segunda-feira, 7 de março de 2011

Nossa Senhora de Copacabana

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/05/nossa-senhora-de-copacabana.html

O carro acelerou na sua direção. No meio da pista, intensificou o movimento de chegar ao outro lado da avenida. Até isso pode ser perigoso pro seu tipo de gente. Apertou o passo em direção à calçada. O carro mudou de faixa. Só podia ser sacanagem. O cara ia parti-la no meio com aquela brincadeira. O coração já disparado. Emendou dois ou três passos em ritmo de corrida. O carro acompanhou o movimento. Subiu no meio-fio a tempo. O carro passa zunindo. Quase lhe arranca a perna. Virou-se na direção do sedan vermelho e esticou o dedo médio no ar. “Filho da puta!”.

Algumas pessoas no bar a olhavam. Algumas ainda faziam cara de choque com a violência gratuita. A maioria não parecia impressionada. Ajeitou o longo cabelo negro, endireitou a coluna sobre o salto e empinou o nariz. Olhou por alguns segundos para a praia escura do outro lado da rua. Pé ante pé, forçando uma elegância que seus dezenove anos não possuíam, atravessou a fachada do bar. Não dava trela praquela gente dali. Cambada de esnobes do caralho. Subiu a Avenida Atlântica, em direção aos pontos menos movimentados, onde as regras daquelas esnobes não se aplicam. Onde qualquer um pode ser quem quiser, sem ninguém ligar pra quantos anos você tem. Essas desgraçadas não dividem o espaço com as menores porque sabem que perderiam os clientes. É por isso. Ética era o cú delas. Ela sabia que no fim do dia, o que conta é a grana.

Caminhou até depois do Palace. Assim que atravessou a Siqueira Campos, avistou quem era do seu interesse. As três não estavam em frente aos bares que se esticam por parte da calçada. Por política da boa vizinhança a força. Jéssica estava sentada sobre o capô de um Vectra. À sua volta, Nicole e Aya conversavam num tom alto. Não viu Suzan nem Paola. Aproximou-se das três companheiras decidida a não contar sobre o carro que lhe ameaçara. Mas assim que Jéssica a recebeu com um “Porra, Kimberly... Demorou pra caralho, hein!”, chorou e contou o que lhe sucedera.

Kimberly fungou, cortou o choro e secou os olhos antes de borrar a maquiagem barata. Um tanto envergonhada da própria fragilidade, restabeleceu a ordem. “Cadê as outras duas peruas?”. Com clientes, responderam as três. Aya completou a informação. “A Suzan tá com aquele neguinho bonitinho que vem aqui direto. A Paola saiu com um bacana num carrão, disse que ia levar ela prum motel na Barra.” Kimberly aquiesceu. “Vocês anotaram a placa do carro?”. Ninguém respondeu. “Não, né!? Porra, vocês são foda! Já falei pra não dar mole com essas coisas, cacete! Tá cheio de safado aí querendo sacanear a gente... Puta merda... Alguém lembra pelo menos a marca do carro?”. Dessa vez a resposta foram três cabeças em movimento de negativa. “Puta que pariu... Vocês são de fuder...”.

***

A noite avançava. Um homem se aproximou do grupo. Kimberly apresentou-se a recebê-lo. Na casa dos trinta, o homem trajava calça jeans e uma camisa social azul, com a manga dobrada até o cotovelo. Uma pequena mochila nas costas. Um tanto acima do peso ideal, foi a avaliação unânime das moças. Kimberly aproximou-se devagar. O homem hesitou. Ela pegou-lhe a mão e pousou sobre o próprio seio. Passou o braço pela cintura e puxou o corpo do gordinho contra o seu. Desceu a mão até a bunda do sujeito. Num movimento rápido, puxou as notas de dinheiro que sentiu no bolso da calça. O homem não pareceu perceber o movimento, ocupado que estava em firmar os dedos no seio jovem que guardava na mão. Kimberly escorregou a outra mão até a virilha do cliente. Ele repetiu o gesto, pousando a sua mão pesada entre as pernas da jovem. Sentiu o volume que o short curto guardava. Acariciou-o, apertou de leve. Sentiu enrijecer. Pousou os lábios no ouvido de Kimberly e perguntou quanto ela cobrava. Ela respondeu que cinqüenta paus o programa completo. “Porra, não tenho isso tudo. Não dá pra fazer por vinte?”. Kimberly, com um movimento rápido, arrancou a mão do homem de seu sexo. “Dá não.”. Virou as costas e voltou para junto das amigas.

