das luvas. Os gritos vindos do ringue, da seção de &lt;em&gt;sparring&lt;/em&gt;. O som seco dos golpes duros e precisos nos sacos, as chicotadas ritmadas das cordas no chão. O fedor do éter e do sangue dos machucados. É preciso ser um retardado pra gostar de boxe. Pra gostar desse ambiente, pra gostar de ver dois homens subirem no ringue e esmurrarem-se até a exaustão. E para fazer igual. Nobre arte. Mas uma arte que vem do estômago, das entranhas. Não do cérebro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O foda do boxe é o dia seguinte. Os inchaços, as ardências. Os músculos que reclamam de cada degrau de escada que você sobe. A visão meio embaçada, a dor de cabeça. As pessoas acham que é macho quem agüenta porrada em cima do ringue pelo simbolismo da porrada. Macho mesmo é quem agüenta os efeitos colaterais de uma luta. Quem agüenta o dia seguinte. Levar porrada no ringue é mole. A adrenalina tá nas alturas, nem se sente. Mas levantar da cama todo fodido de manhã dói de verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha acabado de me trocar quando ele chegou. Ginásio adentro como se fosse mais um freqüentador qualquer. As pessoas demoraram a perceber que ele estava ali. Quando perceberam, o silêncio reinou. Nenhuma tiete, ninguém gritou seu nome em tom estridente, nem correu para abraçá-lo. Só fizemos silêncio, e era o suficiente pra ele saber o quanto o respeitávamos. Ele atravessou o ginásio todo em direção ao vestiário, seguido por vários olhares, mergulhado no silêncio. A atitude era de um fodido como todos ali. As roupas, o jeito de andar, a cabeça meio curvada para baixo. O único som que ecoou pelo ginásio foi o grito do treinador de “Johnny, caralho, finalmente. Cê tá atrasado, pô!” Johnny entrou no vestiário, e nós, meros mortais, voltamos ao nosso treino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Johnny “The Brick” Harrys nascera ali mesmo no bairro. Aprendeu a lutar boxe pra vencer as lutas de rua e a guerra de gangues. Preto, pobre, mal aluno. Mas forte pra caralho. Num bairro fodido de uma cidade de contrastes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Johnny, como todos os garotos do bairro, aprendeu que é um ser inferior. Um ser humano menor. Aprendeu a andar olhando pro chão quando cruzava com um branco na rua e a empinar o nariz quando cruzava com um negro. Quando a adolescência chegou, e com ela uma maior consciência do que acontecia, inverteu o jogo. Passou a defender os negros acima de tudo e a odiar os homens brancos com toda a sua força. Por sorte, ou azar - sabe-se lá - não havia muitos brancos no bairro. E um velho treinador, Harry Flynt, acreditou no potencial de Johnny.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era ainda um garoto, e Johnny já começava a despontar como amador. Eu e os garotos da minha idade íamos a todas as lutas de Johnny, o seguíamos pelo bairro. Ele detestava isso. Cansou de escorraçar a gente dos seus treinos, ou quando o seguíamos até a padaria. Na verdade, ele é a razão de eu hoje também lutar boxe. Ele sabe disso, mas não acredito que goste da idéia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que Johnny “The Brick” hoje é um lutador profissional respeitado. Tem o cartel perfeito depois de mais de trinta lutas e, quando entrou no ginásio aquela manhã, estava a uma semana da última luta antes de disputar o título mundial dos pesos pesados. Johnny se recusou a se mudar do bairro, se recusou a usar cordões grossos de ouro, pulseiras brilhantes e roupas chamativas. Ele se dizia só mais um preto do bairro. E agia como tal. Johnny continuava aquele negão forte, simples e calado que sempre fora. E que no ringue mostrava uma raça inspiradora e um ódio assustador. Mas quando andava na rua, as pessoas paravam para olhar. As crianças brincavam de lutar na frente de casa e diziam ser Johnny “The Brick” Harrys. E eu, quando dei minha primeira entrevista depois da terceira vitória como amador, disse com sinceridade que Johnny era meu modelo de ser humano. É isso que o boxe faz. O boxe faz surgir um vencedor num bairro de perdedores. E nem toda a simplicidade de Johnny Harrys pode mudar isso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-8317706221231729854?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/8317706221231729854/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=8317706221231729854&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8317706221231729854'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8317706221231729854'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2008/01/o-tijolo.html' title='O Tijolo'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-664579513104462892</id><published>2007-12-03T19:47:00.000-02:00</published><updated>2007-12-04T00:23:43.760-02:00</updated><title type='text'>Escambo</title><content type='html'>“Ficou sabendo da Marta?”&lt;br /&gt;“O quê que tem ela?”&lt;br /&gt;“Trocou um rim do marido no mercado negro por uma TV de plasma.”&lt;br /&gt;“Nossa, sério?”&lt;br /&gt;“Me mostrou ontem a TV. Tava toda orgulhosa.”&lt;br /&gt;“A Renatinha trocou o filho pequeno por um cruzeiro no Caribe.”&lt;br /&gt;“Então foi isso!? Aquela estória de escola interna era mentira.”&lt;br /&gt;“Era. Trocou o garoto.”&lt;br /&gt;“Espertinha.”&lt;br /&gt;“É, acho que vou tirar mamãe do asilo.”&lt;br /&gt;“Por que?”&lt;br /&gt;“Acho que consigo, pelo menos, um Golzinho usado na velha.”&lt;br /&gt;“É, deve dar negócio.”&lt;br /&gt;“O foda é que eles pagam mais é por criança mesmo. Se eu tivesse um filho agora, acho que dava pra descolar a grana pra fazer a minha piscina.”&lt;br /&gt;“Deixa de ser boba. Piscina é luxo besta. Dá despesa com manutenção. E quem tem, quase não usa. Tá sempre frio por aqui mesmo.”&lt;br /&gt;“Tá sempre frio aonde, doida? No Brasil?”&lt;br /&gt;“Tá sempre frio aqui. No meio dessa gente.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-664579513104462892?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/664579513104462892/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=664579513104462892&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/664579513104462892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/664579513104462892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/12/escambo.html' title='Escambo'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-6779291567207325062</id><published>2007-12-02T18:54:00.000-02:00</published><updated>2007-12-02T19:12:18.000-02:00</updated><title type='text'>Guerra Civil / Existência Urbana</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Guerra Civil&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tudo que já vi&lt;br /&gt;Nessa injusta vida,&lt;br /&gt;Uma guerra chocou-me mais.&lt;br /&gt;Uma guerra descabida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num lugar onde poucos Homens&lt;br /&gt;Com dor derramam&lt;br /&gt;Sangue e suor&lt;br /&gt;Pelas almas que as pessoas abandonam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde poucos Homens&lt;br /&gt;Em silêncio sofrem&lt;br /&gt;Por quererem o bem&lt;br /&gt;Dos que abandonados morrem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde poucos Homens&lt;br /&gt;Realmente sabem&lt;br /&gt;O valor de um abraço&lt;br /&gt;Para que de brotar as lágrimas parem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde poucos Homens&lt;br /&gt;Se enganam e sonham&lt;br /&gt;Por amor àqueles&lt;br /&gt;Que da vida apanham.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde poucos Homens&lt;br /&gt;Subitamente param&lt;br /&gt;Para socorrer os&lt;br /&gt;Que da morte escaparam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E continua&lt;br /&gt;Essa guerra surda&lt;br /&gt;Contra suas entranhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E continuo&lt;br /&gt;A razão procurar&lt;br /&gt;Nessas criaturas estranhas.&lt;br /&gt;---------------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Existência Urbana&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pobre e decadente pedaço de corpo&lt;br /&gt;Senta à mais imunda e fria sarjeta,&lt;br /&gt;Cerra os olhos e luta para que o não acometa&lt;br /&gt;A mais cruel doença.&lt;br /&gt;Que ela não pouse a fria mão sobre seu ombro torto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agoniza entre gemidos altos e chorosos.&lt;br /&gt;A vida escorre para fora do corte aberto.&lt;br /&gt;O chão desesperadamente rubro, a morte perto.&lt;br /&gt;Lembranças da vida em flashes luminosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pesada mão do pai a ferir-lhe a face,&lt;br /&gt;A violência debaixo do teto que o vira nascer.&lt;br /&gt;As fugas, o pranto, o quase padecer.&lt;br /&gt;E o ácido. Como o mundo se calasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cheiro dos becos sujos invadiam-lhe o nariz.&lt;br /&gt;A cana barata queimava-lhe a garganta.&lt;br /&gt;Os roubos de caixas em casa santa.&lt;br /&gt;E carteiras batidas de turistas perto do chafariz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almoçava os podres detritos que tirava de latas.&lt;br /&gt;Quando com sorte, um bom pedaço de carne verde achava.&lt;br /&gt;Quando o azar acometia-lhe, um caco de garrafa ali estava&lt;br /&gt;Para ferir-lhe dolorosamente as mãos atadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um transeunte qualquer lhe presenteava com um real.&lt;br /&gt;Um outro, a sorrir, com um escarro.&lt;br /&gt;Ou a atingir-lhe o rosto triste uma bola de barro.&lt;br /&gt;Talvez não fosse tão ruim este mundo deixar afinal.&lt;br /&gt;---------------------------------&lt;br /&gt;* Dois poemas do tempo de ensino médio. Provavelmente escritos em alguma aula de química, de matemática, artes, sei lá.&lt;br /&gt;Não sei por que, mas gostei de ler esses poemas de novo. Tom nostálgico. Gostei de lembrar de quem eu era. Gostei da ingenuidade dos versos. Da técnica precária.&lt;br /&gt;Enfim, escrita ruim de um garoto. Acho que vale pela sinceridade imatura. Vale por me lembrar por onde passei. Resolvi postar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-6779291567207325062?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/6779291567207325062/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=6779291567207325062&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6779291567207325062'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6779291567207325062'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/12/guerra-civil-existncia-urbana.html' title='Guerra Civil / Existência Urbana'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-1515409873083621429</id><published>2007-11-22T02:16:00.000-02:00</published><updated>2007-11-22T02:21:44.805-02:00</updated><title type='text'>1 Ano de Blog</title><content type='html'>“(...)Todas as gravadoras estão de portas fechadas.&lt;br /&gt;E você vai continuar fazendo música?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até os alternativos debandam pro outro lado.&lt;br /&gt;E você vai continuar fazendo música?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esperança não existe, a esperança é o caralho!&lt;br /&gt;E você vai continuar fazendo música?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca ganhou dinheiro. Muito pelo contrário.&lt;br /&gt;E você vai continuar fazendo música?