sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Amor Secreto de Salvador Guzmán

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/02/o-amor-secreto-de-salvador-guzman.html

O protesto ecoou pelas paredes do gabinete e pelo carvalho dos móveis. O pé da sua cadeira rangeu, pressionado contra a madeira do piso.

"Don Fructos, isso é absurdo!"

O homem levantou-se socando o tampo da escrivaninha que mandara vir da Espanha. O cenho franzido e os olhos injetados de autoridade insultada. Gotas de saliva eram atiradas por sua boca junto com as duras palavras.

"Me respeite, Coronel! Se não quiseres ver a estima que tenho por ti atirada ao fogo desta lareira, me respeite! A decisão está tomada. Isto não é uma consulta, mas um comunicado. E eu espero, sinceramente, não ter de lidar com a traição de um oficial!"

Don Salvador não fez menção de responder. Os olhos transcorreram longos segundos imóveis nos olhos do Presidente. Depois, inundados de ódio, voltaram-se para os olhos um tanto assustados do francês que sentava-se ao seu lado. O Coronel Salvador Guzmán levantou-se, coluna reta e postura perfeita.

"Permissão para me retirar, General."

O Presidente Fructuoso Rivera assentiu com a cabeça. Don Salvador lhes virou as costas e saiu.

***

Os três homens postavam-se um tanto afastados, mas não o suficiente para estarem excluídos do festejo. O Coronel Salvador Guzmán cruzava os braços na altura do estômago. Seus olhos atentos acompanhavam o corpo de uma das índias que dançava junto à fogueira. Quando os movimentos cessavam, ainda que por meros instantes, os cabelos negros escorriam-lhe pelas costas em linha reta até a cintura. O moreno escuro da pele reluzia e a luz do fogo lhe escorria com o suor, que Don Salvador supunha ser doce feito vinho.

Os dois homens ao seu lado pareciam agitados. O capitão fumava sem interrupção. O tenente batia os pés no chão e esfregava as mãos, fingindo ter frio. Guzmán não se compadecia da sua ansiedade, que julgava descabida.

"Coronel, é verdade que estes índios são guerreiros indomáveis?" - perguntou o tenente.

Don Salvador assumiu um tom soturno proposital para responder-lhe a pergunta.

"Os espanhóis levaram mais de sessenta anos colecionando derrotas até vencerem a primeira batalha contra estes índios. Quando finalmente conseguiram, tinham quase o dobro de homens, escondidos atrás das ruínas do forte San Salvador, que os próprios índios haviam destruído anos antes." Olhou nos olhos do homem para completar sua resposta. "No tempo dos espanhóis, garoto, estes índios invadiam as fazendas, assassinavam os homens adultos e raptavam as mulheres e as meninas. Os meninos eles castravam e tornavam escravos." Don Salvador abriu um sorriso pouco convincente, que à luz do fogo parecia uma fenda escavada num pedaço de rocha. "Não te preocupes, tenente. Hoje eles nos são inofensivos."

Montado em pelo, um dos guerreiros mais próximos ao cacique Vaimaca Peru aproximou-se do grupo de militares enquanto preparava-se para exibir à aldeia seus dotes na montaria.

"Boa noite, Coronel", saudou do alto do cavalo.

"Boa noite, Ayare."

"O cacique deseja lhe falar."

Guzmán assentiu com a cabeça.

"Me esperem aqui." ordenou aos outros oficiais. Caminhou a passos lentos em direção ao cacique, que sentava-se do outro lado da fogueira. Caminhou sem perceber que seus olhos eram incapazes de dissimular o interesse na mulher que ainda dançava. A filha de Senaqué. O curandeiro estava agora desaparecido.

Quando o coronel aproximou-se, o cacique Vaimaca Peru pôs-se de pé e o abraçou forte. Um homem já velho, seus cabelos, que um dia foram mais negros que a noite sem estrelas, estavam salpicados de um branco prateado. O bigode, distintivo varonil, permanecia vasto, mas também denunciava-lhe as agruras da idade. Pareciam ainda mais brancos, diante da pele escura do cacique.

"Diga-me, amigo, que é isso de churrasco, banquete de estreitamento de laços?" Perguntou Peru.

"É uma oferta de amizade do Presidente Rivera, cacique."

"Pensei que já fôssemos amigos..."

"São coisas da política, velho amigo." respondeu Don Salvador com um sorriso.

