terça-feira, 23 de março de 2010

Serviço Sujo

Tranquei a porta do apartamento pelo lado de fora. Apartamento apertado de quarto e sala num bairro de classe média alta. Já faz duas semanas que encosto minha carcaça aqui. O preço do aluguel é uma escrotidão, mas não sou eu que estou pagando. Não pagaria tanta grana por essa lata de sardinha. O chefe acha que o serviço vale o preço, azar o dele. Desci os dois lances de escada e acenei para o Ivan quando atravessei a portaria. Ele não estava acostumado com cumprimentos dos moradores.

Na maior parte do tempo, não tem gente andando pelas ruas do bairro. Carro tem de monte. O tempo todo. Ônibus é raro, apesar das trocentas paradas para eles distribuídas pelas quadras. Ontem o Ivan me disse que costumava ter bastante van. Mas esse último governador tirou essas merdas de circulação. Só quem usava era aquela gente desimportante que limpa as privadas dos homens com a caneta na mão. Esse povo não se importa de esperar pelos ônibus de hora em hora.

Gente mesmo só aparece na rua em hora marcada. De manhã, lá pelas sete, sete e meia, as calçadas e os gramados centrais que dividem a autopista são tomados pelas hordas de empregadas domésticas chegando às casas dos patrões. Uma multidão de mulheres de pele dura, escura. Cabelos arrumados, apesar de mal cuidados. A maioria ostentando varizes nas pernas de aparência cansada. Trazem, penduradas nos ombros, bolsas de couro falso. Às vezes só uma sacola plástica de supermercado com uma muda de roupa. O olhar aceso, de quem está acordado há horas. Os empregados do pouco desenvolvido comércio local são poucos, misturados nas mesmas hordas.

Pouco mais tarde. Nove e meia, dez da manhã, a diferença é flagrante. Nas calçadas pipoca uma outra gente. Velhos advogados ou engenheiros de sucesso, fazendo sua caminhada habitual para manter a saúde. Peruas e coroas menos chamativas vivendo do dinheiro de outros advogados e engenheiros de sucesso. Gente mais nova. Aquelas esposas, de corpos bem formados, de empresários da nova geração. O ar petulante de quem nunca fez nada por ninguém na vida. De quem já nasceu ganhando. Similar, o olhar e os corpos, ao das filhas de juízes, desembargadores e arquitetos. E saem os novos empresários e advogados com seus torsos nus e musculosos, e a expressão pós-moderna na cara de quem assiste aos programas sobre sexo nas madrugadas da GNT. Saem também as versões femininas do novo profissional de sucesso. Mulheres seguras, de corpos bem construídos que tomam suco de clorofila e gostam de ser escravizadas e abusadas na cama, cansadas que estão de sua posição de poder no mundo lá de fora. É um desfile do padrão de beleza. Os únicos que se dão ao direito de mostrar-se pela rua com pelancas e barrigas salientes são os mais velhos. A juventude que não ostenta beleza de modelo não mostra as curvas por essas calçadas.

***

Já era fim de tarde quando voltei à portaria do prédio. Naquela hora em que de novo as calçadas e as paradas de ônibus são ocupadas pelo proletariado doméstico, agora na romaria de volta. Antes da metade do poder saudável que não conseguiu tempo para sair pela manhã tomar seu lugar no início de noite. Era o final do turno de doze horas do Ivan. O salário corresponde ao turno de oito, como determina a humanitária lei trabalhista. Encostei-me no balcão com aquela postura de quem espera o tempo passar.

“Jogou feio o mengão ontem, né não?”

“Tú não tem cara de rico.”

Chega me assustei. Ele continuou.

“Não que seja da minha conta. Mas tú não tem cara. Nem jeito. Não é coisa de rico bater papo com porteiro todo dia.”

“E aqui só mora rico?”

“Não. Mora gente também. Não me leva a mal, tú até que é um bom papo, mas é que é estranho tú tá aqui todo dia trocando idéia comigo.”

“Não sou rico não. Sou empregado que nem tú. Quem paga o aluguel do apartamento é o meu patrão. Tô aqui só fazendo um serviço pra ele. Quando acabar, volto pra casa.”

“Que porra de serviço? Conhecer o porteiro?”

“Haha. Não posso contar. Tem nada a ver contigo não. Só que boa parte do serviço é esperar. Gosto de falar contigo enquanto espero.”

“Papo de bandido do caralho...”

Eu sorri. Ele não estava de todo errado.

***

A porta abriu sem ranger. Consertaram aquela merda. O chefe levantou-se de trás da mesa e veio apertar a minha mão. Apontou o jogo de sofás no canto da sala. Eu sentei em um. Ele desabotoou o paletó com o broche do partido e sentou-se no outro sofá, me olhando com aquela cara de me conta tudo, não esconda nada.

“O garoto não tem limites. Às vezes aquele apartamento é puteiro, às vezes é salão de festa, às vezes boca de fumo. Às vezes é tudo ao mesmo tempo.”

Lhe entreguei o envelope pardo que trazia nas mãos.

“Aí tem foto, tem umas anotações, tem tudo. O pai, o deputado, sabe de tudo. Banca tudo, às vezes até participa. Um dia foi pra lá com três garotas. Deviam ter uns quinze anos. Tavam com cara de que tavam cheiradas. No dia seguinte o vizinho de baixo disse que ouviu uns gemidos, uns tapas. Tirei foto dele chegando e saindo.”

