sábado, 23 de novembro de 2013

E Da Calma Fez-se O Vento (ou Notas Sobre o Fim)

De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

(Soneto da separação - Vinícius de Morais)

As palavras de chumbo que despejava lhe deixavam um gosto acre na boca. Subiam do peito apertado queimando seu caminho e eram arremessadas do fundo da garganta através das fileiras de dentes. Aterrissavam violentas no colo da mulher, sentada na cama à sua frente.

Quando julgou suficientes os impropérios que descarregava, girou nos calcanhares. Sem ouvir o fim das frases que ela lhe oferecia em resposta, deixou o quarto e o apartamento com o tranco da porta batendo às suas costas.

***

O cubículo que lhe cabe no latifúndio da repartição parecia ter encolhido. As paredes falsas oprimiram sua agitação pelo restante da semana. A agonia não parecia lhe caber no peito, e a descontrolada memória bombardeava cenas selecionadas de um passado parcial.

Sentados sobre a toalha estendida na grama molhada pelo sereno, ele sentiu que ela deixou o corpo pesar sobre o seu. Ombro contra ombro, sentiu-se confortável. Desviou a atenção do punhado de brancos sulamericanos que arranhavam um jazz no palco tímido metros à frente. Pendeu a cabeça para trás e olhou o céu negro. A nordeste, encontrou o que procurava. Dois pontos de luz azul muito próximos um do outro. Esticou o dedo para mostrar o achado e aproximou a boca dos ouvidos da moça.

"Está vendo? É uma estrela binária. São duas estrelas contíguas, uma presa no campo gravitacional da outra." Olhou nos seus olhos e continuou. "Dois sois girando eternamente em torno um do outro. Nunca separados, jamais se tocam."

"Isso é verdade?"

"Não sei. Vi um cara falar isso pra uma garota num filme. Achei bonito."

"E o que a garota fez? No filme, eu digo..."

"Tascou um puta beijo no cara."

Ela inclinou o corpo, sorriu, e grudou os lábios nos dele. As bocas abriram-se lentamente. Sorviam o hálito quente um do outro.

"Mentira. Na verdade, ela tirou a roupa e eles se agarraram a noite inteira. No filme."

Ela sorriu, divertida.

"Quem sabe mais tarde..."

***

O telefone tocou histérico enquanto ela removia da cama o edredom e as almofadas. A marcha imperial do filme Guerra nas Estrelas ecoava em sua versão de guitarras distorcidas do Rage Against The Machine. Tomou nas mãos o celular e olhou a tela. Trabalho. Decidiu que era um desrespeito, àquela hora da noite. Não atendeu. Desligou o aparelho e o atirou de volta à mesa de cabeceira. Despiu-se e enfiou o corpo debaixo das cobertas. Afundou o rosto no travesseiro, torcendo para o cansaço vencer a odiosa mania do cérebro de trabalhar até mais tarde.

Ela dormia nua. Gostava das carícias das cobertas. Ele tentou acompanhá-la na época, mas a prática lhe era impossível. Repugnava-lhe a ideia de um filete de porra, desses que se desprendem vez em quando do pau excitado, espalhar-se pelo lençol onde ele esfregaria o corpo a noite toda. Ela sempre considerou aquilo uma tremenda frescura.

Enquanto ela secava o esperma de suas coxas com um pedaço de papel higiênico naquela noite, ele levantou-se e, vestindo a cueca, apresentou a teoria.

"Li num conto do Rubem Fonseca outro dia. Falando de um personagem que conseguiu se condicionar a transar sem gozar fisicamente, tipo sexo tântrico. Aí o casamento do cara foi pro ralo porque a mulher não gostava de transar sem ele gozar. A teoria dele é que o jato de porra era a evidência da vitória dela. O exaurimento dele, macho, representava o fortalecimento dela, fêmea."

"Ideia machista, hein..."

"Eu não acho. Acho bonita."

"A vitória da mulher é a gozada do homem? Puta ideia machista. A vitória da mulher é o gozo dela mesma, ora."

"Porra, você fodeu com o clima romântico."

"Eu não. Quem fodeu foi você. Você e o Rubem Fonseca."

***

Confeitaria Colombo. Sugestão dela. Ele achara a ideia estúpida, mas não quis causar outro atrito. Aceitara. Agora, no calor da discussão, arrependia-se.

"Quer saber do que mais? Eu não sei como você me ganhou com aquele papo de estrelas binárias! Conversa mais brega!"

"Já tinha ganho muito antes. Aquilo ali foi só a ponte pra fazer o que você já tava afim de fazer há meses."

"Só eu..."

"Só você, sim. Eu estive afim desde que te conheci, por todos os anos até aquele dia."

"Você tá ficando brega de novo. Chega desse assunto. Nós vamos pra sua casa buscar minhas coisas de uma vez ou não?"

"Espera, vamos conversar direito." ele esticou o braço buscando sua mão no tampo da mesa. Ela a recolheu.

"Não tem mais o que conversar. Quero buscar as coisas que faltam, botar logo um fim nisso."

"Você tá precipitando o fim disso."

"Já são dois meses! Acabou. Tá na hora da gente entender isso e seguir as nossas vidas..."

"Minha vida ainda é você."

Ela levantou-se, irritada. Com o movimento, a cadeira tombou para trás. Os olhares curiosos teriam sido atraídos pelo som da madeira quicando no chão de porcelana, caso já não tivessem vidrados na discussão. Ele baixou a cabeça. Levantou-se, resignado.

"Melhor pegar o metrô na carioca."

Quando saem da confeitaria, trazem os pescoços duros. Andam lado a lado na calçada, policiando os próprios movimentos. Não virar o rosto, não esbarrar as mãos. Na rua Sete de Setembro o mundo se acaba em água. Chuva, dilúvio, todas palavras débeis, sem vigor suficiente para descrever o que acontecia.

Procuram abrigo debaixo de uma marquise, que só apresentou-se depois de cinquenta metros corridos debaixo d'água. O vento sopra frio em suas espinhas e joga o fluxo de água quase na horizontal. Ela bate os queixos. Os corpos molhados se procuram, os braços se enlaçam. E a água fria não é capaz de dissipar o calor de um beijo lascivo que os dois sabem ser sua despedida.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

La Mala Sangre

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/07/la-mala-sangre.html

"Eu quero saber quem foi que desenhou caralhinhos voadores na parede do banheiro!" - Seu Noronha (Lima Duarte), em Os Sete Gatinhos, 1980.

Vovó estava estirada em meio às paredes de madeira do funesto artefato. Sobre uma bancada, em posição central, convergia a atenção de todos no recinto, ainda que com ela não se interagisse. Um tanto por senso do ridículo, outro tanto por dar-se prioridade, nestas ocasiões, a quem fica. Sua expressão era serena. Não soubesse eu, de fato, que estava morta, poderia jurar que acordaria a qualquer minuto com aquela agitação à sua volta, reclamando seus palavrões de hábito. Vovó cheirava a lavanda, alfazema. Mas não hoje. Não se distinguia cheiro naquela sala que não fosse o dos malditos crisântemos que papai mandou colocar nas coroas.

Vinha já doente nos últimos anos de vida a vovó. "Es la mala sangre.", dizia. Explicava que quando se envelhece, o sangue perde qualidade. Sangue velho é ruim, causa doenças. Vovó nascera em um desses vilarejos no interior da América onde o tempo ainda não aprendeu a correr. Mas as piores doenças que o sangue ruim pode trazer, vovó dizia que jamais teria. "La tristeza y la solitud.", apontava. Males de que jamais padeceria.

Um dia, me disse que muito gostaria de fazer uma viagem. Queria voltar ao povoado onde crescera e queria que eu a acompanhasse. "Mas abuela, no seu estado..." compreendi pela sua expressão que havia cometido um erro. Ouvi um sermão de quase uma hora em que ela se dizia muito aborrecida e decepcionada comigo. Não fazia ideia de que sua própria neta era desses "pendejos" e "pelotudos" que acham os velhos indignos de viver e sonhar. Que seu estado tinha nome: viva. E enquanto isso não mudasse, podia ser feliz como bem entendesse. Depois, que deus se encarregasse do resto.

Sorri e expliquei-lhe que tratava-se apenas de cuidado. "Excesso de carinho, abuela.". Mas se ela realmente quisesse voltar ao povoado, eu teria imenso prazer em acompanhá-la e conhecer melhor as suas origens. Ela manteve uma expressão um tanto contrariada, que eu sabia ser apenas para marcar sua posição. Um gesto de teimosia com o qual eu já estava acostumada.

***

Vovó, no povoado, parecia uma criança. O sorriso eternizou-se em seu rosto, enquanto rodávamos as pequenas ruas de pedra do lugar. Mostrava-me a praça em que pegou nas mãos de um menino pela primeira vez. A igreja e o muro em seus fundos que acobertara os primeiros beijos apaixonados que trocara com vovô. Contava histórias de pessoas que viveram nas casas por onde passávamos. Histórias engraçadas, histórias gastronômicas. Por vezes histórias trágicas. Cheirava todos os jardins que pudesse e perguntava aos mais velhos a respeito de personagens de sua memória.

