domingo, 5 de maio de 2013

Amigos, Amigos...

Eu estou muito bravo, Ralph. Você pode comer a minha mulher, se ela quiser. Pode se jogar aí no sofá. Na casa de merda, decadente e pós-moderna do ex marido dela, se você quiser. Mas você não vai assistir à porra da minha televisão! - Lt. Vincent Hanna (Al Pacino), Fogo Contra Fogo, 1995.

Quando conheci o Mendonça, a primeira vez que nos vimos, eu comia a mulher dele. Nos dois tempos possíveis do verbo, comia regularmente, e comia no momento em que ele entrou no quarto.

Naquela época, a gente se encontrava toda quinta à tarde, num barzinho, pra jogar uma partida de sinuca e tomar um par de cervejas. O ritual seguia, então, no motel do outro lado da rua. Mas nesse dia ela cismou de me levar para casa. Disse que tinha tara de fazer na cama em que o marido dormia. Eu achei aquilo bem errado, mas ela sabia ser convincente, quando queria.

Estávamos nós em meio às acrobacias de praxe e, de repente, lá estava o Mendonça parado no batente da porta. Ele olhou para nós dois durante alguns segundos.

"Te espero na sala", ele disse. E se virou para sair.

"Me dá cinco minutos", respondeu a Margarida.

O Mendonça parou e voltou apenas a cabeça em nossa direção. "Eu estava falando com ele. A sua cara eu não quero ver nunca mais." e saiu.

O olhar arregalado que a mulher me ofereceu não era exatamente reconfortante. Das roupas que se esparramavam pelo carpete do quarto, vesti calado e sem pressa as que me pertenciam. Tatuei na cara uma expressão de dignidade sem arrogância, do homem justo que não se omite quando erra. Tudo encenação, claro.

Quando cheguei à sala, o Mendonça me esperava sentado no sofá. Uma dose dupla de uísque servida sem gelo no copo que segurava e outra num copo pousado na mesinha de centro à sua frente.

"Senta aí."

Sentei.

"Bebe."

Tomei o copo entre os dedos e esperei pelo movimento do brinde, que ele não fez. Virei um generoso primeiro gole.

Ele começou falando devagar. Um tom de voz tranquilo e firme.

"Se eu te conhecesse, se você fosse meu amigo, eu tinha metido uma bala na sua cara no momento em que eu entrei no quarto. Não teria pensado duas vezes, nem perderia o sono. Como não é o caso, reconheço que nós não tínhamos vínculo, que você não tinha obrigação nenhuma comigo." Ele parou de falar por alguns segundos e tomou um longo gole da bebida. Depois retomou seu discurso sem olhar na minha direção. "Você não foi o primeiro, sabe... Quer dizer, foi o primeiro que eu flagrei nessa situação escrota. O primeiro que eu posso provar. Mas eu sei que ela teve outros. Uma bela filha da puta é o que ela é. Teve outros. Mas você, companheiro, você eu peguei no ato. E isso não ajuda o seu caso."

O Mendonça virou o ultimo dedo de uísque que sobrevivera em seu copo e levantou-se do sofá. Foi até o aparador, que fazia as vezes de bar, tomou a garrafa nas mãos e encheu o copo até a metade.

"Aquilo que você estava fazendo com ela, ela nunca me deixou fazer." Disse, ainda sem me olhar, sentando-se no mesmo lugar de antes. "Nunca, em quinze anos de casamento. Isso é outra coisa que não ajuda o seu caso." Ele ficou olhando o fundo do copo. Deu mais duas goladas generosas, mas não sem separar as duas por um tempo encarando o objeto de vidro. Cheguei a duvidar que ele fosse dizer mais alguma coisa. Mas ele disse. "Agora veja você. Essa cretina me apronta uma dessas, e quem você acha que vai sair de casa? Quem vai dormir fora? O babaca aqui." Ele calou-se de novo. Essas pausas estavam começando a me irritar. Mas imagino que ele tivesse o direito de falar no ritmo que quisesse, dada a situação. "Eu estou disposto a aceitar que você não era obrigado a consideração nenhuma a mim. Afinal, não nos conhecíamos. Estou disposto a acatar essa regra. Sem retaliação. Sem mágoa. Mas eu não vou passar nem mais uma noite nesta casa. E não vou pagar hotel até a venda desta merda estar resolvida. Você vai dar essa força, em retribuição à sensatez com que resolvi te tratar, dadas as circunstâncias."

Confesso que demorei a compreender o que ele quis dizer. Quando finalmente convenci-me do sentido de suas palavras, meus olhos deviam estar arregalados e meu queixo havia de ter despencado. O filho da puta estava me pedindo hospedagem. Estendi a mão direita na sua direção.

"Guedes." Apresentei-me.