O homem levou a mão ao bolso de trás. Sentiu que algo faltava. “Devolve meu dinheiro.”. Kimberly olhou-o com uma das sobrancelhas em pé. “Devolve a porra do meu dinheiro, se não eu chamo a polícia.”. Nicole sussurrou “Acho que é melhor tú devolver.”. Kimberly sacou as notas de dentro do decote. Duas notas de dez. Botou na cara uma expressão de asco, pegou uma das notas e jogou no chão. “Toma. Pega.”. O homem abaixou-se, tomou a nota nas mãos e guardou no mesmo bolso. “Me devolve a outra também.”. Kimberly fungou discretamente. Guardou o catarro espalhado sobre a língua. Andou em passos lentos. O homem não se mexeu, mas os olhos estavam inquietos, mais abertos que o normal. A moça prendeu as bochechas do sujeito entre os dedos, forçando-o ao ridículo de um bico. Aproximou seu rosto do dele e falou em tom duro, sem o esforço habitual de suavizar a voz masculina. “Se você acha que eu vou ficar me roçando em maricona gorda por nada, você tá muito enganado. Maricona gorda que gosta de pau. Se quiser, chama a polícia, mas eu não roço em viado de graça. Seu lixo.”. Cuspiu o catarro no meio dos olhos do homem. Deu meia-volta e sentou-se no capô do carro ao lado de Jéssica, olhando com escárnio para o gordinho. Ele cambaleou, incerto de como proceder. Olhou nos olhos de Kimberly. E de cada uma das outras. Ameaçou falar, mas os lábios não responderam ao comando. Por fim, aceitou a derrota, cravou os olhos nos próprios sapatos e andou. Não sabia bem para onde, mas sabia que para longe daquela puta dos infernos.

Um Gol branco parou na esquina da Siqueira Campos. Suzan desceu, fechou a porta às suas costas e juntou-se ao grupo a tempo de ouvir as outras comemorarem a vitória e lamentarem o lucro tão baixo de apenas dez reais. Baixada a euforia, Kimberly olhou por cima dos ombros em todas as direções. “Onde diabos será que tá a Paola?”.

***

O Fusion parou na mesma esquina da Siqueira Campos. Quando o sinal abriu, contornou o grupo pela Atlântica devagar. As moças apertavam os olhos, mas os vidros escuros impediam que vissem dentro do carro. Ainda devagar, o carro entrou na rua seguinte, sem deixar o quarteirão. Parou ainda na esquina. O vidro baixou. A buzina soou rapidamente num toque único. A mão do motorista fazia sinal para que uma delas se aproximasse. Kimberly desceu do capô e caminhou. Não muito devagar, mas sem pressa.

Deu a volta no carro e parou ao lado da janela do motorista, um coroa que achou bonitão. “Boa noite.”. “Boa noite.”, ela respondeu. O homem precisou de alguns segundos para começar a falar. “Quanto é pelo oral?”. Kimberly respondeu que eram trinta reais. “E se for pra eu fazer em você?”. Kimberly sorriu. “Deixo por vinte e cinco.”. “Ok. Mas sem camisinha.”. “Fechado.”, ela respondeu ameaçando dar a volta para entrar no carro. O homem não deixou que ela se movesse. “Não. Pode ser por aqui mesmo.”. A moça desabotoou e baixou o short. Deu um passo à frente, encostando as coxas à porta do carro, e enfiou o pau para dentro da cabine. O homem pegou o membro com as duas mãos, beijou-lhe a base, apoiou a cabeça na própria língua e pôs os lábios em volta. Sugou.