"Suponho que ele queira me falar sobre os problemas com os estancieiros. Eles insistem em nos negar as terras. De certo já foram queixar-se ao Presidente."

"Suponho que sim, cacique. Suponho que sim." Guzmán apontou com a cabeça na direção da índia que dançava perto da fogueira. "Notícias de Senaqué?" O índio respondeu-lhe com aceno de cabeça. Ninguém tinha notícias do curandeiro.

"Não sabemos o que fazer. Mais alguns dias e a menina vai cumprir o ritual."

Don Salvador esforçou-se em parecer resignado, mas suas entranhas gelaram e se contorceram. Conhecia o ritual de luto daquela gente. A cena da moça amputando o próprio dedo invadiu-lhe a mente como o ataque surpresa de um exército inimigo. Não conseguiu pronunciar som que fosse por alguns minutos. Estava grato pelo cacique ser um homem de poucas palavras.

Quando voltou para junto dos oficiais, o coronel olhou no fundo dos olhos do tenente.

"Estás vendo a mulher que dança próxima à fogueira?" O homem confirmou com a cabeça. "Quando a festa acabar, na madrugada, vais tirá-la de casa. Não voltes ao acampamento. Vais levá-la para a minha casa, na minha fazenda. Ela não vai colaborar, então tenhas cuidado. Se fizeres merda eles te arrancam a cabeça. Compreendeu?" O homem confirmou com outro aceno de cabeça. "E tenente, se feri-la, arranco-te as bolas."

***

A índia não levantou-lhe os olhos quando Don Salvador entrou no quarto. Estava sentada na cama. Com as costas apoiadas na cabeceira, abraçava os joelhos e o olhar perdia-se entre os lençóis. O coronel puxou a cadeira que servia de conjunto à simples escrivaninha na parede oposta. Pousou o assento ao lado da cama e sentou-se. Inclinou o corpo e esticou o braço, na tentativa de alcançar os negros cabelos da moça e afastá-los de seu rosto. Com um movimento econômico ela pendeu o corpo para o lado, o suficiente para evitar o toque. Don Salvador respirou fundo e recostou-se na cadeira.

"Suponho que queiras entender o que está acontecendo. Por que eu te trouxe aqui. Suponho também que eu lhe deva essa explicação."

O Coronel Salvador Guzmán respirou fundo mais uma vez. Calculara por onde começar aquela conversa inúmeras vezes. Agora hesitava. Arrumou o corpo na cadeira, mirou longamente os olhos distantes da mulher e suspirou.

"Você talvez seja muito nova para se lembrar. Há quase vinte anos, o Tenente-Coronel José Gervasio Artigas passou a liderar as lutas pela independência do nosso país. Meu pai, Don Enrique Guzmán tinha terras nos territórios Charrua e Guarani, e criou laços de amizade com as lideranças indígenas. Entre elas, o guerreiro Seracuaqué."

A índia levantou a cabeça, e seus olhos denunciaram-lhe o interesse, ainda que não os voltasse diretamente ao coronel.

"Meu pai e seu avô eram mais que aliados políticos. Eram amigos. Morreram juntos, lutando lado a lado em Tacuarembó. ". Don Salvador sentiu o peito pesar frente à lembrança do pai e do amigo. Fosse opção aos varões daqueles dias, seus olhos teriam marejado, o que não aconteceu. "Este não é um laço qualquer, compreenda. Quando dois amigos caem juntos em batalha, formam-se laços que amarram seus corpos, seus túmulos e seus legados. A amizade entre nossas famílias, menina, faltassem outras razões, estaria assegurada somente por este fato histórico."

Como não obtivesse resposta, ao menos verbalizada, o Coronel Guzmán deu seguimento a seu relato:

"Cinco anos depois, e destes próximos fatos talvez tenhas melhor lembrança, Juan Lavalleja partiu de Buenos Aires na liderança dos Trinta e Três Orientais para, mais uma vez, combater os portugueses e brasileiros que nos mantinham cativos. Quando o Presidente Rivera abraçou Lavalleja no acampamento às margens do rio Monzón, eu fazia parte de seu regimento, e já havia sido responsável pelo acordos com os Charrua e os Guarani que lutariam ao nosso lado dali em diante. Rivera em pessoa a mim me havia encarregado disso semanas antes."

