sábado, 2 de outubro de 2010

Quando o Urubu de Baixo Caga no De Cima

O blog Gol de Canela, organizado por Gregório Diniz e L. H. Pinton tem uma coluna onde exibe textos de alguns convidados.

Tive a honra de estreiar a coluna nesse blog parceiro com um texto sobre a situação atual do meu amado Flamengo.

http://gol-de-canela.blogspot.com/

Para quem quiser conferir, o blog é bastante interessante. E a referida coluna se encontra abaixo das postagens comuns, e antes dos palpites da rodada.

abraços

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

De Martelos e Feiticeiras

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/10/de-martelos-e-feiticeiras.html

"¡Qué otra cosa es una mujer, sino un enemigo de la amistad, un castigo inevitable, un mal necesario, una tentación natural, una calamidad deseable, un peligro doméstico, un deleitable detrimento, un mal de la naturaleza pintado com alegres colores!"
- Malleus Maleficarum


As frestas na madeira eram generosas. Permitiam a visualização quase perfeita do espetáculo torpe. A ruiva, ajoelhada sobre a cama, baixou lentamente a alça direita do vestido. A mulher loura, com olhos injetados de luxúria, ergueu o galão de vinho tinto e derramou a bebida sobre colo da outra. Dobrou o corpo, provocativa, e lambeu o seio desnudo. Começou circulando a língua pelo bico rosado e enrijecido. Logo já guardava quase por completo a protuberância de carne dentro da boca. A ruiva pendeu a cabeça para trás e gemeu forte olhando para o teto da casa. O ferreiro assistia à cena de pé, ao lado da cama, com a mão enfiada dentro das calças.

Enquanto esticava o pescoço na análise daquele absurdo, o monge sentiu seu rígido efeito lhe consumir a virilha. Os dedos dos pés formigavam, pressionados contra o couro da sandália pelo peso do corpo. O toco de árvore onde subira o clérigo começava a estalar sob seus pés esticados. Mas os olhos agarravam-se à cena que acontecia do outro lado da parede.

As duas mulheres despiam-se num contundente frenesi. O ferreiro tirou a camisa e aproximou-se do leito, enquanto as duas valquírias, já nuas em pêlo, lhe abriam as calças por entre lambidas longas no seu torso. O monge soltou uma das mãos que seguravam as pedras da parede e pousou sobre sua virilidade latejante. Forçou o corpo o quanto pode para não perder o acesso à construção de madeira que ligava a parede ao telhado.

As frestas continuavam generosas, e o espetáculo inescrupuloso continuava solto. Uma tira de couro da sandália do monge arrebentou. Seu pé perdeu a firmeza, e o religioso perdeu o apoio. No desequilíbrio, seu corpo tombou do generoso toco de árvore e foi ao chão com um baque seco. Atordoado com a possibilidade de ser descoberto, naqueles infelizes momentos em que o desespero nos drena a razão dos atos, o monge correu. Correu, a cegos tropeços, para o lado mais burro. Correu para a frente da casa.

Ao cruzar a porta, arregalou os olhos diante da besteira que fizera. A folha de madeira descolou-se dos umbrais, seguida de um feminino grito abafado de “Meu Deus, o monge Kraemer!”. O clérigo, em um súbito ataque de dignidade, endireitou a postura e encarou-os nos olhos. O ferreiro e a mulher loura transpiravam vergonha e submissão. Com as mãos e os braços, cobriam pateticamente pedaços dos corpos despidos e fitavam os pés do monge. Kraemer já sentia-se com a dignidade restaurada e empinava o nariz para passar o sermão mais duro que conseguia formular. Quando seus olhos cruzaram com os da mulher ruiva. Confortavelmente nua, não tentava cobrir o corpo. Os olhos, vidrados na insistente rigidez que saltava o hábito na altura do púbis sagrado do religioso, subiram e fitaram insolentes os olhos de Kraemer. Provocativa, escolheu com cuidado as palavras pelo movimento que elas lhe exigiam dos lábios vermelhos. “O padre quer participar?”. E inclinou de leve a cabeça em direção ao interior da casa, reforçando o convite.

O monge sentiu as pernas falharem. A luxúria invadiu-lhe os pensamentos e por alguns momentos ensaiou um passo à frente, na direção daquela mulher. Mas aqueles olhos lhe metiam medo. O verde profundo daquele olhar libidinoso lhe gelava as tripas e dava um nó. As pernas bambeavam. E a rigidez do membro perdeu-se num instante. A trombeta do arcanjo Gabriel que trazia no meio das pernas adormeceu na flacidez do abandono. Kraemer separou os lábios, mas as palavras faltaram. O controle sobre seu corpo e suas convicções fora abalado. Esteve a um passo do abismo de se ver controlado pelo irracional desejo e seu objeto. A visão turvou. Estava enojado com os próprios pensamentos. Empinou novamente o nariz e pôs-se a andar, com passos nervosos de quem combate a vontade de correr. Não decidira para onde ir, andava para longe daquela gente, para longe daquele ultraje.

A luz quase nenhuma das lamparinas de azeite espalhadas pelos alpendres do vilarejo era suficiente para distinguir o caminho. E foi suficiente para o monge reconhecer a casa do ferreiro e, em anexo, o cômodo onde o homem trabalhava. Kraemer forçou a porta de madeira, que cedeu com surpreendente facilidade. Arrastando as sandálias pelo chão de terra batida, o monge tomou nas mãos o pesado martelo de forja que repousava sobre a mesa. Tomando o cuidado de fechar a porta atrás de si, voltou para a casa da mulher ruiva por um caminho diferente. Escondeu-se no breu entre algumas árvores e esperou.

Não se passaram mais de dez minutos e o ferreiro e a mulher loura deixaram a casa num ar de flagrante desconforto. Cada um tomou seu rumo e, na escuridão da noite, rapidamente saíram de vista. O monge esperou ainda mais dez minutos antes de deixar seu posto. Com o andar forte, mas calmo e seguro. Parou defronte a porta da casa e tocou a maçaneta. Estava trancada. Posicionou o corpo com o martelo em punho e golpeou a tranca. A porta abriu-se em meio ao estrondo. Kraemer entrou. A mulher estava parada no meio da sala, em pé, olhando assustada para o monge dominicano que lhe invadia a casa com um gigantesco martelo de forja nas mãos. Não houve tempo para diálogo. O clérigo ergueu a ferramenta e atingiu a ponta do queixo da mulher com um golpe cruzado. Ela caiu a dois metros de distância, desacordada. Kraemer aproximou-se e ajoelhou ao lado da vítima inerte. Afagou os cabelos ruivos e virou o corpo da mulher, posicionando sua barriga para cima. A pouca roupa cobria sua pele clara de forma aleatória e esparsa. O monge correu a mão trêmula pelos seios, apertando-os gentilmente. Desceu pela barriga até a pelugem avermelhada do púbis e enroscou as pontas dos dedos levemente nos pêlos da mulher. Kraemer ofegava, arfava. O coração dava solavancos dentro do peito. Mirou o rosto da mulher e notou seu maxilar deslocado. Levantou-se e pôs o martelo no ar mais uma vez. A ferramenta desceu em cheio na bochecha esquerda da moça. O monge sentiu os ossos esfarelarem. Repetiu o movimento. De novo, e de novo. A violência dos golpes aumentava à medida que sentimento de medo e insegurança no peito do religioso iam dando sinais de sumiço. O último golpe, que já veio acertar uma pasta de sangue e migalhas de ossos e cérebro, extinguiu de dentro do monge o medo. Ele apoiou o martelo na parede e saiu, com os votos eclesiásticos renovados pela experiência.

***

Eram cem anos mais tarde. Chegava ao continente a notícia da vitória de D. António Prior do Crato na Batalha da Salga sobre as forças do novo rei de Portugal, D. Felipe II de Espanha, I de Portugal. Mas a consolidação do poder de D. António sobre a Ilha Terceira não era assunto que desviasse a atenção daqueles homens de sua missão. Estavam ocupados com assuntos mais urgentes.

Ao sinal do monge, os verdugos suspenderam o homem mais uma vez. Puxaram as cordas que, passando por roldanas, amarravam o suspeito nú com os braços e as pernas estendidos para o alto. Abaixo do seu corpo, uma pirâmide de madeira descansava com sua ponta estendida na direção do períneo do interrogado. O monge fez o sinal de baixar e os carrascos soltaram as cordas. A queda livre jogou o corpo com força sobre a ponta da pirâmide, que atingiu-lhe o saco com força suficiente para abrir um corte na pele fina. Os carrascos seguraram a corda antes que o homem tombasse e puxaram-nas, içando mais uma vez o suspeito.