Um dia decidiu que visitaria seu antigo colégio. Era período de férias e, no pátio, alguns meninos jogavam futebol. Tratavam-se por nomes de jogadores da seleção, que jogava a Copa América naqueles dias. Vovó mostrou-me as salas de aula em que fora aluna, uma a uma, contando histórias e explicando quem eram seus amigos em cada série que cursara.

Em uma das paredes, jazia recostado um balde de tinta branca. Dentro dele um pincel. O rodapé havia sido pintado até aquele ponto, e o serviço esperava por ser retomado. Vovó abaixou-se e tomou o pincel nas mãos. Me entregou o objeto com os olhinhos brilhando. "Vamos a escribir algo muy lindo en la pared!". Eu ri, devolvendo o pincel ao balde. Vovó franziu o cenho, abaixou-se, pegou o pincel e me devolveu. "En serio.". Hesitei, mas não por muito mais que alguns segundos. Perguntei-lhe o que queria escrever. "Aquel verso de Leminski que a mi me encanta.". "Mas o verso é em português, abuela.". "No hay problema, chica. Eso es una escuela. Dale!".

Pus-me a desenhar a letra efe na parede com cuidado. Nem bem terminei a primeira palavra, a moça aproximou-se e, com voz dura, perguntou o que significava aquilo. Vovó explicou que era antiga aluna do colégio e que a poesia nas paredes aquece os corações muito mais que o austero reboco monocromático. A bedel, no entanto não pareceu concordar. Desatinou num discurso colérico e disse não acreditar que uma senhora com aquela idade podia se prestar a traquinagens daquela sorte. Vovó não aceitou ser repreendida, e eu podia ver através de seus olhos, enquanto sua cabeça classificava a jovem bedel: una pelotuda! Insensível ao fuzilamento ocular a que vovó a submetia, a moça nos escoltou até a sala do diretor, onde nos sentamos em frente a uma mesa vazia.

O homem cruzou a porta pisando firme em seu terno cinza. Sobre a esticada camisa branca, uma gravata azul repousava muito bem alinhada. O homem sentou-se de frente para nós duas, deitou os óculos de aros grossos sobre a mesa e respirou fundo. Repetiu, em tom mais severo e menos afetado, a ladainha a que nos submetera a bedel alguns minutos antes. Repreendeu vovó por, em sua idade, andar por aí aprontando traquinagens. Repreendeu-me, não só por ser incapaz de colocar juízo na cabeça da velha, mas ainda corroborar com a sua indisciplina. Nada respondemos. Quando o diretor encerrou seu discurso, vovó levantou-se e anunciou que precisava ir ao banheiro. "Si esto no es también prohibido.". O homem indicou-lhe que havia um banheiro contíguo a sua sala.

Quando voltou a nossa companhia, vovó dizia que era melhor ir andando. E como fosse o colégio um tanto afastado da cidade, para nós que andávamos a pé, eu também devia ir ao banheiro, em caráter preventivo. Respondi que não havia necessidade, mas vovó insistiu de modo perturbador. Entrei e segurei para que meu riso não denunciasse a vingança. No espelho, escrito com batom, lia-se "Que se vayan de este mundo todos los pelotudos!". O desenho de um dedo médio em riste assinava a obra.

***

Quando voltamos, vovó investiu uma semana visitando todos os parentes, para mostrar que a viagem não lhe fizera mal. Muito pelo contrário. Ao cabo da semana, recolheu-se à cama no seu horário habitual, fechou os olhos de sono e não mais os abriu.

Agora, sentada naquela capela austera, meus lábios respondiam à doçura da lembrança abrindo-se em um sorriso. As faces pesadas no recinto, no entanto, faziam do sorriso impróprio. Vovó desaprovaria aquele clima de velório. Ainda que o acontecimento fosse, de fato, um velório. Paradoxalmente, vovó já não estava mais ali para julgar, ou ensinar, fosse o que fosse. O evento não era mais seu. Era dos que ficaram. E estes pareciam achar muito pertinente que o clima fosse de velório.

Levantei-me e levei meu sorriso para o banheiro, tentando disfarçá-lo no caminho. Parei em frente ao espelho, debrucei-me sobre a pia e arreganhei os dentes. Senti, ao fazê-lo, que honrava a lembrança da minha avó. Abri a bolsa, tirei de dentro o batom vermelho e o encostei sobre os lábios. Voltei-me, conservando a arma entre os dedos, e avancei sobre a parede branca:

"faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja
"
p. l.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Sol, o Mar e o Absurdo

Também eu me senti pronto para reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio. (O Estrangeiro - Albert Camus)

A porra do dia estava mais quente que o café. Que era uma bosta, diga-se. Pozinho vagabundo de licitação pública. O ar condicionado central do prédio funcionava a meia bomba, como sempre. Mesmo assim, a discussão corria animada pela salinha do café.

- Se você quer mesmo tirar a prova se está apaixonada por ela, faz o teste. Viagem juntas e, sem querer, entre no banheiro quando tiver certeza que ela está passando um fax.

- Passando o quê?

- Um fax. Soltando um barrão, chapiscando a porcelana, matriculando o Robinho na natação. Escorregando o moreno!

A Martinha continuava com o cenho franzido. Em uma expressão difícil de definir se denunciando a incompreensão de tão vasto arcabouço metafórico para uma simples cagada, ou se em choque justamente pela sua compreensão.

- Fazendo número dois... - insistiu o Fraga.

- Porra, Fraga, custa dizer "dando uma cagada" e resolver logo o assunto?

- Martinha, meu bem, acredite: eu não poderia ter sido mais explícito do que eu fui.

- Tá legal, tá legal, mas o que diabos tem a ver a cagada da Beatriz com eu saber se estou apaixonada ou não?

- Se você entrar no banheiro e, diante da cena da moça obrando, você ainda a achar linda, não tem erro. É amor. - sentenciou o Fraga.

- Por que?

- Você, por acaso, consegue conceber cena mais dantesca que alguém cagando? Se você for capaz de, diante da mais indigna das cenas, achar um ser humano nessa situação lindo, tenha certeza: é amor verdadeiro.

- Olha, não sei, não. - Martinha discordava. - Não é a cena mais dantesca possível. - o Fraga grudou os olhos nela, interessado na explicação. - Quer dizer, o cheiro às vezes é foda, mas a posição de alguém no trono não é nada indigna. É até um tanto helênica, eu diria. - E continuou, apesar das risadas do Fraga - É sério. Lembra O Pensador. Não é, nem de longe, tão dantesca quanto a cena de alguém passando fio dental. Você, por acaso, já imaginou uma estátua num jardim grego de alguém com os braços no ar, desengonçados, enfiando os dedos no fundo da boca? Já imaginou uma estátua grega de um pedacinho de carne mastigada espirrando no espelho? Muito mais perturbador que a posição de uma cagada.

- Eu chupo a carninha que fica grudada na linha. - riu-se o Fraga. E continuou - Martinha, isso é papo de mulher. Porque vocês fazem número um e dois na mesma posição. Pra homem é diferente. Mas se quiser, faz o teste com o fio dental, então...

- E o que você acha, Lacerda?

- Acho a cagada pior. - não que eu tivesse argumentos para defender minha opinião. Ou mesmo interesse em fazê-lo.

Martinha e Fraga eram os colegas de trabalho com quem eu mais passava meu tempo de escritório. Não digo que eu gostasse dos dois. Eu gostava com a mesma intensidade de todos na repartição: pouco. Mas os dois, por algum comportamento social humano que eu não sei explicar, me incluíam nas conversas como parte de sua rodinha.

O Fraga é racista. Vez em quando engata monólogos longos sobre os defeitos da pele escura, o nariz de barracão e o cabelo crespo. Mas nunca o vi destratar nenhum dos funcionários negros do prédio. Porteiros, copeiras, serventes. Sempre lhes oferece um sorriso e uma fala mansa. "Deve-se tratar com cortesia até mesmo aos inferiores. Sobretudo aos inferiores.", ele diz. "Subjugar o mais fraco não é coisa de gente civilizada.", completa. Um verdadeiro cavalheiro.

Com a Martinha, no entanto, ele se dá muito bem. Me pergunto se escolhemos, de alguma maneira, os preconceitos que queremos propagar. Talvez seja apenas aquela velha canalhice masculina de enxergar em todo casal de lésbicas um convite ao ménage. Se bem que não posso garantir que não haja um outro grupo de amigos para quem ele faça longos discursos sobre os malefícios da homossexualidade. No caso, a feminina.

Nada disso me faz desgostar do personagem mais do que desgosto de qualquer um. Não me envolvo nas convicções alheias. O que é uma boa estratégia para não ser cobrado pela falta das minhas próprias. A Martinha, nos dias em que está mais atacada, resolve argumentar. Eles discutem longamente, até que um deles me pergunta o que eu penso. Emito, então, uma opinião curta, não mais de duas sentenças, a favor do outro, em represália por ter me incluído na discussão.