Don Salvador levantou-se devagar e acercou-se da escrivaninha. Tomou dois copos de barro nas mãos e serviu água de uma pequena moringa que ali repousava. Voltou a sentar-se e esticou um dos braços, oferecendo o objeto à mulher. Ela não fez menção de aceitá-lo. Guzmán bebeu o líquido do outro copo de uma vez, recostou-se na cadeira e prosseguiu, ainda segurando entre os dedos o copo d'água recusado.

"Nós lutamos juntos, como você sabe. Os criollos e os índios, pela independência deste país. E eu fui amigo de muitos deles. Há três anos, eu estava entre os homens que reconquistaram Missões. O Presidente Rivera liderou a investida. Lutando ao meu lado estava o cacique Vaimaca Peru. A mim muito me orgulhava empunhar espada ao lado da lança de um guerreiro tão distinto, que desde muito tempo suava sangue para ver o país independente. Um homem que, como meu pai, fora soldado de Artigas. E como é de se esperar que aconteça eventualmente em tempos de guerra, esse homem me salvou a vida. Um mercenário irlandês, tipo muito comum no exército daqueles covardes, a mim me tinha encurralado. Eu havia sofrido um golpe de espada no quadril na semana anterior, e peleava debilitado. O cacique Vaimaca Peru achou uma boleadeira no chão, girou e enlaçou as pernas do mercenário. Eu só tive o trabalho de tirar-lhe a espada das mãos e transpassar-lhe o pescoço. O cacique me sorriu." Os olhos de Don Salvador perderam-se no horizonte da memória, e foi só após alguns segundos que conseguiu retomar seu relato. "Ele foi um de meus amigos mais próximos, entenda. Mas não morremos peleando, eu e ele. Nós sobrevivemos vencedores. E, hoje, eu desejo que tivéssemos morrido assassinados por um mosquete brasileiro, e nossa amizade fosse o legado deixado a nossas famílias."

A mulher resistia em seu protesto silencioso. Sua postura tornara-se gradativamente menos tensa, mas seus olhos não miravam os do coronel em momento algum. Seus gestos não denunciavam a atenção com que ouvia as palavras de Guzmán, nem sua boca produzia som que pudesse servir para interpretar aquela cena como um diálogo. Don Salvador, no entanto, não estava surpreso com a recepção ao seu conto. E prosseguia, inabalável. Certo, e temeroso, de que a indiferença da moça não resistiria aos acontecimentos que se poria a narrar em seguida.

"Se lhe conto isso, é para que compreendas as razões por que fui convocado ao gabinete presidencial naquele dia. Por cortesia e consideração a mim, o Presidente Rivera não sentia-se confortável em discutir assuntos relativos aos Charrua sem que eu estivesse a par de tudo. Perceba que isto não significa dizer que me era permitido parcela das decisões eventualmente tomadas. O Presidente convocou-me então a seu gabinete e explicou as muitas reclamações que vinha recebendo dos fazendeiros, amigos do governo, a respeito da insubordinação dos charrua, em atos que chamavam de desrespeito à sua propriedade privada. Rivera disse que não podia permitir que as invasões de terra continuassem, e que os índios já não serviam de nada ao país independente. Ao General Fructuoso Rivera, eu devo obediência e reverência, pois é meu superior e comandante. A Don Fructos foi apresentada uma oportunidade de fazer o que oito reis não haviam logrado, e ele decidiu que o faria. Disso me comunicou, e para isso me dispensou ordens."

Don Salvador respirou fundo. Percebeu que a respiração da índia acelerava-se. Sentiu as vísceras darem-lhe um nó gelado como a mão da morte. Forçou-se a prosseguir.