- Nós entendemos que a culpa não era do senhor. – continuou o monge – Portanto, serás poupado. Mas se, e somente se nos contar exatamente o que nós queremos. É verdade, senhor, que a tua senhora preparava-te chás de ervas misteriosas para aplacar-te as enfermidades?

Como o homem nada respondesse, o monge fez mais um sinal aos verdugos. Eles baixaram o corpo do acusado lentamente até apoiá-lo pelo cú na ponta da pirâmide de madeira. Com a ponta espetando continuamente o rabo do suspeito, o monge prosseguiu com as perguntas.

- Senhor, é do nosso conhecimento e a sua senhora lhe ministrava doses de um chá feito de ervas desconhecidas para curar-te enfermidades intermitentes. É também do nosso conhecimento que o senhor participou do processo de preparação desse chá. O senhor entende a gravidade dessas acusações? – um sinal aos verdugos.

Os carrascos afrouxaram as mãos sobre as cordas e aumentaram o peso depositado sobre a ponta da pirâmide. E a pressão que a ponta devolvia ao cú do suspeito.

- Nós compreendemos a sua posição, senhor. Não foste o primeiro homem levado pelas mãos por sua mulher ao pecado. – Mas o acusado nada respondia com suas caretas de dor.

Um desagradável cheiro de queimado começou a tomar o recinto. O monge sorriu com o canto da boca. Aproximou-se do suspeito e perguntou num tom levemente mais cruel do que o anterior

- Sentes o cheiro? Este é o cheiro da tua senhora confessando teus pecados junto com os dela. Vou pintar-te a imagem do que se passa naquela sala ao nosso lado. Ela está pendurada, mais ou menos como tú. Mas só pelos braços. O corpo desce reto, perpendicular ao chão. Nua em pêlo. A corda que lhe amarra os pulsos também passa por uma roldana até as mãos de um verdugo como estes que te dominam. Só que abaixo da tua mulher não há o Culla di Giuda, La Veille, como embaixo de ti. Embaixo da tua mulher há um tonel, um caldeirão cheio de azeite fervente. Sabes o que é interessante no azeite? Ele é um tanto viscoso. Entranha na carne. Os danos são irreparáveis. Nós sabemos tratar as bruxas por aqui, senhor. Do jeito que elas merecem. – o homem chorava, mas pela expressão o monge não conseguia distinguir se a dor era pela pirâmide que lhe invadia pouco a pouco o cú, ou se era pelo sofrimento da mulher. – A tua confissão aqui serve para a ela também, você sabe. Então, o senhor quer fazer o favor de nos contar de uma vez por todas o que acontecia naquela casa com esses malditos chás, pra que nós todos sejamos poupados desse cheiro de carne queimada? Diz-nos logo que queria tua senhora com as poções do demônio!

Nada. O homem chorava em silêncio. O monge já um tanto impaciente fez mais um sinal aos carrascos, que suspenderam o corpo do homem o máximo que o aparato permitia. E soltaram numa segunda queda livre, desta vez, sacudindo as cordas e o suspeito no ar de um lado para o outro. O choque seco quebrou as últimas vértebras do cóccix do acusado. Os urros foram altíssimos. O homem desatou a gritar palavrões e blasfêmias, a sacudir-se sobre a pirâmide em meio aos gritos. O monge baixou a cabeça, desapontado.

- Nesse estado, ele não diz mais nada por hoje. Eu tenho uma execução marcada, não posso esperar o escândalo acabar. Mas amanhã minha tarde está livre. Ocupo-me dele então. – sentenciou ao retirar sua presença baixa e atarracada do cômodo.

O cheiro de carne queimada empesteava o ar do edifício. O monge abriu a porta da sala onde interrogavam a mulher com azeite. Levou as mãos ao nariz e à boca, atacado pelo cheiro forte. A mulher estava mergulhada até a cintura no líquido e já perdia a consciência. O monge virou-se para o encarregado do interrogatório e pediu que suspendesse tudo até o dia seguinte.

- Deixe essa bruxa até amanhã na cela se acostumando com as novas pernas que não funcionam, para ver se ela muda de idéia e colabora. – E bateu a porta, sem vontade de assistir ao espetáculo de retirada da moça de dentro do azeite.

Na saída do prédio para o pátio interno, o monge avistou uma cara conhecida. O homem estava escorado em uma pilastra e fitava as pedras do chão, absorto em pensamentos que não pareciam bons.

- O que há contigo, homem de Deus?

O homem ergueu os olhos para o monge, um tanto surpreso.

- Fui escalado para a execução de logo mais, excelência. Mas não sei se posso levar a cabo meu trabalho. Tenho dúvidas.

- Que tipo de dúvidas?

- Não estou seguro de que é certo tirar a vida de uma mulher grávida.

- Grávida de Satanás, homem! Não se esqueça! – o homem baixou os olhos, como se o argumento do monge não fosse ainda suficiente. Então, ele sacou das vestes um exemplar do livro do monge Kraemer e continuou – Está vendo isso aqui? Isso aqui é o nosso guia nesta guerra. Escuta bem, homem de Deus, o que te explico. O Demônio, com a permissão de Deus nosso senhor, procura fazer o máximo de mal aos homens, a fim de apropriar-se do maior número de almas possível no inferno. Mas esse mal é feito através do corpo, que é o único lugar a que o Demônio tem acesso. Lembra-te que o espírito dos homens é governado por Deus. Mas na carne, no corpo, o Demônio pode se entranhar. E ele o faz através do sexo. Foi pelo sexo que o primeiro homem pecou, rapaz. E é pelo sexo o caminho para que os outros o sigam. As mulheres estão essencialmente ligadas ao sexo. É sua principal característica. É dessa forma que elas tornam-se agentes por excelência do Demônio. Afinal, as criaturas que vieram de uma costela torta de Adão estão fadadas a andar errado, não concordas? – o homem parecia seguir a linha de raciocínio, e o monge deu o golpe final em suas dúvidas. – Satã é o senhor do prazer. As feiticeiras ganham seus poderes quando copulam com o Demônio. Poderes terríveis, capazes de causar estragos enormes na vida dos homens e das mulheres direitas. Elas podem causar estragos em colheitas, fazendo oferendas de crianças a Satanás. Podem causar a impotência nos homens, e prender-lhes em ardis que tornam para eles impossível desvencilhar-se de paixões desordenadas. Elas tomam controle da alma e da cabeça dos homens pelo desejo, e lhe consomem a razão dos pensamentos ao lhes impedir de consumar esse fogo. Essa bruxa que vais justiçar hoje não deixou dúvidas durante o julgamento, rapaz. Nem poderia. Mulher solteira, morando com um gato! Grávida. De certo o gato era a forma animal de um desses demônios assistentes, maldito. Mas havemos de encontrar esse bicho também, tú verás!

O sino da catedral tocou suas badaladas de praxe. O monge botou a mão sobre o ombro do homem.

- Vai cumprir tua missão sagrada e salva o mundo desse perigo, rapaz!

O homem sorriu e caminhou junto ao monge até o pátio externo, em cujo centro estava armado um palco de madeira com dois postes cravados lado a lado. Uma pequena multidão se aglomerava a uma distância segura do palco, num burburinho até tímido. Da carceragem, dois carrascos traziam pelos braços a condenada. Tomaram a mulher nua no colo e seguraram-na com a cabeça para baixo, para que os tornozelos fossem amarrados no alto do poste. Amarraram também seus pulsos nos pés dos pilares de madeira. O rapaz que conversara com o monge gordo tomou sua posição às costas da mulher, enquanto outro carrasco estava à sua frente. Cada um dos dois segurou sua extremidade da serra de lenhador, e posicionaram a lâmina entre as pernas da mulher. O monge leu a sentença e deu o sinal.

