segunda-feira, 20 de setembro de 2010

De Martelos e Feiticeiras

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/10/de-martelos-e-feiticeiras.html

"¡Qué otra cosa es una mujer, sino un enemigo de la amistad, un castigo inevitable, un mal necesario, una tentación natural, una calamidad deseable, un peligro doméstico, un deleitable detrimento, un mal de la naturaleza pintado com alegres colores!"
- Malleus Maleficarum


As frestas na madeira eram generosas. Permitiam a visualização quase perfeita do espetáculo torpe. A ruiva, ajoelhada sobre a cama, baixou lentamente a alça direita do vestido. A mulher loura, com olhos injetados de luxúria, ergueu o galão de vinho tinto e derramou a bebida sobre colo da outra. Dobrou o corpo, provocativa, e lambeu o seio desnudo. Começou circulando a língua pelo bico rosado e enrijecido. Logo já guardava quase por completo a protuberância de carne dentro da boca. A ruiva pendeu a cabeça para trás e gemeu forte olhando para o teto da casa. O ferreiro assistia à cena de pé, ao lado da cama, com a mão enfiada dentro das calças.

Enquanto esticava o pescoço na análise daquele absurdo, o monge sentiu seu rígido efeito lhe consumir a virilha. Os dedos dos pés formigavam, pressionados contra o couro da sandália pelo peso do corpo. O toco de árvore onde subira o clérigo começava a estalar sob seus pés esticados. Mas os olhos agarravam-se à cena que acontecia do outro lado da parede.

As duas mulheres despiam-se num contundente frenesi. O ferreiro tirou a camisa e aproximou-se do leito, enquanto as duas valquírias, já nuas em pêlo, lhe abriam as calças por entre lambidas longas no seu torso. O monge soltou uma das mãos que seguravam as pedras da parede e pousou sobre sua virilidade latejante. Forçou o corpo o quanto pode para não perder o acesso à construção de madeira que ligava a parede ao telhado.

As frestas continuavam generosas, e o espetáculo inescrupuloso continuava solto. Uma tira de couro da sandália do monge arrebentou. Seu pé perdeu a firmeza, e o religioso perdeu o apoio. No desequilíbrio, seu corpo tombou do generoso toco de árvore e foi ao chão com um baque seco. Atordoado com a possibilidade de ser descoberto, naqueles infelizes momentos em que o desespero nos drena a razão dos atos, o monge correu. Correu, a cegos tropeços, para o lado mais burro. Correu para a frente da casa.

Ao cruzar a porta, arregalou os olhos diante da besteira que fizera. A folha de madeira descolou-se dos umbrais, seguida de um feminino grito abafado de “Meu Deus, o monge Kraemer!”. O clérigo, em um súbito ataque de dignidade, endireitou a postura e encarou-os nos olhos. O ferreiro e a mulher loura transpiravam vergonha e submissão. Com as mãos e os braços, cobriam pateticamente pedaços dos corpos despidos e fitavam os pés do monge. Kraemer já sentia-se com a dignidade restaurada e empinava o nariz para passar o sermão mais duro que conseguia formular. Quando seus olhos cruzaram com os da mulher ruiva. Confortavelmente nua, não tentava cobrir o corpo. Os olhos, vidrados na insistente rigidez que saltava o hábito na altura do púbis sagrado do religioso, subiram e fitaram insolentes os olhos de Kraemer. Provocativa, escolheu com cuidado as palavras pelo movimento que elas lhe exigiam dos lábios vermelhos. “O padre quer participar?”. E inclinou de leve a cabeça em direção ao interior da casa, reforçando o convite.

O monge sentiu as pernas falharem. A luxúria invadiu-lhe os pensamentos e por alguns momentos ensaiou um passo à frente, na direção daquela mulher. Mas aqueles olhos lhe metiam medo. O verde profundo daquele olhar libidinoso lhe gelava as tripas e dava um nó. As pernas bambeavam. E a rigidez do membro perdeu-se num instante. A trombeta do arcanjo Gabriel que trazia no meio das pernas adormeceu na flacidez do abandono. Kraemer separou os lábios, mas as palavras faltaram. O controle sobre seu corpo e suas convicções fora abalado. Esteve a um passo do abismo de se ver controlado pelo irracional desejo e seu objeto. A visão turvou. Estava enojado com os próprios pensamentos. Empinou novamente o nariz e pôs-se a andar, com passos nervosos de quem combate a vontade de correr. Não decidira para onde ir, andava para longe daquela gente, para longe daquele ultraje.

