sexta-feira, 23 de agosto de 2013

La Mala Sangre

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/07/la-mala-sangre.html

"Eu quero saber quem foi que desenhou caralhinhos voadores na parede do banheiro!" - Seu Noronha (Lima Duarte), em Os Sete Gatinhos, 1980.

Vovó estava estirada em meio às paredes de madeira do funesto artefato. Sobre uma bancada, em posição central, convergia a atenção de todos no recinto, ainda que com ela não se interagisse. Um tanto por senso do ridículo, outro tanto por dar-se prioridade, nestas ocasiões, a quem fica. Sua expressão era serena. Não soubesse eu, de fato, que estava morta, poderia jurar que acordaria a qualquer minuto com aquela agitação à sua volta, reclamando seus palavrões de hábito. Vovó cheirava a lavanda, alfazema. Mas não hoje. Não se distinguia cheiro naquela sala que não fosse o dos malditos crisântemos que papai mandou colocar nas coroas.

Vinha já doente nos últimos anos de vida a vovó. "Es la mala sangre.", dizia. Explicava que quando se envelhece, o sangue perde qualidade. Sangue velho é ruim, causa doenças. Vovó nascera em um desses vilarejos no interior da América onde o tempo ainda não aprendeu a correr. Mas as piores doenças que o sangue ruim pode trazer, vovó dizia que jamais teria. "La tristeza y la solitud.", apontava. Males de que jamais padeceria.

Um dia, me disse que muito gostaria de fazer uma viagem. Queria voltar ao povoado onde crescera e queria que eu a acompanhasse. "Mas abuela, no seu estado..." compreendi pela sua expressão que havia cometido um erro. Ouvi um sermão de quase uma hora em que ela se dizia muito aborrecida e decepcionada comigo. Não fazia ideia de que sua própria neta era desses "pendejos" e "pelotudos" que acham os velhos indignos de viver e sonhar. Que seu estado tinha nome: viva. E enquanto isso não mudasse, podia ser feliz como bem entendesse. Depois, que deus se encarregasse do resto.

Sorri e expliquei-lhe que tratava-se apenas de cuidado. "Excesso de carinho, abuela.". Mas se ela realmente quisesse voltar ao povoado, eu teria imenso prazer em acompanhá-la e conhecer melhor as suas origens. Ela manteve uma expressão um tanto contrariada, que eu sabia ser apenas para marcar sua posição. Um gesto de teimosia com o qual eu já estava acostumada.

***

Vovó, no povoado, parecia uma criança. O sorriso eternizou-se em seu rosto, enquanto rodávamos as pequenas ruas de pedra do lugar. Mostrava-me a praça em que pegou nas mãos de um menino pela primeira vez. A igreja e o muro em seus fundos que acobertara os primeiros beijos apaixonados que trocara com vovô. Contava histórias de pessoas que viveram nas casas por onde passávamos. Histórias engraçadas, histórias gastronômicas. Por vezes histórias trágicas. Cheirava todos os jardins que pudesse e perguntava aos mais velhos a respeito de personagens de sua memória.

Um dia decidiu que visitaria seu antigo colégio. Era período de férias e, no pátio, alguns meninos jogavam futebol. Tratavam-se por nomes de jogadores da seleção, que jogava a Copa América naqueles dias. Vovó mostrou-me as salas de aula em que fora aluna, uma a uma, contando histórias e explicando quem eram seus amigos em cada série que cursara.

Em uma das paredes, jazia recostado um balde de tinta branca. Dentro dele um pincel. O rodapé havia sido pintado até aquele ponto, e o serviço esperava por ser retomado. Vovó abaixou-se e tomou o pincel nas mãos. Me entregou o objeto com os olhinhos brilhando. "Vamos a escribir algo muy lindo en la pared!". Eu ri, devolvendo o pincel ao balde. Vovó franziu o cenho, abaixou-se, pegou o pincel e me devolveu. "En serio.". Hesitei, mas não por muito mais que alguns segundos. Perguntei-lhe o que queria escrever. "Aquel verso de Leminski que a mi me encanta.". "Mas o verso é em português, abuela.". "No hay problema, chica. Eso es una escuela. Dale!".

Pus-me a desenhar a letra efe na parede com cuidado. Nem bem terminei a primeira palavra, a moça aproximou-se e, com voz dura, perguntou o que significava aquilo. Vovó explicou que era antiga aluna do colégio e que a poesia nas paredes aquece os corações muito mais que o austero reboco monocromático. A bedel, no entanto não pareceu concordar. Desatinou num discurso colérico e disse não acreditar que uma senhora com aquela idade podia se prestar a traquinagens daquela sorte. Vovó não aceitou ser repreendida, e eu podia ver através de seus olhos, enquanto sua cabeça classificava a jovem bedel: una pelotuda! Insensível ao fuzilamento ocular a que vovó a submetia, a moça nos escoltou até a sala do diretor, onde nos sentamos em frente a uma mesa vazia.

O homem cruzou a porta pisando firme em seu terno cinza. Sobre a esticada camisa branca, uma gravata azul repousava muito bem alinhada. O homem sentou-se de frente para nós duas, deitou os óculos de aros grossos sobre a mesa e respirou fundo. Repetiu, em tom mais severo e menos afetado, a ladainha a que nos submetera a bedel alguns minutos antes. Repreendeu vovó por, em sua idade, andar por aí aprontando traquinagens. Repreendeu-me, não só por ser incapaz de colocar juízo na cabeça da velha, mas ainda corroborar com a sua indisciplina. Nada respondemos. Quando o diretor encerrou seu discurso, vovó levantou-se e anunciou que precisava ir ao banheiro. "Si esto no es también prohibido.". O homem indicou-lhe que havia um banheiro contíguo a sua sala.

Quando voltou a nossa companhia, vovó dizia que era melhor ir andando. E como fosse o colégio um tanto afastado da cidade, para nós que andávamos a pé, eu também devia ir ao banheiro, em caráter preventivo. Respondi que não havia necessidade, mas vovó insistiu de modo perturbador. Entrei e segurei para que meu riso não denunciasse a vingança. No espelho, escrito com batom, lia-se "Que se vayan de este mundo todos los pelotudos!". O desenho de um dedo médio em riste assinava a obra.

***

Quando voltamos, vovó investiu uma semana visitando todos os parentes, para mostrar que a viagem não lhe fizera mal. Muito pelo contrário. Ao cabo da semana, recolheu-se à cama no seu horário habitual, fechou os olhos de sono e não mais os abriu.

Agora, sentada naquela capela austera, meus lábios respondiam à doçura da lembrança abrindo-se em um sorriso. As faces pesadas no recinto, no entanto, faziam do sorriso impróprio. Vovó desaprovaria aquele clima de velório. Ainda que o acontecimento fosse, de fato, um velório. Paradoxalmente, vovó já não estava mais ali para julgar, ou ensinar, fosse o que fosse. O evento não era mais seu. Era dos que ficaram. E estes pareciam achar muito pertinente que o clima fosse de velório.

Levantei-me e levei meu sorriso para o banheiro, tentando disfarçá-lo no caminho. Parei em frente ao espelho, debrucei-me sobre a pia e arreganhei os dentes. Senti, ao fazê-lo, que honrava a lembrança da minha avó. Abri a bolsa, tirei de dentro o batom vermelho e o encostei sobre os lábios. Voltei-me, conservando a arma entre os dedos, e avancei sobre a parede branca:

"faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja
"
p. l.

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