Os verdugos encostaram os dentes da serra na vagina da condenada e deram início ao movimento. A moça gritava a plenos pulmões, mas não se distinguia palavras no seu urro. Como a posição lhe escorria todo o sangue do corpo em direção à cabeça, pouco sangrava a ferida que lhe partia o corpo em dois. Os condenados nunca morriam antes que a serra lhes atingisse o umbigo. Os mais fortes agüentavam a serra até o peito. A mulher agüentava firmemente, até que metade da sua barriga já estava aberta e ela pode identificar o seu feto, partido em dois pedaços, escorrer pelas suas feridas e bater no chão de madeira. Os gritos então cessaram. A sentença estava cumprida.

domingo, 25 de julho de 2010

Um Conto Pneumático

Era macho. Daqueles que passam fio dental e comem a carninha. Ou melhor, daqueles que não passam fio dental. Tiram a carne do vão entre dentes com o palito, ou com a unha. E comem. A carne, o palito e a unha. A barriga protuberante era só raramente escondida por uma camisa desbotada do flamengo de 95. O numero cinco do argentino Mancuso pintado às costas. Jamais admitiria, mas a verdade dos fatos é que já havia alguns anos que a barriga lhe atrapalhava a ver o próprio pau. As mãos tinham a pele grossa e calejada eternamente suja daquela poeira preta e da graxa dos carros que consertava.

Sentado numa cadeira de assento de madeira que parecia pequena demais para o seu tamanho, assistia sem muito interesse a nova zelândia e eslováquia pela copa do mundo. Na tela da televisão, um amontoado de jogadores brancos com físico de revista de musculação mostravam não ter muita intimidade com a bola, enquanto um narrador sem graça tentava acertar a pronuncia dos seus nomes. O borracheiro olhou de lado para o garoto que lhe ajudava no serviço por uma mixaria. Estava com a cabeça afundada entre os ombros, numa postura entediada. O boné azul com a propaganda de um político corrupto pendurado entre os dedos. Pensou em contar-lhe uma história de quando era caminhoneiro. Pensou em contar aquela da vez em que deu carona pruma mulher na esperança de trepar com ela, e descobriu que era um travesti. Desistiu. Lembrou que os pudores do garoto evangélico não reconhecem esse tipo de humor. A diversão de uma história depende do ouvinte tanto quanto do contador. E a experiência lhe mostrara que aquele ouvinte só reconhecia um tipo específico de história.

Um carro parou na frente da borracharia e o garoto pulou da cadeira animado, enfiou o boné na cabeça e saiu em sua direção. Voltou menos de dois minutos depois. “Aí, preciso de ajuda aqui. A moça pegou um buraco e amassou a roda. Rodou com o pneu murcho e rasgou tudo.” O borracheiro levantou seu corpo flácido com dificuldade. Na frente da loja estava parado um Corolla prata, com o porta-malas aberto. Uma mulher bem arrumada estava de pé ao lado do carro. Parecia bonita. Quando era novo, no furor do ódio juvenil, daquele gosto pela subversão, ele sentia tesão em mulheres assim. Queria comer todas as madames do mundo. Comer com fúria. “Essa aí se eu pego, eu machuco ela todinha.” dizia. Hoje, velho e calejado, com mais derrotas nas costas, as tratava sempre por senhora e evitava olhar no olho e no decote. Uma das portas de trás se abriu, e pularam fora do carro um menino e uma menina. O borracheiro foi até o porta-malas e puxou lá de dentro a roda amassada com o pneu cortado e deixou para depois a calota quebrada.

“Peguei um buraco. Não sei trocar pneu, aí fui assim mesmo até um posto. O menino trocou pra mim.” A mulher explicou.

“Moça, esse aqui não vai ter jeito não. Não tem vulcanização que resolva, tá cortado demais. Aqui só um pneu novo. A gente tem desse pneu aí se a senhora quiser...”

“Mas usado, né?”

“É. Semi-novo.”

“Semi-novo, semi-novo. Porque não falam usado logo de uma vez? É usado mesmo. Isso é pra cobrar mais caro...” Como o borracheiro não respondesse, ela voltou ao que interessava “Quanto sai?”

“Depende do pneu. Tem uns ali pra mostrar e a senhora escolhe. Tem de oitenta reais, de noventa, de cem...”

“O de cem é o mais novo? Pode pôr o de cem.”

O borracheiro levou a roda com o pneu cortado para dentro da loja. Pegou um martelo e puxou uma cadeira para perto do pneu. Sentou-se e começou a martelar o ferro amassado que, bem aos poucos, ia voltando à forma original. O menino entrou na loja e foi direto pra frente da televisão. Em poucos segundos reconheceu em campo o zagueiro de um time inglês que ele acompanhava. A menina sassaricava pelo cômodo, fazendo força para não encostar em nada. Certamente queria evitar sujar-se na poeira preta e na borracha esfarelada que cobria o lugar. A cada porrada que o borracheiro dava no ferro da roda, ela piscava o olho sobressaltada com o barulho. A mãe vigiava cuidadosa, sem movimentos bruscos, mas com atenção completa nos dois filhos. O borracheiro mantinha a cabeça baixa para o seu serviço. Não se permitia olhar a menina que passava pra lá e pra cá, feito um espectro opressor de menos de um metro e meio que lhe atraía a atenção, mas não o olhar.

Quando a roda de ferro parecia redonda de novo, apesar do machucado visível onde amassara, ele deitou-a na desmontadora. À medida que a máquina girava a peça, ele enfiava uma espátula entre o ferro e a borracha, descolando o pneu danificado até soltar. O garoto ajudante buscou um pneu semi-novo no estoque e lhe entregou. Repetiu a operação na desmontadora, agora com o objetivo de montar a roda. A máquina girava a roda de ferro e ele ia encaixando, com as mãos mesmo, o pneu de borracha na circunferência. De frente da televisão o menino comemorou um gol. Da nova zelândia. Um a um. Aos quarenta e cinco do segundo tempo. O menino repetiu essa informação umas dez vezes. Quarenta e cinco do segundo tempo. Incrível.

Com o pneu encaixado, o borracheiro enfiou o bico de um compressor de ar no pneu para calibrar a peça. Levou o conjunto para fora e mergulhou num tanque cheio de uma água preta de fuligem para checar se havia bolhas de ar denunciando um ponto mal encaixado qualquer. Nada de bolhas. Deitou o pneu ao lado do carro. Enfiou o macaco debaixo do veículo e girou a manivela até a roda sem calotas do Corolla sair do chão. Com a chave de roda, retirou os quatro parafusos e desencaixou o step.

“A senhora quer que ponha aquela calota que está no porta-malas mesmo?”

“Ela tá quebrada, né?”

“É, tá machucadinha...”

“Pode pôr, depois eu vejo com meu marido se a gente compra um jogo novo.”

O borracheiro encaixou a peça de plástico e recolocou os quatro parafusos, firmando a roda no lugar. Tirou o macaco debaixo do carro e guardou o step no compartimento abaixo do porta-malas. Fechou a porta.

“Prontinho.”

“Quanto eu devo?” perguntou a mulher tirando a carteira da bolsa.

“Só os cem reais do pneu mesmo.”

Ela sacou duas notas de cinqüenta, lhe entregou e guardou a carteira de novo. Chamou os filhos de volta ao carro, deu a partida e saiu. Ele enfiou uma das notas no bolso. Entrou na loja e estendeu a outra para o garoto.

“É o da semana. Vai pra casa. Eu fecho tudo aqui.”

“Já?”

“É, hoje tem jogo do Brasil.”

O garoto sorriu, foi aos fundos da loja, pegou a mochila e foi embora. O borracheiro guardou as ferramentas que estavam espalhadas pelo lugar, desligou a tevê e empurrou para dentro da loja a estante de ferro com rodinhas que exibia alguns pneus do lado de fora. Puxou a tampa do ralo do tanque e começou a descer as portas de correr. Quando encostou no chão a última delas, passou o cadeado.

Ainda não tinha chegado à primeira esquina quando um garoto franzino lhe apareceu no caminho. Tirou um trinta e oito de dentro da bermuda surrada e anunciou o assalto. Ele espalmou uma das mãos num pedido de calma ao ladrão e enfiou a outra no bolso de trás da bermuda. Puxou os setenta reais que trazia e entregou. O garoto tomou o dinheiro da sua mão e partiu em desabalada carreira. O borracheiro respirou fundo. Assaltado por um pivete a duas quadras de casa. Ia assistir ao jogo do Brasil sem nem uma cervejinha.

domingo, 11 de julho de 2010

Raven Blues

Bateram à porta. Três batidas leves. Eu sabia de quem eram as mãos delicadas a socar a madeira. Não disse para que entrassem, mas me ignoraram o silêncio e entraram. Três mulheres. Esposa e filhas. A cada visita que delas recebo, maior é o esforço que desprendo para lembrar-me disso. Seus nomes há muito já me escaparam da memória.

