sábado, 22 de janeiro de 2011

Sobre Caninos e Outras Lendas Modernas

O ódio já comia as minhas veias. Esperava em silêncio pela gota d’água. A vagabunda começou a falar, em pé, no meio de uma floresta pálida. O filho da puta foi se aproximando devagar. A fala da vagabunda era infantil. Me irritava. “Você é incrivelmente rápido e forte.”, ela dizia. E o filho da puta ia se acercando. “Sua pele é branca, e gelada.”, ela continuava. E ele se aproximando com passos lentos, numa breguice de dar nojo. “Seus olhos mudam de cor.”. Ela não parava. “E às vezes você fala como se viesse de outra época.” Eu apertava os olhos de raiva. “Você nunca come ou bebe. Você não sai à luz do dia.” E o filho da puta, devagar devagarinho, chegava cada vez mais perto, aproximando-se por trás da vagabunda até parar às suas costas. “Quantos anos você tem?”. “Dezessete.”, ele responde sussurrado. “Há quanto tempo você tem dezessete anos?” pergunta a vagabunda de voz falsamente trêmula. “Há muito tempo” responde o filho da puta com aquele ar canastrão.

“Eu sei o que você é.”, a vagabunda diz em tom de revelação para retardados. O ar de canastrão volta ao filho da puta, “Diga... Em voz alta.” Viado!, pensaram ou disseram todas as pessoas com mais de dois neurônios pra queimar diante da horrorosa cena. “Vampiro.”, disse a vagabunda, contrariando a irônica expectativa geral. “Está com medo?” ele pergunta, galante. A vagabunda rodopia jogando o cabelo como se dançasse música brega nos cabarés de Belém e responde olhando o filho da puta nos olhos: “Não.” Eu já mal conseguia me conter quando o filho da puta puxou a vagabunda pelo braço por alguns metros, depois desistiu e pendurou-a nas costas. Em super-velocidade, ele a carregou montanha acima. No topo, onde uma pequena rajada de luz solar vencia a espessa crosta de copas de árvores, ele soltou a vagabunda no chão, postou-se debaixo do feixe de luz e desabotoou a camisa. A pele do filho da puta brilhava como se fosse recoberta por um pó de diamantes do qual até o cavaleiro de Andrômeda se envergonharia.

O insulto foi insuportável. Não me agüentei. Com a forte sensação de que ainda não havia presenciado o pior que aquele espetáculo tinha a oferecer, levantei-me da poltrona do cinema. Joguei o saco de pipoca e o copo de coca-cola na tela e saí, disparando todos os palavrões que o meu repertório foi capaz de armazenar. E, acredite, são muitos.

Já com os pés na rua, ainda me escapavam alguns “seu filho duma égua parideira da buceta cabeluda arrombada” e “seu resto de foda” e uns “caralho de asa”. O vento frio cortava as peles mais sensíveis. O ódio crescia quente na minha alma a ponto de ser perigoso. Na verdade crescia no meu peito. Alma mesmo eu não tenho. Um ódio impossível de conter. Ódio da raça humana inteira. Esquecido das minhas restrições e fobias, aproveitei a madrugada para aplacar minha ira.

Caminhei pelo deserto da noite. A cidade oferecia sua luz vacilante, como se esquecesse de iluminar alguns de seus lugares mais convidativos. Próximo a um dles, um terreno baldio, avistei a mulher andar apressada. Parecia ter medo de andar à noite na rua. Sozinha. Mal sabia o quanto tinha razão. Mas a razão não a ajudaria naquela noite.

Avancei em passos rápidos na sua direção, e mesmo que não fizesse barulho ao tocar o chão de concreto da calçada, por vezes fui obrigado e esconder meu corpo quando a presa voltava sua cabeça para os lados e, raras vezes, para trás. Quando ela passava em frente ao terreno, segurei-lhe pelos ombros e joguei seu corpo no meio do mato. Antes que ela pudesse compreender o que tinha acontecido, eu já estava montado sobre seu corpo estendido no chão. Tapei-lhe a boca com uma das mãos, que ela mordeu com força, mas não afastei um dedo. Abaixei meu rosto até o seu, colei meus lábios no seu ouvido e falei: “Vocês precisam aprender a nos respeitar.” Olhei-a nos olhos, franzi o cenho, e acendi minhas pupilas vermelhas. Deixei os caninos botarem à sua vista só pelo prazer de ver o pavor tomar conta das suas faculdades. Diverti-me com suas tentativas inúteis de morder minha mão com mais força e debater o corpo frágil. Quando cansei de seus esforços patéticos, cravei os dentes feito um animal na sua jugular e bebi o sangue, num frenesi do viciado que finalmente consegue mais uma dose. Quando terminei, com um único golpe quebrei-lhe o pescoço. Limpei o sangue me que escorria pelo queixo num pedaço da sua camisa, que queimei com o isqueiro do meu bolso. Lamentei o fato da mulher não ser a mãe do diretor do maldito filme e voltei para casa, sem vontade de usar o resto da noite para nada.

