quinta-feira, 21 de junho de 2012

Nó em Garganta Seca

“Ó grandes oportunistas,
sobre o papel debruçados,
que calculais mundo e vida
em contos, doblas, cruzados,
que traçais vastas rubricas
e sinais entrelaçados,
com altas penas esguias
embebidas em pecados![...]”

(Cecília Meireles – Romance LXXXI ou Dos Ilustres Assassinos
In: Romanceiro da Inconfidência)

Meteu a mão nas costas de madeira da cadeira e puxou-a para trás sem delicadeza e sem levantá-la do chão. Os pés do móvel arrastaram na pedra do piso riscada pelos puxões sistemáticos ao longo dos anos. Posicionou o corpo à cabeceira da mesa, dobrou o tronco para que as mãos alcançassem mais uma vez a cadeira às suas costas. Puxou o assento refazendo o caminho dos riscos no chão. Repousou o corpo, apoiando os braços sobre a enorme barriga. Não percebeu, como de praxe, a careta da mulher em pé à porta da cozinha. A reprovação ao gesto só fora externada uma única vez naqueles anos de casamento. Recebida com uma resposta ríspida, não tornou a soar. Mas as caretas resistiam. O casal de adolescentes repetiu o procedimento do pai. Sentaram-se e apoiaram os cotovelos no tampo de madeira da mesa. O solavanco balançou a jarra de suco de caju que punha a mesa. A mãe fez outra careta.

Da cozinha veio a preta, de uniforme azul claro. A travessa quente nas mãos fazia uma trilha de fumaça, cheiro de arroz fresco no ar. A mulher branca, de cabelos antes negros, hoje louros, esperava em pé ao lado da porta. Coluna reta, braços cruzados. E principalmente olhos atentos, qualidades de todo bom supervisor. A negra voltou à cozinha. Trouxe, na viagem seguinte, a travessa de feijão. Pousou-a no centro da mesa, sobre uma pequena esteira, parte do jogo americano de bambu que regularmente adornava as refeições na casa. Mais uma vez a empregada caminhou de volta à cozinha. Desta vez, trouxe à mesa a atração principal. Na travessa, sete bifes de contrafilé, cada um cuidadosamente coberto por um ovo frito. Mal passado, como gostava o chefe da casa, que salivava, impaciente que era com as frescuras da esposa à sagrada hora da comida.

Foi só quando a negra retornou, de vez, à cozinha que a mulher se permitiu sentar à mesa e autorizar que todos se servissem. Escolheu não dar pelo fato do marido já ter arroz e feijão no prato, e a travessa de carne nas mãos. O homem posicionou os dois bifes estrategicamente no prato. Devolveu a travessa ao centro da mesa, tomou nas mãos o garfo e a faca. Prendeu o primeiro bife com o garfo na mão esquerda. Com a direita, fatiou a comida com destreza, abarcando generoso pedaço da clara do ovo junto com a carne. Foi no movimento de levar o alimento à boca que a porta cedeu. Abriu de um só solavanco e pelo batente irromperam homens de calças jeans, camisas pretas e escopetas e pistolas apontadas em todas as direções. Não que a família surpreendida pudesse contar àquela altura dos acontecimentos, mas os homens eram quinze. Aos gritos de “Parados!” e “Mãos na cabeça!”, espalharam-se pela casa num movimento coordenado. A mulher gritava. Os dois adolescentes perderam a cor das bochechas e seguiram as instruções. O pai, à cabeceira da mesa, com um generoso pedaço de carne com ovo pendurado no garfo levantado no ar. E a mulher gritava.

Recuperado do choque, o fazendeiro largou o garfo, espalmou as duas mãos no tampo da mesa, levantou-se com violência e rufou.

“O que significa isso?”

Um dos homens que o trazia na mira respondeu com voz firme, mas calma.

“Senta.”

O fazendeiro ergueu o braço com o dedo indicador em riste, os lábios separaram-se, mas o invasor foi mais rápido. Com dois passos contundentes à frente, encostou a pistola na testa do fazendeiro.

“Senta e cala a boca, caralho!”

A mulher tornou a gritar. O algoz dedicou-lhe um olhar. Não fosse suficiente, rugiu.

“Cala a porra dessa boca, sua vaca filha da puta!”