Kimberly precisou de dez minutos para gozar. O cara engoliu tudo. Limpou as bordas da boca com as costas da mão enquanto a moça guardava o pacote de volta no short. Quando estendeu a mão pelo pagamento, o homem já virava a chave do carro na ignição. “Hoje você trabalhou de graça, garoto.”. Kimberly jogou o corpo para dentro do carro pela janela e agarrou o par de óculos escuros que estavam no console, e os trouxe nas mãos quando o automóvel arrancou e seu corpo foi ao asfalto. O homem parou e desceu do carro. Uma nove milímetros na mão. “Garoto é o seu cú, seu viado filho da puta. Me dá o meu dinheiro.”. O sujeito apontou a arma na direção de Kimberly. “Não brinca comigo que eu te mato, moleque. Me devolve logo essa merda e tú não se machuca.”. A moça não fez menção de devolver os óculos. As outras, ao terem a atenção chamada pela cena, correram na direção de Kimberly. O homem apontou a arma para elas e gritou que não avançassem mais. Depois voltou a arma pra a direção da puta que chupara. Não tinha mais a intenção de atirar, com tantas delas ali. Enfiou a mão livre no bolso da calça e sacou o celular. Polícia. Atlântica com a Figueiredo Magalhães. Confusão com as meninas da noite. “Agora vocês tão fudidas. Acho melhor me devolver logo essa porra desse óculos, e eu deixo vocês irem nessa antes da polícia chegar.”. Kimberly olhava fundo nos olhos do homem. E ele entendia perfeitamente que ela o estava mandando tomar no cú. “Porra de quadrilha de travequinhos do caralho.”

***

A viatura parou na calçada da Atlântica. Os dois policiais desceram rapidamente do carro e mandaram que o homem baixasse a arma. “Elas vão fugir, porra.”. “Cidadão, eu não quero ter que repetir a ordem.” E virando-se para Kimberly, “Se você correr, eu mesmo te pipoco.”. O homem baixou a arma. Um dos policias manteve posição, às costas da moça. O outro caminhou até o homem e perguntou que porra era aquela. “Vim aqui pegar uma garota, aí me entra no carro essa porra aí. Quando vi que não era mulher, mandei descer do carro.” Kimberly gritava que era mentira, mas o policial só fez um gesto com uma das mãos. Significava para ela calar a merda da boca antes que ele se irritasse. O homem continuou, “Ele pegou o meu óculos, tentou me roubar. Eu tenho licença pra arma, só tava me defendendo.”. O policial tomou a nove milímetros nas mãos. “Me mostra a identidade e a licença da arma.”. O homem andou até o carro e voltou com os documentos em mãos. A identidade vinha encapada em couro vermelho, com o Brasão da República embutido. Foi o que entregou primeiro.

“O senhor sabe que a licença não é pra arma automática, né doutor?”. Kimberly se desesperou. “Doutor!? Tú vai acreditar nele, vai me fuder!?”. O policial olhou mais uma vez para a moça e disse, pausadamente e em tom duro, “Não falei com você ainda, então cala esta merda desta boca.”. Kimberly parou de falar, mas agitava o corpo impaciente, indignada. O policial devolveu os documentos do homem. Caminhou até a moça e esticou a mão espalmada em sua direção. “Devolve o óculos do homem.”. “Mas é mentira dele, ele me chupou e não quis pagar. Peguei essa merda, porque é o meu direito, o cara não quis me pagar!”. O policial respirou fundo por três segundos. Olhou Kimberly nos olhos e deitou a mão em sua cara, estalando um sonoro tapa. As outras moças ameaçaram avançar, mas o outro policial sacou a arma e apontou-lhes. “Não perguntei nada. Mandei devolver o óculos.”. A moça não se moveu. O policial não hesitou. Agarrou Kimberly pelo braço e girou-o. O estalo foi quase tão alto quanto o tapa. A moça foi ao chão. Gritava. O policial tirou os óculos das suas mãos e devolveu ao homem. “Vai pra casa, doutor, tá tudo certo.”