&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;Tenta uma outra coisa, um curso de informática...” *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje este blog completa um ano de existência. Primeiro aniversário. Grande merda. De que serviu essa porra? Não tô mais rico. Não tenho mais amigos, nem inimigos por causa dele. Não me trouxe longevidade. Aliás, pelo contrário. Acho que minha saúde até piorou nesse último ano. A mental, eu digo. A física não faz essa diferença toda. Diabo de trabalho difícil. Escrever é difícil pra caralho. Estar em confronto constante com as próprias idéias. Tenho minhas dúvidas se isso faz bem. Porra, ter que pensar tudo o que digo, escrevo. Que inferno. Sei que falhei uma vez ou outra na tarefa. Paciência. É o preço que se paga por ser humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que diabos, então, continuo a escrever, se é tão penoso assim e paga tão pouco? Porque eu vou continuar fazendo música. Nem que seja menos por um motivo nobre que por mera teimosia. Porque eu gosto de fazer música. Porque, se não paga bem, ao menos me ajuda a dar os gritos de ódio (e de amor de vez em quando, por que não?) que eu preciso dar. Que todo mundo precisa dar. E, principalmente, porque é um meio que achei de passar a minha mensagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se escrevo bem ou mal, não sei. Não interessa agora. Não que não me importe. Importa, claro. Mas não é o principal. O importante mesmo é a mensagem, e sei que isso eu venho passando bem, pra meu alívio. É essa certeza que me motiva a continuar colocando textos aqui. O universo que atinjo é pequeno, minúsculo. Eu sei disso. Mas se uma única pessoa lesse e entendesse, pra mim já seria suficiente. Não digo ter a pretensão de mudar o mundo. Afirmo, com todas as letras, que farei a minha parte. Os mais céticos que me perdoem, mas essa não é uma questão de argumento. Tomo as porradas que tiver que tomar sorrindo. Afinal, me mantém firme a teimosia. A teimosia de um humanista puto da vida. Quer argumento mais forte que esse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, fica aqui meu grito de “EU VOU CONTINUAR FAZENDO MÚSICA!” Porque eu sou teimoso e acredito em heróis. E não me venham dizer que a tarefa é difícil. Quem disse que a vida é fácil? A vida é dura. Quem não agüenta pula do Pátio Brasil, vota no DEM, sei lá. Foda-se. Eu vou continuar avançando, porrada após porrada. Vou o mais longe que conseguir. É o único jeito de descansar quando a última porrada vier e acabar com a minha festa. Mas espero ter sido competente o suficiente pra essa porrada não acabar também com a minha raça. Eu ainda acredito em Marx, senhores. Apesar de todos os livros de sociologia e economia trazerem capítulos intitulados “Por que não acreditar em Marx” ou “Onde Marx errou”. Eu acredito. Foda-se. Eu ainda me visto de vermelho, voto nos comunistas. Não tenho camisa do Che, mas se tivesse usaria. Acho até que vou arrumar uma. Eu sou teimoso. E faço música. E me arrancam sorrisos as pessoas que também fazem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; *Trecho da música “Você vai continuar fazendo música” de Rogério Skylab.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-1515409873083621429?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/1515409873083621429/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=1515409873083621429&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1515409873083621429'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1515409873083621429'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/11/1-ano-de-blog.html' title='1 Ano de Blog'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-3587221806621231258</id><published>2007-11-10T16:09:00.000-02:00</published><updated>2007-11-10T16:11:24.546-02:00</updated><title type='text'>Ratoeira</title><content type='html'>A porra da coca-cola tava quente. Eu, tenso pra caralho, sentado num botequim tomando coca-cola quente. Hoje em dia, essa história me lembra de um personagem do Rubem Fonseca que só tomava coca-cola quente. Ainda misturava uma Novalgina pra anestesiar uma dor de dente. Eu sempre gostei do Rubem Fonseca. Acho que isso atrapalhava tudo. Um personagem do Rubem nunca faria o que eu estava fazendo. Eu sabia disso. E não sentia o menor orgulho. Sentia era nojo. E a bosta da coca-cola quente só fazia atrapalhar, me deixava ainda mais amargo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Carvalho chegou, ensopado da chuva de canivetes que caia, e sentou-se ao meu lado. Não lembro quando foi que comecei a chamá-lo pelo sobrenome. Sei que já faz muito tempo. Ele pediu um chopp. Perguntou por que eu estava bebendo coca-cola. “Tô de ressaca.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós conversamos durante algumas horas, o Carvalho e eu. Lembramos dos tempos em que jogávamos bola na rua de casa. Da coincidência de além de estudarmos na mesma turma do colégio, morarmos na mesma rua. Lembramos da infância quase adolescência nos anos cinqüenta. Conversamos sobre a seleção da Holanda, nova sensação da copa. Neeskens e Cruyff tinham eliminado a seleção brasileira da Copa do Mundo na véspera. Concordamos que a laranja mecânica era a favorita para levar o título. Nem Beckenbauer conseguiria segurar aquele esquadrão. Conversamos sobre nossas esposas. Conversamos sobre política. Sobre a ditadura e os comunistas espalhados pelo país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despedi-me do Carvalho. Abracei-o demoradamente, apertei sua mão com força. Olhei-o nos olhos com gravidade. Cruzei a porta do botequim, e assim que pisei a calçada, os militares entraram. Eu andei pela chuva até um Opala azul, parado a alguns metros do botequim. O capitão da aeronáutica que me aliciara baixou o vidro. Disse que eu estava liberado, podia ir pra casa e tudo seria resolvido. Perguntou se eu precisava de carona, eu disse que preferia andar. Ainda voltei-me para o botequim a tempo de ver o Carvalho sair escoltado e algemado por quatro militares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Carvalho andava escondendo comunistas por aí. Ajudou estudantes, guerrilheiros, até políticos. Os militares souberam da minha ligação com ele, me prenderam, jogaram na minha cara que meus negócios dependiam deles. Me obrigaram a entregar o Carvalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei pra casa a pé. Debaixo de um dilúvio. Não era perto. Mas não me importei. Quando entrei pela sala, minha esposa, num misto de preocupação e raiva, me cobrava explicações. Queria saber por onde eu andara. Segui, calado até o quarto, tirei a roupa molhada. Ela ainda me seguia, falava, gritava. Dei-lhe um tapa no rosto. Forte. Olhei pra marca vermelha que deixei. Tranquei-me no banheiro. E emiti o primeiro som desde a conversa com o capitão no carro. Um gemido. Um choro. Chorei. Copiosamente. Durante horas seguidas. Voltei ao quarto tremendo, peguei o trinta-e-oito da gaveta, apontei pra minha própria cabeça. Puxei o gatilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei na cama do hospital uma semana depois. Ela estava ao meu lado. Segurava minha mão. Eu não sentia nada. Quando me viu abrir os olhos, jogou-se sobre mim, beijou-me a boca. Chorava muito, dizia que me perdoava. Eu nunca mais andei. Acabei em uma cadeira de rodas. O Carvalho desapareceu. Morreu na tortura, provavelmente. E ela nunca soube a verdadeira razão por que dei aquele tiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-3587221806621231258?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/3587221806621231258/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=3587221806621231258&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3587221806621231258'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3587221806621231258'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/11/ratoeira.html' title='Ratoeira'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5137744654213296283</id><published>2007-10-13T22:41:00.000-03:00</published><updated>2007-10-13T23:07:37.019-03:00</updated><title type='text'>Sobre a Delicadeza</title><content type='html'>“Hoje em dia, delicadeza é viadagem.”&lt;br /&gt;“Na época em que os homens tinham bigode e usavam chapéu, as pessoas tomavam chopp depois do trabalho e pingado e pão-com-manteiga de manhã juntas.”&lt;br /&gt;“Os homens ainda pagavam a conta, abriam a porta do carro pras suas mulheres e carregavam as sacolas pesadas pra elas, os materiais escolares.”&lt;br /&gt;“Hoje em dia isso é machismo, ou bichice.”&lt;br /&gt;“Hoje em dia as pessoas resolveram esconder sua fragilidade a qualquer preço. Têm medo de dizer que amam alguém porque se inventou que isso só pode ser depois de um número certo de ficadas. Se mutilam porque no século XXI, casar virgem virou um absurdo. Se reprimem porque temos de ser todos durões.”&lt;br /&gt;“Ser machos. Homens e mulheres machos.”&lt;br /&gt;“Nem sabem o que isso significa. Essa caçada ao machismo queima tanto os homens que estapeiam as mulheres quanto os homens de verdade.”&lt;br /&gt;“Aquele argentino disse uma vez que devemos ser durões, mas sem perder a ternura jamais.”&lt;br /&gt;“É isso. Esse cara devia torcer pro Flamengo, ou pro Boca. Ser macho não é pegar um monte de mulher, como num rodízio de churrascaria. O poeta disse uma vez que ‘pica todo mundo tem, homem tem que ter é caráter.’”&lt;br /&gt;“Esse poeta era flamenguista?”&lt;br /&gt;“Claro que era. E um macho de caráter. Que não deixa a delicadeza de lado. Falta às pessoas de hoje pagarem um chopp pro mendigo bêbado que o peça.”&lt;br /&gt;“Chopp eu não pago, pago comida, quando pedem.”&lt;br /&gt;“Esse é o problema. Essa mania de querer definir a necessidade alheia. Como você pode definir o que é mais importante pra ele? O problema é essa arrogância de querer saber mais da dificuldade da vida na rua que o cara. Me entristece é quando o cara aceita isso. ‘Come, que a comida faz mais bem a você que a cachaça.’ ‘Sim, senhora.’ Porra! Mendigo macho é o que pede a grana pra comer e compra uma 51. Mania horrível de querer sempre se adaptar ao que os outros pensam.”&lt;br /&gt;“A modinha, né?”&lt;br /&gt;“Porra de modinha. Porra de mundo moderno globalizado e ecologicamente viável. As emoções valem tão pouco que até o Campeonato Brasileiro virou de pontos corridos. Eu quero que essa classe-média nojenta pare de arrotar qualquer idéia torta que vê na TV, ou lê num livro conceituado. Quero que os porteiros voltem a deixar o bigode crescer. Que os homens parem de medir sua macheza pelo número de mulheres que comeram e largaram, ou pelo tamanho do pau. Hoje em dia todo mundo quer ser ator de filme pornô, porra. Que as mulheres deixem de lado essa idiotice de se sentirem rebaixadas quando um homem as trata com uma diferença gentil. Afinal, abrir a porta do carro pra elas é, no mínimo, um elogio. Elas têm que parar com essa mania de quererem ser iguais a nós. E eu quero muito, mas muito mesmo, que todos os playboys filhos-da-puta que alguma vez trocaram a esmola que deram por um boquete morram da forma mais dolorosa que se possa imaginar. Que essa ode à filha-da-putagem saia de moda, e que as pessoas possam voltar a se amar por serem pessoas. Não por representarem lucro pra alguém. Que a fragilidade de uma mulher volte a ser mais importante que a sua bunda torneada em academia.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5137744654213296283?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5137744654213296283/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5137744654213296283&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5137744654213296283'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5137744654213296283'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/10/sobre-delicadeza.html' title='Sobre a Delicadeza'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-5812398227338176372</id><published>2007-09-16T00:23:00.000-03:00</published><updated>2007-09-16T00:25:20.724-03:00</updated><title type='text'>Antropologia Urbana</title><content type='html'>Estendi o pote. O homem despejou um pouco de sua cerveja dentro. Era um daqueles potes de plástico, de sorvete. Achei esse pote em uma lata de lixo há alguns anos. Eu sorri em agradecimento, ele aquiesceu. Virei o gole de cerveja, limpei a boca na manta esburacada pelas traças que trazia jogada às costas e continuei a andar pelo botequim. Fui até o balcão. Parei ao lado de um homem que bebia cachaça. Ele me pagou uma dose. O atendente, que já me conhecia de longa data e não gostava de mim, pôs uma dose de cachaça num copo e deixou sobre o balcão. Peguei o copo e despejei a bebida no meu pote. “Vou levar pra viajem.” O homem que me pagou a bebida sorriu. O atendente fez cara de nojo. Acho que ele tinha nojo era de mim. Paciência. Se eu aturava aquele bigodinho ridículo dele, ele que aturasse meu pote e minha manta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí do botequim andando em direção à esquina da Matilde, bebericando minha dose de cachaça. A esquina da Matilde era ladeira acima. Minhas pernas inchadas sempre reclamavam de subir essa ladeira. Mas eu gostava da Matilde. Valia o esforço. Matilde era uma prostituta muito gente fina. Me ajudou várias vezes nessa vida. Quando quebrei a perna, ela que cuidou de mim. Me deixou ficar na casa dela enquanto não tirava o gesso, fez comida pra mim, pagou as