A mulher gritou ainda mais alto. Um sinal com a cabeça, e o invasor mais próximo à dama largou o braço esbofeteando-lhe a cara. O fazendeiro fez menção de reagir, mas seu algoz forçou o cano da arma contra a sua testa em advertência. Repetiu o comando.

"Senta."

O homem obedeceu.

Cessada a gritaria, estabelecida a ordem, ainda que a alto custo, o homem recolheu a pistola que trazia cravada na testa do anfitrião. Não seria necessária, visto que não era a única arma apontada naquela direção. Recuou até a porta arrombada, encostou o corpo no batente e chamou.

“Pode entrar, doutor! Tudo sob controle.”

À porta havia dois pequenos degraus, que o homem subiu sem pressa. Pelo batente passou um homem não muito alto, não muito magro, não muito gordo. Os cabelos negros ainda começando a perder cor e sucumbir à idade. A barba, cortada rente à pele já enveredara pela era grisalha há mais tempo. O terno grafite não denunciava as adversidades encontradas até ali. Impecável. A camisa branca não trazia marca de suor à vista, ainda que o sol castigasse sem trégua. Gravata vermelha. Nó Windsor. Assim que atravessou o batente e os sapatos de couro tocaram o piso de cerâmica da casa, cravou os olhos negros no fazendeiro, que o reconheceu, não sem algum esforço.

“Carvalho, é Carvalho Ruiz, né? Que porra é essa?”.

Carvalho virou-se para o chefe da operação.

“Tira a família daqui. Eles vão dormir no curral essa noite. O Oliveira fica pra conversar comigo.”.

O fazendeiro levantou a voz em protesto.

“Quem você pensa que é, seu filho da puta?! Que porra tá acontecendo aqui?!”

Carvalho caminhou os passos restantes que o separavam do homem à cabeceira da mesa. O homem tornou a falar.

“Caralho, Carvalho, eu exijo uma explicação agora!”

O homem de terno espalmou a mão no rosto do anfitrião, que dobrou o corpo e quase caiu da cadeira. Repetiu a ordem de tirar a família dali.

O fazendeiro sentia o sangue ferver à medida que a esposa e os dois filhos eram escoltados por cinco homens para fora da casa.

“Carvalho, que porra tá acontecendo aqui? Isso é inaceitável, é um absurdo!”

Carvalho tomou a cadeira que fora ocupada pelo filho do casal. Estilo rústico. Cara, como tudo que é propositadamente rústico deve ser. Sentou-se à direita do chefe da casa.

“Oliveira, quantos empregados você tem aqui nesta fazenda?”

“Eu não tenho que responder isso.”

“Você não entendeu. Isso aqui não é uma operação qualquer. Eu não estou aqui a trabalho, Oliveira. Eu me aposentei há três meses. Nenhum dos policiais está de uniforme. Se você não cooperar, o procedimento hoje é diferente. Então eu vou te dar uma segunda chance de responder a minha pergunta. Quantos empregados você tem aqui nesta fazenda?”

O fazendeiro recostou-se na cadeira, enfiou os dois polegares entre o cinto e calça. Olhou Carvalho no fundo dos olhos.

“Você tá blefando. Isso foi o que? Uma ameaça?”

“Um aviso justo.”

Carvalho olhou para um dos policiais. O homem puxou um canivete de um pequeno coldre no cinto, abriu a lâmina e cravou-a na coxa do fazendeiro. O anfitrião gritou. O policial girou a lâmina ainda dentro do músculo e puxou-a de volta. Enquanto o homem desfazia a pose para protestar a dor, Carvalho tomou um dos copos vazios sobre a mesa e serviu uma boa dose do suco de caju. Estendeu o copo no ar e apontou-o para cada um dos policiais. Todos recusaram a oferta com um sorriso e um aceno de cabeça. O fazendeiro não mais gritava. Encarava-o em silêncio. O ódio borbulhava por trás dos olhos e por dentro das veias. Carvalho recostou-se na cadeira.

“Agora que eu tenho a sua atenção, eu vou explicar a situação pra você pela última vez. Aqui hoje não tem ministério público. Não tem polícia. Tem vinte homens armados putos da vida com você.” – depois de um gole do suco, repetiu a pergunta – “Quantos empregados você tem nesta merda desta fazenda?”

“Poucos.” – respondeu entre dentes. – “Uns quinze, dezesseis.”

