segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Bola Oito na Caçapa do Fundo

A solidão é a mãe da sabedoria.
(Laurence Sterne)

Com o corpo dobrado por sobre a mesa de madeira, o Marcos firmava os dedos da mão esquerda contra o feltro, formando uma ponte. O taco, seguro pela mão direita em uma extremidade, estando a outra apoiada na ponte, ia e voltava, num tique nervoso que servia de ajuste para o movimento final. De repente, parou. Olhou pro Hugo por cima dos óculos e da fumaça do cigarro que se lhe pendurava no canto da boca e disse

"Não entendi. Como assim?"

"Vou dar um exemplo."

Marcos voltou os olhos para a bola branca e soltou uma tacada cheia na cara da bola sete, que ricocheteou nas duas pontas da caçapa e perdeu-se de volta na mesa. O Hugo riu e continuou.

"Vocês são o meu grupo de amigos com quem eu tenho o maior entrosamento no campo das ideias. Valores, política, futebol. Menos mulher, que não é a praia do João. - e riu do dedo médio em riste que lhe ofereci em resposta. - A gente pensa na mesma direção desde a época de faculdade, cada com suas manias, idiossincrasias, mas não há dúvida que a gente joga no mesmo time"

"Como esse desgraçado consegue dizer "idiossincrasias" depois da oitava cerveja?"

"Deixa o cara terminar, caralho." ralhou o Turco.

O Marcos jogou as duas mãos pra cima, em um gesto de render-se.

"Meu ponto é: vocês são os seres humanos que, no planeta, tem a maior chance de concordar com alguma ideia minha, ou entendê-la, ou aperfeiçoar, enfim. Semana passada eu saí pra almoçar com um amigo de infância. A gente ficou amigo na segunda série - na época em que ainda se chamava segunda série - e estudou na mesma sala a vida inteira no colégio. Aí o cara foi estudar fora. Pra encurtar, a gente não tem lá muito contato hoje em dia. E, porra, a gente não fecha com nada. Ele é a encarnação da ideologia política que eu mais desprezo, torce pro time mais ridículo do país, tem um trabalhinho de engenheiro que exige zero habilidade de análise social, ganha o dinheiro individualista dele tranquilamente. E já estamos velhos demais pra falar de bandas de rock como se a felicidade do mundo dependesse de um riff perfeito."

Apoiei o taco na minha ponte e ataquei a bola branca à direita do centro. Com o efeito lateral, ela girou a bola doze no sentido contrário e, com uma leve ajuda da tabela longa, parou bem na boca de uma das caçapas do canto. O Hugo continuava de matraca aberta.

"Falando assim, a gente não tem motivo nenhum pra ser amigo. Mas tem alguns aspectos da minha cabeça que ele entende até bem melhor do que vocês. A gente se gosta pra caralho, no fim das contas. Louco isso, né."

O Turco tomou posição para jogar, baixando o corpo e apontando o taco. Mas no lugar de desferir o golpe, alongou a conversa.

"História pregressa, mano. Vocês têm uma bagagem enorme em comum. Várias histórias, coisas que aprenderam juntos. Principalmente quando vem da infância, vocês são personagens da formação do caráter um do outro. Isso faz uma diferença enorme. O cara conhece dimensões da tua pessoa que a gente nunca vai ter nem acesso. Isso é normal dos relacionamentos humanos."

"Exato!"

Buscou matar uma difícil bola onze na caçapa do meio. Sem sucesso, prosseguiu em suas conclusões.

"Por isso que ex-mulher é foda. Essa história pregressa conjunta dá a elas uma caralhada de ferramentas pra mexer na nossa cabeça na hora que elas resolvem perturbar o cidadão. Sabem cada calo pra apertar, e tal. Vários pontos fracos."

Hugo tentou uma tacada displicente na bola doze que eu posicionara. Bateu forte demais e afastou a desgraçada da caçapa. Me olhou com uma cara de "foi por pouco". Não tinha sido por pouco. O Marcos tomou posição enquanto falava

"É por isso também que é difícil não se abalar em certas horas. São quilômetros de intimidade construída, de carinho compartilhado. Aí se encontra na festa de aniversário do filho, é foda. Dá saudade das coisas boas do casamento. Tem que fazer uma puta força pra lembrar das ruins e não fazer uma bobagem."

"Foi aniversário do teu moleque essa semana né?"

Ele desferiu um tremenda porrada na bola sete - que rebateu na tabela, longe da caçapa onde ele a queria arremessar - e respondeu

"Foi."

De repente eu visualizei o que devia ser feito. Parti decidido em direção à bola branca, alcei o taco para o alto, num ângulo próximo dos quarenta graus e ataquei ao lado esquerdo do centro.

"A melhor coisa da relação com a ex-mulher é o sexo."

"Porra, não fala isso pro cara, Hugo! Já tá abaladão..."

A semi-massé funcionou, jogando a branquela numa curva linda para a direita, contornando duas bolas adversárias e empurrando lentamente a bola oito na caçapa do fundo. Sorri. Era de longe a jogada mais bonita da noite. Busquei a cumplicidade nos olhos dos meus companheiros, mas a atenção era toda do Hugo.

"É sério. Sexo com ex-mulher é demais. Já começa pela sensação gostosa de ceder à vontade. Os dois sabem que aquilo não tá certo, que o mais prudente era trocar um aperto de mãos e ir embora, cada um pra sua casa, se masturbar sozinho. Mas quando a vontade fala mais que a razão, não tem meia bomba, o serviço é sempre completo. E o entrosamento já tá lá, construído, firme e forte, alicerçado. Tem um sentimento de familiaridade na coisa. E ao mesmo tempo sempre rola um senso de novidade. É confortável, mas não é rotineiro, entendeu? Eu já me conformei com o fato de que nenhuma dessas trepadas de solteiro vai chegar aos pés da minha ex-mulher. Minha única chance de ter sexo dessa qualidade de novo é casando outra vez, a custo de muito investimento pra chegar nesse nível um dia."

"Porra! Fiz uma jogada de Rui Chapéu e vocês nem viram, seus filhos da puta!"

"João, caralho, a sinuca é só uma desculpa pra conversa!" ralhou o Marcos.

"Bilhar." corrigi.

"Como?"

"A gente tá jogando um jogo de bilhar. Sinuca é um jogo específico, com sete bolas."

Eles riram. - "Bêbado metido a intelectual é foda..." - Mas eu estava falando sério.