segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Sol, o Mar e o Absurdo

Também eu me senti pronto para reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio. (O Estrangeiro - Albert Camus)

A porra do dia estava mais quente que o café. Que era uma bosta, diga-se. Pozinho vagabundo de licitação pública. O ar condicionado central do prédio funcionava a meia bomba, como sempre. Mesmo assim, a discussão corria animada pela salinha do café.

- Se você quer mesmo tirar a prova se está apaixonada por ela, faz o teste. Viagem juntas e, sem querer, entre no banheiro quando tiver certeza que ela está passando um fax.

- Passando o quê?

- Um fax. Soltando um barrão, chapiscando a porcelana, matriculando o Robinho na natação. Escorregando o moreno!

A Martinha continuava com o cenho franzido. Em uma expressão difícil de definir se denunciando a incompreensão de tão vasto arcabouço metafórico para uma simples cagada, ou se em choque justamente pela sua compreensão.

- Fazendo número dois... - insistiu o Fraga.

- Porra, Fraga, custa dizer "dando uma cagada" e resolver logo o assunto?

- Martinha, meu bem, acredite: eu não poderia ter sido mais explícito do que eu fui.

- Tá legal, tá legal, mas o que diabos tem a ver a cagada da Beatriz com eu saber se estou apaixonada ou não?

- Se você entrar no banheiro e, diante da cena da moça obrando, você ainda a achar linda, não tem erro. É amor. - sentenciou o Fraga.

- Por que?

- Você, por acaso, consegue conceber cena mais dantesca que alguém cagando? Se você for capaz de, diante da mais indigna das cenas, achar um ser humano nessa situação lindo, tenha certeza: é amor verdadeiro.

- Olha, não sei, não. - Martinha discordava. - Não é a cena mais dantesca possível. - o Fraga grudou os olhos nela, interessado na explicação. - Quer dizer, o cheiro às vezes é foda, mas a posição de alguém no trono não é nada indigna. É até um tanto helênica, eu diria. - E continuou, apesar das risadas do Fraga - É sério. Lembra O Pensador. Não é, nem de longe, tão dantesca quanto a cena de alguém passando fio dental. Você, por acaso, já imaginou uma estátua num jardim grego de alguém com os braços no ar, desengonçados, enfiando os dedos no fundo da boca? Já imaginou uma estátua grega de um pedacinho de carne mastigada espirrando no espelho? Muito mais perturbador que a posição de uma cagada.

- Eu chupo a carninha que fica grudada na linha. - riu-se o Fraga. E continuou - Martinha, isso é papo de mulher. Porque vocês fazem número um e dois na mesma posição. Pra homem é diferente. Mas se quiser, faz o teste com o fio dental, então...

- E o que você acha, Lacerda?

- Acho a cagada pior. - não que eu tivesse argumentos para defender minha opinião. Ou mesmo interesse em fazê-lo.

Martinha e Fraga eram os colegas de trabalho com quem eu mais passava meu tempo de escritório. Não digo que eu gostasse dos dois. Eu gostava com a mesma intensidade de todos na repartição: pouco. Mas os dois, por algum comportamento social humano que eu não sei explicar, me incluíam nas conversas como parte de sua rodinha.

O Fraga é racista. Vez em quando engata monólogos longos sobre os defeitos da pele escura, o nariz de barracão e o cabelo crespo. Mas nunca o vi destratar nenhum dos funcionários negros do prédio. Porteiros, copeiras, serventes. Sempre lhes oferece um sorriso e uma fala mansa. "Deve-se tratar com cortesia até mesmo aos inferiores. Sobretudo aos inferiores.", ele diz. "Subjugar o mais fraco não é coisa de gente civilizada.", completa. Um verdadeiro cavalheiro.

Com a Martinha, no entanto, ele se dá muito bem. Me pergunto se escolhemos, de alguma maneira, os preconceitos que queremos propagar. Talvez seja apenas aquela velha canalhice masculina de enxergar em todo casal de lésbicas um convite ao ménage. Se bem que não posso garantir que não haja um outro grupo de amigos para quem ele faça longos discursos sobre os malefícios da homossexualidade. No caso, a feminina.

Nada disso me faz desgostar do personagem mais do que desgosto de qualquer um. Não me envolvo nas convicções alheias. O que é uma boa estratégia para não ser cobrado pela falta das minhas próprias. A Martinha, nos dias em que está mais atacada, resolve argumentar. Eles discutem longamente, até que um deles me pergunta o que eu penso. Emito, então, uma opinião curta, não mais de duas sentenças, a favor do outro, em represália por ter me incluído na discussão.

