domingo, 25 de julho de 2010

Um Conto Pneumático

Era macho. Daqueles que passam fio dental e comem a carninha. Ou melhor, daqueles que não passam fio dental. Tiram a carne do vão entre dentes com o palito, ou com a unha. E comem. A carne, o palito e a unha. A barriga protuberante era só raramente escondida por uma camisa desbotada do flamengo de 95. O numero cinco do argentino Mancuso pintado às costas. Jamais admitiria, mas a verdade dos fatos é que já havia alguns anos que a barriga lhe atrapalhava a ver o próprio pau. As mãos tinham a pele grossa e calejada eternamente suja daquela poeira preta e da graxa dos carros que consertava.

Sentado numa cadeira de assento de madeira que parecia pequena demais para o seu tamanho, assistia sem muito interesse a nova zelândia e eslováquia pela copa do mundo. Na tela da televisão, um amontoado de jogadores brancos com físico de revista de musculação mostravam não ter muita intimidade com a bola, enquanto um narrador sem graça tentava acertar a pronuncia dos seus nomes. O borracheiro olhou de lado para o garoto que lhe ajudava no serviço por uma mixaria. Estava com a cabeça afundada entre os ombros, numa postura entediada. O boné azul com a propaganda de um político corrupto pendurado entre os dedos. Pensou em contar-lhe uma história de quando era caminhoneiro. Pensou em contar aquela da vez em que deu carona pruma mulher na esperança de trepar com ela, e descobriu que era um travesti. Desistiu. Lembrou que os pudores do garoto evangélico não reconhecem esse tipo de humor. A diversão de uma história depende do ouvinte tanto quanto do contador. E a experiência lhe mostrara que aquele ouvinte só reconhecia um tipo específico de história.

Um carro parou na frente da borracharia e o garoto pulou da cadeira animado, enfiou o boné na cabeça e saiu em sua direção. Voltou menos de dois minutos depois. “Aí, preciso de ajuda aqui. A moça pegou um buraco e amassou a roda. Rodou com o pneu murcho e rasgou tudo.” O borracheiro levantou seu corpo flácido com dificuldade. Na frente da loja estava parado um Corolla prata, com o porta-malas aberto. Uma mulher bem arrumada estava de pé ao lado do carro. Parecia bonita. Quando era novo, no furor do ódio juvenil, daquele gosto pela subversão, ele sentia tesão em mulheres assim. Queria comer todas as madames do mundo. Comer com fúria. “Essa aí se eu pego, eu machuco ela todinha.” dizia. Hoje, velho e calejado, com mais derrotas nas costas, as tratava sempre por senhora e evitava olhar no olho e no decote. Uma das portas de trás se abriu, e pularam fora do carro um menino e uma menina. O borracheiro foi até o porta-malas e puxou lá de dentro a roda amassada com o pneu cortado e deixou para depois a calota quebrada.

“Peguei um buraco. Não sei trocar pneu, aí fui assim mesmo até um posto. O menino trocou pra mim.” A mulher explicou.

“Moça, esse aqui não vai ter jeito não. Não tem vulcanização que resolva, tá cortado demais. Aqui só um pneu novo. A gente tem desse pneu aí se a senhora quiser...”

“Mas usado, né?”

“É. Semi-novo.”

“Semi-novo, semi-novo. Porque não falam usado logo de uma vez? É usado mesmo. Isso é pra cobrar mais caro...” Como o borracheiro não respondesse, ela voltou ao que interessava “Quanto sai?”

“Depende do pneu. Tem uns ali pra mostrar e a senhora escolhe. Tem de oitenta reais, de noventa, de cem...”

“O de cem é o mais novo? Pode pôr o de cem.”

O borracheiro levou a roda com o pneu cortado para dentro da loja. Pegou um martelo e puxou uma cadeira para perto do pneu. Sentou-se e começou a martelar o ferro amassado que, bem aos poucos, ia voltando à forma original. O menino entrou na loja e foi direto pra frente da televisão. Em poucos segundos reconheceu em campo o zagueiro de um time inglês que ele acompanhava. A menina sassaricava pelo cômodo, fazendo força para não encostar em nada. Certamente queria evitar sujar-se na poeira preta e na borracha esfarelada que cobria o lugar. A cada porrada que o borracheiro dava no ferro da roda, ela piscava o olho sobressaltada com o barulho. A mãe vigiava cuidadosa, sem movimentos bruscos, mas com atenção completa nos dois filhos. O borracheiro mantinha a cabeça baixa para o seu serviço. Não se permitia olhar a menina que passava pra lá e pra cá, feito um espectro opressor de menos de um metro e meio que lhe atraía a atenção, mas não o olhar.