***

Na hora do almoço, como ficasse o prédio da repartição no Largo da Carioca, tínhamos por costume descer a Rua da Assembleia até a Presidente Antônio Carlos. Cruzávamos o Paço Imperial em direção a um restaurante árabe na esquina da Rua do Mercado com a Rua do Ouvidor. O dono do restaurante era amigo do Fraga. Um português que comprara o estabelecimento antes dos projetos de revitalização do centro. Apesar de seguir rigorosamente o cardápio étnico, sempre nos servia, por conta da casa, uma generosa porção de bolinhos de bacalhau, que eu comia com mais gosto que o prato principal.

Quando sentamos, a Martinha explicava pro Fraga, pela enésima vez naquele mês, por que não sentia falta de se relacionar com homens. Apoiei a bochecha na palma da mão, entediado mais que aborrecido, e vasculhei a área externa pela janela, com olhos despretensiosos.

- Lacerda, porra, me ajuda a defender a classe! - era o Fraga.

- Não ouvi o que vocês falavam, desculpe. - disse, tirando sem pressa o olhar da janela.

- Martinha está dizendo que os homens são bons amigos, mas péssimos namorados, maridos, amantes...

- Concordo. Eu também não namoro homens. - respondi voltando o olhar para a rua lá fora.

Na outra calçada, vinha em direção ao restaurante um personagem recorrente naquelas paragens. A caixa de madeira sem tampa repousava à frente da sua barriga, presa por uma tira de couro que lhe circundava o pescoço magro. O vietnamita atravessou a rua e entrou no restaurante. Ofereceu de mesa em mesa as quinquilharias brilhantes que distribuíam-se dentro da caixa. Ninguém mostrou-se interessado. Eu observava seu peito magro coberto por uma camisa da seleção brasileira de futebol, seus braços amarelos, de veias azuis e saltadas. O homem de cabelos muito negros e lisos fixou seus pequenos olhos nos meus e mostrou a mercadoria cintilante. Uns pacotes de pilhas alcalinas repousavam, também à venda, no canto do recipiente. Fiz um gesto com a cabeça em agradecimento. Não estava interessado. Está há tempos no Brasil, mas não fala quase nada de português. Eu gostaria de lhe perguntar o que faz por aqui. Que sucessão de arbitrariedades teria sido necessária para que esse amarelo viesse parar justo aqui. Mas eu também não falo porra nenhuma de vietnamita.

Comemos. No caminho de volta, Martinha e Fraga falavam a respeito do chefe. Falavam do espaço que nos separa a todos, sobre as pessoas que escondem-se detrás de suas ilusões e não se permitem vislumbrar um fio de verdade antes que seja tarde demais, antes que a inevitabilidade da morte lhes bata à porta. Sobre as pessoas que, sozinhas, conquistam o mundo em troca das próprias almas. Que, trancadas em seus escritórios, quanto mais multiplicam seus feitos, menos amam. Falavam com pesar, desgostosos dessa gente. Desgostosos do chefe.

A conversa me atordoava mais que aborrecia. Pensava que o mundo não tem lastro. A vida é absurdo. Arbitrária. Gratuita. De que outra maneira um amarelo cruzaria o planeta para abraçar uma vida ruim entre estranhos que só lhe têm desprezo a oferecer? Não pode haver propósito nesse homem haver nascido tão longe, apenas acaso. Só pode ser se formos estranhos em qualquer lugar. Estamos sozinhos em qualquer lugar. O mundo nada nos prometeu, portanto nada nos deve. Nem mesmo explicações. O mundo simplesmente é, sem importar-se de que juízo fazemos a seu respeito. O mundo acontece, em seu absurdo, desordenado. Quem batalha para lhe atribuir razão somos nós, carentes de uma racionalidade inventada. Então de que me importa se o cavaleiro discursa de trás para frente, se a lógica e a proporção não existem de fato? A única forma de chegarmos a um significado para a cadeia sem sentido de acontecimentos da vida é, portanto, criarmos essa significação por nós mesmos. É o indivíduo, não o ato, que atribui sentido ao mundo. Nisso implica nossa liberdade. A vida é o que entendemos dela. E foda-se.

- E se o mundo desmente o entendimento que fazemos dele? - Martinha me perguntava de olhos arregalados.

- Inventamos outro. - respondi surpreso. Eu não percebera que minha voz partilhava, sem filtro, do meu pensamento.

- Outro o que?

- Outro entendimento. Que diferença faz pro mundo que ideia fazemos dele? Só faz diferença a nível individual. Perceba: ninguém além de nós mesmos pode nos mudar. E a vida segue com ou sem nosso consentimento. Com ou sem nossa participação. Não fazemos diferença pro mundo, apenas para nossas próprias trajetórias. É nisso que implica a liberdade. O mundo não dá a mínima, façamos da nossa vida livre o que dela julgarmos correto!

Na praça XV, eu tonteava, envolvido pela cólera. Na extremidade oposta da praça, Serjão almoçava. Uma vasilha de papel alumínio na mão esquerda, um garfo de plástico na direita. O mendigo estava em pé, com as costas coladas à parede da antiga construção do império. O corpo negro era velho e forte. Adivinhava-se os músculos dos braços e do abdômen por baixo da pele espessa. Os cabelos longos caiam em gomos individuais pelas suas costas e a barba branca conservava grãos de arroz e feijão. A vassoura, que eu já o vira usar para varrer o chão onde dormia frequentemente, a poucos metros dali, repousava ao seu lado, também encostada à parede.

Dois garotos, pelo meio dos seus vinte anos, aproximaram-se do negro. O primeiro deu-lhe um tapa na marmita, que foi ao chão. O segundo empurrou sua cabeça contra a parede. Serjão tomou a vassoura nas mãos e quebrou-lhe o cabo em dois pedaços no braço do primeiro. Foi o suficiente para que o outro lhe desferisse um cruzado no queixo, jogando-o ao chão. O mendigo levou, então, os braços ao rosto e aceitou a saraivada de pontapés, defendendo os poucos dentes que lhe restavam.

***

Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça. (O Estrangeiro - Albert Camus)

De pé no limiar da liberdade, em seu litoral, esperei pelo sol. Essa era, sem dúvida, a vida mais estranha que jamais conhecera. Quando uma pequena nuvem deslizou da frente do astro, a luz do sol segou-me os olhos inquietos por alguns segundos. Caminhei até a confusão. Os pedaços do cabo de vassoura jaziam no chão, sem despertar maior interesse de nenhum dos protagonistas. Tomei nas mãos o que me pareceu ter criado a ponta mais afiada. Cravei-o no pescoço de um dos agressores. O corpo caiu. Amassei-lhe a boca com a sola do sapato, para puxar a arma de volta com mais eficiência. Serjão levantou-se e segurou o outro contra a parede. Cravei-lhe o pedaço de madeira na jugular. Ele escorregou lentamente até o chão.

- Sai fora antes que dê merda, Serjão. - o homem me agradeceu, meio desconcertado, mastigando pedaços de frases e partiu em desabalada carreira na direção da estação das barcas.

Por alguns instantes, pensei em sentar-me no chão e esperar pelas autoridades. Mudei de ideia. Resolvi não me levar pela perversa juventude de espírito que só compreende a paixão e a crueldade. A rebeldia é o meio por que somos condenados a buscar o nosso senso de moralidade na vida. Sem rebelar-se contra o mundo, somos tão amorais quanto o cenário. E nesta porra deste mundo engessado, onde ser feliz é sintoma de rebeldia, decidi que seria feliz até as tripas saltarem. Preferi ser ferido pelo meu próprio sorriso antes da adaga insossa do jogo de ilusões reinante. É assim, de tanto acreditar no que achamos tão certo, que fazemos floresta do deserto. Basta de vender fácil o que não tem preço. Nada nos fere quando abraçamos verdadeiramente nossa estrada, nossa própria lei. Se a nós nos cabe dar sentido ao mundo como indivíduos, eu serei feliz a despeito do mundo. Nem que isso implique ser contra o mundo.

Segui até a parada de ônibus mais próxima, e embarquei na primeira condução que me pudesse levar a uma praia qualquer. Sentei-me na janela, buscando no ar o reconfortante cheiro de sal, à medida que o ônibus seguia rumo ao mar.

PS:
The Doors - Waiting For The Sun

Belchior - Paralelas

The Beatles - Within You Without You

Legião Urbana - Andrea Doria

Jefferson Airplane - White Rabbit

terça-feira, 18 de junho de 2013

De Quando Se Ama Cedo

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/09/un-racconto-di-mooca.html

Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta. (Eduardo Galeano)

Onze metros. Essa é a distância da marca fatal até a linha do gol. Eu sabia disso e era tudo em que conseguia pensar. Naquela fria noite de terça-feira, mais de três mil pessoas se apertavam nas arquibancadas do Parque São Jorge. A torcida grená correra a apertar-se detrás da baliza onde seria cobrado o pênalti. A umidade do Tietê esfriava todas as canelas no estádio. O lateral direito Nelsinho Batista fora atirado ao gramado por um zagueiro alagoano dentro da grande área. O árbitro soprara o apito e apontara o indicador para a marca de cal. Os visitantes ficaram malucos. Partiram pra cima do apitador a disparar reclamações e ameaças. Um dirigente do CSA quis invadir o campo, o dedo em riste jurando perpetrar torturas medievais na carne do juiz, de toda a sua família e todos os seus amigos. De nada adiantou. Derrotado pela impotência, Fernando Collor de Mello, o dirigente esquentadinho, sentou-se no banco de reservas que lhe cabia e esperou, com o fervilhar de seu sangue a esquentar o corpo naquela noite de maio.