“Quer dizer que ele alugou o apartamento pro filhão, mas pega emprestado de vez em quando...” O chefe sorria, saboreando a vitória que despontava no horizonte.

“Teve um vizinho que chamou a polícia numa das festas do moleque. Ele ligou pro pai, o deputado chegou deu uma carteirada, uma grana, e a polícia meteu o pé. A festa continuou. Não tenho foto do dinheiro. Depois que a polícia saiu, ele entrou no apartamento do vizinho que chamou os home. Não sei o que eles conversaram. Mas isso ta tudo anotado nesses cadernos aí. Aquela reunião que deu no jornal, que ninguém sabe se existiu? Do plano das imobiliárias lá?”

“Sei.”

“Existiu. Consegui a foto da maioria. O garoto chegou umas duas horas depois que a reunião começou. Levou umas cinco meninas. Não vi a hora que acabou.”

“Ótimo.” O sorriso era largo. Ele se levantou num gesto claro de que a conversa estava no fim. Também me levantei. Ele me acompanhou até a porta dando tapinhas nas minhas costas.

“Vou ler esse material todo e depois a gente conversa melhor. Esse direitão vai se foder na minha mão, você vai ver. É uma coisa que o tempo no sindicato me ensinou, que todo mundo tem podre, é só procurar direito. Esse filho da puta vai desistir rapidinho dessa história de ser governador. Se conseguir outro mandato na câmara já vai estar no lucro.” Ele sorria pra mim, procurando aprovação. Eu sorri de volta. Tomara que aquele porco se foda mesmo. Mas o chefe não sabe que eu anulo meu voto.

domingo, 7 de março de 2010

Canis rugaris

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/06/canis-rugaris.html

“SUAVE MARI MAGNO

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.”

(Machado de Assis)


Gozou e tirou de dentro rapidamente. Não era daqueles que ficavam enganchados depois de trepar. Lambeu vagarosamente a vulva quente de sua amante. De dentro dos carros parados no sinal de trânsitos algumas pessoas apontavam, comentavam, algumas riam. Outras simplesmente ignoravam a cena. Saciado, desceu do concreto quente da calçada em frente à loja de materiais de construção e deitou-se encostado ao pneu de um dos carros estacionados junto ao meio-fio. Aquela sombra era conforto merecido num dia quente como aquele. Pousou a cabeça preguiçosamente sobre as patas dianteiras não sem antes lamber a ferida purulenta que trazia aberta no membro direito. Dormiu apreciando o cheiro de óleo.

Despertou com o tremor do veículo. O cano de descarga vomitou uma fumaça preta e o cheiro de gasolina deu o sinal. Pulou para fora da sombra que lhe abrigava o corpo raquítico de pêlos queimados e fedorentos. Voltou à calçada e caminhou pelo concreto como se tentasse decidir a direção que tomaria. A liberdade em dosagens extremadas tem a característica de dificultar escolhas. Com os caninos não é diferente.

Decidiu que tinha fome. Não era muita, mas o suficiente para caçar o que mastigar. Caminhou sem pressa. Contrariando o hábito mais comum de sua espécie, trazia a língua guardada dentro da boca fechada. Na frente do açougue que costumava rodear, passeou entre as poucas pernas que ocupavam o local. Nunca conseguia agrado dos clientes. O que não lhe impedia de rodear-lhes com o focinho atento. Talvez gostasse de ver o desconforto e algumas caras de nojo que despertava. Quando a loja se viu vazia de consumidores, um dos açougueiros lançou um pequeno pedaço de músculo na sua direção. Freqüentador antigo do açougue, mais antigo e fiel que muitos dos clientes, sua presença habitual era premiada com esporádicos pedaços de carne. Prendeu entre os dentes o pedaço que lhe foi oferecido, deitou-se na porta da loja e pôs sua aparência doentia a mastigar a comida.

***

A noite chegou tão quente como o dia que a precedia. Nos becos com cantos de parede cagados, alguns mendigos jantavam lixo e o chorume lhes escorria pelas barbas grossas e compridas. Alguns outros cães acompanhavam o mesmo cardápio. Uns pivetes cheiravam cola ou vasculhavam bolsas recém roubadas na esperança de achar algo que eles pudessem trocar por uma pedra para seus cachimbos de durepox.

No bar em frente e nas bibliotecas, intelectuais afeminados, impotentes ou naturalistas de pêlos nos sovacos gastavam seu suposto poder intelectual para explicar as coisas. Quaisquer coisas. O tesão estava no exercício, não no resultado. Bêbados do álcool e de seus egos. Cegos. Eles nunca viram as tripas da cidade. Nunca viram as entranhas do mundo. E nunca verão.

No canto do asfalto, a carcaça do cachorro fedia aberta no meio. A marca de pneu sobre o abdômen esmagado. Os pedaços do que lhe sobrou das vísceras espalhados. O fluxo de carros não diminuiu por sua causa. Os transeuntes se detiam por instantes. Pareciam interessados no aspecto estético da cena. Não pareciam formar opinião. A criatura que viveu na mais utilitária filosofia. Que quando algo encontrava que não pudesse comer ou foder, mijava em cima. A criatura que conheceu as tripas da cidade, agora lhe exibia também as suas. Morreu sem dar sentido à vida que viveu sem objetivo. Mas a cidade não parecia se interessar.