Quando a roda de ferro parecia redonda de novo, apesar do machucado visível onde amassara, ele deitou-a na desmontadora. À medida que a máquina girava a peça, ele enfiava uma espátula entre o ferro e a borracha, descolando o pneu danificado até soltar. O garoto ajudante buscou um pneu semi-novo no estoque e lhe entregou. Repetiu a operação na desmontadora, agora com o objetivo de montar a roda. A máquina girava a roda de ferro e ele ia encaixando, com as mãos mesmo, o pneu de borracha na circunferência. De frente da televisão o menino comemorou um gol. Da nova zelândia. Um a um. Aos quarenta e cinco do segundo tempo. O menino repetiu essa informação umas dez vezes. Quarenta e cinco do segundo tempo. Incrível.

Com o pneu encaixado, o borracheiro enfiou o bico de um compressor de ar no pneu para calibrar a peça. Levou o conjunto para fora e mergulhou num tanque cheio de uma água preta de fuligem para checar se havia bolhas de ar denunciando um ponto mal encaixado qualquer. Nada de bolhas. Deitou o pneu ao lado do carro. Enfiou o macaco debaixo do veículo e girou a manivela até a roda sem calotas do Corolla sair do chão. Com a chave de roda, retirou os quatro parafusos e desencaixou o step.

“A senhora quer que ponha aquela calota que está no porta-malas mesmo?”

“Ela tá quebrada, né?”

“É, tá machucadinha...”

“Pode pôr, depois eu vejo com meu marido se a gente compra um jogo novo.”

O borracheiro encaixou a peça de plástico e recolocou os quatro parafusos, firmando a roda no lugar. Tirou o macaco debaixo do carro e guardou o step no compartimento abaixo do porta-malas. Fechou a porta.

“Prontinho.”

“Quanto eu devo?” perguntou a mulher tirando a carteira da bolsa.

“Só os cem reais do pneu mesmo.”

Ela sacou duas notas de cinqüenta, lhe entregou e guardou a carteira de novo. Chamou os filhos de volta ao carro, deu a partida e saiu. Ele enfiou uma das notas no bolso. Entrou na loja e estendeu a outra para o garoto.

“É o da semana. Vai pra casa. Eu fecho tudo aqui.”

“Já?”

“É, hoje tem jogo do Brasil.”

O garoto sorriu, foi aos fundos da loja, pegou a mochila e foi embora. O borracheiro guardou as ferramentas que estavam espalhadas pelo lugar, desligou a tevê e empurrou para dentro da loja a estante de ferro com rodinhas que exibia alguns pneus do lado de fora. Puxou a tampa do ralo do tanque e começou a descer as portas de correr. Quando encostou no chão a última delas, passou o cadeado.

Ainda não tinha chegado à primeira esquina quando um garoto franzino lhe apareceu no caminho. Tirou um trinta e oito de dentro da bermuda surrada e anunciou o assalto. Ele espalmou uma das mãos num pedido de calma ao ladrão e enfiou a outra no bolso de trás da bermuda. Puxou os setenta reais que trazia e entregou. O garoto tomou o dinheiro da sua mão e partiu em desabalada carreira. O borracheiro respirou fundo. Assaltado por um pivete a duas quadras de casa. Ia assistir ao jogo do Brasil sem nem uma cervejinha.

domingo, 11 de julho de 2010

Raven Blues

Bateram à porta. Três batidas leves. Eu sabia de quem eram as mãos delicadas a socar a madeira. Não disse para que entrassem, mas me ignoraram o silêncio e entraram. Três mulheres. Esposa e filhas. A cada visita que delas recebo, maior é o esforço que desprendo para lembrar-me disso. Seus nomes há muito já me escaparam da memória.