Eu não respirava. Meu pai levantou-me e sentou meu corpo pequeno em seus ombros. Consegui ver os olhos do médio-volante que preparava-se para o disparo derradeiro. Vinte e seis minutos haviam avançado no cronômetro. Segundo tempo da final da Taça de Prata, terceiro jogo, o desempate. No placar, um zero a zero teimoso denunciava o festival de pontapés que impedira o futebol de entrar em campo até ali. Findos os protestos dos visitantes, o estádio calou. Paulo Martins, o nosso médio-volante, tinha o olhar sereno. Não ofegava, não desviava o olhar das negras pupilas do goleiro Adeíldo. Eu soube, naquele momento, que aquela bola morreria no fundo da rede. Abaixei-me e sussurrei a meu pai "Ele vai marcar, pai. Fique tranquilo.". Meu pai sorriu.

O goleiro do time das Alagoas escolheu um canto e caiu. Martins enfiou o pé no meio do gol. O baque seco da bola estufando a rede invadiu os ouvidos apreensivos pela arquibancada. Nós pulamos, gritamos, xingamos, agradecemos. O gol nos arrancara o grito que se alojava em nossas gargantas há séculos.

Ninguém quis saber do resto do jogo. Nem a torcida, que ocupava-se em fazer festa, nem a nossa esquadra, que tocava a bola aguardando o apito final. Nem mesmo os adversários, que preferiram lidar com sua frustração arrebentando quantas canelas juventinas eles conseguissem no curto espaço de tempo de que dispunham.

Quando o jogo terminou, invadimos o campo tão rápido que os alagoanos se retiraram aos vestiários sem perder tempo com reclamações. Os nossos gladiadores foram rapidamente alçados aos ombros da massa branca e grená, que saiu a carregá-los junto com a comissão técnica e os dirigentes, em romaria de volta à rua Javari. Aquela noite foi curta para festejar o primeiro título nacional do Clube Atlético Juventus.

***

De volta ao bairro, já tarde da noite, meu pai perguntou-me se queria comer uma pizza. Respondi que preferia um sanduíche. Ele aquiesceu. Fomos a uma lanchonete que há muito não íamos, na rua Padre Raposo.

Quando sentamos, o velho falava sobre meu avô. Contava-me que seu Domenico era um agitador. Um anarquista que trabalhava em uma das inúmeras fábricas de tecido que havia no bairro nos anos 30. Falava de protestos e comícios que vovô organizava na Praça Vermelha. Explicava o ativismo do velho Domenico a partir da morte de seu pai, meu bisavô, don Franco, que morrera no dia vinte e três de julho de mil novecentos e vinte e quatro. Dia em que dois aviões das tropas legalistas bombardearam a Mooca, em represália à Revolução Paulista. Não aquela famosa de 1932, mas sua prima mais pobre de recordação.

Eu, que nunca tinha ouvido falar em revolução qualquer, quanto mais paulista, nem fazia ideia do que era um anarquista, ouvia mais encantado pelo brilho nos olhos de meu pai do que pelas estórias em si, ansioso para que ele contasse alguma que envolvesse o nosso querido Juventus.

"Já escolheram?"

Meu pai contava uma briga de que meu avô participara em um pequeno concerto dos Demônios da Garoa, no início dos anos quarenta, quando o conjunto ainda chamava-se Grupo do Luar. Alguma disputa dos anarquistas com os fascistas da época. Nada disso ainda fazia muito sentido pra mim, e a voz de meu pai foi sumindo no meu inconsciente, gradativamente, à medida que eu levantava meus olhos para a garçonete. Ela mudou a pergunta.

"Vocês foram no jogo?"

O sorriso, muito branco, irradiado de duas cadeias perfeitas de dentes, acentuava a pele de um negro claro. O nariz e o queixo afinados. Os cabelos negros desciam ondulados até os ombros. A gola polo do uniforme revelava o pescoço, onde ligava-se aos ossos da clavícula. Meus olhos não desgrudavam daquele rosto. Minha garganta fechou-se em nó de marinheiro, e não conseguiria pronunciar resposta à pergunta ainda que meu cérebro a tivesse conseguido formular.

"Fomos sim. Foi bonito demais.", meu pai veio em meu socorro.

"Eu imagino. A festa por aqui foi linda também. E já escolheram o que vão querer?"

O nó em minha garganta desfazia-se lentamente.

***

Entrei na cozinha e minha mãe terminava de acomodar um sanduíche e uma caixa de toddynho, uma novidade na época, na lancheira de plástico.

"Mãe, ninguém da minha idade leva mais lancheira pra escola."

"Como não, menino?"

"Todo mundo leva dinheiro pra comprar lanche. Eu já tenho quase nove anos!"

"Como quase nove? Faltam cinco meses ainda!"

"Então, tenho oito já faz sete meses. Quase nove."

Minha mãe sorriu. Guardou o toddynho de volta na geladeira, abriu a embalagem de plástico filme que havia feito em torno do sanduíche e mordeu um pedaço.

"Pega minha carteira lá no quarto."

***

Foram dias de fome na escola. O dinheiro ia se acumulando em uma latinha, guardada cuidadosamente na minha gaveta de meias, que, por algum feitiço, nunca esvaziava. Quando a soma se fez suficiente, o meu sono perdeu em tranquilidade. A cama parecia uma frigideira, e eu girava e rolava sem conseguir nunca guardar posição, ou cerrar os olhos de forma permanente.

À tarde, pus meu plano em ação. Seu Andrea não aliviou no preço, como eu previra. Velho sovina. Gastei minhas economias em um punhado de rosas amarelas unidas por uma fita vermelha.

Do meio do quarteirão, vi uma moto parada em frente à lanchonete. A mulher parecia discutir com o piloto. Sentei no degrau de uma mercearia, escondendo as flores da melhor maneira possível, e assisti à cena. O desentendimento não chegava a ser um escândalo, mas era inegável. Passados alguns minutos, a despedida, mesmo que fria, deu-se com um beijo estalado nos lábios. Minhas entranhas gelaram. Abriu-se um vazio no meu estômago, e subitamente minhas pernas tornaram-se inquietas. Enquanto a moça dirigia-se para dentro do prédio, pensei algumas vezes em levantar e correr para casa. Largar as flores ali mesmo, no chão. Desisti. Respirei fundo, engoli o orgulho e a covardia de uma só vez, pus-me de pé e marchei decidido em direção à lanchonete.

Como escreveu uma vez Tolstoi, difícil é amar uma mulher e ao mesmo tempo agir com juízo. Não que eu já tivesse lido Tolstoi, mas conhecia o sentimento. Eu estava um tanto irritado com o fato daquele brutamontes ter a sorte de ser amado por uma deusa e não agir de acordo. Eu sabia, até o meu mais íntimo pensamento, eu tinha a certeza de que saberia tratá-la com a devoção que merecem as criaturas da luz, como ela era. Não que eu usasse a palavra devoção, mas o sentimento era bastante claro. Meu trabalho dali em diante seria mostrá-la que eu era o amor que ela precisava e merecia.

Quando cruzei os umbrais, ela estava de costas. As moças todas estavam atrás do balcão e rapidamente fixaram os olhares nas flores que eu trazia nas mãos. Ela virou-se. Olhou primeiro para as pétalas áureas que espalhavam-se na altura do meu peito. Então arrastou o olhar para os meus olhos. Senti minha traqueia fechar-se. Por alguns segundos tentei emitir som que fosse, inutilmente. Estiquei, então, os braços, oferecendo o presente.

"Pra mim?!"

Aquiesci. Não sem esforço para movimentar o pescoço duro de tensão. Ela saiu detrás do balcão e caminhou vagarosamente na minha direção. Senti os joelhos falharem. Ela me parecia, naqueles segundos intermináveis de caminhada, uma mulher madura. Adulta, experiente, independente. Hoje, calculo que ela não deveria ter mais de vinte anos de idade. Ajoelhada à minha frente, estendeu as mãos e entreguei-lhe as flores. Ela inclinou o corpo e beijou-me demoradamente na bochecha direita. A sensação de ter aqueles lábios quentes colados ao meu rosto jamais me escapou da memória. Nem nenhum par de lábios se igualou àqueles.

"Obrigada, querido." ela disse próxima do meu ouvido, em meio ao sorriso mais lindo que meus olhos veriam em vida.