Enquanto minha esposa me levava à boca colheradas do seu caldo verde, minhas filhas me contavam trivialidades das vidas que levavam do lado de fora daquele quarto. A mais nova me alisava a cabeça já lisa enquanto eu continuava a tentar contar o número de rachaduras na parede sem me perder.

Quando as duas moças deixaram o quarto, ainda me restavam as últimas colheradas de caldo verde. Olhei no fundo dos olhos da mulher que de mim cuidava. Janelas da alma, se é verdade que existe tal coisa, são de fato, os olhos. Os seus revelavam a tristeza que o seu sorriso tentava disfarçar. Eu vi o ar de choro que aquela doce mulher tentava conter. Vi as migalhas de um coração cansado. Vi o desespero mudo do seu olhar.

O caldo verde chegou ao seu fim. Como chegava ao fim aquela tarde. O céu já parecia sangrar quando voltei a ficar sozinho no quarto. Entretive-me a contar as rachaduras das paredes. Quando perdi a conta pela enésima vez, dei-me conta da sua presença. Seu pequeno corpo estava pousado na janela aberta. As penas negras brilhavam e os olhos frios pareciam vasculhar a minha alma. Era um belo corvo. Imponente, amedrontador. Mas, ainda assim, um belo pássaro. “És uma bela ave.”, eu disse. O corvo pareceu aquiescer, mas não desviou o olhar penetrante que me lançava. “Chamar-te-ei Nevermore, se não te importas. É o nome de um dos teus em um poema que li há muito. Se ainda me ajudasse a memória, o declamaria para ti.”. O corvo deteve-se ainda alguns segundos a olhar-me. E então alçou vôo sem nada me responder.

***

Acordei com novas batidas à porta. Uma, duas, “Entre!”, consegui gritar já atordoado com aquilo. Mais uma vez me acordavam no meio da tarde por causa daquele caldo verde. Nesse dia, só minha esposa e minha filha mais nova atravessaram a porta. Explicaram-me que a mais velha teve um contratempo qualquer com o filho, que estava na escola. Explicaram isso tudo antes mesmo que eu perguntasse por onde andava a mulher. Nem mesmo sei se perguntaria.

Minha filha parecia atordoada. Estava claramente distante. Não me importei. Quem mais me chamava a atenção era a mulher sentada à beira da minha cama e seu vaivém incessante com a colher cheia de caldo verde. Vieram tarde dessa vez. A noite já ensaiava a tomada do céu.

O corvo voltou. Dei por ele ao ver os olhos trêmulos de minha filha pousados em suas penas negras. Mas o corvo fitava a mim, não a ela. A mesma postura da tarde anterior. Os olhos frios, fixos nos meus. “Chamo-o Nevermore.”, eu disse. “Como o do poema.”, sussurrou minha esposa. Aquiesci apenas. “Veio ontem me visitar. A esta mesma hora, creio.”. “É horripilante.”, resmungou minha filha. O corvo deixou seu lugar na janela e perdeu-se pelo fim de tarde. Não pareceu ofendido com o comentário.

***

Uma batida apenas, e a maçaneta girou. Apenas uma mulher atravessou o batente da porta. Minha esposa chegou-se perto de mim e pôs o maço de cigarros na palma da minha mão. Eu tremia como tremem os fracos, mas fui, ainda assim, capaz de levar um dos cigarros à boca e acendê-lo com o isqueiro prata que nunca deixava o seu lugar embaixo do meu travesseiro.

“Estás certo de que queres fazer isso?”, ela me perguntou. “Estou já com um pé no mundo dos idos. Não há mais, neste mundo, arma que me possa ferir.”. Ela não pareceu concordar, mas furtou-se de dizer qualquer coisa.

Por todo o tempo em que a olhei, pensei estar olhando alguém conhecido. Mas, de súbito, ao atentar para o passado, dei-me conta de que não reconhecia, naquela mulher à beira da minha cama, a menina com quem casei há tantas tardes. Não reconheci o olhar vivo e admirado de adolescente. Ou os cabelos, outrora longos, que mudavam de cor com as fases da lua. Não, a mulher que eu agora fitava não era aquela menina, mas a mulher a quem eu dizia amar quando me deitava na sua cama depois de possuir outras. Talvez ela soubesse que eu tinha outras mulheres. Talvez tenha aceitado a humilhação por algum motivo. Amor, quem sabe. A verdade era que eu nunca teria a coragem necessária para descobrir. Aquela menina com quem casei saberia. Mas não a vejo mais. E, verdade seja dita, a não ser que minta o espelho e me traia minha mente, o garoto com quem ela se casou também não se faz presente nesse corpo moribundo.

Nevermore retornou. Mais uma vez pousou seu corpo na janela. Os olhos permaneciam imóveis a fitar os meus. A mulher levantou-se. Caminhou hesitante até o corvo e acariciou-lhe a pequena cabeça. Ele não pareceu tomar conhecimento do afago. Insistia em olhar-me frio, como se tivesse algo a dizer. Deteve-se por um tempo maior dessa vez, mas, por fim, ganhou os ares de mais um fim de tarde ainda sem dizer-me o que tinha a dizer.

***

Eu fumava outro cigarro quando ele retornou em definitivo. Apareceu cedo dessa vez, antes de qualquer batida na porta. Antes que qualquer companhia adentrasse o quarto. Antes mesmo que viessem os raios do sol. Não pousou na janela, mas ao pé da cama. Fitava-me de modo diferente. Seu olhar era muito mais que frio, era quase cruel. “Não devias estar a fumar. Não sabes que essa porcaria pode pôr-te fim à vida?”. Sua voz era horrenda. Metálica e rouca, reverberava pelo quarto. Gelou-me o sangue nas veias, aquela voz. O escárnio que traziam aqueles olhos me enfureceu. “Quem és?”, perguntei. “Bem sabes quem sou.”. “Vai-te daqui, demônio! Volta para as sombrias chamas de onde saíste! Vai assombrar outra alma que esta já de assombro não precisa! Vai-te retro pelos umbrais que adentraras!”. O corvo nada dizia. Nada fazia. “Vieste me levar, criatura do inferno?”. Ele se chegou perto do meu ouvido devagar e sussurrou: “Vim. Chegou a tua hora, velho.”.

***

De tudo isso hás de saber, já que de tudo nesse mundo e no outro tens ciência. Mas responde-me, deus de poucos, pra que me torturaste com aquele bicho das profundezas? Por que me levar de súbito, à vista de tão horrenda cena? Vai-te também pro inferno que há de ser teu lugar, se com tanto cinismo me respondes e me torturas! Se era o tormento de minha alma que querias, aqui o tens! Deste-me algo para temer pela eternidade, maldito sejas! Deste-me uma última lembrança que nem mesmo o demônio me concederia. A morte é um prato a ser servido morno. Para evitar o choque do espírito sem corpo. Mas serviram-mo frio. E isso não hei de perdoar.

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Este é um dos primeiros textos que apareceram neste blog, ainda em 2006. Republiquei com algumas modificações graças ao sentimento nostálgico que me gerou uma conversa com fundo de rock n' roll.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Matador

Segunda-Feira, 9h33min
Café com leite. Afoito demais. A bebida me queimou a língua. Não fosse o som dos meus próprios dentes triturando o sanduíche de queijo, o silêncio reinaria naquela cozinha. A torradeira cuspiu mais duas torradas de pão de fôrma. Ela espetou as fatias de pão torrado, uma de cada vez, com um garfo e deitou-as no prato. Sentou-se à mesa de frente pra mim. Raspou a manteiga com uma faca e espalhou aquela gordura pelas torradas. Ela ficava linda naquela camisola preta.

- Tô grávida.

Meus olhos fitavam o café com leite na xícara. E assim permaneceram.

- É meu?

Ela largou os talheres ruidosamente e levantou-se empurrando a cadeira para trás e pisando firme. Bateu a porta do quarto.

É claro que era meu. E é claro que eu não tinha dúvidas disso. Mas o perdão, para ser completo, leva um tempo proporcional ao tamanho da cagada. Mesmo quando se ama com todas as suas forças a autora da cagada. E eu ainda não tinha perdoado completamente.