Enquanto minha esposa me levava à boca colheradas do seu caldo verde, minhas filhas me contavam trivialidades das vidas que levavam do lado de fora daquele quarto. A mais nova me alisava a cabeça já lisa enquanto eu continuava a tentar contar o número de rachaduras na parede sem me perder.

Quando as duas moças deixaram o quarto, ainda me restavam as últimas colheradas de caldo verde. Olhei no fundo dos olhos da mulher que de mim cuidava. Janelas da alma, se é verdade que existe tal coisa, são de fato, os olhos. Os seus revelavam a tristeza que o seu sorriso tentava disfarçar. Eu vi o ar de choro que aquela doce mulher tentava conter. Vi as migalhas de um coração cansado. Vi o desespero mudo do seu olhar.

O caldo verde chegou ao seu fim. Como chegava ao fim aquela tarde. O céu já parecia sangrar quando voltei a ficar sozinho no quarto. Entretive-me a contar as rachaduras das paredes. Quando perdi a conta pela enésima vez, dei-me conta da sua presença. Seu pequeno corpo estava pousado na janela aberta. As penas negras brilhavam e os olhos frios pareciam vasculhar a minha alma. Era um belo corvo. Imponente, amedrontador. Mas, ainda assim, um belo pássaro. “És uma bela ave.”, eu disse. O corvo pareceu aquiescer, mas não desviou o olhar penetrante que me lançava. “Chamar-te-ei Nevermore, se não te importas. É o nome de um dos teus em um poema que li há muito. Se ainda me ajudasse a memória, o declamaria para ti.”. O corvo deteve-se ainda alguns segundos a olhar-me. E então alçou vôo sem nada me responder.

***

Acordei com novas batidas à porta. Uma, duas, “Entre!”, consegui gritar já atordoado com aquilo. Mais uma vez me acordavam no meio da tarde por causa daquele caldo verde. Nesse dia, só minha esposa e minha filha mais nova atravessaram a porta. Explicaram-me que a mais velha teve um contratempo qualquer com o filho, que estava na escola. Explicaram isso tudo antes mesmo que eu perguntasse por onde andava a mulher. Nem mesmo sei se perguntaria.

Minha filha parecia atordoada. Estava claramente distante. Não me importei. Quem mais me chamava a atenção era a mulher sentada à beira da minha cama e seu vaivém incessante com a colher cheia de caldo verde. Vieram tarde dessa vez. A noite já ensaiava a tomada do céu.

O corvo voltou. Dei por ele ao ver os olhos trêmulos de minha filha pousados em suas penas negras. Mas o corvo fitava a mim, não a ela. A mesma postura da tarde anterior. Os olhos frios, fixos nos meus. “Chamo-o Nevermore.”, eu disse. “Como o do poema.”, sussurrou minha esposa. Aquiesci apenas. “Veio ontem me visitar. A esta mesma hora, creio.”. “É horripilante.”, resmungou minha filha. O corvo deixou seu lugar na janela e perdeu-se pelo fim de tarde. Não pareceu ofendido com o comentário.

***

Uma batida apenas, e a maçaneta girou. Apenas uma mulher atravessou o batente da porta. Minha esposa chegou-se perto de mim e pôs o maço de cigarros na palma da minha mão. Eu tremia como tremem os fracos, mas fui, ainda assim, capaz de levar um dos cigarros à boca e acendê-lo com o isqueiro prata que nunca deixava o seu lugar embaixo do meu travesseiro.

“Estás certo de que queres fazer isso?”, ela me perguntou. “Estou já com um pé no mundo dos idos. Não há mais, neste mundo, arma que me possa ferir.”. Ela não pareceu concordar, mas furtou-se de dizer qualquer coisa.

Por todo o tempo em que a olhei, pensei estar olhando alguém conhecido. Mas, de súbito, ao atentar para o passado, dei-me conta de que não reconhecia, naquela mulher à beira da minha cama, a menina com quem casei há tantas tardes. Não reconheci o olhar vivo e admirado de adolescente. Ou os cabelos, outrora longos, que mudavam de cor com as fases da lua. Não, a mulher que eu agora fitava não era aquela menina, mas a mulher a quem eu dizia amar quando me deitava na sua cama depois de possuir outras. Talvez ela soubesse que eu tinha outras mulheres. Talvez tenha aceitado a humilhação por algum motivo. Amor, quem sabe. A verdade era que eu nunca teria a coragem necessária para descobrir. Aquela menina com quem casei saberia. Mas não a vejo mais. E, verdade seja dita, a não ser que minta o espelho e me traia minha mente, o garoto com quem ela se casou também não se faz presente nesse corpo moribundo.