***

Naquela época, eu andava o caminho de ida e volta do Colégio São Judas Tadeu. Nós morávamos na rua Olímpio Portugal. O que significa dizer que os caminhos para a escola e a lanchonete tomavam sentidos diametralmente opostos. Ainda assim, eu criava rotas que me permitissem passar pela lanchonete quase todos os dias. Levava amigos comigo, na maior parte das vezes, e comprávamos um sorvete com o dinheiro que sobrava do lanche. O Miojo e o Ovo Frito eram meus companheiros mais assíduos. Junto com meu sorvete, eu sempre ganhava mais um beijo no rosto, o que me transformava em uma celebridade entre os garotos da minha idade. Não me recordo época da vida que tenha sido mais feliz que aquelas semanas.

Um dia, quando entramos, Ovo Frito e eu, na lanchonete, o ar estava mais denso do que de costume. Havia eletricidade no ar, e alguma coisa diferente por trás dos olhares ali dentro. Meus olhos vasculharam a nave do prédio sem jamais encontrarem o que procuravam. Umas das garçonetes me chamou, ajoelhou-se com as mãos nos meus ombros e proferiu a sentença de morte.

"Ela não vai trabalhar mais aqui, meu bem..."

Não era fácil a vida de uma mulher negra trabalhando naquele bairro de italianos. Eu já sabia disso, mesmo naquela época. Quando viu meus olhos desolados, Ovo Frito passou o braço pelos meus ombros.

"Não liga, cara. Tá cheio de peixe no oceano."

Ele não sabia exatamente o que dizia, só repetiu o que todos nós ouvíamos quando pescávamos conversas de homens rejeitados. Eu sorri um sorriso amarelo. Dos amores que tive na minha vida em mil novecentos e oitenta e três, o Clube Atlético Juventus foi o único que tive a oportunidade de ver em decadência.

domingo, 5 de maio de 2013

Amigos, Amigos...

Eu estou muito bravo, Ralph. Você pode comer a minha mulher, se ela quiser. Pode se jogar aí no sofá. Na casa de merda, decadente e pós-moderna do ex marido dela, se você quiser. Mas você não vai assistir à porra da minha televisão! - Lt. Vincent Hanna (Al Pacino), Fogo Contra Fogo, 1995.

Quando conheci o Mendonça, a primeira vez que nos vimos, eu comia a mulher dele. Nos dois tempos possíveis do verbo, comia regularmente, e comia no momento em que ele entrou no quarto.

Naquela época, a gente se encontrava toda quinta à tarde, num barzinho, pra jogar uma partida de sinuca e tomar um par de cervejas. O ritual seguia, então, no motel do outro lado da rua. Mas nesse dia ela cismou de me levar para casa. Disse que tinha tara de fazer na cama em que o marido dormia. Eu achei aquilo bem errado, mas ela sabia ser convincente, quando queria.

Estávamos nós em meio às acrobacias de praxe e, de repente, lá estava o Mendonça parado no batente da porta. Ele olhou para nós dois durante alguns segundos.

"Te espero na sala", ele disse. E se virou para sair.

"Me dá cinco minutos", respondeu a Margarida.

O Mendonça parou e voltou apenas a cabeça em nossa direção. "Eu estava falando com ele. A sua cara eu não quero ver nunca mais." e saiu.

O olhar arregalado que a mulher me ofereceu não era exatamente reconfortante. Das roupas que se esparramavam pelo carpete do quarto, vesti calado e sem pressa as que me pertenciam. Tatuei na cara uma expressão de dignidade sem arrogância, do homem justo que não se omite quando erra. Tudo encenação, claro.

Quando cheguei à sala, o Mendonça me esperava sentado no sofá. Uma dose dupla de uísque servida sem gelo no copo que segurava e outra num copo pousado na mesinha de centro à sua frente.

"Senta aí."

Sentei.

"Bebe."

Tomei o copo entre os dedos e esperei pelo movimento do brinde, que ele não fez. Virei um generoso primeiro gole.

Ele começou falando devagar. Um tom de voz tranquilo e firme.

"Se eu te conhecesse, se você fosse meu amigo, eu tinha metido uma bala na sua cara no momento em que eu entrei no quarto. Não teria pensado duas vezes, nem perderia o sono. Como não é o caso, reconheço que nós não tínhamos vínculo, que você não tinha obrigação nenhuma comigo." Ele parou de falar por alguns segundos e tomou um longo gole da bebida. Depois retomou seu discurso sem olhar na minha direção. "Você não foi o primeiro, sabe... Quer dizer, foi o primeiro que eu flagrei nessa situação escrota. O primeiro que eu posso provar. Mas eu sei que ela teve outros. Uma bela filha da puta é o que ela é. Teve outros. Mas você, companheiro, você eu peguei no ato. E isso não ajuda o seu caso."

O Mendonça virou o ultimo dedo de uísque que sobrevivera em seu copo e levantou-se do sofá. Foi até o aparador, que fazia as vezes de bar, tomou a garrafa nas mãos e encheu o copo até a metade.

"Aquilo que você estava fazendo com ela, ela nunca me deixou fazer." Disse, ainda sem me olhar, sentando-se no mesmo lugar de antes. "Nunca, em quinze anos de casamento. Isso é outra coisa que não ajuda o seu caso." Ele ficou olhando o fundo do copo. Deu mais duas goladas generosas, mas não sem separar as duas por um tempo encarando o objeto de vidro. Cheguei a duvidar que ele fosse dizer mais alguma coisa. Mas ele disse. "Agora veja você. Essa cretina me apronta uma dessas, e quem você acha que vai sair de casa? Quem vai dormir fora? O babaca aqui." Ele calou-se de novo. Essas pausas estavam começando a me irritar. Mas imagino que ele tivesse o direito de falar no ritmo que quisesse, dada a situação. "Eu estou disposto a aceitar que você não era obrigado a consideração nenhuma a mim. Afinal, não nos conhecíamos. Estou disposto a acatar essa regra. Sem retaliação. Sem mágoa. Mas eu não vou passar nem mais uma noite nesta casa. E não vou pagar hotel até a venda desta merda estar resolvida. Você vai dar essa força, em retribuição à sensatez com que resolvi te tratar, dadas as circunstâncias."

Confesso que demorei a compreender o que ele quis dizer. Quando finalmente convenci-me do sentido de suas palavras, meus olhos deviam estar arregalados e meu queixo havia de ter despencado. O filho da puta estava me pedindo hospedagem. Estendi a mão direita na sua direção.

"Guedes." Apresentei-me.

"Mendonça."

"Eu sei."

Eu ainda não possuía meios de sabê-lo, mas aquele era o princípio de uma forte amizade.

***

Menos de duas semanas depois que o Mendonça fora morar comigo, ele descobriu que um de seus amigos mais antigos estava saindo com a Margarida. Ele resolveu que daria uma lição no sujeito. Ironia do destino ou não, eu ia ajudar.

Estacionamos o carro do Mendonça em frente à casa que ele antigamente, em tempos já remotos (se não em cronologia, ao menos em sensação), dividira com Margarida. Vimos o Audi A4 estacionado em frente ao portão.

"É ele." murmurou o Mendonça, estacionando de modo a fechar a passagem. Sacou as chaves do bolso e nós entramos.

Por providência do destino, não flagramos cena parecida com que eu tinha protagonizado alguns dias antes. O tal do Barroso estava de roupão, sentado no sofá. Assistia à TV cujas prestações o Mendonça ainda estava pagando. Ele não hesitou, passou a mão em um castiçal que perambulava sem muito propósito pela estante e sentou na cabeça desavisada do traidor, que tombou para o lado. O grito que o sujeito tentou soltar não teve forças para ser mais que um gemido alto. Segurei o cara deitado em posição fetal no sofá, como ele caíra, e o Mendonça emendou uma série de tapas estalados na cara do Barroso.

"Seu filho da puta!" dizia.

"Mas vocês estão separados!", o cara defendia-se. Isso triplicou a raiva do Mendonça e a força dos tapas.

"Não tenho mais nada com a vida daquela vaca, Barroso. Mas eu não lembro de ter deixado de ser teu amigo, cretino! Tua obrigação era comigo."

O Barroso começou a chorar. A Margarida apareceu, também de roupão, com o telefone nas mãos, dizendo que a polícia estava a caminho. O Mendonça não se abalou. Ainda desferiu mais uma saraivada de tapas na cara vermelha do traidor até decidir que estava cansado. Então sentou-se no outro sofá e esperamos pela polícia.

"Porra, será que eles vão tirar nossa foto na delegacia, igual fazem nos filmes?"

O lamento era meu.

"Detesto foto.", conclui.

"A fotografia é, entre outras coisas, um pedaço de si que escapa ao controle." respondeu o Mendonça, assumindo aquele tom professoral que ele sabia irritar profundamente a ex mulher. "O controle é primitivo. O homem moderno (ou pós moderno, que é a mesma coisa dita com uma expressão ilógica) não dá tanta importância ao controle. Essa é uma obsessão primitiva."