Segunda-Feira, 10h12min
Entrei na loja com os braços para trás naquela postura de quem procura algo, mas não sabe muito bem o quê. Dona Flora me sorriu de trás do balcão.

- Ô meu filho, quanto tempo. Sumiu...

- É. Muita correria.

- Trabalho?

- Também... – Dona Flora sempre me pergunta sobre o trabalho. Sempre se ando trabalhando muito, se anda difícil. Mas nunca me perguntou o que é que eu faço.

- É, não tá fácil pra ninguém. Então, o que vai ser hoje?

- Aquele buquê de rosas caprichado que a senhora sabe fazer. Vou ser papai.

- Ô, mas que notícia boa!

Ela me levou até alguns jarros cheios de flores pra que eu escolhesse as que eu quisesse. Escolhi seis vermelhas e seis cor-de-rosa. Dona Flora pegou duas vermelhas a mais. Presente, ela disse. Dia de festa, o buquê ia ser mais encorpado. Sorri balbuciando um obrigado. Ela levou as flores até uma mesa nos fundos da loja e começou a preparar o buquê em meio a recomendações sobre o bebê. Olhei por alguns instantes aquela silhueta gorda, os sovacos com pêlos grossos que apareciam na camiseta cavada. O cabelo já ficando grisalho e a verruga horrorosa no queixo. Uma figura hedionda. Mas é um doce de pessoa.

Peguei um dos cartões em branco do balcão, a caneta bic quatro cores que está sempre ali por cima e rabisquei um “Para a futura mamãe mais linda desse mundo, as desculpas de um idiota que te ama.” em tinta vermelha. Meti o cartão em um daqueles envelopes pequenos, onde escrevi o nome dela. Peguei a cartela de adesivos de contra-capa de caderno que Dona Flora usa para lacrar os envelopes.

- Vou escolher um adesivo aqui pra fechar, tá?

- Tudo bem, meu filho.

Segunda-Feira, 15h54min
Eu detesto esse sofá. O couro gruda na pele ao menor sinal de calor. No frio, é gelado de doer. Acho que o Medeiros nunca sentou nele. Por isso que gosta. Ele pousou o fone no gancho com uma expressão contrariada no rosto.

- Essa garota só me liga pra pedir dinheiro.

Estava falando da filha. Que ele ama acima da pose de durão. Olhou pra mim, como que limpando as perturbações da mente, na intenção de ir direto ao assunto.

- E aí, leu?

- Li. - Fechei a pasta que segurava nas mãos e pousei o documento no lugar vazio ao meu lado no sofá. – Não vejo problema. Serviço tranqüilo.

- Ótimo. Quero que você resolva isso o mais rápido possível. É pro senador Magalhães e você sabe que esse corno sempre cobra pressa.

- É um filho da puta, isso sim.

- Ei, deixa desse papo comunista e faz o serviço, falou?

- Já disse que vou fazer o serviço. Mas que o cara é um belo filho da puta, ele é. – Levantei. O Medeiros saiu de trás da escrivaninha e veio abrir a porta pra mim.

- É, mas é esse filho da puta que vai garantir a manutenção daquele teu carrão esse mês. – Ele ficou parado, com a mão na maçaneta da porta aberta me olhando.

- A Mônica tá grávida.

- Não liga não. Pai é quem cria... – respondeu com aquele sorriso de escárnio.

- Babaca. – respondi enquanto atravessava a porta.

Segunda-Feira, 19h17min
Ela entrou em casa trazendo o buquê de rosas nos braços. Passou reto pela sala em direção à cozinha sem me olhar nem de esguelha. Ouvi o som da torneira aberta, depois fechada. Ela voltou à sala com as flores num jarro de água que ela posicionou no meio da mesa de jantar. Sentou-se ao meu lado no sofá.

- Se você acha que eu vou te desculpar toda vez que você for bonitinho depois de me magoar, você tá muito enganado.

Pegou meu braço, passou por seus ombros e pousou a cabeça no meu peito pra assistir ao programa de esportes.

- E o jantar hoje é por sua conta, não tô afim de cozinhar.

Terça-Feira, 16h49min
Entrei no bar já com a boca seca e fui direto ao balcão pedir uma cerveja.

- Rapaz, quem diria! – um tapa nas minhas costas.

Era o Garcia. Não via essa figura tinha um tempão. Me deu um abraço e se encostou ao meu lado. O Garcia salvou minha vida uma vez. A gente foi fazer um trabalho juntos numa boate. Um traficantezinho de merda tava começando a querer voar sozinho, sem o aval dos tubarões da área. O serviço era passar o cara no banheiro da boate. Só que alguém vendeu a gente. Quando entramos no banheiro, o safado tava com mais três putos esperando. A sorte é que o dono da boate tava fechado com a gente e confiscou a arma dos viados na entrada. Assim mesmo eu quase tomei uma facada. O Garcia agarrou o filho da puta quando a lâmina já tava na altura das minhas costelas, pelas costas. Na briga o traficante cortou a cara do Garcia. A cicatriz tá lá até hoje. Mas apagamos os quatro.

- Quais são as novas?

- A Mônica tá grávida, cara.

- Porra, liga não, velho. Pai é quem cria.

Não ri da piada.

- Então suspende a cerveja que a gente vai comemorar direito. – virou pro garçom – traz duas doses de Jack.

- Tenho um serviço pra fazer hoje à noite. Vou ter que fazer vigília, maior merda. Não quer ir comigo não, pra fazer companhia?

- Vou, claro. Onde?

- Num bar. Sol Poente, eu acho. Conhece?

- Conheço. Pé sujo do caralho.

Terça-Feira, 22h01min
Já fazia uma hora que a gente tava tomando conta do cara. Só vigiando de dentro do carro. Jessé Nogueira de Jesus. Vulgo Noguinho. Apelido feio do caralho, mas com esse nome, até que ele não pode reclamar. Pinta de malandro. Chapéu, camisa de botão aberta no peito, tocava caixa de fósforo na roda de samba do boteco. E uma coroa de outra mesa não desgrudava o olho dele.

- Qual é a história desse maluco? – me perguntou o Garcia.

- Comeu a esposa do senador Magalhães.

- Ele e mais uns trinta, ao que parece. Por que só ele que vai rodar?

- Não sei. Vai ver o senador cansou desse papo e resolveu mandar um recado.

- Então o malandro aí só deu azar. Que timing de merda... Tomar no cú também, tem que ter muito amor ao dinheiro pra encarar aquela velha, hein...

Eu ri. Não deixava de ser verdade. Metade da malandragem da cidade já tinha passado a coroa do senador na cara. A outra metade já sabia a senha pra seguir a fila. E o otário do Noguinho ia virar exemplo.

- Garcia, tenho um favor pra te pedir, cara.

- Diga.

- Preciso que você levante pra mim o endereço de um cara lá da repartição da Mônica.

- Porra, por que eu?

- Porque eu não posso. Todo mundo me conhece lá.

- Puta que pariu... Pra que você quer isso?

- Não pergunta. – eu sabia que ele ia perguntar do mesmo jeito. Pedi o favor ao cara, ia acabar tendo que explicar.

- Como assim não pergunta? É ciúme?

- Não.

- É claro que é. Tá escrito na tua cara.

- Tá bom. É.

- Porra, sai dessa. Tú vai ter um filho com a mulher...

Eu respirei fundo. Ia ter que abrir o jogo. Olhei bem pra cara dele e comecei.

- Não é o que você tá pensando, Zé Roela. É que tem um viado na repartição.

- É o cara que você quer saber o endereço.

- É. Mas ele é viado mesmo. Bicha. Queima-rosca, cú frouxo, boiola, baitola...

- Já entendi. Que que tem o viado?

- Comeu a Mônica.

- O viado!?

- É. Faz um mês mais ou menos, eu viajei pra apagar um direitão que tava ameaçando botar bomba num colégio público no interior. Teve uma festa do pessoal do trabalho da Mônica nesse fim de semana. A gente tava meio brigado, ela tava puta comigo. Bebeu pra caralho e achou que seria divertido tentar levar o tal do viado pro caminho da masculinidade.

- Caralho...

- É. E só me contou semana passada. Que deu pro desgraçado do viado, e que tava arrependida, não sei o que...

- E o cara continuou viado?

- Faz diferença?

- Curiosidade.

- Continuou. Mora com um outro cara lá.

- Que merda. E o que você vai fazer com o endereço dele?