Nevermore retornou. Mais uma vez pousou seu corpo na janela. Os olhos permaneciam imóveis a fitar os meus. A mulher levantou-se. Caminhou hesitante até o corvo e acariciou-lhe a pequena cabeça. Ele não pareceu tomar conhecimento do afago. Insistia em olhar-me frio, como se tivesse algo a dizer. Deteve-se por um tempo maior dessa vez, mas, por fim, ganhou os ares de mais um fim de tarde ainda sem dizer-me o que tinha a dizer.

***

Eu fumava outro cigarro quando ele retornou em definitivo. Apareceu cedo dessa vez, antes de qualquer batida na porta. Antes que qualquer companhia adentrasse o quarto. Antes mesmo que viessem os raios do sol. Não pousou na janela, mas ao pé da cama. Fitava-me de modo diferente. Seu olhar era muito mais que frio, era quase cruel. “Não devias estar a fumar. Não sabes que essa porcaria pode pôr-te fim à vida?”. Sua voz era horrenda. Metálica e rouca, reverberava pelo quarto. Gelou-me o sangue nas veias, aquela voz. O escárnio que traziam aqueles olhos me enfureceu. “Quem és?”, perguntei. “Bem sabes quem sou.”. “Vai-te daqui, demônio! Volta para as sombrias chamas de onde saíste! Vai assombrar outra alma que esta já de assombro não precisa! Vai-te retro pelos umbrais que adentraras!”. O corvo nada dizia. Nada fazia. “Vieste me levar, criatura do inferno?”. Ele se chegou perto do meu ouvido devagar e sussurrou: “Vim. Chegou a tua hora, velho.”.

***

De tudo isso hás de saber, já que de tudo nesse mundo e no outro tens ciência. Mas responde-me, deus de poucos, pra que me torturaste com aquele bicho das profundezas? Por que me levar de súbito, à vista de tão horrenda cena? Vai-te também pro inferno que há de ser teu lugar, se com tanto cinismo me respondes e me torturas! Se era o tormento de minha alma que querias, aqui o tens! Deste-me algo para temer pela eternidade, maldito sejas! Deste-me uma última lembrança que nem mesmo o demônio me concederia. A morte é um prato a ser servido morno. Para evitar o choque do espírito sem corpo. Mas serviram-mo frio. E isso não hei de perdoar.

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Este é um dos primeiros textos que apareceram neste blog, ainda em 2006. Republiquei com algumas modificações graças ao sentimento nostálgico que me gerou uma conversa com fundo de rock n' roll.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Matador

Segunda-Feira, 9h33min
Café com leite. Afoito demais. A bebida me queimou a língua. Não fosse o som dos meus próprios dentes triturando o sanduíche de queijo, o silêncio reinaria naquela cozinha. A torradeira cuspiu mais duas torradas de pão de fôrma. Ela espetou as fatias de pão torrado, uma de cada vez, com um garfo e deitou-as no prato. Sentou-se à mesa de frente pra mim. Raspou a manteiga com uma faca e espalhou aquela gordura pelas torradas. Ela ficava linda naquela camisola preta.

- Tô grávida.

Meus olhos fitavam o café com leite na xícara. E assim permaneceram.

- É meu?

Ela largou os talheres ruidosamente e levantou-se empurrando a cadeira para trás e pisando firme. Bateu a porta do quarto.

É claro que era meu. E é claro que eu não tinha dúvidas disso. Mas o perdão, para ser completo, leva um tempo proporcional ao tamanho da cagada. Mesmo quando se ama com todas as suas forças a autora da cagada. E eu ainda não tinha perdoado completamente.

Segunda-Feira, 10h12min
Entrei na loja com os braços para trás naquela postura de quem procura algo, mas não sabe muito bem o quê. Dona Flora me sorriu de trás do balcão.

- Ô meu filho, quanto tempo. Sumiu...

- É. Muita correria.

- Trabalho?