consultas no hospital. Quando tirei o gesso, ela ofereceu a casa pra eu ficar mais tempo, até morar, quem sabe. Não quis. Não ia dar certo. Não fui feito pra morar em casa com mulher. Disse isso a ela. Que não aceitava ficar atrapalhando, sendo sustentado por ela. Ela não precisava de um bêbado na vida dela. Não fiquei na casa. Mas a amiga eu mantenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Matilde estava especialmente bonita. Os cabelos pretos jogados sobre os ombros, coxas de fora, salto alto. Um contraste com a minha barba enorme e fedorenta e o meu sorriso de dois dentes. Apesar dela também não ostentar muitos em sua boca. “Oi, bonitão.” Me disse, estalando um beijo na minha bochecha. Sorri sem-graça. “Como vão as coisas?” Perguntou rindo-se da minha timidez. “Vão como sempre foram.” “Isso é mal.” “Ainda não. Mal vai ser o dia que a cachaça do mundo secar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um gordão chegou, combinou um preço com a Matilde e os dois saíram de mãos dadas. A Matilde cobra uma mixaria. Se eu tivesse dinheiro, pagaria três, quatro vezes o preço que ela cobra. É o maior mulherão. Ela devia se valorizar mais. É. Devia mesmo. Vou dizer isso a ela na próxima vez que a gente se esbarrar por aí. Mas, me corta o coração mesmo é ver ela apanhar do cafetão dela. Ou da polícia, sempre atrás de tóxico. Não sei qual é pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi gritos. Voz de mulher. “Pára, pára.” Voz conhecida. Procurei pela voz e vi a Hilda caída no chão. Vestido rasgado, filete de sangue descendo pela boca. Três garotos com roupas de classe média estavam em volta dela. A Hilda é minha ex-namorada. Quer dizer, acho que dá pra chamar assim. A gente trocou uns beijos uma vez. Mas ela me trocou por outro. Um malandro que andava por essas bandas. Foi morar com ele e tudo. E espalhou pra turma que meu pau era pequeno. Vaca. Se fodeu. O malandro, além de bater nela, deu-lhe um pé na bunda. Agora ela tava por aí. Vagando sem teto que nem eu. E tomando porrada de filhinho de papai entediado. Eu reconheci um dos garotos. Era o mesmo que tinha me pegado de porrada na outra semana. Sentei no meio-fio e assisti ao show em meio a goladas de cachaça. Os garotos chutavam a barriga da coitada, chutavam o rosto, tudo o que dava. Até que a arrastaram pelos cabelos pro beco, e eu vi as silhuetas deles revezando-se sobre a silhueta dela. Ela pediu “Por favor” e “Pelo amor de Deus” pra eles pararem várias vezes. Não adiantou porra nenhuma. Ninguém interveio. Nem eu, todo inchado e bêbado sentado na calçada, nem as pessoas do botequim, nem as putas pela rua. Ficou todo mundo fingindo não escutar os gritos e torcendo para aquilo acabar logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eles acabaram, deixaram a silhueta da minha ex-namorada largada no beco, subiram as calças e foram embora de nariz empinado e sorriso no rosto. Eu andei até o beco, achei a Hilda no chão. Chorando, com o vestido trucidado. Toda vermelha de tanta porrada. Entreguei meu pote pra ela. “Bebe. Vai te ajudar, eu prometo.” Ela sorriu e deu uma golada. Ouvimos um barulho de freada, muito alto. Mais tarde fiquei sabendo que um motorista bêbado atropelou os três estupradores. Um morreu na hora, o outro quebrou a bacia e o último teve um braço arrancado. Fiquei sabendo também que todo mundo na rua, quando viu a cena, correu pra ajudar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-5812398227338176372?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/5812398227338176372/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=5812398227338176372&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5812398227338176372'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/5812398227338176372'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/09/antropologia-urbana.html' title='Antropologia Urbana'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-644444260127097778</id><published>2007-08-30T23:53:00.000-03:00</published><updated>2007-08-30T23:54:20.247-03:00</updated><title type='text'>Nos Becos da Cidade</title><content type='html'>Beco adentro. Passos calmos. O beco era escuro. E cheirava a mijo. O cano frio me incomodava à cintura. Maldito Taurus. Que falta faz a minha Magnum 44. O chefe não me deixou trazer a Magnum de jeito nenhum. Dessa vez o serviço tinha que parecer um assalto. E policial nenhum nessa cidade acredita que um assaltantezinho fuleiro carrega uma Magnum por aí. Tive de vir com esse Taurus velho na cintura. Essa porra só faz me incomodar. Arma pequena. Tenho sempre a impressão de que não está bem presa, de que vai-me escorregar pelas pernas a qualquer momento. Queria a minha Magnum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O beco era grande. Escuro, cheirava a mijo. E ao vômito da noite passada. Alguns mendigos se encolhiam por entre as caixas de papelão e as latas de lixo. Um deles, um loiro sem os dentes de baixo, segurava uma garrafa de plástico de vinho barato. Ele acenava com seu boné de propaganda política respeitosamente para uma senhora, que vasculhava o lixo, acompanhada de um menino, que julguei ser seu filho. Seus gestos eram os de um cavalheiro dos anos vinte. O sorriso, vazio. Mas os olhos azuis eram de profundo respeito. Cheguei a cruzar ainda com dois casais trepando contra o muro de cimento aparente. Nenhum deles me viu. Se fossem meu alvo, poderia ter-lhes estourado a cabeça, e eles nem saberiam o que os acertou. Por sorte, minha e deles, não eram. Detestaria ter de botar uma bala na cabeça de alguém num momento desse. Quando for a minha vez, só peço duas coisas. Que não seja enquanto eu estiver trepando, e que seja por alguém que sabe atirar. Não quero acabar tetraplégico por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais adiante, ouvi gemidos. Não foi difícil identificar de onde vinham. Ao lado de uma lata de lixo, um menino estava deitado sobre o cimento frio. Estava sem camisa, e coberto até o peito com uma única folha de jornal. Fiquei alguns instantes observando o garoto. Devia ter uns onze, doze anos. A pele escura, de quem toma sol além da conta, cabeça raspada, muito magro. Gemia, e tremia a cada corrente de ar frio que rasgava o beco. Quando finalmente me notou o observando, me fitou com toda a gravidade de seus poucos anos. Um olhar profundo, um pedido por socorro. Os olhos brilhavam num misto de súplica e esperança. “Tô com fome.” Eu não tinha  comida, nem dinheiro. E não podia deixar de concluir meu serviço aquela noite. Me sentindo um canalha, abaixei e pus a mão sobre seus olhos. “Dorme, filho. Dorme que passa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei ao galpão. Esperei, escondido pelas sombras os dois caminhões terminarem de ser carregados. Foi exatamente ele quem fechou a porta do segundo caminhão. A rotina estava certa. Os dois caminhões carregados seguiram seu rumo, e ele começou a andar em direção a um Vectra, estacionado perto de mim. Eu sabia que era o seu carro. Sabia que ele ficaria sozinho naqueles instantes. Quando ele encostou a chave na porta do carro, eu encostei o cano da arma na sua nuca. Puxei a 9mm de sua cintura e me afastei, ainda apontando a arma para sua cabeça. Ele se virou. Me reconheceu no ato. “Filho da puta. Primeiro meu irmão, agora eu. Fiquei sem a merda da minha vingança.” Eu sorri. “Para um traficante experiente, até que foi fácil.” Ele sorriu e baixou a cabeça. “Foi fácil com ele?” “Seu irmão? Não. Deu trabalho.” “Ele sempre foi melhor que eu.” Puxei o gatilho. Apaguei o último grande concorrente do meu chefe na cidade. Meti a mão nos seus bolsos, peguei carteira, relógio, celular. A chave do carro eu joguei fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na volta à estação de metrô, passei pelo mesmo beco. O garoto que vira antes agora dormia. Acordei-o. “Vem comigo, garoto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegamos na estação, paramos na primeira lanchonete que vimos. Peguei a carteira do traficante, tirei uma nota de dez. “Me vê dois pastéis e duas cocas, por favor. Pra mim, e pro meu companheiro aqui.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-644444260127097778?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/644444260127097778/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=644444260127097778&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/644444260127097778'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/644444260127097778'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/08/nos-becos-da-cidade.html' title='Nos Becos da Cidade'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-6966616828433871025</id><published>2007-06-21T00:08:00.000-03:00</published><updated>2007-06-22T15:27:05.689-03:00</updated><title type='text'>O Dentista e o Cidadão de Bem</title><content type='html'>Fio-dental. Porra, o mundo ruindo lá fora. Guerras civis, guerras religiosas, genocídios, mensalão. E a gente tem que se preocupar em passar fio-dental todo dia. Puta coisa inútil. Me sinto um alienado qualquer usando essa merda. Vegetando em frente ao espelho pescando sujeiras inventadas pelos verdadeiros pilantras do mundo moderno: os dentistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca fui de usar fio-dental. Só uso mesmo na semana em que vou ao dentista. Pelo menos assim evito a chateação de ter que ouvir o mesmo discurso que ouvia na minha já ida segunda série sobre quanto o fio-dental é bom, e como usá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei ao consultório uns quinze minutos atrasado. Me sentei com uma daquelas revistas de fofocas que só tem fotos de pessoas famosas. Tinha de esperar o paciente marcado antes de mim sair. É impressionante como nenhum dentista nesse mundo tem a habilidade de te atender no horário marcado. E como nenhuma sala de espera de consultório tem coisas interessantes a serem lidas. É sempre o mesmo lixo. O mendigo encostado à porta só com uma caneca trincada, um dente na boca e um buraco no lugar do estômago corroído pela fome. E as madames e os playboys, todos com os dentes branquinhos e saudáveis de quem usa fio-dental todo dia, rindo-se das ditas celebridades e seus namoros de fachada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som daquele motorzinho cretino vazava da sala adjacente e me atingia como uma tijolada nos tímpanos. O estofado do sofá tinha marcas de unhas. Não eram minhas. Algumas eram antigas.Outras nem tanto. Sei que devo ter deixado uma fresquinha quando me levantei dali e rumei sala adentro para a tortura. Pessoas são engraçadas. Ninguém plenamente racional se prestaria àquilo mais de uma vez na vida. Quanto mais duas vezes por ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me sentei na cadeira já querendo levantar. Abri boca e o ritual começou. E o desgraçado insensível ainda queria conversar. Eu com a boca aberta, cheia de aparelhos barulhentos para torturas medievais e o mal-caráter do dentista perguntando como ia minha mãe. Me perguntou como estava indo o pós-operatório da velha enquanto vinha com aquele motorzinho de novo pra cima de mim. “Câncer não é brincadeira. Ainda bem que foi descoberto ainda no início, né...” E eu respondia só com vogais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá pelas tantas, “Se você quiser, mais tarde, fazer um tratamento de clareamento dos dentes, a gente pode marcar tudo certinho.” Eu meio que concordei, mas só pra ele saber que entendi a proposta, mas não estava interessado. Vou lá fazer clareamento pra quê, se o café e os cigarros vão amarelar tudo de novo. Eu lá sou maluco pra rasgar dinheiro assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, finalmente, o desgraçado me liberou, quase duas horas depois, eu cambaleei até a sala da frente. Entreguei a carteirinha do plano de saúde à secretária. Foi quando me lembrei que eu pagava por aquilo. Me senti lesado. Passado pra trás. Naquela madrugada eu incendiei o prédio do consultório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excelência, se o senhor já foi ao dentista, vai entender a minha posição. Eu afirmo, Excelência, que não fazia idéia que o doutor estava no consultório durante a madrugada com a amante. Mas digo ao senhor que o teria incendiado mesmo que soubesse. Um dia existiu nesse país algo chamado “legítima defesa da honra”. Bom, o senhor, como bom cidadão comum, deve entender que minha honra foi brutalmente atacada quando do ocorrido. Assim, como é atacada a honra de todo mundo que acaba passando por isso pelo menos uma vez na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o juiz leu minha sentença, leu com uma emoção de clara cumplicidade. Eu fui condenado, é claro. Mas sei que doeu naquele homem me condenar pelo que fiz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-6966616828433871025?