"Mendonça."

"Eu sei."

Eu ainda não possuía meios de sabê-lo, mas aquele era o princípio de uma forte amizade.

***

Menos de duas semanas depois que o Mendonça fora morar comigo, ele descobriu que um de seus amigos mais antigos estava saindo com a Margarida. Ele resolveu que daria uma lição no sujeito. Ironia do destino ou não, eu ia ajudar.

Estacionamos o carro do Mendonça em frente à casa que ele antigamente, em tempos já remotos (se não em cronologia, ao menos em sensação), dividira com Margarida. Vimos o Audi A4 estacionado em frente ao portão.

"É ele." murmurou o Mendonça, estacionando de modo a fechar a passagem. Sacou as chaves do bolso e nós entramos.

Por providência do destino, não flagramos cena parecida com que eu tinha protagonizado alguns dias antes. O tal do Barroso estava de roupão, sentado no sofá. Assistia à TV cujas prestações o Mendonça ainda estava pagando. Ele não hesitou, passou a mão em um castiçal que perambulava sem muito propósito pela estante e sentou na cabeça desavisada do traidor, que tombou para o lado. O grito que o sujeito tentou soltar não teve forças para ser mais que um gemido alto. Segurei o cara deitado em posição fetal no sofá, como ele caíra, e o Mendonça emendou uma série de tapas estalados na cara do Barroso.

"Seu filho da puta!" dizia.

"Mas vocês estão separados!", o cara defendia-se. Isso triplicou a raiva do Mendonça e a força dos tapas.

"Não tenho mais nada com a vida daquela vaca, Barroso. Mas eu não lembro de ter deixado de ser teu amigo, cretino! Tua obrigação era comigo."

O Barroso começou a chorar. A Margarida apareceu, também de roupão, com o telefone nas mãos, dizendo que a polícia estava a caminho. O Mendonça não se abalou. Ainda desferiu mais uma saraivada de tapas na cara vermelha do traidor até decidir que estava cansado. Então sentou-se no outro sofá e esperamos pela polícia.

"Porra, será que eles vão tirar nossa foto na delegacia, igual fazem nos filmes?"

O lamento era meu.

"Detesto foto.", conclui.

"A fotografia é, entre outras coisas, um pedaço de si que escapa ao controle." respondeu o Mendonça, assumindo aquele tom professoral que ele sabia irritar profundamente a ex mulher. "O controle é primitivo. O homem moderno (ou pós moderno, que é a mesma coisa dita com uma expressão ilógica) não dá tanta importância ao controle. Essa é uma obsessão primitiva."

Esperei um ou dois minutos por uma conclusão do pensamento. Não veio. Essa era toda a contribuição que ele tinha a dar. Então respondi na mesma moeda.

"Primitivo é o seu cu."

No fim das contas, Margarida e Barroso não quiseram prestar queixa. O Mendonça ouviu lá uma lição de moral do policial, que não se furtou a fazer insinuações pouco honrosas também aos pombinhos de roupão. Voltamos para a minha casa e enchemos a cara de conhaque barato.

***

Alguns meses mais tarde, encomendaram-me uma crônica sobre relacionamentos. "Mas algo novo, sem baboseiras de comédia romântica e comercial de margarina. Algo cru." pediu o editor.

Escrevi a crônica e a entreguei ao Mendonça, pedindo seus comentários. Ele tomou a folha de papel nas mãos e leu em voz alta. Detesto que leiam minhas crônicas em voz alta. Se fossem palavras a serem pronunciadas ao vento, eu as diria. Se escrevi é para que leiam. Em silêncio. Tenho mania de controle também com as minhas palavras, não gosto que as veiculem pelo canal errado, nem que as interpretem de forma diferente da minha intenção. Talvez eu seja mesmo um tanto primitivo. De qualquer modo, ele leu em voz alta.

"As Mulheres de Nossa Vida

'Caralho, amor!'

Eu adoro essas palavras. Mas adoro assim, combinadas. Suspiradas pesadamente entre grandes quantidades de ar indo e vindo de seus pulmões. Sua cabeça pendendo para trás, uma das mãos corre pela própria testa até meter-se pelos cabelos. A outra, a me massagear a parte de trás do crânio, enlaça meus cabelos negros e força minha boca contra a sua pele fina. O gosto do seu sexo a me escorrer quente pela língua, pela borda dos lábios, o seu cheiro a se agarrar pela minha barba. Os músculos de suas coxas contraem-se nos espasmos do gozo. Entre fortes suspiros e delicados gemidos, ela as repete: 'Caralho, amor!'