- Também... – Dona Flora sempre me pergunta sobre o trabalho. Sempre se ando trabalhando muito, se anda difícil. Mas nunca me perguntou o que é que eu faço.

- É, não tá fácil pra ninguém. Então, o que vai ser hoje?

- Aquele buquê de rosas caprichado que a senhora sabe fazer. Vou ser papai.

- Ô, mas que notícia boa!

Ela me levou até alguns jarros cheios de flores pra que eu escolhesse as que eu quisesse. Escolhi seis vermelhas e seis cor-de-rosa. Dona Flora pegou duas vermelhas a mais. Presente, ela disse. Dia de festa, o buquê ia ser mais encorpado. Sorri balbuciando um obrigado. Ela levou as flores até uma mesa nos fundos da loja e começou a preparar o buquê em meio a recomendações sobre o bebê. Olhei por alguns instantes aquela silhueta gorda, os sovacos com pêlos grossos que apareciam na camiseta cavada. O cabelo já ficando grisalho e a verruga horrorosa no queixo. Uma figura hedionda. Mas é um doce de pessoa.

Peguei um dos cartões em branco do balcão, a caneta bic quatro cores que está sempre ali por cima e rabisquei um “Para a futura mamãe mais linda desse mundo, as desculpas de um idiota que te ama.” em tinta vermelha. Meti o cartão em um daqueles envelopes pequenos, onde escrevi o nome dela. Peguei a cartela de adesivos de contra-capa de caderno que Dona Flora usa para lacrar os envelopes.

- Vou escolher um adesivo aqui pra fechar, tá?

- Tudo bem, meu filho.

Segunda-Feira, 15h54min
Eu detesto esse sofá. O couro gruda na pele ao menor sinal de calor. No frio, é gelado de doer. Acho que o Medeiros nunca sentou nele. Por isso que gosta. Ele pousou o fone no gancho com uma expressão contrariada no rosto.

- Essa garota só me liga pra pedir dinheiro.

Estava falando da filha. Que ele ama acima da pose de durão. Olhou pra mim, como que limpando as perturbações da mente, na intenção de ir direto ao assunto.

- E aí, leu?

- Li. - Fechei a pasta que segurava nas mãos e pousei o documento no lugar vazio ao meu lado no sofá. – Não vejo problema. Serviço tranqüilo.

- Ótimo. Quero que você resolva isso o mais rápido possível. É pro senador Magalhães e você sabe que esse corno sempre cobra pressa.

- É um filho da puta, isso sim.

- Ei, deixa desse papo comunista e faz o serviço, falou?

- Já disse que vou fazer o serviço. Mas que o cara é um belo filho da puta, ele é. – Levantei. O Medeiros saiu de trás da escrivaninha e veio abrir a porta pra mim.

- É, mas é esse filho da puta que vai garantir a manutenção daquele teu carrão esse mês. – Ele ficou parado, com a mão na maçaneta da porta aberta me olhando.

- A Mônica tá grávida.

- Não liga não. Pai é quem cria... – respondeu com aquele sorriso de escárnio.

- Babaca. – respondi enquanto atravessava a porta.

Segunda-Feira, 19h17min
Ela entrou em casa trazendo o buquê de rosas nos braços. Passou reto pela sala em direção à cozinha sem me olhar nem de esguelha. Ouvi o som da torneira aberta, depois fechada. Ela voltou à sala com as flores num jarro de água que ela posicionou no meio da mesa de jantar. Sentou-se ao meu lado no sofá.

- Se você acha que eu vou te desculpar toda vez que você for bonitinho depois de me magoar, você tá muito enganado.

Pegou meu braço, passou por seus ombros e pousou a cabeça no meu peito pra assistir ao programa de esportes.

- E o jantar hoje é por sua conta, não tô afim de cozinhar.

Terça-Feira, 16h49min
Entrei no bar já com a boca seca e fui direto ao balcão pedir uma cerveja.

- Rapaz, quem diria! – um tapa nas minhas costas.