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/6966616828433871025/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=6966616828433871025&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6966616828433871025'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/6966616828433871025'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/06/o-dentista-e-o-cidado-de-bem_21.html' title='O Dentista e o Cidadão de Bem'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-4417774008042871517</id><published>2007-05-23T21:44:00.000-03:00</published><updated>2007-05-23T21:51:04.172-03:00</updated><title type='text'>Golfinhos de Miami</title><content type='html'>Ele usava um terno Armani quando nós o pegamos. Figurão de Wall Street no Brasil a negócios. Cabelinho cortado baixo, sapato lustrado, barba feita, pasta de couro caro e aquele olhar de Mamãe, eu sou gostoso. Até português ele falava. Na verdade era um viadinho. Quase se mijou quando viu minha pistola na cara dele. O cara ficou estático, lívido. Tentou falar alguma coisa, mas os lábios tremiam e a voz não vinha. Viadinho. Jogamos a figura dentro da Kombi e partimos. Ele não agüentou e se mijou no caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegamos no velho galpão de sempre, amarramos o cara numa cadeira e nos revezamos dando tapas na cara do sujeito. Não chegamos a machucar o cara. Era só pela desmoralização mesmo. Ele começou a oferecer tudo pra gente. Dinheiro, carro, rolex de ouro, a bunda, a esposa, a mãe. Até emprego o filho da puta prometeu arrumar pra nós quatro. Quando ele viu que o nosso negócio não era esse, começou a chorar. Chorou como uma moça por muito tempo. Disse que tinha mulher, filhos. Aquele papelão de sempre. Cada vez que eu ouvia um marmanjo daqueles nesses choros, eu tinha vontade de vomitar. Ainda tenho, na verdade. Só de lembrar da história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiramos a roupa dele. Eu fui encher a banheira antiga que estava jogada por lá. O Tijolo arrumou um galão de gasolina e um extintor de incêndio. O Rolha sacou a navalha e o Dado tirou a 22 da cintura. Primeiro foi a navalha. A gente sempre começava pela navalha. Cortaram fora as orelhas e o saco do infeliz. As pontas dos dedos, os bicos do peito. Escreveram “A Burguesia Fede” com a navalha no peito dele e abriram o sorriso do cara de orelha a orelha. Depois vem a 22. Teco no joelho, coronhada na testa. Teco na palma da mão, coronhada na boca. Teco no peito do pé, coronhada na cabeça do pau. A ordem variava. Mas o final era sempre o mesmo. Um tiro na boca do estômago. A partir daí o cara tinha certeza que ia morrer. Sem pressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, a gasolina. Rolha e Dado seguraram a cabeça do mauricinho virada pro alto. A boca aberta. Nariz tampado. Ele teve que beber toda a gasolina que o Tijolo virou na sua boca. Depois, embeberam o pau do cara com a gasolina. Tijolo acendeu o isqueiro e jogou. O puto entrou em choque. Dado apontou o extintor pro fogo, e apagou. O pinto do maldito parecia uma torrada queimada. A banheira tava pronta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mergulhamos o cara na banheira cheia. Pegamos dois fios com as pontas desencapadas e mergulhamos na água. Um de cada lado da banheira. Li uma vez que os policiais do Rio usam essa tortura nos traficantes. Parece que eles chamam de “Golfinhos de Miami”. Era assim que nós a chamávamos também. E, realmente, o cara pulava pra fora d’água como um golfinho. Deixamos o filho da puta fazendo acrobacias na banheira durante um bom tempo e demos um fim no desgraçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, a TV mostrou o corpo, encontrado pela polícia. Os comentaristas estavam chocados com a brutalidade do crime. Já era a terceira vítima executada com o mesmo padrão. Fizeram uma mesa redonda, e a opinião unânime da mesa era de que os homens haviam sido executados por terem resistido a colaborar com o seqüestro. Um sociólogo ainda tentou levantar a hipótese de puro assassinato a sangue frio, de um possível recado que a quadrilha queria dar. Mas ninguém deu ouvidos ao cara. Na semana seguinte, nós, filhos da classe média metidos a comunistas, pegamos nossa quarta vítima. Um alemão a caminho do aeroporto. Quando a televisão noticiou o caso, nós éramos um bando de favelados marginalizados e seqüestradores em busca de dinheiro. E omitiram o fato de que nós sempre devolvíamos as roupas, as carteiras, relógios e maletas das vítimas. Isso não interessava aos jornais. Mas os executivos da cidade agora andavam cagados de medo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-4417774008042871517?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/4417774008042871517/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=4417774008042871517&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/4417774008042871517'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/4417774008042871517'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/05/golfinhos-de-miami.html' title='Golfinhos de Miami'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-8503183915108726205</id><published>2007-05-15T20:41:00.000-03:00</published><updated>2007-06-03T14:40:43.893-03:00</updated><title type='text'>Vida de Zagueiro</title><content type='html'>Era semifinal de campeonato. O jogo de volta era na nossa casa. O primeiro jogo foi empate. Um a um. Pra ser sincero, o juiz nos deu uma mão. O empate veio com a contribuição dele. O time deles é melhor que o nosso. É melhor, mas também não é tão melhor quanto a imprensa insiste em dizer. Não é nenhum carrossel. Esses jornalistas são todos uns sensacionalistas. Um time encaixa dois jogos bons e já é o melhor do Brasil, favorito ao título. Um garoto de dezoito, dezenove anos entra em um jogo decisivo e faz um gol, já é o novo Pelé. Ou o novo Zico, o novo Garrincha. Depende do time.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso era o que falavam de um garoto do time deles. Dezenove anos na cara e já tinha status de craque consagrado. Era um daqueles atacantes chatos, lisos. Daqueles que correm o tempo todo e driblam como se fosse o fundamento mais simples do futebol. Sempre tive raiva desse tipo de jogador. No começo era inveja, hoje em dia é raiva mesmo. Quando eu era moleque, eu queria ser assim. Sabe aqueles jogadores que parecem uma foca adestrada brincando com uma bola? Eu queria ser assim. Nunca tive essa habilidade. Nem essa, nem nenhuma outra. Sempre fui durão, grande, desajeitado. Acabei meio frustrado. Mais frustrado que eu era meu pai, que Deus o tenha. O sonho do velho era ver o filho jogando um bolão, se destacando. Um atacante habilidoso, ou um meia-esquerda genial. Acho que até um lateral apoiador ele aceitaria. Talvez até um goleiro. Mas não um beque central. Goleiro ainda tem seus momentos, opera seus milagres, pega pênalti. Acontece até de alguém fazer um vídeo, uma montagem com as defesas mais bonitas e colocar na Internet. Mas ninguém faz vídeo de zagueiro roubando bola, ou dando bicão pra frente pra tirar a bola de dentro da área. Esse é o meu trabalho. Dar bicão, não fazer vídeo. E meu pai me olhava com tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No vestiário, antes do jogo, o time estava confiante. Os garotos tocavam um pagode no pandeiro, outros reclamavam. Diziam que aquilo era som de preto. Tudo gozação. Eu, que não gosto de farra antes de jogo decisivo, vestia o uniforme com calma. Sempre começando pelo lado direito do corpo. Superstição. Todo jogador tem. Não é infalível, mas não custa nada tentar. O treinador logo acabou com a brincadeira. Estava na hora. No túnel, fizemos aquela roda de sempre. O Paulo César, que é o capitão do time, falou umas palavras bonitas sobre o que é jogar num time de massa. Todo mundo aplaudiu e subiu ao campo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os repórteres rodeavam o Paulo César e o Juninho, craque do nosso time, como urubus. Queriam declarações sobre como o time jogaria. Os adversários já estavam em campo. O garoto também estava rodeado de repórteres. Inflavam o ego daquele garoto descaradamente. Não duvido nada que daqui a um ano ele esteja mascarado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jogo começou morno. Os comentaristas diziam que os times estavam se estudando. Porra nenhuma. Os times estavam receosos, isso sim. Ninguém quer correr risco em jogo de mata-mata. O garoto do time deles ainda ensaiou umas jogadinhas de efeito aqui e ali, mas nada que empolgasse. O jogo foi se arrastando até os trinta e cinco, mais ou menos, do primeiro tempo. O nosso volante errou uma saída de bola. O garoto partiu pra cima do Pedrão, meu companheiro de zaga, passou e rolou a bola pra trás. O centroavante deles pegou de primeira, sem chances pro nosso goleiro. Um a zero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A torcida não se abateu. Gritou, cantou e pulou até o último minuto do primeiro tempo, quando o Paulo César sofreu uma falta na meia-lua deles. O Juninho bateu com categoria e empatou o jogo. O estádio veio abaixo. O juiz acabou o primeiro tempo antes da saída de bola deles. A torcida gritava o nome do Juninho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta ao vestiário, o treinador nos parabenizou pela raça demonstrada na busca do gol. Falou de tática e falou que não se ganha jogo decisivo sem raça e sem colhão. Dessa parte eu gostei.&lt;br /&gt;Mas, quando o segundo tempo começou, a história foi outra. Antes dos dez minutos, o garoto puxou um contra-ataque, entortou o Pedrão, me deu um corte seco e bateu na saída do goleiro. Um golaço. Olhei pro Pedrão e vi que o ódio nos olhos dele era tão grande quanto o que eu sentia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O time não se entregou. Fomos ao ataque com tudo, pressionamos, apertamos, fizemos o caralho a quatro. Mas tudo o que conseguimos foi uma bola que o Paulo César mandou na trave. Aos vinte e cinco, outro contra-ataque. Dessa vez, eles vieram tocando a bola, uma triangulação bonita, e o centroavante saiu na cara do gol, driblou o goleiro e empurrou pra dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daí, eles mandaram no jogo. O garoto resolveu abusar da habilidade e, em dez minutos, eu contei dois elásticos, três canetas, um chapéu e várias pedaladas. Colocaram nosso time na roda e o garoto realmente parecia uma foca adestrada. Pra resumir, foi humilhante. Até que, aos trinta e cinco, ele me deu um drible de corpo desconcertante, esperou eu me recuperar na corrida, passou a bola entre as minhas pernas e rolou pro meio da área. O meia-esquerda dominou e chutou. Quatro a um. O Paulo César me segurou pelo braço e disse: “Vou devolver a bola pra eles. Entra pra rachar.” Eu sorri e concordei com a cabeça. Vi que ele pediu o mesmo a vários companheiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na saída de bola, dito e feito. O capitão inventou de tentar sair driblando e perdeu a bola. A galera do meio vinha bufando, e eles soltavam a bola rápido. Até que caiu no pé do garoto. Eu fui pro combate. Ele me deu outro corte e eu mandei logo um pontapé. Ele subiu quase um metro e caiu seco, como um saco de batatas. Não quis machucá-lo, foi só a pancada mesmo. O meia-esquerda veio pra cima de mim pra tirar satisfações, botou o dedo na minha cara e eu já emendei um soco na dele. A confusão foi generalizada. O pau comeu feio. Juninho entrou numa voadora no peito de um jogador deles. Quando o clima esfriou, alguns socos e pontapés depois, o único expulso fui eu. Pus a camisa pra fora do calção e caminhei lentamente até o túnel enquanto a torcida gritava meu nome. Um repórter me pegou pelo braço e perguntou o que tinha acontecido, se o garoto tinha me provocado. “O garoto não fez nada de errado, ele tá mais é certo. Futebol é isso mesmo. Eu é que não posso ser humilhado na frente da minha torcida e baixar a cabeça. Eu tenho que prestar contas com essa massa que você tá vendo aí. Eles pagaram ingresso pra ver o time deles ter atitude, se não podem sair daqui com a vaga na final, pelo menos saem satisfeitos porque o time mostrou que tem coração.” O repórter não pareceu concordar com o que eu falava, mas eu não dei a mínima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comecei a descer o túnel, olhei para o treinador e ele fez um sinal de positivo pra mim. Fui para chuveiro feliz. Nem me importei com o quinto gol que eles ainda fizeram nos últimos minutos de jogo. Nem com a má fama que a imprensa me daria. Alguns dentes e um pouco de sangue eles deixaram por aqui. Perdemos o jogo e o campeonato, mas ganhamos a briga.