A luz quase nenhuma das lamparinas de azeite espalhadas pelos alpendres do vilarejo era suficiente para distinguir o caminho. E foi suficiente para o monge reconhecer a casa do ferreiro e, em anexo, o cômodo onde o homem trabalhava. Kraemer forçou a porta de madeira, que cedeu com surpreendente facilidade. Arrastando as sandálias pelo chão de terra batida, o monge tomou nas mãos o pesado martelo de forja que repousava sobre a mesa. Tomando o cuidado de fechar a porta atrás de si, voltou para a casa da mulher ruiva por um caminho diferente. Escondeu-se no breu entre algumas árvores e esperou.

Não se passaram mais de dez minutos e o ferreiro e a mulher loura deixaram a casa num ar de flagrante desconforto. Cada um tomou seu rumo e, na escuridão da noite, rapidamente saíram de vista. O monge esperou ainda mais dez minutos antes de deixar seu posto. Com o andar forte, mas calmo e seguro. Parou defronte a porta da casa e tocou a maçaneta. Estava trancada. Posicionou o corpo com o martelo em punho e golpeou a tranca. A porta abriu-se em meio ao estrondo. Kraemer entrou. A mulher estava parada no meio da sala, em pé, olhando assustada para o monge dominicano que lhe invadia a casa com um gigantesco martelo de forja nas mãos. Não houve tempo para diálogo. O clérigo ergueu a ferramenta e atingiu a ponta do queixo da mulher com um golpe cruzado. Ela caiu a dois metros de distância, desacordada. Kraemer aproximou-se e ajoelhou ao lado da vítima inerte. Afagou os cabelos ruivos e virou o corpo da mulher, posicionando sua barriga para cima. A pouca roupa cobria sua pele clara de forma aleatória e esparsa. O monge correu a mão trêmula pelos seios, apertando-os gentilmente. Desceu pela barriga até a pelugem avermelhada do púbis e enroscou as pontas dos dedos levemente nos pêlos da mulher. Kraemer ofegava, arfava. O coração dava solavancos dentro do peito. Mirou o rosto da mulher e notou seu maxilar deslocado. Levantou-se e pôs o martelo no ar mais uma vez. A ferramenta desceu em cheio na bochecha esquerda da moça. O monge sentiu os ossos esfarelarem. Repetiu o movimento. De novo, e de novo. A violência dos golpes aumentava à medida que sentimento de medo e insegurança no peito do religioso iam dando sinais de sumiço. O último golpe, que já veio acertar uma pasta de sangue e migalhas de ossos e cérebro, extinguiu de dentro do monge o medo. Ele apoiou o martelo na parede e saiu, com os votos eclesiásticos renovados pela experiência.

***

Eram cem anos mais tarde. Chegava ao continente a notícia da vitória de D. António Prior do Crato na Batalha da Salga sobre as forças do novo rei de Portugal, D. Felipe II de Espanha, I de Portugal. Mas a consolidação do poder de D. António sobre a Ilha Terceira não era assunto que desviasse a atenção daqueles homens de sua missão. Estavam ocupados com assuntos mais urgentes.

Ao sinal do monge, os verdugos suspenderam o homem mais uma vez. Puxaram as cordas que, passando por roldanas, amarravam o suspeito nú com os braços e as pernas estendidos para o alto. Abaixo do seu corpo, uma pirâmide de madeira descansava com sua ponta estendida na direção do períneo do interrogado. O monge fez o sinal de baixar e os carrascos soltaram as cordas. A queda livre jogou o corpo com força sobre a ponta da pirâmide, que atingiu-lhe o saco com força suficiente para abrir um corte na pele fina. Os carrascos seguraram a corda antes que o homem tombasse e puxaram-nas, içando mais uma vez o suspeito.