Das mulheres de nossas vidas, as que nos despertam interesse romântico distribuem-se ao longo de uma reta que liga dois extremos classificatórios. De um lado, a volúpia animal. Categoria que abriga aqueles furacões que temos vontade de jogar na parede e amar com pressa e com força. De preferência rasgando roupas no processo. Um gozo quase bandido em meio a uma avalanche de lascívia. No outro extremo da reta, o carinho cúmplice e cuidado. Aqui figuram as mulheres que sonhamos deitar na cama com candura e beijar do cóccix à nuca demoradamente. Calmamente lidar com as alças, os fechos e os botões, um de cada vez.

Não se engane o leitor ao tirar conclusões apressadas e, por isso, incorretas. O caso não é dizer que um extremo da reta seja superior ao outro, como possam defender alguns cavaleiros de um conservadorismo antiquado. A reta é perfeitamente horizontal, esteja claro. Assim como não cumpre defender que as mulheres, no que tange o desejo que despertam, resumem-se a duas categorias rígidas, como possa sustentar uma ciência iluminista. Claro está que, excetuando-se aquelas de quem não dispomos de mais que umas primeiras impressões, elas distribuem-se ao longo da reta (expressão que o leitor atento se recorda do parágrafo anterior). O que implica dizer que as nossas românticas intenções para com essas moças são, necessariamente, uma conjugação dos dois sentimentos extremos aqui discutidos. Não há o que nos impeça de ansiar pela calma do colo de um furacão, visto que furacão nenhum seja furacão todo o tempo. Nem que a libidinagem invada a cama que dividimos com um anjo barroco, sendo os anjos obviamente capazes de transcender as barreiras culturais que maldigam o látex ou o couro, por exemplo.

O motor da vida é a busca pelo equilíbrio. E por sinceros e dispendiosos que sejam os esforços nesse sentido, a maioria das mulheres de nossa vida não ocupa jamais o ponto central da reta. Este ponto reserva-se não às mulheres de nossas vidas, mas à mulher da nossa vida. Mais uma vez não se engane o leitor apressado: ainda que a referenciemos no singular, a destacar o distintivo valor do cargo, não há como precisar o números de moças que podem ocupar este posto na vida de alguém. Há quem diga que sejam três. Eu prefiro dizer que são poucas, raras. Nem há como garantir que elas não nos invadam a vida simultaneamente e nos vejamos obrigados a administrar mais de um amor por vez.

Há, no entanto, uma senha que nos permite descobri-las sem dúvida. São as palavras 'Caralho, amor!'. O palavrão, dito na cama ao toque da língua no que há de mais íntimo no corpo da mulher amada, seguido de cândido vocativo: esta é a perfeita conjugação da luxúria com a ternura. E a mulher que nos brinda com a equilibrada dose das duas é, impassível de dúvida, a mulher da nossa vida.

Talvez verdade seja que, como disse o poeta, as mulheres passem por nossa vida como se fossem bonequinhas russas. Uma sempre a introduzir a próxima e, ao mesmo tempo, ameaçando ser a última. Daí ser imperativo que sejam todas sempre tratadas com o carinho e a devoção dignos da última. Ainda que saibamos certos casos não o serem. Não há nada de charmoso no mulherengo canalha, incapaz de abrir uma porta ou surpreender com uma flor fora do dia 08 de março.
"

Fiquei esperando o parecer. Ele riu.

"Você é cínico pra caralho. A sua crônica sobre relacionamentos é uma defesa ao cafajeste boa gente. Você é um gênio."

Mandei a crônica para o editor e saímos o Mendonça e eu para beber uma cerveja. Aquele exercício de pensar os relacionamentos ainda me rondava o cérebro.

"Você não sente falta da vida de casado?" perguntei. "Do caminhar a dois, da cumplicidade? Sabe, de inventar o mundo a cada dia, como escreveu o Galeano?"

"Não funciona tão bem fora da literatura."

Brindamos, estalando as canecas. Chope de caneca. Como deve ser. Nada daquelas merdas daquelas tulipas. Virei um generoso primeiro gole para aplacar a sede. O Mendonça continuou o pensamento.

"O amor acaba rápido. Isso não te contam na literatura. Ele é construído, e isso requer um investimento de tempo. Depois, requer um exercício de manutenção. Mas para acabar, acaba de uma hora para outra. Você pisca no momento errado e já era. Foi-se o amor. Há quem confunda esse momento e, junto com o amor, perde o respeito, o carinho... No meu caso, eu tive motivo. Mas tem gente que faz por burrice."

"Certo. Mas não perguntei se você sente falta da sua ex mulher. Perguntei da vida de casado. Se você não sente falta de amar. De estar amando. Nada impede que seja com outra mulher. Você não acha que pode acontecer de novo?"

"Sinceramente?" Ele tomou um longo trago da bebida, limpou a espuma que ficara em volta da boca com a manga da camisa e me olhou sério. "Eu não estou com a menor pressa."