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-8503183915108726205?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/8503183915108726205/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=8503183915108726205&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8503183915108726205'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8503183915108726205'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/05/vida-de-zagueiro.html' title='Vida de Zagueiro'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-3079996540263975648</id><published>2007-04-22T14:36:00.000-03:00</published><updated>2007-04-22T14:38:33.752-03:00</updated><title type='text'>Opostos</title><content type='html'>“O que te faz feliz?”&lt;br /&gt;“Um tiro na testa de um homem de terno e gravata.”&lt;br /&gt;“Não tem isso no comercial.”&lt;br /&gt;“Foda-se.”&lt;br /&gt;“Não, vamo tentar lembrar das coisas do comercial. Chocolate, paixão, dormir cedo, acordar tarde...”&lt;br /&gt;“Ah, não. Nada de mundinho cor-de-rosa. Vamo fazer o nosso próprio texto. Onze de setembro, gol de mão do Maradona, Guerra do Vietnã, Comuna de Paris. Ou serão os filmes do Scorsese que te fazem feliz?”&lt;br /&gt;“Você é muito macabro.”&lt;br /&gt;“Sou realista.”&lt;br /&gt;“O real também tem coisa boa.”&lt;br /&gt;“Ué, e não foi coisa boa o que eu citei?”&lt;br /&gt;“Esqueceu do amor.”&lt;br /&gt;“Sid Vicious e Nancy Spungen.”&lt;br /&gt;“O quê?”&lt;br /&gt;“Sexo, drogas e Rock n’ Roll. E eles ainda acharam tempo pra se amar.”&lt;br /&gt;“Você me dá medo às vezes.”&lt;br /&gt;“E você é senso-comum demais.”&lt;br /&gt;“Mas sou feliz.”&lt;br /&gt;“Com um namorado macabro.”&lt;br /&gt;“É. Mas você é menos macabro que o Sid Vicious, pelo menos.”&lt;br /&gt;“Você que pensa.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-3079996540263975648?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/3079996540263975648/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=3079996540263975648&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3079996540263975648'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3079996540263975648'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/04/opostos.html' title='Opostos'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-8037741077572593884</id><published>2007-04-13T20:11:00.000-03:00</published><updated>2007-04-13T20:12:50.491-03:00</updated><title type='text'>A Justiça do Gatilho</title><content type='html'>Eu bati. Ninguém respondeu, mas entrei assim mesmo. Fechei a enorme porta de madeira às minhas costas e engatilhei a arma. Era uma escopeta. Eu tinha uma 9mm no cinto, mas a verdade é que eu nunca gostei das armas pequenas. Sempre preferi as grandes. Aquelas que fazem buracos enormes. Sempre gostei de grudar as entranhas dos caras na parede com um tiro a queima roupa. Quanto mais sangue e órgãos eu espalhar, mais satisfeito comigo mesmo eu fico. E eu estava prestes a estourar a cabeça de uns babacas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A igreja estava um caco. Caminhei por entre os bancos dando uma olhada no lugar. Aquela merda tava caindo aos pedaços. No altar, tinha uma imagem de Jesus pregado na sua cruz. Faltava o braço direito da imagem. Caminhei em direção ao confessionário. Eu conhecia o cheiro que vinha dali. Chutei a porta. Ela abriu de uma vez. Dois garotos, que deviam ter uns catorze anos, se tanto, estavam fumando um baseado. Eles me olharam como se eu fosse um duende qualquer que veio direto de um conto de fadas pra foder com eles. Eles choraram quando viram a escopeta. Eu disse pra eles vazarem dali. Saíram correndo. O loirinho ainda deixou cair um saco cheio de bagulho. Eu peguei o saco do chão e guardei no bolso. Podia ser útil depois do serviço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As escadas ficavam atrás do altar. Levei um tempo pra descobrir isso. Desci. Os alojamentos dos padres ficavam lá embaixo. Era o que eu procurava. Entrei no primeiro quarto devagar, sem fazer barulho. Minhas mãos não tremiam. Elas nunca tremem. Mas meu coração batia tão forte que eu podia ouvir meu peito subindo e descendo. É isso que me faz ser bom nesse trabalho. Eu adoro esse momento. Me realizo nesses serviços. Não existe sentimento melhor que o tesão de saber que você está a segundos de explodir a cabeça de um anormal qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois padres estavam naquele quarto. E um garoto. Onze, doze anos. Não sei direito. Estavam nus. Os três. O padre mais novo estava segurando o garoto contra o chão. O mais velho estava… Bom, só sei que aquilo deve doer pra caralho. O garoto estava chorando. Eu puxei o gatilho. Acertei o mais velho. Foi o pinto dele que eu estourei, não a cabeça. Ainda. Puxei a pistola da cintura e atirei no joelho do mais novo. Disse pro garoto sumir dali. Eu não queria que ele visse o que eu estava a ponto de fazer. Ele se mandou. Pus o cano duplo da escopeta dentro da boca do velho. Agora foi a cabeça dele que eu estourei. O mais novo começou a chorar. Ele estava coberto de sangue e pedaços de cérebro. Tenho certeza que ele sentia o gosto do outro padre. “Deus nos ensinou a perdoar. Ele abomina a violência.” Ele disse. “Esse é um problema que você vai ter que resolver com ele pessoalmente. Meu trabalho é só marcar o encontro.” Fiz ele se levantar. A queima roupa. As entranhas dele ficaram grudadas na parede às suas costas. Se me senti mal com isso? Você se sente mal quando dá a descarga?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sentei no chão lavado de sangue, peguei o saquinho de erva e mandei ver. É bom relaxar depois de um dia duro de trabalho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-8037741077572593884?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/8037741077572593884/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=8037741077572593884&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8037741077572593884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/8037741077572593884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/04/justia-do-gatilho.html' title='A Justiça do Gatilho'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-7230004556773897033</id><published>2007-04-01T13:58:00.000-03:00</published><updated>2007-04-01T20:29:26.716-03:00</updated><title type='text'>Suspiro</title><content type='html'>O último gole de café.&lt;br /&gt;Apago o último cigarro do maço.&lt;br /&gt;A caneta corre o papel branco&lt;br /&gt;E desenha a última palavra do poema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em cada letra disforme,&lt;br /&gt;Em cada palavra impublicável,&lt;br /&gt;Em cada verso torto,&lt;br /&gt;Em cada estrofe empoeirada,&lt;br /&gt;Grito meus versos de cólera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém ousa dizer as palavras que ouço&lt;br /&gt;Ou pensar as que escrevo.&lt;br /&gt;Minha caneta minha adaga&lt;br /&gt;Fere, impiedosa, o papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma revoada de anjos e corvos,&lt;br /&gt;Todos feios, mancos e de asas quebradas,&lt;br /&gt;Vem sussurrar-me ao ouvido&lt;br /&gt;Minha sina. Meu impasse.&lt;br /&gt;Vem ensinar-me a ser errado&lt;br /&gt;Ensinar-me a ser humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A boca mal se move&lt;br /&gt;E a mente já não trabalha.&lt;br /&gt;O poema aos poucos morre&lt;br /&gt;No fino corte da navalha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-7230004556773897033?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/7230004556773897033/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=7230004556773897033&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/7230004556773897033'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/7230004556773897033'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/04/suspiro.html' title='Suspiro'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-3520452172500696251</id><published>2007-03-22T20:21:00.000-03:00</published><updated>2007-03-27T19:32:59.902-03:00</updated><title type='text'>Quando Soa O Gongo</title><content type='html'>Os respingos voaram no meu rosto. Parte sangue, parte suor. O Tony tava levando uma surra. Já cansei de repetir pra ele. “Levanta a guarda!”, eu vivo lembrando. Ele simplesmente não aprende. É um bom lutador. Tem uma patada de direita. E assimila a porrada como poucos. Mas não tem técnica. Não tem muito equilíbrio. E nunca se lembra de se defender. Ainda tinha um minuto até o gongo soar. Peguei meu maço de Lucky Strike e acendi um. Torci para ele agüentar pelo menos mais aquele round.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele agüentou. Sentou-se com dificuldade no canto do ringue. O cutman tentava dar um jeito na cara destruída dele. “Tony, você só vence se for um nocaute! Lembra da luta passada? Foi a mesma coisa.” Ele me olhou como se estivesse entendendo, mas não estava. Era um retardado. Pancadas demais na cabeça, eu acho. “Hoje você apanhou mais, mas se encaixar o direto, o cara cai!” Me senti um idiota dizendo isso. Encaixar o direto era tudo o que o coitado estava tentando fazer desde que a luta começou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou para o centro do ringue bufando feito um touro. E levou olé feito um touro também. A cada tentativa de direto, era uma esquiva. E um contra-golpe. Até que, numa dessas combinações, um gancho de esquerda jogou o Tony no chão. O curativo no supercílio se desfez. Ele se levantou meio grogue ainda, mas o juiz mandou a luta seguir. Sempre admirei a capacidade do Tony de assimilar os golpes. Um lutador comum, depois de apanhar o que ele apanhou hoje, já teria pedido arrego. O Tony não. Se deixar, ele luta até desmaiar, ou coisa pior. E era o que ele estava disposto a fazer nessa luta. Mas eu não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O décimo round se arrastava para o fim, e o Tony continuava apanhando feito um bandido numa delegacia. Apanhava de pé. Os olhos já estavam fechados de tanta porrada, o sangue escorria pelo seu rosto e as pernas já falhavam. Um massacre. E o puto do juiz deixava a luta correr. Essas lutas pequenas em ginásios de subúrbio são foda. Nego quer ver sangue. Seqüelas. Até morte, se calhar. E o retardado do Tony com aquele maldito orgulho não se entregava. Então, faço eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joguei a toalha. O árbitro encerrou a luta e o Tony me olhou com ódio nos olhos. Ele vai me matar amanhã. Na verdade, mataria a alguns anos atrás. Amanhã ele não vai se agüentar de dor em tudo que é canto do corpo. As mãos inchadas, os olhos sensíveis. É o preço que todo boxeador em fim de carreira paga. Ele já está se acostumando com isso. Há dias em que a direita entra. Há dias em que não. Depois dos trinta e cinco, a segunda alternativa é bem mais presente. Isso, ele ainda não entendeu. Eu disse, é um retardado. Mas é um homem. Hombridade ele entende. É um bom garoto, afinal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-3520452172500696251?