- Vou matar o cara, Garcia. O que você acha que eu vou fazer?

- Pára com isso. Tú não ama essa mulher?

- Amo demais. Esse tem sido o problema.

- Então perdoa e segue a tua vida.

- Tô tentando. Mas é difícil pra caralho. Se eu matar o cara, eu sei que melhora.

- Tá legal. Depois me dá o endereço da repartição e o nome do viado que eu arrumo o endereço dele pra você.

Quarta-Feira, 04h58min
Porra, situação esquisita. A coroa do bar levou o Noguinho pra um motel. Eu e o Garcia fomos atrás e pegamos um quarto também. Parada estranha dividir quarto de motel com amigo. Esperamos até dar tempo dos dois caírem no sono. Fui até o box onde estava o carro e passei por baixo do toldo vermelho. Meti a mão na maçaneta. A porta estava aberta. Essas coroas adoram fazer idiotices assim, não sei por quê. Entrei pisando o mais leve que conseguia. E com meus anos de treino, é bastante leve. Subi os dois degraus que elevavam o piso do quarto em relação ao hall de entrada e fui direto em direção à cama. A mulher estava deitada, com o lençol cobrindo parte da nudez. Parecia um sono tranqüilo e pesado. Mas estava sozinha. Olhei pela transparência da cortina e vi o malandro encostado ao parapeito da sacada. Fumando, apreciando a vista da cidade. Afastei um pouco o pano que cobria a janela com o cano da pistola, ergui o braço e puxei o gatilho. O som do silenciador não foi suficiente para acordar a mulher de seu sono embriagado. O corpo de Noguinho caiu no chão da varanda com um buraco no crânio. Catei a cápsula vazia que caiu no chão e fui embora. O serviço estava feito. Só tive alguma pena do transtorno que ia causar àquela senhora.

Quarta-Feira, 17h30min
Entrei sem bater. O segurança já tinha avisado que era pra aparecer rápido. O Medeiros estava sentado atrás da escrivaninha. Tinha o tronco jogado pra frente, apoiado nos dois braços sobre o tampo de madeira. No sofá de couro no canto da sala estava uma mulher. Já tinha alguma idade. Não chegava a ser velha.

- Boa tarde. – disse para a senhora. - Me chamou, Medeiros?

- Chamei, senta aí.

Sentei ao lado da mulher. O Medeiros desandou a falar.

- O negócio é o seguinte. Essa senhora é Cristina Santiago Magalhães. – levantei as sobrancelhas. Ele continuou. – Esposa do senador. Ela conseguiu nosso contato com o motorista do homem. Já sabe que fomos nós que passamos o Noguinho.

Ele deu uma pausa, acho que pra medir a minha reação. Não mudei nem o ritmo da respiração.

- Ela quer que a gente pegue o senador. E quer que seja o mesmo cara que fez o serviço do Noguinho. O que você acha? O cara topa fazer?

- Acho que topa. Vai fazer algumas exigências, você sabe. Passar senador é serviço complicado. – respondi.

- Dinheiro não é problema. – ela adiantou logo.

- Eu sei. Não era de dinheiro que eu tava falando. Mas acho que ele pega o serviço sim.

O Medeiros levantou e escoltou a perua, se despedindo e dizendo que entrava em contato o quanto antes. Quando fechou a porta, virou-se pra mim.

- A velha foi rápida, rapaz. Descobriu que o cara tava morto e já ligou os pontos. Tive que pedir pro pessoal revistar ela antes de deixar entrar e tudo... Então você pega o trabalho, né?

- Pego. Mas é o meu último. É a minha demissão.

- Que papo é esse?

- Minha mulher ta grávida, Medeiros. Não dá pra continuar nesse serviço.

- Porra, tú quer me foder? É o meu melhor, caralho.

- Não dá mais. É muito arriscado. Vou ser pai, caralho.

- Pai eu também sou. E que risco você corre? Os cana são tudo apalavrado com a gente, te cubro em tudo. Porra, cê tá de sacanagem.

- Não dá. – fui contundente. Pra encerrar o assunto. – ano passado quase levo uma facada. Se não fosse o Garcia ter se fodido por mim, eu tinha rodado. Com filho a história muda, Medeiros. Faço esse serviço e tô fora. Como é o senador Magalhães, faço até de graça. Te dou esse bônus de despedida.

- E vai viver de quê, seu puto? Vai estudar pra concurso público por acaso?

- Eu me viro.

Quinta-Feira, 03h42min
Tive que forçar a porta do apartamento. Tava escuro pra cacete, não dava pra ver muita coisa. Quando é assim, eu fico imaginando as coisas. Marca do aparelho de som, da TV. Imaginei a sala dos caras toda decorada. Não entendo muito dessas coisas, mas até que imaginei uma decoração de bom gosto. O quarto eu imaginei tipo um quarto de motel. Cheio de extravagâncias de viado. Soltei meus preconceitos ladeira abaixo sem freio. Fodam-se.

Os dois viados estavam dormindo. De conchinha. Apontei o silenciador pro desgraçado da repartição da Mônica e estourei a cabeça do safado. O outro não acordou. Caralho. Resolvi matar assim mesmo. Acho que desenvolvi uma certa raiva pela classe. Ou só quis ser misericordioso mesmo. Estourei a cabeça do segundo e comecei a bagunçar algumas coisas do quarto, como se procurasse um cofre. Enfiei uma meia dúzia de enfeites sem muito valor no bolso e saí fora de alma lavada.

Sexta-Feira, 9h16min
Quando saí do banho, ela estava me esperando em pé, de braços cruzados, e o jornal em uma das mãos. Não batia o pé, mas balançava a perna direita nervosamente.

- Foi você, não foi? – me acusou já sem conseguir conter o choro nervoso.

- Fui eu o quê?

- Porra, deixa de ser cínico! Você matou os dois!

E jogou o jornal na cama, como se me ordenasse que lesse. Abri o armário e comecei a me vestir sem dar bola para o periódico. Ela sentou na cama e meteu a cara entre as mãos.

- Você disse que me perdoava.

- E perdoei. Não foi você que eu matei, foi?

- Caralho, você não pode ser frio desse jeito.

Foi aí que ela me tirou do sério. Frio eu não podia ser. Se fosse não tinha precisado apagar aquele viado filho da puta. Mas não me alterei. Falei com calma.

- Você ainda vai entender o que eu fiz.

A verdade é que eu queria chorar em certas situações. Mas eu não choro. Nunca. Coisa de filho da puta, eu sei. Mas eu não consigo. Acho que não tem jeito, todo mundo tem que ser um pouco filho da puta pra fazer mal aos outros. E eu vivo disso, afinal de contas. Sentei-me do lado dela e com todo o carinho que consegui reunir, disse

- Olha pra mim. – ela levantou o rosto e me olhou nos olhos – Eu te amo pra caralho. Mas eu não tenho esse coração bom de novela. Eu perdoei você, mas precisava descarregar o ódio. Se tivesse guardado, eu ia ter dificuldades de te olhar no olho pra sempre. Descarreguei. Agora já era. E aquele merda não era exatamente um inocente nessa história.

Ela não se jogou nos meus braços, nem quis me beijar numa feitura de pazes. Mas eu sabia que também já não me achava o monstro de minutos atrás. Ia ficar tudo bem. Ela ia entender.

- Eu matei ele? – ela perguntou entre soluços.

- Não. Eu matei. – dei uma pausa pra informação ser processada com clareza - Vou fazer o serviço do senador hoje à noite. É o último. Já avisei pro Medeiros que depois desse eu tô fora. Depois de hoje é só pensar no nosso filho.

Ela aquiesceu ainda sem me olhar. É, ia ficar tudo bem.

Sexta-Feira, 21h
O safado estava sentado numa poltrona de couro. Um copo de uísque em uma das mãos. Um charuto enfiado entre os dedos da outra. Eu estava seguro, tinha um turno inteiro de seguranças do velho ajudando no serviço. Por isso escolhi usar a doze. Derrubei um enfeite de vidro de propósito às costas do filho da puta. Ele levantou sobressaltado. Olhou na minha cara como se já esperasse que aquilo fosse lhe acontecer um dia.

- Aquela vagabunda...