***

Na hora do almoço, como ficasse o prédio da repartição no Largo da Carioca, tínhamos por costume descer a Rua da Assembleia até a Presidente Antônio Carlos. Cruzávamos o Paço Imperial em direção a um restaurante árabe na esquina da Rua do Mercado com a Rua do Ouvidor. O dono do restaurante era amigo do Fraga. Um português que comprara o estabelecimento antes dos projetos de revitalização do centro. Apesar de seguir rigorosamente o cardápio étnico, sempre nos servia, por conta da casa, uma generosa porção de bolinhos de bacalhau, que eu comia com mais gosto que o prato principal.

Quando sentamos, a Martinha explicava pro Fraga, pela enésima vez naquele mês, por que não sentia falta de se relacionar com homens. Apoiei a bochecha na palma da mão, entediado mais que aborrecido, e vasculhei a área externa pela janela, com olhos despretensiosos.

- Lacerda, porra, me ajuda a defender a classe! - era o Fraga.

- Não ouvi o que vocês falavam, desculpe. - disse, tirando sem pressa o olhar da janela.

- Martinha está dizendo que os homens são bons amigos, mas péssimos namorados, maridos, amantes...

- Concordo. Eu também não namoro homens. - respondi voltando o olhar para a rua lá fora.

Na outra calçada, vinha em direção ao restaurante um personagem recorrente naquelas paragens. A caixa de madeira sem tampa repousava à frente da sua barriga, presa por uma tira de couro que lhe circundava o pescoço magro. O vietnamita atravessou a rua e entrou no restaurante. Ofereceu de mesa em mesa as quinquilharias brilhantes que distribuíam-se dentro da caixa. Ninguém mostrou-se interessado. Eu observava seu peito magro coberto por uma camisa da seleção brasileira de futebol, seus braços amarelos, de veias azuis e saltadas. O homem de cabelos muito negros e lisos fixou seus pequenos olhos nos meus e mostrou a mercadoria cintilante. Uns pacotes de pilhas alcalinas repousavam, também à venda, no canto do recipiente. Fiz um gesto com a cabeça em agradecimento. Não estava interessado. Está há tempos no Brasil, mas não fala quase nada de português. Eu gostaria de lhe perguntar o que faz por aqui. Que sucessão de arbitrariedades teria sido necessária para que esse amarelo viesse parar justo aqui. Mas eu também não falo porra nenhuma de vietnamita.

Comemos. No caminho de volta, Martinha e Fraga falavam a respeito do chefe. Falavam do espaço que nos separa a todos, sobre as pessoas que escondem-se detrás de suas ilusões e não se permitem vislumbrar um fio de verdade antes que seja tarde demais, antes que a inevitabilidade da morte lhes bata à porta. Sobre as pessoas que, sozinhas, conquistam o mundo em troca das próprias almas. Que, trancadas em seus escritórios, quanto mais multiplicam seus feitos, menos amam. Falavam com pesar, desgostosos dessa gente. Desgostosos do chefe.

A conversa me atordoava mais que aborrecia. Pensava que o mundo não tem lastro. A vida é absurdo. Arbitrária. Gratuita. De que outra maneira um amarelo cruzaria o planeta para abraçar uma vida ruim entre estranhos que só lhe têm desprezo a oferecer? Não pode haver propósito nesse homem haver nascido tão longe, apenas acaso. Só pode ser se formos estranhos em qualquer lugar. Estamos sozinhos em qualquer lugar. O mundo nada nos prometeu, portanto nada nos deve. Nem mesmo explicações. O mundo simplesmente é, sem importar-se de que juízo fazemos a seu respeito. O mundo acontece, em seu absurdo, desordenado. Quem batalha para lhe atribuir razão somos nós, carentes de uma racionalidade inventada. Então de que me importa se o cavaleiro discursa de trás para frente, se a lógica e a proporção não existem de fato? A única forma de chegarmos a um significado para a cadeia sem sentido de acontecimentos da vida é, portanto, criarmos essa significação por nós mesmos. É o indivíduo, não o ato, que atribui sentido ao mundo. Nisso implica nossa liberdade. A vida é o que entendemos dela. E foda-se.