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/3520452172500696251/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=3520452172500696251&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3520452172500696251'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3520452172500696251'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/03/quando-soa-o-gongo.html' title='Quando Soa O Gongo'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-3458784257121187580</id><published>2007-03-17T13:37:00.000-03:00</published><updated>2007-03-17T13:44:40.606-03:00</updated><title type='text'>Suor</title><content type='html'>...Ele me ama um amor simples. Um amor sem profunda filosofia, sem digressões de poesia. Ama-me simplesmente. E me toma, como que a força. Enlaça-me o corpo nu, me arranca dos lábios o gosto de batom e de suor. E me corre o corpo com a língua ardente de volúpia me atiçando a pele quente. E arrasta as coxas por entre as minhas coxas e me põe em brasas ao beijar o meu ventre e apertar com dedos firmes os meus seios. A sua voz rouca e fatigada que sussurra indecências ao meu ouvido, enquanto me aperta e me acompanha no rebolar dos meus quadris. E me roça a nuca com a barba mal-feita e me crava os dentes que quase me machuca. E eu repouso murcha de cansaço em seus braços exaustos. E ele dorme com a boca enfiada em meus cabelos a esperar que os primeiros fios de sol vençam a cortina e façam brilhar os meus cachos. Ele me ama assim, como um bicho. Simplesmente...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-3458784257121187580?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/3458784257121187580/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=3458784257121187580&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3458784257121187580'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/3458784257121187580'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/03/suor.html' title='Suor'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-72311286908546638</id><published>2007-03-03T00:51:00.000-03:00</published><updated>2007-03-03T01:13:02.859-03:00</updated><title type='text'>Amores Brutos</title><content type='html'>...Click! Câmara vazia. Senti medo. Antes de puxar o gatilho, sentia-me intocável. Invulnerável. Agora, minhas mãos tremiam e suavam um suor gelado. Ela me olhava com ansiedade nos olhos verde-acinzentados. Sorri um sorriso amarelo. Pus o revolver nas mãos dela. O objeto de ferro negro parecia enorme naquelas mãos frágeis. Ela nem parecia ter força para levantar a arma. Engatilhou-a e rapidamente levou o cano à sua têmpora. “Te amo”, eu disse. Ela apertou os olhos e puxou o gatilho. Nada. Sorriu nervosa. Seus tremores pareciam espasmos. “Eu também”. Engraçado como vencer a morte nos torna prepotentes. Peguei a arma novamente. Beijei sua boca como se agradecesse a prova de amor. Engatilhei o revolver. O tambor se posicionou. Enfiei o cano na boca. Eu sabia que nada aconteceria. Havia vencido a morte instantes antes e a venceria de novo, agora. Uma em quatro. Forcei o gatilho. Gosto de pólvora. Tarde demais para desistir. Eu sabia o que viria a seguir. Sangue e massa encefálica jorrariam na parede branca às minhas costas. Tive pena da camareira do hotel quando entrasse naquele quarto. Engraçado o que se pensa na hora da morte. Olhos verde-acinzentados me fitavam.  Gosto de pólvora. Acho que uma lágrima escorreu dos olhos dela. Talvez ela também soubesse. Olhei-a no fundo dos olhos. Senti-me triste por estragar a lua-de-mel. Agora era tarde. Tinha pólvora na minha língua. Despedi-me com um gemido gutural. Puxei o gatilho. Ainda pude ouvir o estrondo...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-72311286908546638?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/72311286908546638/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=72311286908546638&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/72311286908546638'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/72311286908546638'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/03/amores-brutos.html' title='Amores Brutos'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-1767866346113000229</id><published>2007-02-24T15:34:00.000-02:00</published><updated>2007-02-24T15:45:00.095-02:00</updated><title type='text'>Clássico é Clássico e Vice-Versa</title><content type='html'>O estádio estava lotado. O quebra-pau lá de fora não era nada comparado à guerra de gritos e provocações que sacudiam o estádio por dentro. No campo de jogo, jogadores das duas equipes davam a mesma entrevista para a televisão. Os dois prometiam equipes ofensivas e, se Deus quisesse, venceriam a partida. E estava eu na arquibancada imaginando, entre um gole de cerveja e outro, para que time torceria Deus. Provavelmente um time europeu. Está na moda torcer pra times europeus. Isso se é que ele se interessa pelo jogo, claro. Sinceramente, eu é que não estava preocupado com Seus interesses. Nunca, desculpe a blasfêmia, precisamos de Deus. Um santo sempre nos bastou. São Judas Tadeu. Fazia minha prece a ele enquanto limpava o pouco de cerveja que derramei na minha camisa da sorte. Não sou religioso. Nem supersticioso. Mas sabe como é final de campeonato. A gente tenta de tudo. É das poucas situações em que o fim justifica qualquer meio e não deixa remorso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a bola rolou, a gritaria arrepiava qualquer ser humano. Não demorou muito para a nossa torcida tomar conta. Sempre fomos mais numerosos. E mais criativos e organizados. Atendendo aos brados dos seus fiéis, nosso time abriu o placar. O nosso meia-esquerda recebeu um passe em profundidade, evitou uma solada de um volante, uma tentativa de rasteira de um zagueiro e, da meia-lua da área adversária acertou um chute lindo no ângulo. Gritamos todos quase em uníssono. O meia-esquerda batia no peito depois de beijar o escudo do time costurado ao manto que trajava. Seu nome ecoava pelo estádio. A nossa torcida cuida dos seus. Sabemos retribuir alegrias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Efêmera foi a alegria, é bem verdade. Ido o segundo terço do primeiro tempo, uma bola sobrou, rebatida pela nossa zaga, na entrada da área. O lateral-esquerdo deles deu um chutinho despretensioso. Na mão do nosso goleiro que, numa ação ridícula, deixou a bola escorregar por entre suas mãos. A maldita da bola caiu dentro do gol. “Ah, goleirão!”, lamentou um senhor de bigode sentado atrás de mim no espaço de tempo entre o gol e a comemoração da torcida adversária, que demorou a acreditar na falha do nosso guarda-redes. Eles comemoraram, enfim. O preto e branco daquela família de portugueses. Gritaram, achincalharam. Era o empate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O empate também não durou muito. Num lance de nervosismo, nosso zagueiro central deu um bico e cedeu um escanteio. Ato falho do becão. Eles cobraram o escanteio na cabeça do poste trombador que veste a camisa nove deles. Ele subiu e tocou de cabeça. Cabeçada como manda a cartilha, para o chão. Nosso goleiro não teve chance. Viraram o jogo, os putos. Dessa vez a torcida foi rápida na comemoração. O grito veio quase que instantaneamente, logo que viram a bola cruzar a linha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos minutos antes do fim do primeiro tempo, o mesmo beque, em uma cobrança de escanteio a nosso favor, foi derrubado. Pênalti. A torcida vibrou. Alguns jogadores se cumprimentaram. Não gostei. Estavam cantando vitória antes do tempo. O meia-esquerda se apresentou pra bater. Ajeitou a bola. Nossa torcida em silêncio absoluto. A torcida deles gritava para tentar desconcentrar o nosso camisa sete. Ele correu para a bola e bateu forte buscando o canto. Na trave. A torcida deles comemorou. A nossa lamentou, xingou, chutou a cadeira da frente. Foda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foda mesmo foi agüentar a gritaria deles durante todo o intervalo. Precisei ir ao banheiro. Culpa da cerveja. Porra, banheiro de estádio é coisa de louco. Banheiro de estádio em dia de clássico piora. Mas banheiro de estádio em clássico e final de campeonato é absurdo. Agradeci a mamãe e papai por ter sido homem. Se fosse mulher, eu mijava nas calças, mas não abaixava naquele banheiro de jeito nenhum. Mijar em banheiro sujo com seu time perdendo pro maior rival na final do carioca e com a torcida deles gritando lá fora é algo que eu não desejo pra ninguém. Aliás, desejo pra cada um daqueles cruz-maltinos lá fora. Ainda tinha o segundo tempo. Eles iam engolir aqueles gritos, eu tinha certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso time voltou para o segundo tempo jogando melhor. Pressionava o adversário, marcava a saída de bola deles. Pressão. Como nada em dia de clássico dura muito, lá se foi a nossa pressão. Nosso camisa dez errou um passe de menos de cinco metros. Deu a bola nos pés do atacante adversário. ”Poucas vezes o camisa dez da gávea foi tão ruim de bola!”, bradou o senhor de bigode às minhas costas. Contra-ataque. Três cruz-maltinos contra dois beques. Gol. Eles tabelaram, um deles deixou o goleiro sentado comendo grama e rolou para aquele poste camisa nove. Ele só escorou pra dentro do gol. Bosta. Lá se vai a nossa moral. A nossa torcida assistia atônita ao festejo dos rivais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O técnico mexeu no time. Demorou pra mexer, se você me perguntar, mas mexeu. Tirou o camisa dez e pôs um garoto pra jogar. O moleque vinha das divisões de base e já tinha entrado no time umas três ou quatro vezes durante o campeonato. Na primeira bola que o garoto recebeu, em posição de impedimento, como fiquei sabendo pela televisão no dia seguinte, ele dominou com um pé, bateu com o outro. Golaço. A torcida explodiu em gritos. “Bota a camisa dez nesse garoto!”, era o velho atrás de mim de novo. Era esperança na voz da nossa torcida. Ainda dava tempo de erguer aquela taça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grito de gol entalou na garganta da torcida lá pelos quarenta minutos do segundo tempo. O meia-esquerda entrou na área pela linha de fundo e rolou pra trás. O garoto bateu de primeira. A bola acertou o travessão em cheio. O estrondo foi ouvido por todos no estádio. “Que varada!”, comentou o velho do bigode.&lt;br /&gt;Já passava dos quarenta e cinco minutos quando o meia-esquerda sofreu falta na entrada da área. Ele mesmo ajeitou a bola para cobrar a falta, mas recuou. O garoto pediu pra cobrar. Ele deixou. O moleque tomou posição e cobrou de pé esquerdo. O goleiro voou na bola e espalmou errado. A bola sobrou no meio da área e o nosso centro-avante foi rápido o suficiente para empurrar a bola pro gol vazio. O empate. O estádio veio abaixo. A nossa torcida comemorando. A deles lamentando o ocorrido. O velho atrás de mim gritava enlouquecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso time partiu para o ataque sem medo. Queria decidir a partida de uma vez. Aos quarenta e oito, o mesmo centro-avante foi puxado pela camisa dentro da área. O juiz não deu o pênalti. Filho da puta. Só apitou de novo para acabar com o jogo. Três a três. Decisão por pênaltis. “Eu vou enfartar!”, o velho de bigode de novo. Eu sorri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram três pênaltis para cada lado. Todos convertidos. Nosso goleiro não acertou o canto em nenhuma das cobranças. O velho de bigode já não tinha mais nomes em seu repertório para chamar o goleiro. Era a vez deles cobrarem. O tal trombador que vestia a camisa nove avançou, ensaiou uma paradinha e bateu. O goleiro se esticou todo e pegou a bola. A torcida vibrou com a defesa. Foi aí que eu tive a certeza. Seríamos campeões. O moleque foi bater o pênalti. Tinha dezenove anos. O número dezessete estampado às suas costas. Bateu com personalidade e categoria. Deslocou o goleiro, que não saiu nem na foto. A responsabilidade agora era deles. Se o cruz-maltino perdesse o pênalti, o título era nosso. Se fizesse, a decisão estaria no último pênalti, que era nosso. Ele correu de um jeito meio indeciso para a bola, bateu mal, o goleiro pulou para o lado certo, mas não pegou. Eles converteram. A responsabilidade era nossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meia-esquerda foi para a bola. O velho atrás de mim resmungava algo que não entendi direito. Só sei que era a respeito do pênalti que ele perdera ainda no primeiro tempo. O camisa sete partiu decidido para a bola e encheu o pé. No meio do gol. O goleiro saltara. Era o gol. Era o título. A gritaria tomou conta. Os jogadores no campo, a torcida na arquibancada, todos pulavam, todos gritavam. No campo, o presidente do clube dizia à equipe de televisão que o garoto prata-da-casa usaria a camisa dez daquele dia em diante. Eu não estava perto do velho quando ele soube, mas ele deve ter vibrado com a notícia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-1767866346113000229?