Era o Garcia. Não via essa figura tinha um tempão. Me deu um abraço e se encostou ao meu lado. O Garcia salvou minha vida uma vez. A gente foi fazer um trabalho juntos numa boate. Um traficantezinho de merda tava começando a querer voar sozinho, sem o aval dos tubarões da área. O serviço era passar o cara no banheiro da boate. Só que alguém vendeu a gente. Quando entramos no banheiro, o safado tava com mais três putos esperando. A sorte é que o dono da boate tava fechado com a gente e confiscou a arma dos viados na entrada. Assim mesmo eu quase tomei uma facada. O Garcia agarrou o filho da puta quando a lâmina já tava na altura das minhas costelas, pelas costas. Na briga o traficante cortou a cara do Garcia. A cicatriz tá lá até hoje. Mas apagamos os quatro.

- Quais são as novas?

- A Mônica tá grávida, cara.

- Porra, liga não, velho. Pai é quem cria.

Não ri da piada.

- Então suspende a cerveja que a gente vai comemorar direito. – virou pro garçom – traz duas doses de Jack.

- Tenho um serviço pra fazer hoje à noite. Vou ter que fazer vigília, maior merda. Não quer ir comigo não, pra fazer companhia?

- Vou, claro. Onde?

- Num bar. Sol Poente, eu acho. Conhece?

- Conheço. Pé sujo do caralho.

Terça-Feira, 22h01min
Já fazia uma hora que a gente tava tomando conta do cara. Só vigiando de dentro do carro. Jessé Nogueira de Jesus. Vulgo Noguinho. Apelido feio do caralho, mas com esse nome, até que ele não pode reclamar. Pinta de malandro. Chapéu, camisa de botão aberta no peito, tocava caixa de fósforo na roda de samba do boteco. E uma coroa de outra mesa não desgrudava o olho dele.

- Qual é a história desse maluco? – me perguntou o Garcia.

- Comeu a esposa do senador Magalhães.

- Ele e mais uns trinta, ao que parece. Por que só ele que vai rodar?

- Não sei. Vai ver o senador cansou desse papo e resolveu mandar um recado.

- Então o malandro aí só deu azar. Que timing de merda... Tomar no cú também, tem que ter muito amor ao dinheiro pra encarar aquela velha, hein...

Eu ri. Não deixava de ser verdade. Metade da malandragem da cidade já tinha passado a coroa do senador na cara. A outra metade já sabia a senha pra seguir a fila. E o otário do Noguinho ia virar exemplo.

- Garcia, tenho um favor pra te pedir, cara.

- Diga.

- Preciso que você levante pra mim o endereço de um cara lá da repartição da Mônica.

- Porra, por que eu?

- Porque eu não posso. Todo mundo me conhece lá.

- Puta que pariu... Pra que você quer isso?

- Não pergunta. – eu sabia que ele ia perguntar do mesmo jeito. Pedi o favor ao cara, ia acabar tendo que explicar.

- Como assim não pergunta? É ciúme?

- Não.

- É claro que é. Tá escrito na tua cara.

- Tá bom. É.

- Porra, sai dessa. Tú vai ter um filho com a mulher...

Eu respirei fundo. Ia ter que abrir o jogo. Olhei bem pra cara dele e comecei.

- Não é o que você tá pensando, Zé Roela. É que tem um viado na repartição.

- É o cara que você quer saber o endereço.

- É. Mas ele é viado mesmo. Bicha. Queima-rosca, cú frouxo, boiola, baitola...

- Já entendi. Que que tem o viado?

- Comeu a Mônica.

- O viado!?

- É. Faz um mês mais ou menos, eu viajei pra apagar um direitão que tava ameaçando botar bomba num colégio público no interior. Teve uma festa do pessoal do trabalho da Mônica nesse fim de semana. A gente tava meio brigado, ela tava puta comigo. Bebeu pra caralho e achou que seria divertido tentar levar o tal do viado pro caminho da masculinidade.

- Caralho...

- É. E só me contou semana passada. Que deu pro desgraçado do viado, e que tava arrependida, não sei o que...

- E o cara continuou viado?

- Faz diferença?

- Curiosidade.

- Continuou. Mora com um outro cara lá.

- Que merda. E o que você vai fazer com o endereço dele?

- Vou matar o cara, Garcia. O que você acha que eu vou fazer?

- Pára com isso. Tú não ama essa mulher?

- Amo demais. Esse tem sido o problema.

- Então perdoa e segue a tua vida.

- Tô tentando. Mas é difícil pra caralho. Se eu matar o cara, eu sei que melhora.

