domingo, 10 de janeiro de 2010

Caixão Lacrado

Quarta-Feira, 19h

“Achamos o garoto.”

A notícia vinha como uma rajada de ar congelante no estômago. Acharam. As perguntas que seus olhos faziam eram “Onde?” e “Em que estado?”. A segunda pergunta vinha com uma continuação subentendida que ela não ousava pensar com clareza: “Vivo ou morto? Inteiro ou partido?”. Nenhuma delas foi respondida de pronto. Não diretamente, ao menos. Mas o tom fraco da voz ao anunciar a notícia e a pausa que seguiu o anuncio não eram bom presságio. Os movimentos das mãos foram ficando pesados, controlados demais. À beira do descontrole, na verdade. As pernas ameaçavam falhar. Os olhos explodiram em lágrimas que rasgavam a pele como canivetes. Um nó do tamanho de uma laranja se formou na garganta. Não passava nada. Nem voz, nem ar, nem choro. Nem os quarenta e cinco palavrões que conseguiu pensar. Nem o pedido para que a agonia se acabasse. Não conseguiu perguntar se o filho estava vivo ou morto.

O homem parado à sua frente compadeceu-se. Engoliu em seco o resto de hesitação e, vacilante, escolhendo bem cada palavra, sacramentou a má notícia. “Ele morreu. Achamos o corpo no iemeéle. Estava lá já tinha dois dias.”. Ela não perdeu o controle. O golpe foi duro. E foi assimilado. Sentou-se no sofá às suas costas com os membros tremendo levemente. Mas com mãos ainda capazes de acender um cigarro. “E agora? O que eu preciso fazer pra enterrar o meu filho.”

***

Segunda-Feira, 16h

O ombro apoiado na porta da padaria. Mastigava uma das pontas de um palito de dente. O sol rachava lá de cima, o calor batia no asfalto e refletia nos corpos de quem estivesse pelo caminho, arrancando litros de suor quente. Viu um táxi estacionar do outro lado da rua. O movimento era pequeno. Algumas pessoas passavam pela rua principal, perpendicular. Mas naquela pequena travessa, não havia mais ninguém.

Ele aproximou-se do carro. Parou ao lado da porta do motorista enquanto um homem com aparência velha descia. Os cabelos grisalhos, a barriga saliente, o bigode de pêlos grossos, negros mesclados com brancos. A camisa trazia os primeiros botões abertos, e uma corrente pendurava em meios aos pêlos brancos de seu peito uma medalhinha de ouro.

Quando o homem jogou o corpo para fora do carro, o garoto cravou-lhe a mão na parte de trás da gola da camisa e o empurrou no chão. Antes que o taxista pudesse compreender bem o que estava acontecendo, sentiu a mão do garoto tomar-lhe as chaves que estavam no bolso da camisa. O homem se arrastou um ou dois metros para o meio da rua e o garoto arrancou com o táxi, dobrando na avenida principal, na orla da praia.

Sem muita objetividade, sem tomar um caminho muito reto, o garoto dirigiu até a estrada. Como as cidades são bastante próximas nessa região do estado, tomou o rumo de casa, mas gastou tanto tempo quanto pode, sem conseguir decidir onde esconderia o carro até o dia seguinte. As estradas não costumam ser muito cheias nos dias de semana. A direção era tranqüila. Algumas horas mais tarde, entrava com o carro na rotatória que dá acesso à cidade.

Os minutos passavam arrastados e as ruas tinham pouco movimento. Na pista que seguia a direção contrária, vinha uma viatura de polícia em baixa velocidade. Cruzaram-se, o táxi e a viatura. E o retrovisor do garoto mostrava os policiais fazendo um retorno bem atrás dele. O pé esquerdo afundou a embreagem, a mão direita trouxe o cambio para uma marcha menor. O pé esquerdo voltou e o direito forçou o acelerador o quanto podia. A viatura o perseguiu. A alta velocidade embaralha as coisas, a pouca claridade as esconde. Por alguns minutos, ele conseguiu contornar as adversidades. Mas à frente no tempo e no destino, havia uma curva. E ele passou reto. Uma árvore lhe segurou com toda a sua força. A árvore quebrou vidro e quebrou osso. Retorceu ferro. E retorceu carne.

Os policiais chamaram uma ambulância. Procuraram, mas com o garoto não havia celular, não havia documento que fosse. Nem uma pista. A ambulância o levou direto para o hospital, onde chegou vivo. E saiu morto. Direto para o instituto médico legal. O mais novo habitante de um gavetão. Um gavetão de uma instituição mal-cuidada e que cuida mal. Sobretudo dos que não têm voz. Um gavetão que tantos outros já acolheu em seus braços podres.

***

Quinta-Feira, 15h

O sol castigou a cerimônia sem trégua. Os choros eram muitos, mas silenciosos. A resignação parecia ter feito ninho naqueles peitos castigados. Nunca há muito que se possa dizer em horas assim. Por mais que haja quem teime com essa verdade, não há muito a se dizer. Basta olhar com algum cuidado o rosto da mãe que enterra seu filho com caixão lacrado pra que os vermes que já lhe saem pelos buracos do corpo não venham freqüentar a festa. Não há cadeia de palavras em língua nenhuma capaz de ser mais eloqüente que o corpo dessa mãe. Assim como não haverá remédio para a ferida purulenta que se abre nesse momento. Quem disse uma vez que o tempo cura tudo, nunca sofreu dor de verdade.