Esperei um ou dois minutos por uma conclusão do pensamento. Não veio. Essa era toda a contribuição que ele tinha a dar. Então respondi na mesma moeda.

"Primitivo é o seu cu."

No fim das contas, Margarida e Barroso não quiseram prestar queixa. O Mendonça ouviu lá uma lição de moral do policial, que não se furtou a fazer insinuações pouco honrosas também aos pombinhos de roupão. Voltamos para a minha casa e enchemos a cara de conhaque barato.

***

Alguns meses mais tarde, encomendaram-me uma crônica sobre relacionamentos. "Mas algo novo, sem baboseiras de comédia romântica e comercial de margarina. Algo cru." pediu o editor.

Escrevi a crônica e a entreguei ao Mendonça, pedindo seus comentários. Ele tomou a folha de papel nas mãos e leu em voz alta. Detesto que leiam minhas crônicas em voz alta. Se fossem palavras a serem pronunciadas ao vento, eu as diria. Se escrevi é para que leiam. Em silêncio. Tenho mania de controle também com as minhas palavras, não gosto que as veiculem pelo canal errado, nem que as interpretem de forma diferente da minha intenção. Talvez eu seja mesmo um tanto primitivo. De qualquer modo, ele leu em voz alta.

"As Mulheres de Nossa Vida

'Caralho, amor!'

Eu adoro essas palavras. Mas adoro assim, combinadas. Suspiradas pesadamente entre grandes quantidades de ar indo e vindo de seus pulmões. Sua cabeça pendendo para trás, uma das mãos corre pela própria testa até meter-se pelos cabelos. A outra, a me massagear a parte de trás do crânio, enlaça meus cabelos negros e força minha boca contra a sua pele fina. O gosto do seu sexo a me escorrer quente pela língua, pela borda dos lábios, o seu cheiro a se agarrar pela minha barba. Os músculos de suas coxas contraem-se nos espasmos do gozo. Entre fortes suspiros e delicados gemidos, ela as repete: 'Caralho, amor!'

Das mulheres de nossas vidas, as que nos despertam interesse romântico distribuem-se ao longo de uma reta que liga dois extremos classificatórios. De um lado, a volúpia animal. Categoria que abriga aqueles furacões que temos vontade de jogar na parede e amar com pressa e com força. De preferência rasgando roupas no processo. Um gozo quase bandido em meio a uma avalanche de lascívia. No outro extremo da reta, o carinho cúmplice e cuidado. Aqui figuram as mulheres que sonhamos deitar na cama com candura e beijar do cóccix à nuca demoradamente. Calmamente lidar com as alças, os fechos e os botões, um de cada vez.

Não se engane o leitor ao tirar conclusões apressadas e, por isso, incorretas. O caso não é dizer que um extremo da reta seja superior ao outro, como possam defender alguns cavaleiros de um conservadorismo antiquado. A reta é perfeitamente horizontal, esteja claro. Assim como não cumpre defender que as mulheres, no que tange o desejo que despertam, resumem-se a duas categorias rígidas, como possa sustentar uma ciência iluminista. Claro está que, excetuando-se aquelas de quem não dispomos de mais que umas primeiras impressões, elas distribuem-se ao longo da reta (expressão que o leitor atento se recorda do parágrafo anterior). O que implica dizer que as nossas românticas intenções para com essas moças são, necessariamente, uma conjugação dos dois sentimentos extremos aqui discutidos. Não há o que nos impeça de ansiar pela calma do colo de um furacão, visto que furacão nenhum seja furacão todo o tempo. Nem que a libidinagem invada a cama que dividimos com um anjo barroco, sendo os anjos obviamente capazes de transcender as barreiras culturais que maldigam o látex ou o couro, por exemplo.

O motor da vida é a busca pelo equilíbrio. E por sinceros e dispendiosos que sejam os esforços nesse sentido, a maioria das mulheres de nossa vida não ocupa jamais o ponto central da reta. Este ponto reserva-se não às mulheres de nossas vidas, mas à mulher da nossa vida. Mais uma vez não se engane o leitor apressado: ainda que a referenciemos no singular, a destacar o distintivo valor do cargo, não há como precisar o números de moças que podem ocupar este posto na vida de alguém. Há quem diga que sejam três. Eu prefiro dizer que são poucas, raras. Nem há como garantir que elas não nos invadam a vida simultaneamente e nos vejamos obrigados a administrar mais de um amor por vez.

Há, no entanto, uma senha que nos permite descobri-las sem dúvida. São as palavras 'Caralho, amor!'. O palavrão, dito na cama ao toque da língua no que há de mais íntimo no corpo da mulher amada, seguido de cândido vocativo: esta é a perfeita conjugação da luxúria com a ternura. E a mulher que nos brinda com a equilibrada dose das duas é, impassível de dúvida, a mulher da nossa vida.

Talvez verdade seja que, como disse o poeta, as mulheres passem por nossa vida como se fossem bonequinhas russas. Uma sempre a introduzir a próxima e, ao mesmo tempo, ameaçando ser a última. Daí ser imperativo que sejam todas sempre tratadas com o carinho e a devoção dignos da última. Ainda que saibamos certos casos não o serem. Não há nada de charmoso no mulherengo canalha, incapaz de abrir uma porta ou surpreender com uma flor fora do dia 08 de março.
"

Fiquei esperando o parecer. Ele riu.

"Você é cínico pra caralho. A sua crônica sobre relacionamentos é uma defesa ao cafajeste boa gente. Você é um gênio."

Mandei a crônica para o editor e saímos o Mendonça e eu para beber uma cerveja. Aquele exercício de pensar os relacionamentos ainda me rondava o cérebro.

"Você não sente falta da vida de casado?" perguntei. "Do caminhar a dois, da cumplicidade? Sabe, de inventar o mundo a cada dia, como escreveu o Galeano?"

"Não funciona tão bem fora da literatura."

Brindamos, estalando as canecas. Chope de caneca. Como deve ser. Nada daquelas merdas daquelas tulipas. Virei um generoso primeiro gole para aplacar a sede. O Mendonça continuou o pensamento.

"O amor acaba rápido. Isso não te contam na literatura. Ele é construído, e isso requer um investimento de tempo. Depois, requer um exercício de manutenção. Mas para acabar, acaba de uma hora para outra. Você pisca no momento errado e já era. Foi-se o amor. Há quem confunda esse momento e, junto com o amor, perde o respeito, o carinho... No meu caso, eu tive motivo. Mas tem gente que faz por burrice."

"Certo. Mas não perguntei se você sente falta da sua ex mulher. Perguntei da vida de casado. Se você não sente falta de amar. De estar amando. Nada impede que seja com outra mulher. Você não acha que pode acontecer de novo?"

"Sinceramente?" Ele tomou um longo trago da bebida, limpou a espuma que ficara em volta da boca com a manga da camisa e me olhou sério. "Eu não estou com a menor pressa."

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Concupiscência

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/03/concupiscencia.html

A luz do sol varava janela e cortina. Não mais que uma meia dúzia de dedos brilhantes se esticavam retalhando a escuridão do quarto. Uma das retas luminosas flechava o seu corpo estendido confortavelmente sobre a cama, mal coberto pelos lençóis. O feixe dourado corria pelas suas costas nuas, deslizando suavemente sobre a pele escura. Mergulhava lasciva pela região lombar, para emergir espalhada pelas tenras curvas de suas nádegas e suas coxas.

Devagar, evitando cometer movimentos bruscos - para além do romantismo, por causa da bebida a mais na noite anterior -, cheguei meu corpo junto ao dela. Pousei gentilmente a mão sobre a sua perna, correndo, primeiro os dedos, pela maciez da sua panturrilha. Toquei com os lábios os finíssimos fios de cabelo que nasciam já da sua nuca, deixando que a respiração escorresse da minha boca. Com as pontas dos dentes, arranhei seu pescoço em direção à clavícula. No caminho de volta, corri a ponta da língua até sua orelha. Subi a mão à sua coxa de pelos já eriçados e apertei a carne firme, macia. Ela virou-se. Enfiou a língua na minha boca e correu a mão entre as minhas pernas. Segurou firme e me olhou fundo nos olhos, como se me desafiasse.

De repente embalava-nos o som da nossa respiração entrecortada e ofegante, como se o ar não bastasse para encher o vazio do peito. E de fato não bastava. Era preciso mais. Era preciso o calor do nosso suor, eram precisos os corpos colados a força, como se buscassem ser apenas um. Era preciso o aperto firme, que me fazia seu prisioneiro, como ela a minha. O abraço das línguas, a dança dos lábios. Eram precisas as mordidas, os palavrões sussurrados no ouvido.

Seu sexo pulsante desejava violência. Sua umidade me escorria pelo queixo, através da barba, que já conservava seu perfume. Transpassei-lhe as carnes pudendas com o membro duro. Forcei a boca contra a sua, sufocando um gemido que, confesso, não sabia dizer se era de dor. Forcei mais uma vez o púbis, num movimento brusco. Ela cravou as unhas nas minhas costas, colou os lábios no meu ouvido e pediu: "Mais forte." Atendi o pedido. Ela enlaçou minha cintura com as pernas, num abraço firme, me prendendo lá no fundo. De sua garganta explodiu um grito de volúpia. Segurei firme nos dois lados de sua bacia e virei-a de bruços. Escorreguei o pau pelo suor das carnes glúteas sem grande dificuldade, com fúria. Ela abraçou o travesseiro e mordeu-o com força.