- Tá legal. Depois me dá o endereço da repartição e o nome do viado que eu arrumo o endereço dele pra você.

Quarta-Feira, 04h58min
Porra, situação esquisita. A coroa do bar levou o Noguinho pra um motel. Eu e o Garcia fomos atrás e pegamos um quarto também. Parada estranha dividir quarto de motel com amigo. Esperamos até dar tempo dos dois caírem no sono. Fui até o box onde estava o carro e passei por baixo do toldo vermelho. Meti a mão na maçaneta. A porta estava aberta. Essas coroas adoram fazer idiotices assim, não sei por quê. Entrei pisando o mais leve que conseguia. E com meus anos de treino, é bastante leve. Subi os dois degraus que elevavam o piso do quarto em relação ao hall de entrada e fui direto em direção à cama. A mulher estava deitada, com o lençol cobrindo parte da nudez. Parecia um sono tranqüilo e pesado. Mas estava sozinha. Olhei pela transparência da cortina e vi o malandro encostado ao parapeito da sacada. Fumando, apreciando a vista da cidade. Afastei um pouco o pano que cobria a janela com o cano da pistola, ergui o braço e puxei o gatilho. O som do silenciador não foi suficiente para acordar a mulher de seu sono embriagado. O corpo de Noguinho caiu no chão da varanda com um buraco no crânio. Catei a cápsula vazia que caiu no chão e fui embora. O serviço estava feito. Só tive alguma pena do transtorno que ia causar àquela senhora.

Quarta-Feira, 17h30min
Entrei sem bater. O segurança já tinha avisado que era pra aparecer rápido. O Medeiros estava sentado atrás da escrivaninha. Tinha o tronco jogado pra frente, apoiado nos dois braços sobre o tampo de madeira. No sofá de couro no canto da sala estava uma mulher. Já tinha alguma idade. Não chegava a ser velha.

- Boa tarde. – disse para a senhora. - Me chamou, Medeiros?

- Chamei, senta aí.

Sentei ao lado da mulher. O Medeiros desandou a falar.

- O negócio é o seguinte. Essa senhora é Cristina Santiago Magalhães. – levantei as sobrancelhas. Ele continuou. – Esposa do senador. Ela conseguiu nosso contato com o motorista do homem. Já sabe que fomos nós que passamos o Noguinho.

Ele deu uma pausa, acho que pra medir a minha reação. Não mudei nem o ritmo da respiração.

- Ela quer que a gente pegue o senador. E quer que seja o mesmo cara que fez o serviço do Noguinho. O que você acha? O cara topa fazer?

- Acho que topa. Vai fazer algumas exigências, você sabe. Passar senador é serviço complicado. – respondi.

- Dinheiro não é problema. – ela adiantou logo.

- Eu sei. Não era de dinheiro que eu tava falando. Mas acho que ele pega o serviço sim.

O Medeiros levantou e escoltou a perua, se despedindo e dizendo que entrava em contato o quanto antes. Quando fechou a porta, virou-se pra mim.

- A velha foi rápida, rapaz. Descobriu que o cara tava morto e já ligou os pontos. Tive que pedir pro pessoal revistar ela antes de deixar entrar e tudo... Então você pega o trabalho, né?

- Pego. Mas é o meu último. É a minha demissão.

- Que papo é esse?

- Minha mulher ta grávida, Medeiros. Não dá pra continuar nesse serviço.

- Porra, tú quer me foder? É o meu melhor, caralho.

- Não dá mais. É muito arriscado. Vou ser pai, caralho.

- Pai eu também sou. E que risco você corre? Os cana são tudo apalavrado com a gente, te cubro em tudo. Porra, cê tá de sacanagem.

- Não dá. – fui contundente. Pra encerrar o assunto. – ano passado quase levo uma facada. Se não fosse o Garcia ter se fodido por mim, eu tinha rodado. Com filho a história muda, Medeiros. Faço esse serviço e tô fora. Como é o senador Magalhães, faço até de graça. Te dou esse bônus de despedida.

- E vai viver de quê, seu puto? Vai estudar pra concurso público por acaso?

- Eu me viro.