***

Idiota. É isso que eu sou. Um idiota. Quando abri os olhos, no pôr-do-sol, a ressaca moral me atormentava. Não devia ter feito nada daquilo. Imbecil. Não deveria beber a merda do sangue, mas quando se é um monstro maldito, às vezes é difícil conter a besta dentro de você.

Levantei da cama, acolhido pela completa escuridão do quarto. Desliguei o aparelho de ar condicionado. Afastei de leve as pesadas cortinas que cobriam a janela e abri as venezianas de ferro. Inspirei fundo o ar noturno, mas isso também não me acalmou. Tirei a cueca que me cobria as partes pudentas e enfiei-a no cesto de roupas-sujas. Mas a cena do descontrole na noite anterior teimava em se repetir na minha cabeça durante o banho. A essa hora o leitor menos atento já percebeu, mesmo sem um momento catártico de revelação, que o seu narrador é um maldito vampiro. E pergunta-se intrigado se vampiros tomam banho e dormem em camas. Bom, a verdade nua e crua é que há tantos vampiros desinteressados da higiene pessoal quanto há humanos. Há os mais selvagens, que se enfiam em florestas, outros em esgotos. O fato é que a simples condição de ser um amaldiçoado não te obriga a ser um rato. Eu mesmo sou da turma dos civilizados. Já completei meus trezentos e quarenta e sete anos, e sou um apaixonado pela era moderna e suas possibilidades. Mais uma coisa. Também não mordo pescoço de homem. Não sou viado. Nem todo vampiro é, que fique claro.

Vesti uma calça jeans e uma camisa sem escolher muito. O ronco do carro deixando a garagem do prédio não me distraia a cabeça. Lembrei dos olhos da mulher. Devia ter quebrado logo a porra do pescoço. Idiota. Não era pra beber o sangue. Parei o carro no estacionamento de outro prédio. Passei meu cartão-chave no dispositivo ao lado da porta e entrei o cubículo de acesso aos elevadores. Nono andar. Entrei e cumprimentei o segurança. Sim, eu trabalho. Tenho emprego fixo. Mas isso não chega a ser uma questão de ser civilizado. Tem mais a ver com neuroses.

Acontece que tanto quanto o sangue, a classe vampírica é chegada numa lenda e numa fofoca. Coisa de gente desocupada. Dois ou três séculos nesse mundo, e você também se encheria de tédio e começaria a inventar histórias e cuidar da vida dos outros, acredite. Ok, o que é fato é que há vampiros que se foderam por aí porque beberam o sangue de alcoólatras, ou bêbados, e ficaram viciados. Não suportaram mais o sangue limpo, e só podem beber o batizado. É degradante. Apresentem os sintomas. E um vampiro alcoólatra não é uma criatura mais agradável que um humano. Bem pelo contrário. O mesmo já aconteceu com viciados em heroína, cocaína e outras coisas desse tipo. A lenda nessa história é que algumas doenças causam o mesmo efeito. E o meu cagaço é morder um aidético. Cagaço mesmo. Tenho mais medo dessa porra que de água benta.

Hoje essa é a razão para eu trabalhar. Quando a epidemia da AIDS se espalhou, parei de morder gente. Tentei viver de sangue de animais por um tempo, mas a degradação foi insuportável. Tentei muita coisa, mas a melhor estratégia foi pagar prostitutas para beber-lhes o sangue da menstruação. Fiz isso durante muito tempo. Acredite, não chegou nem perto de ser o pedido mais estranho que a maioria delas já ouviu. E as prostitutas são o lugar mais seguro nessas ocasiões. Ninguém se cuida mais que elas nesse sentido. Bem, que a maior parte delas, mas essa é uma distinção fácil de se fazer.

Não dava pra viver assim, no entanto. Essas moças não costumam trabalhar na época do mês que mais me interessava. Eu tinha que criar vínculos, virar cliente fiel pra conseguir driblar os rodízios, as folgas. O sistema funcionou até que eu terminasse a faculdade que comecei como primeiro passo do meu plano genial, hoje já em prática. Sou o responsável por analisar e catalogar as amostras de sangue, pra um laboratório do banco de sangue. Turno da noite. O sangue cai na minha mão e eu testo. E decido se vai ser catalogado no banco de dados, ou se vai virar o meu jantar. Plano perfeito. Funciona bastante bem, só que os vampiros não vivem só do alimento. Nós somos monstros, sádicos por natureza, por instinto. E às vezes as coisas saem do controle. Não devia ter mordido aquela mulher. Não pensei em nada. Arrisquei.

E percebi a seriedade da situação quando o segurança do laboratório me devolveu o cumprimento. “Viu, doutor, mataram a filha daquela atriz da novela.” A televisão para que o homem apontava exibia uma foto da moça que eu matei. A voz do repórter, em off, decretava a sentença. “... ataque brutal, aparentemente por algum animal ainda não-identificado, já que não há sinais de violência sexual. Roberta lutava contra o vírus HIV há cerca de dois anos.” Você já viu um vampiro de sangue gelado?