Quando o sêmen verteu, lambuzei-lhe as nádegas. Ela esparramou o corpo na cama, frouxa de cansaço. Eu arfava e bufava. Deixei meu corpo cair ao lado dela e sorri: "Bom dia." Ela arreganhou os dentes, divertida: "Bom dia." E ao ver mulher tão linda estendida nos meu lençóis, pensei que não há de existir no mundo melhor maneira de começar um domingo de manhã. Admirei mais uma vez seu corpo esculpido em ébano e calculei se valia a pena estragar o momento lhe perguntando seu nome.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Amor Secreto de Salvador Guzmán

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/02/o-amor-secreto-de-salvador-guzman.html

O protesto ecoou pelas paredes do gabinete e pelo carvalho dos móveis. O pé da sua cadeira rangeu, pressionado contra a madeira do piso.

"Don Fructos, isso é absurdo!"

O homem levantou-se socando o tampo da escrivaninha que mandara vir da Espanha. O cenho franzido e os olhos injetados de autoridade insultada. Gotas de saliva eram atiradas por sua boca junto com as duras palavras.

"Me respeite, Coronel! Se não quiseres ver a estima que tenho por ti atirada ao fogo desta lareira, me respeite! A decisão está tomada. Isto não é uma consulta, mas um comunicado. E eu espero, sinceramente, não ter de lidar com a traição de um oficial!"

Don Salvador não fez menção de responder. Os olhos transcorreram longos segundos imóveis nos olhos do Presidente. Depois, inundados de ódio, voltaram-se para os olhos um tanto assustados do francês que sentava-se ao seu lado. O Coronel Salvador Guzmán levantou-se, coluna reta e postura perfeita.

"Permissão para me retirar, General."

O Presidente Fructuoso Rivera assentiu com a cabeça. Don Salvador lhes virou as costas e saiu.

***

Os três homens postavam-se um tanto afastados, mas não o suficiente para estarem excluídos do festejo. O Coronel Salvador Guzmán cruzava os braços na altura do estômago. Seus olhos atentos acompanhavam o corpo de uma das índias que dançava junto à fogueira. Quando os movimentos cessavam, ainda que por meros instantes, os cabelos negros escorriam-lhe pelas costas em linha reta até a cintura. O moreno escuro da pele reluzia e a luz do fogo lhe escorria com o suor, que Don Salvador supunha ser doce feito vinho.

Os dois homens ao seu lado pareciam agitados. O capitão fumava sem interrupção. O tenente batia os pés no chão e esfregava as mãos, fingindo ter frio. Guzmán não se compadecia da sua ansiedade, que julgava descabida.

"Coronel, é verdade que estes índios são guerreiros indomáveis?" - perguntou o tenente.

Don Salvador assumiu um tom soturno proposital para responder-lhe a pergunta.

"Os espanhóis levaram mais de sessenta anos colecionando derrotas até vencerem a primeira batalha contra estes índios. Quando finalmente conseguiram, tinham quase o dobro de homens, escondidos atrás das ruínas do forte San Salvador, que os próprios índios haviam destruído anos antes." Olhou nos olhos do homem para completar sua resposta. "No tempo dos espanhóis, garoto, estes índios invadiam as fazendas, assassinavam os homens adultos e raptavam as mulheres e as meninas. Os meninos eles castravam e tornavam escravos." Don Salvador abriu um sorriso pouco convincente, que à luz do fogo parecia uma fenda escavada num pedaço de rocha. "Não te preocupes, tenente. Hoje eles nos são inofensivos."

Montado em pelo, um dos guerreiros mais próximos ao cacique Vaimaca Peru aproximou-se do grupo de militares enquanto preparava-se para exibir à aldeia seus dotes na montaria.

"Boa noite, Coronel", saudou do alto do cavalo.

"Boa noite, Ayare."

"O cacique deseja lhe falar."

Guzmán assentiu com a cabeça.

"Me esperem aqui." ordenou aos outros oficiais. Caminhou a passos lentos em direção ao cacique, que sentava-se do outro lado da fogueira. Caminhou sem perceber que seus olhos eram incapazes de dissimular o interesse na mulher que ainda dançava. A filha de Senaqué. O curandeiro estava agora desaparecido.

Quando o coronel aproximou-se, o cacique Vaimaca Peru pôs-se de pé e o abraçou forte. Um homem já velho, seus cabelos, que um dia foram mais negros que a noite sem estrelas, estavam salpicados de um branco prateado. O bigode, distintivo varonil, permanecia vasto, mas também denunciava-lhe as agruras da idade. Pareciam ainda mais brancos, diante da pele escura do cacique.

"Diga-me, amigo, que é isso de churrasco, banquete de estreitamento de laços?" Perguntou Peru.

"É uma oferta de amizade do Presidente Rivera, cacique."

"Pensei que já fôssemos amigos..."

"São coisas da política, velho amigo." respondeu Don Salvador com um sorriso.

"Suponho que ele queira me falar sobre os problemas com os estancieiros. Eles insistem em nos negar as terras. De certo já foram queixar-se ao Presidente."

"Suponho que sim, cacique. Suponho que sim." Guzmán apontou com a cabeça na direção da índia que dançava perto da fogueira. "Notícias de Senaqué?" O índio respondeu-lhe com aceno de cabeça. Ninguém tinha notícias do curandeiro.

"Não sabemos o que fazer. Mais alguns dias e a menina vai cumprir o ritual."

Don Salvador esforçou-se em parecer resignado, mas suas entranhas gelaram e se contorceram. Conhecia o ritual de luto daquela gente. A cena da moça amputando o próprio dedo invadiu-lhe a mente como o ataque surpresa de um exército inimigo. Não conseguiu pronunciar som que fosse por alguns minutos. Estava grato pelo cacique ser um homem de poucas palavras.

Quando voltou para junto dos oficiais, o coronel olhou no fundo dos olhos do tenente.

"Estás vendo a mulher que dança próxima à fogueira?" O homem confirmou com a cabeça. "Quando a festa acabar, na madrugada, vais tirá-la de casa. Não voltes ao acampamento. Vais levá-la para a minha casa, na minha fazenda. Ela não vai colaborar, então tenhas cuidado. Se fizeres merda eles te arrancam a cabeça. Compreendeu?" O homem confirmou com outro aceno de cabeça. "E tenente, se feri-la, arranco-te as bolas."

***

A índia não levantou-lhe os olhos quando Don Salvador entrou no quarto. Estava sentada na cama. Com as costas apoiadas na cabeceira, abraçava os joelhos e o olhar perdia-se entre os lençóis. O coronel puxou a cadeira que servia de conjunto à simples escrivaninha na parede oposta. Pousou o assento ao lado da cama e sentou-se. Inclinou o corpo e esticou o braço, na tentativa de alcançar os negros cabelos da moça e afastá-los de seu rosto. Com um movimento econômico ela pendeu o corpo para o lado, o suficiente para evitar o toque. Don Salvador respirou fundo e recostou-se na cadeira.

"Suponho que queiras entender o que está acontecendo. Por que eu te trouxe aqui. Suponho também que eu lhe deva essa explicação."

O Coronel Salvador Guzmán respirou fundo mais uma vez. Calculara por onde começar aquela conversa inúmeras vezes. Agora hesitava. Arrumou o corpo na cadeira, mirou longamente os olhos distantes da mulher e suspirou.

"Você talvez seja muito nova para se lembrar. Há quase vinte anos, o Tenente-Coronel José Gervasio Artigas passou a liderar as lutas pela independência do nosso país. Meu pai, Don Enrique Guzmán tinha terras nos territórios Charrua e Guarani, e criou laços de amizade com as lideranças indígenas. Entre elas, o guerreiro Seracuaqué."

A índia levantou a cabeça, e seus olhos denunciaram-lhe o interesse, ainda que não os voltasse diretamente ao coronel.

"Meu pai e seu avô eram mais que aliados políticos. Eram amigos. Morreram juntos, lutando lado a lado em Tacuarembó. ". Don Salvador sentiu o peito pesar frente à lembrança do pai e do amigo. Fosse opção aos varões daqueles dias, seus olhos teriam marejado, o que não aconteceu. "Este não é um laço qualquer, compreenda. Quando dois amigos caem juntos em batalha, formam-se laços que amarram seus corpos, seus túmulos e seus legados. A amizade entre nossas famílias, menina, faltassem outras razões, estaria assegurada somente por este fato histórico."