Quinta-Feira, 03h42min
Tive que forçar a porta do apartamento. Tava escuro pra cacete, não dava pra ver muita coisa. Quando é assim, eu fico imaginando as coisas. Marca do aparelho de som, da TV. Imaginei a sala dos caras toda decorada. Não entendo muito dessas coisas, mas até que imaginei uma decoração de bom gosto. O quarto eu imaginei tipo um quarto de motel. Cheio de extravagâncias de viado. Soltei meus preconceitos ladeira abaixo sem freio. Fodam-se.

Os dois viados estavam dormindo. De conchinha. Apontei o silenciador pro desgraçado da repartição da Mônica e estourei a cabeça do safado. O outro não acordou. Caralho. Resolvi matar assim mesmo. Acho que desenvolvi uma certa raiva pela classe. Ou só quis ser misericordioso mesmo. Estourei a cabeça do segundo e comecei a bagunçar algumas coisas do quarto, como se procurasse um cofre. Enfiei uma meia dúzia de enfeites sem muito valor no bolso e saí fora de alma lavada.

Sexta-Feira, 9h16min
Quando saí do banho, ela estava me esperando em pé, de braços cruzados, e o jornal em uma das mãos. Não batia o pé, mas balançava a perna direita nervosamente.

- Foi você, não foi? – me acusou já sem conseguir conter o choro nervoso.

- Fui eu o quê?

- Porra, deixa de ser cínico! Você matou os dois!

E jogou o jornal na cama, como se me ordenasse que lesse. Abri o armário e comecei a me vestir sem dar bola para o periódico. Ela sentou na cama e meteu a cara entre as mãos.

- Você disse que me perdoava.

- E perdoei. Não foi você que eu matei, foi?

- Caralho, você não pode ser frio desse jeito.

Foi aí que ela me tirou do sério. Frio eu não podia ser. Se fosse não tinha precisado apagar aquele viado filho da puta. Mas não me alterei. Falei com calma.

- Você ainda vai entender o que eu fiz.

A verdade é que eu queria chorar em certas situações. Mas eu não choro. Nunca. Coisa de filho da puta, eu sei. Mas eu não consigo. Acho que não tem jeito, todo mundo tem que ser um pouco filho da puta pra fazer mal aos outros. E eu vivo disso, afinal de contas. Sentei-me do lado dela e com todo o carinho que consegui reunir, disse

- Olha pra mim. – ela levantou o rosto e me olhou nos olhos – Eu te amo pra caralho. Mas eu não tenho esse coração bom de novela. Eu perdoei você, mas precisava descarregar o ódio. Se tivesse guardado, eu ia ter dificuldades de te olhar no olho pra sempre. Descarreguei. Agora já era. E aquele merda não era exatamente um inocente nessa história.

Ela não se jogou nos meus braços, nem quis me beijar numa feitura de pazes. Mas eu sabia que também já não me achava o monstro de minutos atrás. Ia ficar tudo bem. Ela ia entender.

- Eu matei ele? – ela perguntou entre soluços.

- Não. Eu matei. – dei uma pausa pra informação ser processada com clareza - Vou fazer o serviço do senador hoje à noite. É o último. Já avisei pro Medeiros que depois desse eu tô fora. Depois de hoje é só pensar no nosso filho.

Ela aquiesceu ainda sem me olhar. É, ia ficar tudo bem.

Sexta-Feira, 21h
O safado estava sentado numa poltrona de couro. Um copo de uísque em uma das mãos. Um charuto enfiado entre os dedos da outra. Eu estava seguro, tinha um turno inteiro de seguranças do velho ajudando no serviço. Por isso escolhi usar a doze. Derrubei um enfeite de vidro de propósito às costas do filho da puta. Ele levantou sobressaltado. Olhou na minha cara como se já esperasse que aquilo fosse lhe acontecer um dia.

- Aquela vagabunda...

Foi tudo o que ele teve tempo de dizer. Puxei o gatilho, na esperança de que fosse a última vez na minha vida. O tiro abriu uma cratera no meio da barriga nojenta do cretino. Ele rodopiou feito uma porta-bandeira antes de cair pra trás sem muito tempo nem pra agonizar. Meti a mão coberta por uma luva na maçaneta e fui embora. Os seguranças ficaram de maquiar o lugar. Pra parecer roubo. Essa confusão já não era mais minha. Eu tinha uma família pra cuidar.