Quando o carro arrancou, o policial voltou-se para Kimberly, que ainda se contorcia no chão. “A próxima vez que eu pegar você e a sua quadrilha de sacanagem por aqui, eu vou fazer igual os parceiros da Quinta da Boa Vista mês passado, que passaram metralhando os travecos na calçada. Tá ouvindo? Porra.”. Virou-se para o restante das moças. “Tira uma voluntária de vocês aí pra liberar uma de graça pra mim e pro meu parceiro. Cadê aquela mais escurinha? Paola?... Não sabem, né... Deve tá fazendo merda, pra variar. Tem problema não, decidem aí entre vocês mesmo quem que vai pro sacrifício. E é pra hoje.”

***

No dia seguinte, os jornais, como de hábito, traziam notícias. Encontraram um corpo nas pedras, abaixo da Avenida Niemeyer, na altura da favela do Vidigal. Um travesti identificado pela polícia como Paulo Henrique de Oliveira, mas a notícia só trazia sua idade. Dezesseis. A polícia acredita que tenha sido empurrado pela ribanceira à beira da rodovia por algum cliente com quem tenha brigado. É o segundo caso de travesti morto nas mesmas circunstâncias este ano. A taxa de criminalidade na área, no entanto, vem caindo vertiginosamente desde que as UPPs foram instaladas.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Sobre Caninos e Outras Lendas Modernas

O ódio já comia as minhas veias. Esperava em silêncio pela gota d’água. A vagabunda começou a falar, em pé, no meio de uma floresta pálida. O filho da puta foi se aproximando devagar. A fala da vagabunda era infantil. Me irritava. “Você é incrivelmente rápido e forte.”, ela dizia. E o filho da puta ia se acercando. “Sua pele é branca, e gelada.”, ela continuava. E ele se aproximando com passos lentos, numa breguice de dar nojo. “Seus olhos mudam de cor.”. Ela não parava. “E às vezes você fala como se viesse de outra época.” Eu apertava os olhos de raiva. “Você nunca come ou bebe. Você não sai à luz do dia.” E o filho da puta, devagar devagarinho, chegava cada vez mais perto, aproximando-se por trás da vagabunda até parar às suas costas. “Quantos anos você tem?”. “Dezessete.”, ele responde sussurrado. “Há quanto tempo você tem dezessete anos?” pergunta a vagabunda de voz falsamente trêmula. “Há muito tempo” responde o filho da puta com aquele ar canastrão.

“Eu sei o que você é.”, a vagabunda diz em tom de revelação para retardados. O ar de canastrão volta ao filho da puta, “Diga... Em voz alta.” Viado!, pensaram ou disseram todas as pessoas com mais de dois neurônios pra queimar diante da horrorosa cena. “Vampiro.”, disse a vagabunda, contrariando a irônica expectativa geral. “Está com medo?” ele pergunta, galante. A vagabunda rodopia jogando o cabelo como se dançasse música brega nos cabarés de Belém e responde olhando o filho da puta nos olhos: “Não.” Eu já mal conseguia me conter quando o filho da puta puxou a vagabunda pelo braço por alguns metros, depois desistiu e pendurou-a nas costas. Em super-velocidade, ele a carregou montanha acima. No topo, onde uma pequena rajada de luz solar vencia a espessa crosta de copas de árvores, ele soltou a vagabunda no chão, postou-se debaixo do feixe de luz e desabotoou a camisa. A pele do filho da puta brilhava como se fosse recoberta por um pó de diamantes do qual até o cavaleiro de Andrômeda se envergonharia.