- Nós entendemos que a culpa não era do senhor. – continuou o monge – Portanto, serás poupado. Mas se, e somente se nos contar exatamente o que nós queremos. É verdade, senhor, que a tua senhora preparava-te chás de ervas misteriosas para aplacar-te as enfermidades?

Como o homem nada respondesse, o monge fez mais um sinal aos verdugos. Eles baixaram o corpo do acusado lentamente até apoiá-lo pelo cú na ponta da pirâmide de madeira. Com a ponta espetando continuamente o rabo do suspeito, o monge prosseguiu com as perguntas.

- Senhor, é do nosso conhecimento e a sua senhora lhe ministrava doses de um chá feito de ervas desconhecidas para curar-te enfermidades intermitentes. É também do nosso conhecimento que o senhor participou do processo de preparação desse chá. O senhor entende a gravidade dessas acusações? – um sinal aos verdugos.

Os carrascos afrouxaram as mãos sobre as cordas e aumentaram o peso depositado sobre a ponta da pirâmide. E a pressão que a ponta devolvia ao cú do suspeito.

- Nós compreendemos a sua posição, senhor. Não foste o primeiro homem levado pelas mãos por sua mulher ao pecado. – Mas o acusado nada respondia com suas caretas de dor.

Um desagradável cheiro de queimado começou a tomar o recinto. O monge sorriu com o canto da boca. Aproximou-se do suspeito e perguntou num tom levemente mais cruel do que o anterior

- Sentes o cheiro? Este é o cheiro da tua senhora confessando teus pecados junto com os dela. Vou pintar-te a imagem do que se passa naquela sala ao nosso lado. Ela está pendurada, mais ou menos como tú. Mas só pelos braços. O corpo desce reto, perpendicular ao chão. Nua em pêlo. A corda que lhe amarra os pulsos também passa por uma roldana até as mãos de um verdugo como estes que te dominam. Só que abaixo da tua mulher não há o Culla di Giuda, La Veille, como embaixo de ti. Embaixo da tua mulher há um tonel, um caldeirão cheio de azeite fervente. Sabes o que é interessante no azeite? Ele é um tanto viscoso. Entranha na carne. Os danos são irreparáveis. Nós sabemos tratar as bruxas por aqui, senhor. Do jeito que elas merecem. – o homem chorava, mas pela expressão o monge não conseguia distinguir se a dor era pela pirâmide que lhe invadia pouco a pouco o cú, ou se era pelo sofrimento da mulher. – A tua confissão aqui serve para a ela também, você sabe. Então, o senhor quer fazer o favor de nos contar de uma vez por todas o que acontecia naquela casa com esses malditos chás, pra que nós todos sejamos poupados desse cheiro de carne queimada? Diz-nos logo que queria tua senhora com as poções do demônio!

Nada. O homem chorava em silêncio. O monge já um tanto impaciente fez mais um sinal aos carrascos, que suspenderam o corpo do homem o máximo que o aparato permitia. E soltaram numa segunda queda livre, desta vez, sacudindo as cordas e o suspeito no ar de um lado para o outro. O choque seco quebrou as últimas vértebras do cóccix do acusado. Os urros foram altíssimos. O homem desatou a gritar palavrões e blasfêmias, a sacudir-se sobre a pirâmide em meio aos gritos. O monge baixou a cabeça, desapontado.

- Nesse estado, ele não diz mais nada por hoje. Eu tenho uma execução marcada, não posso esperar o escândalo acabar. Mas amanhã minha tarde está livre. Ocupo-me dele então. – sentenciou ao retirar sua presença baixa e atarracada do cômodo.

O cheiro de carne queimada empesteava o ar do edifício. O monge abriu a porta da sala onde interrogavam a mulher com azeite. Levou as mãos ao nariz e à boca, atacado pelo cheiro forte. A mulher estava mergulhada até a cintura no líquido e já perdia a consciência. O monge virou-se para o encarregado do interrogatório e pediu que suspendesse tudo até o dia seguinte.

- Deixe essa bruxa até amanhã na cela se acostumando com as novas pernas que não funcionam, para ver se ela muda de idéia e colabora. – E bateu a porta, sem vontade de assistir ao espetáculo de retirada da moça de dentro do azeite.

Na saída do prédio para o pátio interno, o monge avistou uma cara conhecida. O homem estava escorado em uma pilastra e fitava as pedras do chão, absorto em pensamentos que não pareciam bons.