- E se o mundo desmente o entendimento que fazemos dele? - Martinha me perguntava de olhos arregalados.

- Inventamos outro. - respondi surpreso. Eu não percebera que minha voz partilhava, sem filtro, do meu pensamento.

- Outro o que?

- Outro entendimento. Que diferença faz pro mundo que ideia fazemos dele? Só faz diferença a nível individual. Perceba: ninguém além de nós mesmos pode nos mudar. E a vida segue com ou sem nosso consentimento. Com ou sem nossa participação. Não fazemos diferença pro mundo, apenas para nossas próprias trajetórias. É nisso que implica a liberdade. O mundo não dá a mínima, façamos da nossa vida livre o que dela julgarmos correto!

Na praça XV, eu tonteava, envolvido pela cólera. Na extremidade oposta da praça, Serjão almoçava. Uma vasilha de papel alumínio na mão esquerda, um garfo de plástico na direita. O mendigo estava em pé, com as costas coladas à parede da antiga construção do império. O corpo negro era velho e forte. Adivinhava-se os músculos dos braços e do abdômen por baixo da pele espessa. Os cabelos longos caiam em gomos individuais pelas suas costas e a barba branca conservava grãos de arroz e feijão. A vassoura, que eu já o vira usar para varrer o chão onde dormia frequentemente, a poucos metros dali, repousava ao seu lado, também encostada à parede.

Dois garotos, pelo meio dos seus vinte anos, aproximaram-se do negro. O primeiro deu-lhe um tapa na marmita, que foi ao chão. O segundo empurrou sua cabeça contra a parede. Serjão tomou a vassoura nas mãos e quebrou-lhe o cabo em dois pedaços no braço do primeiro. Foi o suficiente para que o outro lhe desferisse um cruzado no queixo, jogando-o ao chão. O mendigo levou, então, os braços ao rosto e aceitou a saraivada de pontapés, defendendo os poucos dentes que lhe restavam.

***

Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça. (O Estrangeiro - Albert Camus)

De pé no limiar da liberdade, em seu litoral, esperei pelo sol. Essa era, sem dúvida, a vida mais estranha que jamais conhecera. Quando uma pequena nuvem deslizou da frente do astro, a luz do sol segou-me os olhos inquietos por alguns segundos. Caminhei até a confusão. Os pedaços do cabo de vassoura jaziam no chão, sem despertar maior interesse de nenhum dos protagonistas. Tomei nas mãos o que me pareceu ter criado a ponta mais afiada. Cravei-o no pescoço de um dos agressores. O corpo caiu. Amassei-lhe a boca com a sola do sapato, para puxar a arma de volta com mais eficiência. Serjão levantou-se e segurou o outro contra a parede. Cravei-lhe o pedaço de madeira na jugular. Ele escorregou lentamente até o chão.

- Sai fora antes que dê merda, Serjão. - o homem me agradeceu, meio desconcertado, mastigando pedaços de frases e partiu em desabalada carreira na direção da estação das barcas.

Por alguns instantes, pensei em sentar-me no chão e esperar pelas autoridades. Mudei de ideia. Resolvi não me levar pela perversa juventude de espírito que só compreende a paixão e a crueldade. A rebeldia é o meio por que somos condenados a buscar o nosso senso de moralidade na vida. Sem rebelar-se contra o mundo, somos tão amorais quanto o cenário. E nesta porra deste mundo engessado, onde ser feliz é sintoma de rebeldia, decidi que seria feliz até as tripas saltarem. Preferi ser ferido pelo meu próprio sorriso antes da adaga insossa do jogo de ilusões reinante. É assim, de tanto acreditar no que achamos tão certo, que fazemos floresta do deserto. Basta de vender fácil o que não tem preço. Nada nos fere quando abraçamos verdadeiramente nossa estrada, nossa própria lei. Se a nós nos cabe dar sentido ao mundo como indivíduos, eu serei feliz a despeito do mundo. Nem que isso implique ser contra o mundo.

Segui até a parada de ônibus mais próxima, e embarquei na primeira condução que me pudesse levar a uma praia qualquer. Sentei-me na janela, buscando no ar o reconfortante cheiro de sal, à medida que o ônibus seguia rumo ao mar.

PS:
The Doors - Waiting For The Sun

Belchior - Paralelas

The Beatles - Within You Without You

Legião Urbana - Andrea Doria

Jefferson Airplane - White Rabbit