"Rumamos a Salsipuedes. O Presidente Rivera convidara a todos os Charruas para um grande churrasco de estreitamento de laços, certamente tu tivestes acesso a tal notícia. O que não sabes é que no local não se chegava a cavalo, o que obrigou os índios a desmontarem muito longe da mesa do banquete. Os oficiais presentes renderam suas armas aos militares que guardavam o lugar, e aos índios foi pedido que também o fizessem. Foi assim que, em meio à comida e à bebida, quase mil homens do nosso exército invadiram o lugar. Foi assim que mil homens massacraram quase duzentos índios desarmados e embriagados. E assim partiram, pelas paragens do nosso campo, a caçar os poucos que escaparam.". Don Salvador passava os dedos ao longo da borda do copo, ainda cheio d'água, que segurava para a mulher. O peito inflava e descomprimia a velocidade assustadora. "Nem todos foram assassinados. Rivera poupou Vaimaca Peru, Tacuabé e Guyunusa, que ele não sabia estar grávida, veja. O diretor do colégio onde estudam as filhas do Presidente, um tipo francês intragável, solicitou a Don Fructos quatro índios para levar à França. A serem objetos de estudo de suas ciências pagãs. Com esse propósito, os três foram reunidos a Senaqué, que havia sido preso há alguns meses, fato que eu desconhecia. Os quatro provavelmente cruzam o Atlântico neste momento, no porão de algum navio." Don Salvador assistia à índia inflar-se a cada ruidosa inspiração, mas não pareceu se abalar ao ouvir o nome do pai. Guzmán retesou os músculos, ansioso. "O cacique Vaimaca Peru, quando os soldados invadiram, levantou-se da mesa com um soco e olhou o Presidente nos olhos. 'Don Fructos! Matando a los amigos!?' Rivera baixou os olhos. Baixou os olhos. Meu comandante, o homem que nos libertou o país. Não se fez varão suficiente a encarar os olhos do homem que traíra. O cacique olhou para mim também. Exatos três anos depois de conquistarmos o povoado de Missões lado a lado. Exatos três anos após salvar-me a vida. Ele me olhou e não disse uma única palavra mais." A índia esticou as costas, ainda agarrada aos joelhos. Olhava à frente, postura perfeita. Don Salvador compreendeu que ela não planejava lhe atacar, ou fugir, ou confrontá-lo de nenhuma maneira. Tentou relaxar novamente os músculos, mas não conseguiu. Baixou os olhos e sua voz tornou-se fraca. "Seus olhos assombram-me todas as noites que passo em vigília. Aquele olhar mudo. Não consegui decifrar-lhe o pensamento naquele instante.". Ali, no solo de Salsipuedes, próximo ao chão que o sangue de seu pai manchara em Tacuarembó, o coronel desejou ter sido morto em batalha.

"Traidor.". Don Salvador levantou os olhos para a mulher. Ela repetiu. "Traidor.". O Coronel Salvador Guzmán levantou-se e deixou o quarto. Quando fechou a porta às suas costas, percebeu que ainda trazia o copo cheio d'água na mão esquerda. Não era uma opção aos varões daquele tempo o marejar dos olhos. O Coronel Guzmán, como alternativa, despedaçou o copo na parede mais próxima.

***

Em Paris, à margem da avenida Champs-Élysées, frente a uma cabine modesta, um jovem e já expoente pianista pagava seu ingresso e o da esposa de um grande amigo, que o acompanhava. Um homem grande, vestido de trapos e malcheiroso, anunciava ao público o preço da passagem para dentro da construção de madeira. "Antropófagos da Sulamérica!", gritava um cartaz em papel vagabundo fixado nos arcos que faziam as vezes de portal.

Frédéric Chopin e Cosette Pontmercy, que trazia pela mão, caminharam pela trilha pré-estabelecida. À sua volta, o espetáculo torpe se desenrolava. Anões giravam tochas acesas no ar, mulheres barbadas contavam piadas sujas e lambiam os beiços para a plateia. À medida que avançavam na direção do pátio central, mais apertavam-se em meio à pequena multidão que ali cercava uma jaula.

Os quatro Charruas se espremiam por dentro das barras de ferro. Alheios ao burburinho do público, os três homens amparavam a mulher, que entrava em trabalho de parto. Quando o pequeno antropófago cruzou a fronteira para a vida, chorou a plenos pulmões. Atrás do pianista uma mulher gorda ergueu os braços, apontando para a criança. Com os pêlos de seus sovacos a roçar a nuca do aturdido músico, espantou-se: "Mas choram iguais aos nossos!?"

***

Don Salvador não viveu a guerra civil que se instaurou no país que ajudara a tornar independente. Viveu enquanto pôde servir proteção à mulher que amava. Quando a agitação a respeito dos Charruas arrefeceu, e a meia-dúzia de remanescentes se viu livre da perseguição armada, o Coronel Salvador Guzmán morreu de febre. Não morreu em batalha, como um guerreiro, um dos títulos que se lhe podia atribuir. Mas como amante renegado. Morreu da dor de viver condenado ao ódio da única mulher que amou.