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/1767866346113000229/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=1767866346113000229&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1767866346113000229'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/1767866346113000229'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/02/clssico-clssico-e-vice-versa.html' title='Clássico é Clássico e Vice-Versa'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-117019637302070372</id><published>2007-01-30T20:13:00.000-02:00</published><updated>2007-02-19T15:22:33.593-02:00</updated><title type='text'>Juízo Final</title><content type='html'>Acordei com as batidas do cacetete na grade. Eram três guardas. Dois deles eu conhecia. O terceiro, de uniforme engomado, eu só via em dia de execução. Cada vez que ele aparecia na carceragem, uma das celas do corredor perdia um habitante. E eu sabia de quem era a vez. Sabia qual era a cela a ser esvaziada. Pela primeira vez nesses últimos anos, eu senti medo. Cinco anos trancado aqui nesse mesmo buraco, dizendo a mim mesmo que não tinha medo da morte, que nenhuma ossuda encapuzada me levaria embora a calma. E agora eu sentia medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens traziam comida. Abriram a porta da cela. O primeiro entrou, deixou a bandeja sobre a mesa de madeira e saiu. Ficaram os três ainda a me observar pelas barras de ferro. Não me importei. Nunca tive privacidade nem para as necessidades fisiológicas. Não me importava que me vissem comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles trouxeram tudo o que pedi. Bife mal passado, com muito alho, arroz e purê de batata. E a minha cerveja. Eu já até cogitava a possibilidade de morrer feliz. Perguntaram-me se eu queria a visita de um padre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você sabe, para a extrema-unção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engoli o pedaço de bife que mastigava, tomei um longo gole de cerveja e respondi que não havia necessidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem certeza? É sua última chance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu passo. - respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois guardas que eu conhecia foram-se embora. Só ficou a me vigiar o engomadinho. Postura aristocrática. Nariz sempre apontando para o alto. Seguro de que seu trabalho era honesto. Orgulhoso de dar a sua contribuição para o nosso quadro social. Guardião da ordem, ele diria. Escravo do status quo, peão dos valores dos poderosos, eu diria. Tenho certeza que se eu dissesse algo do tipo em voz alta, ele me olharia com profundo asco e desdém e me chamaria de anarquista, ou algo parecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que recusaste a extrema-unção? – perguntou, surpreendendo-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não acredito nessas coisas. Pra mim isso não passa de um doido usando vestido, fazendo gestos estranhos e falando umas palavras que nem ele mesmo sabe o que significam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não queres ser salvo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por acaso vais me abrir as portas e me deixar ir embora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro que não! – respondeu indignado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então estou condenado. Deus salva as almas, não os corpos. E alma eu não tenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Será que não vês que vais sofrer as torturas do inferno por toda a eternidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Inferno!? Eu estou trancado em uma jaula há cinco anos. Daqui a algumas horas vão fritar o meu cérebro, e um maldito crente faz questão de me encher a paciência enquanto eu tento aproveitar meu último momento minimamente bom. Quer coisa pior? – ele se calou. Eu continuei – E mesmo que exista essa história de céu e inferno. Prefiro meu lugar nas chamas e na devassidão das grandes pessoas que foram para lá do que ser condenado a tocar harpa e me vestir de branco ouvindo papinho de gente zen pelo resto dos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho pena de você. – aquele olhar de asco e desdém de que eu falava.&lt;br /&gt;Sorri. Ignorei o fato dele me dar as costas e me concentrei apenas no sabor da comida, que até que não estava tão ruim, e da cerveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faltou o cigarro. Só percebi isso quando terminei minha refeição. Devia ter pedido um cigarro. Parei de fumar há anos, mas é impublicável o que eu não daria agora por um trago. Pedi ao engomadinho um cigarro. Ele nem mesmo se virou. Respondeu-me, de costas mesmo, que não fumava. Grande coisa. Eu também não fumo. Só queria um cigarro agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitei-me na cama e esperei. O próximo passo seria raspar minha cabeça. Lá se vai todo o dinheiro que gastei em xampu durante a minha vida. Vou acabar careca de qualquer jeito.  Piada besta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ódio. Era o sentimento presente naquela sala. Os olhares das pessoas eram tão cruéis que me furavam a carne como se fossem lâminas de aço lançadas com ódio contra mim. Garanto que muitos ali teriam imenso prazer em lançar lâminas contra mim e me ver sangrar. Não podiam. Teriam que se contentar em me ver estrebuchar enquanto não sei quantos mil ampères de corrente elétrica me fritavam. Eles vão gostar do show, isso com certeza. O que me alegra é que dificilmente será suficiente para acalmar esse povo. Provavelmente achariam a idéia das lâminas mais satisfatória. Sorrio ao pensar que as lâminas não passarão de uma metáfora, e que a satisfação deles não passa de uma ilusão de algo que eles pensam que terão. Adoro a alma humana. Tão rasa. Seus anseios são tão previsíveis e mundanos que me arrancam sorrisos de escárnio. Até que não me sinto mal de abandonar esse mundo. Pena ser este o único.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me amarraram na cadeira, fizeram todo aquele discurso batido sobre a cadeira elétrica e os crimes que eu cometi. Diziam que atentei contra a liberdade. Ora, fosse esse o crime que me levara à cadeira elétrica, não sobraria muita gente viva, já que é o crime mais comum desse mundo. Li uma vez que liberdade é todo homem e mulher livres serem julgados pelos seus atos de acordo com as leis da sua comunidade, com a condição de, livremente, consentirem em ser parte dessa comunidade. De tal grandeza de espírito não tenho conhecimento. Nunca conheci ninguém a quem se tenha perguntado se gostaria de fazer parte de alguma comunidade. Simplesmente nos jogam no meio de um monte de gente, nos lêem as suas leis e nos mandam respeitá-las. E eu atentei contra a liberdade das minhas vítimas. Eu provavelmente mereço meu destino, mas o discurso não é esse. Eu matei, sim, aquelas meninas. As seqüestrei, mantive em minha casa, as estuprei e matei. Eu mereço o que estou por sofrer. Se me dissessem isso assim, alto e claro, eu aceitaria. Mas não dizem. Mascaram os fatos com expressões eruditas e jargões. Enfiam os direitos humanos na discussão, a lei e a ordem. Idiotas. Vão matar-me sem nem admitir por quê o fazem. Talvez nem o saibam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ligaram a chave. Era o fim das minhas divagações.  Só lembro de não ter gritado, nem chorado. Só fiz uma careta. Afinal, não sei quantos mil ampères de corrente elétrica atravessando seu corpo dói pra cacete.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-117019637302070372?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/117019637302070372/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=117019637302070372&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/117019637302070372'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/117019637302070372'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2007/01/juzo-final.html' title='Juízo Final'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-116553339409274897</id><published>2006-12-07T21:07:00.000-02:00</published><updated>2006-12-07T21:16:34.110-02:00</updated><title type='text'>Out of My Blues</title><content type='html'>...Os papéis espalhados na mesa, cobrindo a cor avermelhada do mogno. Libero a fumaça pela boca e apoio o charuto no cinzeiro. As mãos procuram o copo de Bourbon com gelo. A bebida desce deixando uma ardência e um gosto bom na garganta. Cansado, recosto-me na cadeira olhando para o teto branco. Fecho os olhos. Vem, imediatamente, a imagem símbolo da minha agonia. Aquele meu pedaço de matéria afundado na água escarlate. O tom esverdeado da carne, a pele escura e quebradiça, colada aos ossos, mostram bem quantas folhas do calendário foram arrancadas desde aquele dia. Abro os olhos. O teto branco à minha frente. Volto-me para a mesa. Tantos papéis, tantas palavras, tanto sofrimento, tantas coisas a dizer, tanto carinho reprimido, e você, tão longe, tão indiferente. Mais um gole. Mais um trago. Sinto a vida escorrer por entre meus dedos. Tão difícil suportar esse coração pesado. Uma lágrima brota em meus olhos. Por hoje chega de literatura. Chega de filosofia. Vou terminar meu charuto e minha bebida. Depois, deitar-me, só, mais uma vez...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...Eu sentia o sangue correr amargo por minhas artérias enrijecidas. Sentia o álcool corroer-me o resto de consciência. O vento espalhava minhas lágrimas e meus lamentos. Eu já não sabia por que chorava. Os prédios erguiam-se negros à minha volta e a escuridão do beco mordia-me voraz com sua boca desdentada. O medo, o desespero, o desalento, o horror e as lágrimas. Tudo por um motivo esquecido. O piso frio ainda cheirava ao vômito das horas passadas e nele ressoavam meus passos trôpegos. Perdidos, meus olhos pulavam pelos cantos escuros sem saber o que procuravam. Fechei-os. Perdi a consciência antes que meu queixo tocasse o chão...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-116553339409274897?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/116553339409274897/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=116553339409274897&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/116553339409274897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/116553339409274897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2006/12/out-of-my-blues.html' title='Out of My Blues'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-116475041335553913</id><published>2006-11-28T19:45:00.000-02:00</published><updated>2006-11-28T19:46:53.366-02:00</updated><title type='text'>Maracanazo</title><content type='html'>Jules Rimet pôs-se de pé. Era o presidente da Fifa e estava a minutos de entregar a taça, que levava seu nome, ao capitão da seleção campeã do mundo do ano de mil novecentos e cinqüenta. O placar do Maracanã, maior estádio do mundo, acusava a vitória mínima do time da casa. Um a zero. Gol de Friaça aos dois minutos da etapa final. O capitão da seleção brasileira, Augusto, esfregava as mãos que esperavam enlaçar a taça. Jules Rimet iniciou a descida da tribuna até o campo de jogo, onde se iniciaria a cerimônia assim que o apito final do árbitro inglês, George Reader, se fizesse ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas corria ainda a primeira metade do segundo tempo. E a seleção a enfrentar os brasileiros era a Celeste. Os primeiros campeões do mundo. Os Uruguaios. Vestia a camisa azul-celeste número cinco, Obdúlio Varela, um deus uruguaio que emocionava até os adversários ao comandar sua seleção. E vestia o número dez, Schiaffino. E foi ele que, aos vinte e um minutos da segunda etapa igualou o marcador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O placar não se manteve igual por muito tempo. A Celeste não estava satisfeita. A raça e a vontade dos uruguaios não deram descanso aos brasileiros. Treze nervosos minutos depois do empate, veio o golpe final. O número sete estampado às costas de Ghigghia invadiu a área brasileira e o tiro foi mortal. Um tiro que transformaria Barbosa, um dos maiores goleiros a vestir o uniforme do Brasil, em vilão. Era a virada uruguaia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Jules Rimet finalmente chegou ao campo, o placar não mais marcava 1X0. Marcava 1X2. E quando o árbitro inglês pôs fim ao jogo, não foi Augusto quem recebeu a Taça Jules Rimet das mãos do próprio presidente. Foi Obdúlio Varela. O capitão que comandara a virada mais famosa do futebol das duas nações envolvidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, sete anos, onze meses e vinte e três dias depois, a Seleção Brasileira finalmente venceu a Copa do Mundo pela primeira vez, nenhum dos jogadores presentes no Maracanã estava em campo. O novo esquadrão tinha novos craques e uma nova camisa. Um amarelo intenso, incapaz de apagar da memória do povo brasileiro o desastre que as camisas brancas de cinquenta não conseguiram evitar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-116475041335553913?