O insulto foi insuportável. Não me agüentei. Com a forte sensação de que ainda não havia presenciado o pior que aquele espetáculo tinha a oferecer, levantei-me da poltrona do cinema. Joguei o saco de pipoca e o copo de coca-cola na tela e saí, disparando todos os palavrões que o meu repertório foi capaz de armazenar. E, acredite, são muitos.

Já com os pés na rua, ainda me escapavam alguns “seu filho duma égua parideira da buceta cabeluda arrombada” e “seu resto de foda” e uns “caralho de asa”. O vento frio cortava as peles mais sensíveis. O ódio crescia quente na minha alma a ponto de ser perigoso. Na verdade crescia no meu peito. Alma mesmo eu não tenho. Um ódio impossível de conter. Ódio da raça humana inteira. Esquecido das minhas restrições e fobias, aproveitei a madrugada para aplacar minha ira.

Caminhei pelo deserto da noite. A cidade oferecia sua luz vacilante, como se esquecesse de iluminar alguns de seus lugares mais convidativos. Próximo a um dles, um terreno baldio, avistei a mulher andar apressada. Parecia ter medo de andar à noite na rua. Sozinha. Mal sabia o quanto tinha razão. Mas a razão não a ajudaria naquela noite.

Avancei em passos rápidos na sua direção, e mesmo que não fizesse barulho ao tocar o chão de concreto da calçada, por vezes fui obrigado e esconder meu corpo quando a presa voltava sua cabeça para os lados e, raras vezes, para trás. Quando ela passava em frente ao terreno, segurei-lhe pelos ombros e joguei seu corpo no meio do mato. Antes que ela pudesse compreender o que tinha acontecido, eu já estava montado sobre seu corpo estendido no chão. Tapei-lhe a boca com uma das mãos, que ela mordeu com força, mas não afastei um dedo. Abaixei meu rosto até o seu, colei meus lábios no seu ouvido e falei: “Vocês precisam aprender a nos respeitar.” Olhei-a nos olhos, franzi o cenho, e acendi minhas pupilas vermelhas. Deixei os caninos botarem à sua vista só pelo prazer de ver o pavor tomar conta das suas faculdades. Diverti-me com suas tentativas inúteis de morder minha mão com mais força e debater o corpo frágil. Quando cansei de seus esforços patéticos, cravei os dentes feito um animal na sua jugular e bebi o sangue, num frenesi do viciado que finalmente consegue mais uma dose. Quando terminei, com um único golpe quebrei-lhe o pescoço. Limpei o sangue me que escorria pelo queixo num pedaço da sua camisa, que queimei com o isqueiro do meu bolso. Lamentei o fato da mulher não ser a mãe do diretor do maldito filme e voltei para casa, sem vontade de usar o resto da noite para nada.

***

Idiota. É isso que eu sou. Um idiota. Quando abri os olhos, no pôr-do-sol, a ressaca moral me atormentava. Não devia ter feito nada daquilo. Imbecil. Não deveria beber a merda do sangue, mas quando se é um monstro maldito, às vezes é difícil conter a besta dentro de você.

Levantei da cama, acolhido pela completa escuridão do quarto. Desliguei o aparelho de ar condicionado. Afastei de leve as pesadas cortinas que cobriam a janela e abri as venezianas de ferro. Inspirei fundo o ar noturno, mas isso também não me acalmou. Tirei a cueca que me cobria as partes pudentas e enfiei-a no cesto de roupas-sujas. Mas a cena do descontrole na noite anterior teimava em se repetir na minha cabeça durante o banho. A essa hora o leitor menos atento já percebeu, mesmo sem um momento catártico de revelação, que o seu narrador é um maldito vampiro. E pergunta-se intrigado se vampiros tomam banho e dormem em camas. Bom, a verdade nua e crua é que há tantos vampiros desinteressados da higiene pessoal quanto há humanos. Há os mais selvagens, que se enfiam em florestas, outros em esgotos. O fato é que a simples condição de ser um amaldiçoado não te obriga a ser um rato. Eu mesmo sou da turma dos civilizados. Já completei meus trezentos e quarenta e sete anos, e sou um apaixonado pela era moderna e suas possibilidades. Mais uma coisa. Também não mordo pescoço de homem. Não sou viado. Nem todo vampiro é, que fique claro.