Foi tudo o que ele teve tempo de dizer. Puxei o gatilho, na esperança de que fosse a última vez na minha vida. O tiro abriu uma cratera no meio da barriga nojenta do cretino. Ele rodopiou feito uma porta-bandeira antes de cair pra trás sem muito tempo nem pra agonizar. Meti a mão coberta por uma luva na maçaneta e fui embora. Os seguranças ficaram de maquiar o lugar. Pra parecer roubo. Essa confusão já não era mais minha. Eu tinha uma família pra cuidar.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sobre a Saudade

...Era como se o teu corpo nu estirado na cama me atraísse o toque por feitiço ou campo magnético. No deslizar da mão pelo teu rosto, teu pescoço. O toque leve que lhe corria o sobressalente osso da clavícula antes de escorrer pelo teu colo. As pontas dos dedos que contornavam o arredondado dos seios, e então os dedos inteiros, a mão espalmada no carinho firme do pressionar a consistência da suave carne mamária. O calor da pele macia encharcada de um suor doce e do carinho que descia pela barriga ao encontro do perfeito triângulo do teu púbis. Os dedos que se apertam e enroscam entre os pêlos, tão negros, e a pele fina do teu sexo num escorregadio afeto. E de novo o toque da mão espalmada que lhe aperta as coxas e corre o liso das pernas.

Eis que a carne se dissolve no toque, evaporada num desamor úmido e atormentado. O calor da presença esfria e o arfar da respiração cala. O peso do corpo já não marca o colchão. O vazio físico, já sem cor, sem nada, é um abismo infinito, de peso insuportável. E assim mesmo não se faz digno de comparação com o vazio que me apunhala a alma quando o travesseiro já não guarda mais o teu cheiro...

terça-feira, 23 de março de 2010

Serviço Sujo

Tranquei a porta do apartamento pelo lado de fora. Apartamento apertado de quarto e sala num bairro de classe média alta. Já faz duas semanas que encosto minha carcaça aqui. O preço do aluguel é uma escrotidão, mas não sou eu que estou pagando. Não pagaria tanta grana por essa lata de sardinha. O chefe acha que o serviço vale o preço, azar o dele. Desci os dois lances de escada e acenei para o Ivan quando atravessei a portaria. Ele não estava acostumado com cumprimentos dos moradores.

Na maior parte do tempo, não tem gente andando pelas ruas do bairro. Carro tem de monte. O tempo todo. Ônibus é raro, apesar das trocentas paradas para eles distribuídas pelas quadras. Ontem o Ivan me disse que costumava ter bastante van. Mas esse último governador tirou essas merdas de circulação. Só quem usava era aquela gente desimportante que limpa as privadas dos homens com a caneta na mão. Esse povo não se importa de esperar pelos ônibus de hora em hora.

Gente mesmo só aparece na rua em hora marcada. De manhã, lá pelas sete, sete e meia, as calçadas e os gramados centrais que dividem a autopista são tomados pelas hordas de empregadas domésticas chegando às casas dos patrões. Uma multidão de mulheres de pele dura, escura. Cabelos arrumados, apesar de mal cuidados. A maioria ostentando varizes nas pernas de aparência cansada. Trazem, penduradas nos ombros, bolsas de couro falso. Às vezes só uma sacola plástica de supermercado com uma muda de roupa. O olhar aceso, de quem está acordado há horas. Os empregados do pouco desenvolvido comércio local são poucos, misturados nas mesmas hordas.

Pouco mais tarde. Nove e meia, dez da manhã, a diferença é flagrante. Nas calçadas pipoca uma outra gente. Velhos advogados ou engenheiros de sucesso, fazendo sua caminhada habitual para manter a saúde. Peruas e coroas menos chamativas vivendo do dinheiro de outros advogados e engenheiros de sucesso. Gente mais nova. Aquelas esposas, de corpos bem formados, de empresários da nova geração. O ar petulante de quem nunca fez nada por ninguém na vida. De quem já nasceu ganhando. Similar, o olhar e os corpos, ao das filhas de juízes, desembargadores e arquitetos. E saem os novos empresários e advogados com seus torsos nus e musculosos, e a expressão pós-moderna na cara de quem assiste aos programas sobre sexo nas madrugadas da GNT. Saem também as versões femininas do novo profissional de sucesso. Mulheres seguras, de corpos bem construídos que tomam suco de clorofila e gostam de ser escravizadas e abusadas na cama, cansadas que estão de sua posição de poder no mundo lá de fora. É um desfile do padrão de beleza. Os únicos que se dão ao direito de mostrar-se pela rua com pelancas e barrigas salientes são os mais velhos. A juventude que não ostenta beleza de modelo não mostra as curvas por essas calçadas.

***

Já era fim de tarde quando voltei à portaria do prédio. Naquela hora em que de novo as calçadas e as paradas de ônibus são ocupadas pelo proletariado doméstico, agora na romaria de volta. Antes da metade do poder saudável que não conseguiu tempo para sair pela manhã tomar seu lugar no início de noite. Era o final do turno de doze horas do Ivan. O salário corresponde ao turno de oito, como determina a humanitária lei trabalhista. Encostei-me no balcão com aquela postura de quem espera o tempo passar.

“Jogou feio o mengão ontem, né não?”

“Tú não tem cara de rico.”

Chega me assustei. Ele continuou.

“Não que seja da minha conta. Mas tú não tem cara. Nem jeito. Não é coisa de rico bater papo com porteiro todo dia.”

“E aqui só mora rico?”

“Não. Mora gente também. Não me leva a mal, tú até que é um bom papo, mas é que é estranho tú tá aqui todo dia trocando idéia comigo.”

“Não sou rico não. Sou empregado que nem tú. Quem paga o aluguel do apartamento é o meu patrão. Tô aqui só fazendo um serviço pra ele. Quando acabar, volto pra casa.”

“Que porra de serviço? Conhecer o porteiro?”

“Haha. Não posso contar. Tem nada a ver contigo não. Só que boa parte do serviço é esperar. Gosto de falar contigo enquanto espero.”

“Papo de bandido do caralho...”

Eu sorri. Ele não estava de todo errado.

***

A porta abriu sem ranger. Consertaram aquela merda. O chefe levantou-se de trás da mesa e veio apertar a minha mão. Apontou o jogo de sofás no canto da sala. Eu sentei em um. Ele desabotoou o paletó com o broche do partido e sentou-se no outro sofá, me olhando com aquela cara de me conta tudo, não esconda nada.

“O garoto não tem limites. Às vezes aquele apartamento é puteiro, às vezes é salão de festa, às vezes boca de fumo. Às vezes é tudo ao mesmo tempo.”

Lhe entreguei o envelope pardo que trazia nas mãos.

“Aí tem foto, tem umas anotações, tem tudo. O pai, o deputado, sabe de tudo. Banca tudo, às vezes até participa. Um dia foi pra lá com três garotas. Deviam ter uns quinze anos. Tavam com cara de que tavam cheiradas. No dia seguinte o vizinho de baixo disse que ouviu uns gemidos, uns tapas. Tirei foto dele chegando e saindo.”

“Quer dizer que ele alugou o apartamento pro filhão, mas pega emprestado de vez em quando...” O chefe sorria, saboreando a vitória que despontava no horizonte.

“Teve um vizinho que chamou a polícia numa das festas do moleque. Ele ligou pro pai, o deputado chegou deu uma carteirada, uma grana, e a polícia meteu o pé. A festa continuou. Não tenho foto do dinheiro. Depois que a polícia saiu, ele entrou no apartamento do vizinho que chamou os home. Não sei o que eles conversaram. Mas isso ta tudo anotado nesses cadernos aí. Aquela reunião que deu no jornal, que ninguém sabe se existiu? Do plano das imobiliárias lá?”

“Sei.”

“Existiu. Consegui a foto da maioria. O garoto chegou umas duas horas depois que a reunião começou. Levou umas cinco meninas. Não vi a hora que acabou.”

“Ótimo.” O sorriso era largo. Ele se levantou num gesto claro de que a conversa estava no fim. Também me levantei. Ele me acompanhou até a porta dando tapinhas nas minhas costas.

“Vou ler esse material todo e depois a gente conversa melhor. Esse direitão vai se foder na minha mão, você vai ver. É uma coisa que o tempo no sindicato me ensinou, que todo mundo tem podre, é só procurar direito. Esse filho da puta vai desistir rapidinho dessa história de ser governador. Se conseguir outro mandato na câmara já vai estar no lucro.” Ele sorria pra mim, procurando aprovação. Eu sorri de volta. Tomara que aquele porco se foda mesmo. Mas o chefe não sabe que eu anulo meu voto.

domingo, 7 de março de 2010

Canis rugaris

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/06/canis-rugaris.html

“SUAVE MARI MAGNO

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.”

