sábado, 23 de novembro de 2013

E Da Calma Fez-se O Vento (ou Notas Sobre o Fim)

De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

(Soneto da separação - Vinícius de Morais)

As palavras de chumbo que despejava lhe deixavam um gosto acre na boca. Subiam do peito apertado queimando seu caminho e eram arremessadas do fundo da garganta através das fileiras de dentes. Aterrissavam violentas no colo da mulher, sentada na cama à sua frente.

Quando julgou suficientes os impropérios que descarregava, girou nos calcanhares. Sem ouvir o fim das frases que ela lhe oferecia em resposta, deixou o quarto e o apartamento com o tranco da porta batendo às suas costas.

***

O cubículo que lhe cabe no latifúndio da repartição parecia ter encolhido. As paredes falsas oprimiram sua agitação pelo restante da semana. A agonia não parecia lhe caber no peito, e a descontrolada memória bombardeava cenas selecionadas de um passado parcial.

Sentados sobre a toalha estendida na grama molhada pelo sereno, ele sentiu que ela deixou o corpo pesar sobre o seu. Ombro contra ombro, sentiu-se confortável. Desviou a atenção do punhado de brancos sulamericanos que arranhavam um jazz no palco tímido metros à frente. Pendeu a cabeça para trás e olhou o céu negro. A nordeste, encontrou o que procurava. Dois pontos de luz azul muito próximos um do outro. Esticou o dedo para mostrar o achado e aproximou a boca dos ouvidos da moça.

"Está vendo? É uma estrela binária. São duas estrelas contíguas, uma presa no campo gravitacional da outra." Olhou nos seus olhos e continuou. "Dois sois girando eternamente em torno um do outro. Nunca separados, jamais se tocam."

"Isso é verdade?"

"Não sei. Vi um cara falar isso pra uma garota num filme. Achei bonito."

"E o que a garota fez? No filme, eu digo..."

"Tascou um puta beijo no cara."

Ela inclinou o corpo, sorriu, e grudou os lábios nos dele. As bocas abriram-se lentamente. Sorviam o hálito quente um do outro.

"Mentira. Na verdade, ela tirou a roupa e eles se agarraram a noite inteira. No filme."

Ela sorriu, divertida.

"Quem sabe mais tarde..."

***

O telefone tocou histérico enquanto ela removia da cama o edredom e as almofadas. A marcha imperial do filme Guerra nas Estrelas ecoava em sua versão de guitarras distorcidas do Rage Against The Machine. Tomou nas mãos o celular e olhou a tela. Trabalho. Decidiu que era um desrespeito, àquela hora da noite. Não atendeu. Desligou o aparelho e o atirou de volta à mesa de cabeceira. Despiu-se e enfiou o corpo debaixo das cobertas. Afundou o rosto no travesseiro, torcendo para o cansaço vencer a odiosa mania do cérebro de trabalhar até mais tarde.

Ela dormia nua. Gostava das carícias das cobertas. Ele tentou acompanhá-la na época, mas a prática lhe era impossível. Repugnava-lhe a ideia de um filete de porra, desses que se desprendem vez em quando do pau excitado, espalhar-se pelo lençol onde ele esfregaria o corpo a noite toda. Ela sempre considerou aquilo uma tremenda frescura.

Enquanto ela secava o esperma de suas coxas com um pedaço de papel higiênico naquela noite, ele levantou-se e, vestindo a cueca, apresentou a teoria.

"Li num conto do Rubem Fonseca outro dia. Falando de um personagem que conseguiu se condicionar a transar sem gozar fisicamente, tipo sexo tântrico. Aí o casamento do cara foi pro ralo porque a mulher não gostava de transar sem ele gozar. A teoria dele é que o jato de porra era a evidência da vitória dela. O exaurimento dele, macho, representava o fortalecimento dela, fêmea."

"Ideia machista, hein..."

"Eu não acho. Acho bonita."

"A vitória da mulher é a gozada do homem? Puta ideia machista. A vitória da mulher é o gozo dela mesma, ora."

"Porra, você fodeu com o clima romântico."

"Eu não. Quem fodeu foi você. Você e o Rubem Fonseca."

***

Confeitaria Colombo. Sugestão dela. Ele achara a ideia estúpida, mas não quis causar outro atrito. Aceitara. Agora, no calor da discussão, arrependia-se.

"Quer saber do que mais? Eu não sei como você me ganhou com aquele papo de estrelas binárias! Conversa mais brega!"

"Já tinha ganho muito antes. Aquilo ali foi só a ponte pra fazer o que você já tava afim de fazer há meses."

"Só eu..."

"Só você, sim. Eu estive afim desde que te conheci, por todos os anos até aquele dia."

"Você tá ficando brega de novo. Chega desse assunto. Nós vamos pra sua casa buscar minhas coisas de uma vez ou não?"

"Espera, vamos conversar direito." ele esticou o braço buscando sua mão no tampo da mesa. Ela a recolheu.

"Não tem mais o que conversar. Quero buscar as coisas que faltam, botar logo um fim nisso."

"Você tá precipitando o fim disso."

"Já são dois meses! Acabou. Tá na hora da gente entender isso e seguir as nossas vidas..."

"Minha vida ainda é você."

Ela levantou-se, irritada. Com o movimento, a cadeira tombou para trás. Os olhares curiosos teriam sido atraídos pelo som da madeira quicando no chão de porcelana, caso já não tivessem vidrados na discussão. Ele baixou a cabeça. Levantou-se, resignado.

"Melhor pegar o metrô na carioca."

Quando saem da confeitaria, trazem os pescoços duros. Andam lado a lado na calçada, policiando os próprios movimentos. Não virar o rosto, não esbarrar as mãos. Na rua Sete de Setembro o mundo se acaba em água. Chuva, dilúvio, todas palavras débeis, sem vigor suficiente para descrever o que acontecia.

Procuram abrigo debaixo de uma marquise, que só apresentou-se depois de cinquenta metros corridos debaixo d'água. O vento sopra frio em suas espinhas e joga o fluxo de água quase na horizontal. Ela bate os queixos. Os corpos molhados se procuram, os braços se enlaçam. E a água fria não é capaz de dissipar o calor de um beijo lascivo que os dois sabem ser sua despedida.

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