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/116475041335553913/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=116475041335553913&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/116475041335553913'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/116475041335553913'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2006/11/maracanazo.html' title='Maracanazo'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-116437972593008841</id><published>2006-11-24T12:37:00.000-02:00</published><updated>2006-11-24T20:00:45.800-02:00</updated><title type='text'>Raven Blues</title><content type='html'>Bateram à porta. Três batidas leves. Eu sabia de quem eram as mãos delicadas a socar a madeira. Não disse para que entrassem, mas me ignoraram o silêncio e entraram. Três mulheres. Esposa e filhas. A cada visita que delas recebo, maior é o esforço que desprendo para lembrar-me disso. Seus nomes há muito já me escaparam da memória. Não me tenhas por tolo, claro está que o número de golpes contra a porta e o número de mulheres a adentrar o quarto não passa de uma coincidência. Como das muitas que se passam no mundo. Nem mesmo um velho no meu estado de saúde e de espírito acreditaria em sinais por se tratar, o três, de um número cabalístico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto minha esposa me levava à boca colheradas do seu caldo verde, minhas filhas me contavam trivialidades das vidas que levavam do lado de fora daquele quarto. A mais nova me alisava a cabeça já lisa enquanto eu continuava a tentar contar o número de rachaduras na parede sem me perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando as duas moças deixaram o quarto, ainda me restavam as últimas colheradas de caldo verde. Olhei no fundo dos olhos da mulher que de mim cuidava. Janelas da alma, se é verdade que existe tal coisa, são de fato, os olhos. Os seus revelavam a tristeza que o seu sorriso tentava disfarçar. Eu vi o ar de choro que aquela doce mulher tentava conter. Vi as migalhas de um coração cansado. Vi o desespero mudo do seu olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caldo verde chegou ao seu fim. Como chegava ao fim aquela tarde. O céu já parecia sangrar quando voltei a ficar sozinho no quarto. Entretive-me a contar as rachaduras das paredes. Quando perdi a conta pela enésima vez, dei-me conta da sua presença. Seu pequeno corpo estava pousado na janela aberta. As penas negras brilhavam e os olhos frios pareciam vasculhar a minha alma. Era um belo corvo. Imponente, amedrontador. Mas, ainda assim, um belo pássaro. “És uma bela ave.”, eu disse. O corvo pareceu aquiescer, mas não desviou o olhar penetrante que me lançava. “Chamar-te-ei Nevermore, se não te importas. É o nome de um dos teus em um poema que li há muito. Se ainda me ajudasse a memória, o declamaria para ti.”. O corvo deteve-se ainda alguns segundos a olhar-me. E então alçou vôo sem nada me responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei com novas batidas à porta. Uma, duas, “Entre!”, consegui gritar já atordoado com aquilo. Mais uma vez me acordavam no meio da tarde por causa daquele caldo verde. Nesse dia, só minha esposa e minha filha mais nova atravessaram a porta. Explicaram-me que a mais velha teve um contratempo qualquer com o filho, que estava na escola. Explicaram isso tudo antes mesmo que eu perguntasse por onde andava a mulher. Nem mesmo sei se perguntaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha filha parecia atordoada. Estava claramente distante. Não me importei. Quem mais me chamava a atenção era a mulher sentada à beira da minha cama e seu vaivém incessante com a colher cheia de caldo verde. Vieram tarde dessa vez. A noite já ensaiava a tomada do céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corvo voltou. Dei por ele por ver os olhos trêmulos de minha filha pousados em suas penas negras. Mas o corvo fitava a mim, não a ela. A mesma postura da tarde anterior. Os olhos frios, fixos nos meus. “Chamo-o Nevermore.”, eu disse. “Como o do poema.”, sussurrou minha esposa. Aquiesci apenas. “Veio ontem me visitar. A esta mesma hora, creio.”. “É horripilante.”, resmungou minha filha. O corvo deixou seu lugar na janela e perdeu-se pelo fim de tarde. Não pareceu ofendido com o comentário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma batida apenas, e a maçaneta girou. Apenas uma mulher atravessou o batente da porta. Minha esposa chegou-se perto de mim e pôs o maço de cigarros na palma da minha mão. Eu tremia como tremem os fracos, mas fui, ainda assim, capaz de levar um dos cigarros à boca e acendê-lo com o isqueiro prata que nunca deixava o seu lugar em baixo do meu travesseiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estás certo de que queres fazer isso?”, ela me perguntou. “Estou já com um pé no mundo dos idos. Não há mais, neste mundo, arma que me possa ferir.”. Ela não pareceu concordar, mas furtou-se de dizer qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por todo o tempo em que a olhei, pensei estar olhando alguém conhecido. Mas, de súbito, dei-me conta de que não reconhecia, naquela mulher à beira da minha cama, a menina com quem casei há tantas tardes. Não reconheci o olhar vivo e admirado de adolescente. Ou os cabelos, outrora longos, que mudavam de cor com as fases da lua. Não, a mulher que eu agora fitava não era aquela menina, mas a mulher a quem eu dizia amar quando me deitava na sua cama depois de possuir outras mulheres. Talvez ela soubesse que eu tinha outras mulheres. Talvez tenha aceitado a humilhação por algum motivo. Amor, quem sabe. A verdade era que eu nunca teria a coragem necessária para descobrir se ela sabia de tudo ou não. Aquela menina com quem casei saberia. Mas não a vejo mais. E, verdade seja dita, a não ser que minta o espelho e me traia minha mente, o garoto com quem ela se casou também não se faz presente nesse corpo moribundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nevermore retornou. Mais uma vez pousou seu corpo na janela. Os olhos permaneciam imóveis a fitar os meus. A mulher levantou-se. Caminhou hesitante até o corvo e acariciou-lhe a pequena cabeça. Ele não pareceu tomar conhecimento do afago. Insistia em olhar-me frio, como se tivesse algo a dizer. Deteve-se por um tempo maior dessa vez, mas, por fim, ganhou os ares de mais um fim de tarde ainda sem dizer-me o que tinha a dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fumava outro cigarro quando ele veio. Apareceu cedo dessa vez, antes de qualquer batida na porta. Antes que qualquer companhia adentrasse o quarto. Antes mesmo que viessem os raios do sol. Não pousou na janela, mas ao pé da cama. Fitava-me de modo diferente. Seu olhar era muito mais que frio, era quase cruel. “Não devias estar a fumar. Não sabes que essa porcaria pode pôr-te fim à vida?”. Sua voz era horrenda. Metálica e rouca, reverberava pelo quarto. Gelou-me o sangue nas veias, aquela voz. “Quem és?”, perguntei. “Bem sabes quem sou.”. “Vai-te daqui, demônio! Volta para as sombrias chamas de onde saíste! Vai assombrar outra alma que essa já de assombro não precisa! Vai-te reto pelos umbrais que adentraras!”. O corvo nada dizia. Nada fazia. “Vieste me levar, criatura?”. Ele se chegou perto do meu ouvido devagar e sussurrou: “Vim te buscar.”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tudo isso hás de saber, já que de tudo nesse mundo e no outro tens ciência. Mas responde-me, deus de poucos, pra que me torturaste com aquele bicho do inferno? Por que me levar de súbito, à vista de tão horrenda cena? Vai-te também pro inferno que há de ser teu lugar, se com tanto cinismo me respondes e me torturas! Se era o tormento de minha alma que querias, aqui o tens! Deste-me algo para temer pela eternidade! Deste-me uma última lembrança que nem mesmo o demônio me concederia. A morte é um prato a ser servido morno. Para evitar o choque do espírito sem corpo. Mas serviram-mo frio. E isso não hei de perdoar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-116437972593008841?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/116437972593008841/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=116437972593008841&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/116437972593008841'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/116437972593008841'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2006/11/raven-blues.html' title='Raven Blues'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37761416.post-116424375070783660</id><published>2006-11-22T23:00:00.000-02:00</published><updated>2007-03-11T20:50:25.817-03:00</updated><title type='text'>Sudão, 20 de abril de 2006, Século XXI</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2790/4244/1600/Cosme%20Aquino%20-%20...datilografando....jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2790/4244/320/Cosme%20Aquino%20-%20...datilografando....jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;...A ferida foi profunda. Perto demais do osso, eu acho. O sangue se aglomerava negro, duro. Os dentes, violentamente arrancados do homem, jaziam no chão de tábuas de madeira quente. Pareciam boiar no sangue que fervia ali. As lágrimas escorriam pela pele escura dos rostos dos dois adultos. O sargento, postado ao meu lado, deixou a metralhadora ir ao chão. Vi que ele levou a mão lentamente à pistola enfiada na parte de trás da calça. Fechou os dedos grossos em torno do cabo da arma. Com um movimento rápido, a apontou para o homem. Vi os olhos do negro transparecerem terror e não tardou para o cheiro dos seus excrementos se fazer presente no ar. O sargento disparou. Um buraco se abriu entre os olhos do homem. A garotinha gritou. A mulher alternava, em choque, olhares para o corpo do marido e a filha, que não conseguia desvencilhar-se do brutamontes às minhas costas. Rezei. Pedi a Alá que permitisse que o barqueiro daquela gente os levasse à terra deles. Sabia que não teriam moedas de cobre nos olhos. Agora o sargento apontava a pistola para a garotinha. Avancei sobre ele. A Smith&amp;amp;Wesson foi ao chão antes do disparo. Meus companheiros, todos soldados como eu, correram para me tirar de cima dele. Me agarraram, me mantiveram de pé. O sargento atacado levantou-se, pegou a pistola do chão e pôs na minha mão. Tirou a arma que eu trazia no cinto e apontou o cano para a minha têmpora. Empurraram a garota e a mulher para a minha linha de fogo. Eu sabia o que eles queriam que eu fizesse. A mulher tirou o cordão que usava no pescoço e colocou-o no meu. Pediu-me que a matasse primeiro. Afastou-se alguns passos e esperou. Atirei. Vi a menina saltar de susto por conta do estrondo. Ela me olhava com toda a gravidade dos seus sete ou oito anos. Apontei a arma para ela. O cordão pesava em volta do meu pescoço. Dois estrondos. Seguidos. A minha arma e a do sargento...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37761416-116424375070783660?l=palavras-cuspidas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/feeds/116424375070783660/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37761416&amp;postID=116424375070783660&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/116424375070783660'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37761416/posts/default/116424375070783660'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://palavras-cuspidas.blogspot.com/2006/11/sudo-20-de-abril-de-2006-sculo-xxi.html' title='Sudão, 20 de abril de 2006, Século XXI'/><author><name>Vitor Camargo de Melo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03678208882041528163</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_0bE1L_t69aI/TAk-pWQ6ZZI/AAAAAAAAAOo/4osXPkvqDmI/S220/Tatuagem.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry></feed>