- O que há contigo, homem de Deus?

O homem ergueu os olhos para o monge, um tanto surpreso.

- Fui escalado para a execução de logo mais, excelência. Mas não sei se posso levar a cabo meu trabalho. Tenho dúvidas.

- Que tipo de dúvidas?

- Não estou seguro de que é certo tirar a vida de uma mulher grávida.

- Grávida de Satanás, homem! Não se esqueça! – o homem baixou os olhos, como se o argumento do monge não fosse ainda suficiente. Então, ele sacou das vestes um exemplar do livro do monge Kraemer e continuou – Está vendo isso aqui? Isso aqui é o nosso guia nesta guerra. Escuta bem, homem de Deus, o que te explico. O Demônio, com a permissão de Deus nosso senhor, procura fazer o máximo de mal aos homens, a fim de apropriar-se do maior número de almas possível no inferno. Mas esse mal é feito através do corpo, que é o único lugar a que o Demônio tem acesso. Lembra-te que o espírito dos homens é governado por Deus. Mas na carne, no corpo, o Demônio pode se entranhar. E ele o faz através do sexo. Foi pelo sexo que o primeiro homem pecou, rapaz. E é pelo sexo o caminho para que os outros o sigam. As mulheres estão essencialmente ligadas ao sexo. É sua principal característica. É dessa forma que elas tornam-se agentes por excelência do Demônio. Afinal, as criaturas que vieram de uma costela torta de Adão estão fadadas a andar errado, não concordas? – o homem parecia seguir a linha de raciocínio, e o monge deu o golpe final em suas dúvidas. – Satã é o senhor do prazer. As feiticeiras ganham seus poderes quando copulam com o Demônio. Poderes terríveis, capazes de causar estragos enormes na vida dos homens e das mulheres direitas. Elas podem causar estragos em colheitas, fazendo oferendas de crianças a Satanás. Podem causar a impotência nos homens, e prender-lhes em ardis que tornam para eles impossível desvencilhar-se de paixões desordenadas. Elas tomam controle da alma e da cabeça dos homens pelo desejo, e lhe consomem a razão dos pensamentos ao lhes impedir de consumar esse fogo. Essa bruxa que vais justiçar hoje não deixou dúvidas durante o julgamento, rapaz. Nem poderia. Mulher solteira, morando com um gato! Grávida. De certo o gato era a forma animal de um desses demônios assistentes, maldito. Mas havemos de encontrar esse bicho também, tú verás!

O sino da catedral tocou suas badaladas de praxe. O monge botou a mão sobre o ombro do homem.

- Vai cumprir tua missão sagrada e salva o mundo desse perigo, rapaz!

O homem sorriu e caminhou junto ao monge até o pátio externo, em cujo centro estava armado um palco de madeira com dois postes cravados lado a lado. Uma pequena multidão se aglomerava a uma distância segura do palco, num burburinho até tímido. Da carceragem, dois carrascos traziam pelos braços a condenada. Tomaram a mulher nua no colo e seguraram-na com a cabeça para baixo, para que os tornozelos fossem amarrados no alto do poste. Amarraram também seus pulsos nos pés dos pilares de madeira. O rapaz que conversara com o monge gordo tomou sua posição às costas da mulher, enquanto outro carrasco estava à sua frente. Cada um dos dois segurou sua extremidade da serra de lenhador, e posicionaram a lâmina entre as pernas da mulher. O monge leu a sentença e deu o sinal.

Os verdugos encostaram os dentes da serra na vagina da condenada e deram início ao movimento. A moça gritava a plenos pulmões, mas não se distinguia palavras no seu urro. Como a posição lhe escorria todo o sangue do corpo em direção à cabeça, pouco sangrava a ferida que lhe partia o corpo em dois. Os condenados nunca morriam antes que a serra lhes atingisse o umbigo. Os mais fortes agüentavam a serra até o peito. A mulher agüentava firmemente, até que metade da sua barriga já estava aberta e ela pode identificar o seu feto, partido em dois pedaços, escorrer pelas suas feridas e bater no chão de madeira. Os gritos então cessaram. A sentença estava cumprida.