Como não obtivesse resposta, ao menos verbalizada, o Coronel Guzmán deu seguimento a seu relato:

"Cinco anos depois, e destes próximos fatos talvez tenhas melhor lembrança, Juan Lavalleja partiu de Buenos Aires na liderança dos Trinta e Três Orientais para, mais uma vez, combater os portugueses e brasileiros que nos mantinham cativos. Quando o Presidente Rivera abraçou Lavalleja no acampamento às margens do rio Monzón, eu fazia parte de seu regimento, e já havia sido responsável pelo acordos com os Charrua e os Guarani que lutariam ao nosso lado dali em diante. Rivera em pessoa a mim me havia encarregado disso semanas antes."

Don Salvador levantou-se devagar e acercou-se da escrivaninha. Tomou dois copos de barro nas mãos e serviu água de uma pequena moringa que ali repousava. Voltou a sentar-se e esticou um dos braços, oferecendo o objeto à mulher. Ela não fez menção de aceitá-lo. Guzmán bebeu o líquido do outro copo de uma vez, recostou-se na cadeira e prosseguiu, ainda segurando entre os dedos o copo d'água recusado.

"Nós lutamos juntos, como você sabe. Os criollos e os índios, pela independência deste país. E eu fui amigo de muitos deles. Há três anos, eu estava entre os homens que reconquistaram Missões. O Presidente Rivera liderou a investida. Lutando ao meu lado estava o cacique Vaimaca Peru. A mim muito me orgulhava empunhar espada ao lado da lança de um guerreiro tão distinto, que desde muito tempo suava sangue para ver o país independente. Um homem que, como meu pai, fora soldado de Artigas. E como é de se esperar que aconteça eventualmente em tempos de guerra, esse homem me salvou a vida. Um mercenário irlandês, tipo muito comum no exército daqueles covardes, a mim me tinha encurralado. Eu havia sofrido um golpe de espada no quadril na semana anterior, e peleava debilitado. O cacique Vaimaca Peru achou uma boleadeira no chão, girou e enlaçou as pernas do mercenário. Eu só tive o trabalho de tirar-lhe a espada das mãos e transpassar-lhe o pescoço. O cacique me sorriu." Os olhos de Don Salvador perderam-se no horizonte da memória, e foi só após alguns segundos que conseguiu retomar seu relato. "Ele foi um de meus amigos mais próximos, entenda. Mas não morremos peleando, eu e ele. Nós sobrevivemos vencedores. E, hoje, eu desejo que tivéssemos morrido assassinados por um mosquete brasileiro, e nossa amizade fosse o legado deixado a nossas famílias."

A mulher resistia em seu protesto silencioso. Sua postura tornara-se gradativamente menos tensa, mas seus olhos não miravam os do coronel em momento algum. Seus gestos não denunciavam a atenção com que ouvia as palavras de Guzmán, nem sua boca produzia som que pudesse servir para interpretar aquela cena como um diálogo. Don Salvador, no entanto, não estava surpreso com a recepção ao seu conto. E prosseguia, inabalável. Certo, e temeroso, de que a indiferença da moça não resistiria aos acontecimentos que se poria a narrar em seguida.

"Se lhe conto isso, é para que compreendas as razões por que fui convocado ao gabinete presidencial naquele dia. Por cortesia e consideração a mim, o Presidente Rivera não sentia-se confortável em discutir assuntos relativos aos Charrua sem que eu estivesse a par de tudo. Perceba que isto não significa dizer que me era permitido parcela das decisões eventualmente tomadas. O Presidente convocou-me então a seu gabinete e explicou as muitas reclamações que vinha recebendo dos fazendeiros, amigos do governo, a respeito da insubordinação dos charrua, em atos que chamavam de desrespeito à sua propriedade privada. Rivera disse que não podia permitir que as invasões de terra continuassem, e que os índios já não serviam de nada ao país independente. Ao General Fructuoso Rivera, eu devo obediência e reverência, pois é meu superior e comandante. A Don Fructos foi apresentada uma oportunidade de fazer o que oito reis não haviam logrado, e ele decidiu que o faria. Disso me comunicou, e para isso me dispensou ordens."

Don Salvador respirou fundo. Percebeu que a respiração da índia acelerava-se. Sentiu as vísceras darem-lhe um nó gelado como a mão da morte. Forçou-se a prosseguir.

"Rumamos a Salsipuedes. O Presidente Rivera convidara a todos os Charruas para um grande churrasco de estreitamento de laços, certamente tu tivestes acesso a tal notícia. O que não sabes é que no local não se chegava a cavalo, o que obrigou os índios a desmontarem muito longe da mesa do banquete. Os oficiais presentes renderam suas armas aos militares que guardavam o lugar, e aos índios foi pedido que também o fizessem. Foi assim que, em meio à comida e à bebida, quase mil homens do nosso exército invadiram o lugar. Foi assim que mil homens massacraram quase duzentos índios desarmados e embriagados. E assim partiram, pelas paragens do nosso campo, a caçar os poucos que escaparam.". Don Salvador passava os dedos ao longo da borda do copo, ainda cheio d'água, que segurava para a mulher. O peito inflava e descomprimia a velocidade assustadora. "Nem todos foram assassinados. Rivera poupou Vaimaca Peru, Tacuabé e Guyunusa, que ele não sabia estar grávida, veja. O diretor do colégio onde estudam as filhas do Presidente, um tipo francês intragável, solicitou a Don Fructos quatro índios para levar à França. A serem objetos de estudo de suas ciências pagãs. Com esse propósito, os três foram reunidos a Senaqué, que havia sido preso há alguns meses, fato que eu desconhecia. Os quatro provavelmente cruzam o Atlântico neste momento, no porão de algum navio." Don Salvador assistia à índia inflar-se a cada ruidosa inspiração, mas não pareceu se abalar ao ouvir o nome do pai. Guzmán retesou os músculos, ansioso. "O cacique Vaimaca Peru, quando os soldados invadiram, levantou-se da mesa com um soco e olhou o Presidente nos olhos. 'Don Fructos! Matando a los amigos!?' Rivera baixou os olhos. Baixou os olhos. Meu comandante, o homem que nos libertou o país. Não se fez varão suficiente a encarar os olhos do homem que traíra. O cacique olhou para mim também. Exatos três anos depois de conquistarmos o povoado de Missões lado a lado. Exatos três anos após salvar-me a vida. Ele me olhou e não disse uma única palavra mais." A índia esticou as costas, ainda agarrada aos joelhos. Olhava à frente, postura perfeita. Don Salvador compreendeu que ela não planejava lhe atacar, ou fugir, ou confrontá-lo de nenhuma maneira. Tentou relaxar novamente os músculos, mas não conseguiu. Baixou os olhos e sua voz tornou-se fraca. "Seus olhos assombram-me todas as noites que passo em vigília. Aquele olhar mudo. Não consegui decifrar-lhe o pensamento naquele instante.". Ali, no solo de Salsipuedes, próximo ao chão que o sangue de seu pai manchara em Tacuarembó, o coronel desejou ter sido morto em batalha.

"Traidor.". Don Salvador levantou os olhos para a mulher. Ela repetiu. "Traidor.". O Coronel Salvador Guzmán levantou-se e deixou o quarto. Quando fechou a porta às suas costas, percebeu que ainda trazia o copo cheio d'água na mão esquerda. Não era uma opção aos varões daquele tempo o marejar dos olhos. O Coronel Guzmán, como alternativa, despedaçou o copo na parede mais próxima.

***

Em Paris, à margem da avenida Champs-Élysées, frente a uma cabine modesta, um jovem e já expoente pianista pagava seu ingresso e o da esposa de um grande amigo, que o acompanhava. Um homem grande, vestido de trapos e malcheiroso, anunciava ao público o preço da passagem para dentro da construção de madeira. "Antropófagos da Sulamérica!", gritava um cartaz em papel vagabundo fixado nos arcos que faziam as vezes de portal.

Frédéric Chopin e Cosette Pontmercy, que trazia pela mão, caminharam pela trilha pré-estabelecida. À sua volta, o espetáculo torpe se desenrolava. Anões giravam tochas acesas no ar, mulheres barbadas contavam piadas sujas e lambiam os beiços para a plateia. À medida que avançavam na direção do pátio central, mais apertavam-se em meio à pequena multidão que ali cercava uma jaula.

Os quatro Charruas se espremiam por dentro das barras de ferro. Alheios ao burburinho do público, os três homens amparavam a mulher, que entrava em trabalho de parto. Quando o pequeno antropófago cruzou a fronteira para a vida, chorou a plenos pulmões. Atrás do pianista uma mulher gorda ergueu os braços, apontando para a criança. Com os pêlos de seus sovacos a roçar a nuca do aturdido músico, espantou-se: "Mas choram iguais aos nossos!?"

***

Don Salvador não viveu a guerra civil que se instaurou no país que ajudara a tornar independente. Viveu enquanto pôde servir proteção à mulher que amava. Quando a agitação a respeito dos Charruas arrefeceu, e a meia-dúzia de remanescentes se viu livre da perseguição armada, o Coronel Salvador Guzmán morreu de febre. Não morreu em batalha, como um guerreiro, um dos títulos que se lhe podia atribuir. Mas como amante renegado. Morreu da dor de viver condenado ao ódio da única mulher que amou.