“E quantos estão acampados no córrego?”

“Que córrego?”

Carvalho esticou a mão na direção de um dos homens armados e recebeu uma pistola. Apontou-a para o joelho do fazendeiro e puxou o gatilho. O homem gritou de novo. Contorceu-se na cadeira enquanto apertava o joelho ferido com as duas mãos.

“Eu perguntei quantos são os homens que estão acampados na margem do córrego, aqueles que você explora, lembra? Que você faz comer carne podre e beber água do mesmo lugar onde o gado caga e eles lavam roupa. Que trabalham sem receber. Quantos são?” – Oliveira olhava seu algoz no fundo dos olhos, carcomido pelo ódio. – “São se faz de engraçadinho de novo que eu arrebento o outro joelho.”

Oliveira respirou fundo.

“Setenta e quatro.”

“Setenta e quatro” – repetiu o homem de terno. – “Eram setenta e seis, não?” – Oliveira acenou positivamente com a cabeça. – “O que aconteceu com os outros dois?”

“Tentaram me foder.”

“Então você fodeu com eles.” – o fazendeiro não respondeu. – “Cadê os corpos, Deputado?”

O fazendeiro não respondeu. Carvalho levantou-se e agarrou o homem pelo colarinho.

“Você vai mostrar pra gente onde estão os corpos, canalha. Vai andar, apoiado nesse joelho de merda, e vai mostrar pra gente onde você enfiou os trabalhadores.”

Ladeado por três homens armados, o fazendeiro tentou caminhar. Apoiou a mão no ombro de um dos homens, que a repeliu rapidamente. O homem foi ao chão.

“Não consigo.” – reclamou. Carvalho sorria.

“Consegue sim. Levanta.” – Carvalho fez o sinal com a cabeça. Um dos homens agarrou Oliveira pelos cabelos e puxou, até que o homem se pusesse de pé.

Cambaleou até a porta, mancando devagar. Apoiou-se no batente. Um dos homens bateu em sua mão com o cabo da arma. O fazendeiro voltou a cair, desta vez pelos degraus à porta da casa. Do chão, viu que os trabalhadores da fazenda, inclusive os que acampavam à beira do córrego, estavam em pé, em frente à casa, guardados por mais homens armados e assistiam à cena.

Sob o olhar atento de seus funcionários e suas vítimas, entre tentativas de caminhar, tombos e trechos engatinhando e se arrastando no chão de terra, Oliveira percorreu dois quilômetros até uma fossa. Os homens armados retiraram a tampa de concreto. Os dejetos dificultavam a visão. O fedor de merda e putrefação empesteava o ar. Carvalho chamou três capatazes da fazenda e mandou que tirassem os corpos dali. Mandou que lavassem os defuntos no chuveiro da suíte de Oliveira.

Quando os homens terminaram o serviço, Carvalho entregou aos três as chaves das duas caminhonetes do deputado, e algum dinheiro. Mandou que levassem todos os funcionários para a cidadezinha a cento e vinte quilômetros dali. Que se hospedassem na pensão.

“E os acampados?” – perguntou um dos capatazes.

“Eles ficam com a gente.”

Os homens deixaram a propriedade rapidamente. O homem de terno autorizou os acampados a ocupar as dependências da sede e das casas dos capatazes até que resolvessem uma maneira de transportá-los. Oliveira jazia no chão de terra, sem forças. Carvalho sacou a pistola e apontou na direção do fazendeiro. Depois apontou para a fossa.

“Entra aí.” – disse. O fazendeiro arregalou os olhos.

“Você só pode tá brincando.”

“Eu não vou repetir a ordem, Deputado.”

Como o homem não se movesse, Carvalho puxou o gatilho. O tiro entrou pela coxa do homem, que gritou e revirou-se no chão.

“Entra, Oliveira.”

O fazendeiro arrastou-se no chão aos prantos. À beira da cavidade, a ânsia de vômito atacou-lhe repetidas vezes. Mergulhou. Carvalho sorriu. Caminhou até a cavidade e olhou o fazendeiro nos olhos.

“Tampa esse babaca.”

***

O deputado Ignácio Oliveira acordou com a boca seca. Do sonho, a única memória que guardou foi o sentimento ruim que lhe inquietou o peito por todo o dia.