Vesti uma calça jeans e uma camisa sem escolher muito. O ronco do carro deixando a garagem do prédio não me distraia a cabeça. Lembrei dos olhos da mulher. Devia ter quebrado logo a porra do pescoço. Idiota. Não era pra beber o sangue. Parei o carro no estacionamento de outro prédio. Passei meu cartão-chave no dispositivo ao lado da porta e entrei o cubículo de acesso aos elevadores. Nono andar. Entrei e cumprimentei o segurança. Sim, eu trabalho. Tenho emprego fixo. Mas isso não chega a ser uma questão de ser civilizado. Tem mais a ver com neuroses.

Acontece que tanto quanto o sangue, a classe vampírica é chegada numa lenda e numa fofoca. Coisa de gente desocupada. Dois ou três séculos nesse mundo, e você também se encheria de tédio e começaria a inventar histórias e cuidar da vida dos outros, acredite. Ok, o que é fato é que há vampiros que se foderam por aí porque beberam o sangue de alcoólatras, ou bêbados, e ficaram viciados. Não suportaram mais o sangue limpo, e só podem beber o batizado. É degradante. Apresentem os sintomas. E um vampiro alcoólatra não é uma criatura mais agradável que um humano. Bem pelo contrário. O mesmo já aconteceu com viciados em heroína, cocaína e outras coisas desse tipo. A lenda nessa história é que algumas doenças causam o mesmo efeito. E o meu cagaço é morder um aidético. Cagaço mesmo. Tenho mais medo dessa porra que de água benta.

Hoje essa é a razão para eu trabalhar. Quando a epidemia da AIDS se espalhou, parei de morder gente. Tentei viver de sangue de animais por um tempo, mas a degradação foi insuportável. Tentei muita coisa, mas a melhor estratégia foi pagar prostitutas para beber-lhes o sangue da menstruação. Fiz isso durante muito tempo. Acredite, não chegou nem perto de ser o pedido mais estranho que a maioria delas já ouviu. E as prostitutas são o lugar mais seguro nessas ocasiões. Ninguém se cuida mais que elas nesse sentido. Bem, que a maior parte delas, mas essa é uma distinção fácil de se fazer.

Não dava pra viver assim, no entanto. Essas moças não costumam trabalhar na época do mês que mais me interessava. Eu tinha que criar vínculos, virar cliente fiel pra conseguir driblar os rodízios, as folgas. O sistema funcionou até que eu terminasse a faculdade que comecei como primeiro passo do meu plano genial, hoje já em prática. Sou o responsável por analisar e catalogar as amostras de sangue, pra um laboratório do banco de sangue. Turno da noite. O sangue cai na minha mão e eu testo. E decido se vai ser catalogado no banco de dados, ou se vai virar o meu jantar. Plano perfeito. Funciona bastante bem, só que os vampiros não vivem só do alimento. Nós somos monstros, sádicos por natureza, por instinto. E às vezes as coisas saem do controle. Não devia ter mordido aquela mulher. Não pensei em nada. Arrisquei.

E percebi a seriedade da situação quando o segurança do laboratório me devolveu o cumprimento. “Viu, doutor, mataram a filha daquela atriz da novela.” A televisão para que o homem apontava exibia uma foto da moça que eu matei. A voz do repórter, em off, decretava a sentença. “... ataque brutal, aparentemente por algum animal ainda não-identificado, já que não há sinais de violência sexual. Roberta lutava contra o vírus HIV há cerca de dois anos.” Você já viu um vampiro de sangue gelado?