(Machado de Assis)


Gozou e tirou de dentro rapidamente. Não era daqueles que ficavam enganchados depois de trepar. Lambeu vagarosamente a vulva quente de sua amante. De dentro dos carros parados no sinal de trânsitos algumas pessoas apontavam, comentavam, algumas riam. Outras simplesmente ignoravam a cena. Saciado, desceu do concreto quente da calçada em frente à loja de materiais de construção e deitou-se encostado ao pneu de um dos carros estacionados junto ao meio-fio. Aquela sombra era conforto merecido num dia quente como aquele. Pousou a cabeça preguiçosamente sobre as patas dianteiras não sem antes lamber a ferida purulenta que trazia aberta no membro direito. Dormiu apreciando o cheiro de óleo.

Despertou com o tremor do veículo. O cano de descarga vomitou uma fumaça preta e o cheiro de gasolina deu o sinal. Pulou para fora da sombra que lhe abrigava o corpo raquítico de pêlos queimados e fedorentos. Voltou à calçada e caminhou pelo concreto como se tentasse decidir a direção que tomaria. A liberdade em dosagens extremadas tem a característica de dificultar escolhas. Com os caninos não é diferente.

Decidiu que tinha fome. Não era muita, mas o suficiente para caçar o que mastigar. Caminhou sem pressa. Contrariando o hábito mais comum de sua espécie, trazia a língua guardada dentro da boca fechada. Na frente do açougue que costumava rodear, passeou entre as poucas pernas que ocupavam o local. Nunca conseguia agrado dos clientes. O que não lhe impedia de rodear-lhes com o focinho atento. Talvez gostasse de ver o desconforto e algumas caras de nojo que despertava. Quando a loja se viu vazia de consumidores, um dos açougueiros lançou um pequeno pedaço de músculo na sua direção. Freqüentador antigo do açougue, mais antigo e fiel que muitos dos clientes, sua presença habitual era premiada com esporádicos pedaços de carne. Prendeu entre os dentes o pedaço que lhe foi oferecido, deitou-se na porta da loja e pôs sua aparência doentia a mastigar a comida.

***

A noite chegou tão quente como o dia que a precedia. Nos becos com cantos de parede cagados, alguns mendigos jantavam lixo e o chorume lhes escorria pelas barbas grossas e compridas. Alguns outros cães acompanhavam o mesmo cardápio. Uns pivetes cheiravam cola ou vasculhavam bolsas recém roubadas na esperança de achar algo que eles pudessem trocar por uma pedra para seus cachimbos de durepox.

No bar em frente e nas bibliotecas, intelectuais afeminados, impotentes ou naturalistas de pêlos nos sovacos gastavam seu suposto poder intelectual para explicar as coisas. Quaisquer coisas. O tesão estava no exercício, não no resultado. Bêbados do álcool e de seus egos. Cegos. Eles nunca viram as tripas da cidade. Nunca viram as entranhas do mundo. E nunca verão.

No canto do asfalto, a carcaça do cachorro fedia aberta no meio. A marca de pneu sobre o abdômen esmagado. Os pedaços do que lhe sobrou das vísceras espalhados. O fluxo de carros não diminuiu por sua causa. Os transeuntes se detiam por instantes. Pareciam interessados no aspecto estético da cena. Não pareciam formar opinião. A criatura que viveu na mais utilitária filosofia. Que quando algo encontrava que não pudesse comer ou foder, mijava em cima. A criatura que conheceu as tripas da cidade, agora lhe exibia também as suas. Morreu sem dar sentido à vida que viveu sem objetivo. Mas a cidade não parecia se interessar.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A César o que é de César...




Ah, o regozijo justificado...

Justo agora que eu perdia a fé que algum dia esse sistema me faria sorrir, o judiciário me apronta essa delícia...

Sem palavras para descrever o profundo gozo que experimento agora.

Vai fazer parte do bloco d"O Quê eu Vou Falar em Casa", daquela galera que sai na quinta-feira à noite e só volta na quarta-feira de cinzas.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Caixão Lacrado

Quarta-Feira, 19h

“Achamos o garoto.”

A notícia vinha como uma rajada de ar congelante no estômago. Acharam. As perguntas que seus olhos faziam eram “Onde?” e “Em que estado?”. A segunda pergunta vinha com uma continuação subentendida que ela não ousava pensar com clareza: “Vivo ou morto? Inteiro ou partido?”. Nenhuma delas foi respondida de pronto. Não diretamente, ao menos. Mas o tom fraco da voz ao anunciar a notícia e a pausa que seguiu o anuncio não eram bom presságio. Os movimentos das mãos foram ficando pesados, controlados demais. À beira do descontrole, na verdade. As pernas ameaçavam falhar. Os olhos explodiram em lágrimas que rasgavam a pele como canivetes. Um nó do tamanho de uma laranja se formou na garganta. Não passava nada. Nem voz, nem ar, nem choro. Nem os quarenta e cinco palavrões que conseguiu pensar. Nem o pedido para que a agonia se acabasse. Não conseguiu perguntar se o filho estava vivo ou morto.

O homem parado à sua frente compadeceu-se. Engoliu em seco o resto de hesitação e, vacilante, escolhendo bem cada palavra, sacramentou a má notícia. “Ele morreu. Achamos o corpo no iemeéle. Estava lá já tinha dois dias.”. Ela não perdeu o controle. O golpe foi duro. E foi assimilado. Sentou-se no sofá às suas costas com os membros tremendo levemente. Mas com mãos ainda capazes de acender um cigarro. “E agora? O que eu preciso fazer pra enterrar o meu filho.”

***

Segunda-Feira, 16h

O ombro apoiado na porta da padaria. Mastigava uma das pontas de um palito de dente. O sol rachava lá de cima, o calor batia no asfalto e refletia nos corpos de quem estivesse pelo caminho, arrancando litros de suor quente. Viu um táxi estacionar do outro lado da rua. O movimento era pequeno. Algumas pessoas passavam pela rua principal, perpendicular. Mas naquela pequena travessa, não havia mais ninguém.

Ele aproximou-se do carro. Parou ao lado da porta do motorista enquanto um homem com aparência velha descia. Os cabelos grisalhos, a barriga saliente, o bigode de pêlos grossos, negros mesclados com brancos. A camisa trazia os primeiros botões abertos, e uma corrente pendurava em meios aos pêlos brancos de seu peito uma medalhinha de ouro.

Quando o homem jogou o corpo para fora do carro, o garoto cravou-lhe a mão na parte de trás da gola da camisa e o empurrou no chão. Antes que o taxista pudesse compreender bem o que estava acontecendo, sentiu a mão do garoto tomar-lhe as chaves que estavam no bolso da camisa. O homem se arrastou um ou dois metros para o meio da rua e o garoto arrancou com o táxi, dobrando na avenida principal, na orla da praia.

Sem muita objetividade, sem tomar um caminho muito reto, o garoto dirigiu até a estrada. Como as cidades são bastante próximas nessa região do estado, tomou o rumo de casa, mas gastou tanto tempo quanto pode, sem conseguir decidir onde esconderia o carro até o dia seguinte. As estradas não costumam ser muito cheias nos dias de semana. A direção era tranqüila. Algumas horas mais tarde, entrava com o carro na rotatória que dá acesso à cidade.

Os minutos passavam arrastados e as ruas tinham pouco movimento. Na pista que seguia a direção contrária, vinha uma viatura de polícia em baixa velocidade. Cruzaram-se, o táxi e a viatura. E o retrovisor do garoto mostrava os policiais fazendo um retorno bem atrás dele. O pé esquerdo afundou a embreagem, a mão direita trouxe o cambio para uma marcha menor. O pé esquerdo voltou e o direito forçou o acelerador o quanto podia. A viatura o perseguiu. A alta velocidade embaralha as coisas, a pouca claridade as esconde. Por alguns minutos, ele conseguiu contornar as adversidades. Mas à frente no tempo e no destino, havia uma curva. E ele passou reto. Uma árvore lhe segurou com toda a sua força. A árvore quebrou vidro e quebrou osso. Retorceu ferro. E retorceu carne.

Os policiais chamaram uma ambulância. Procuraram, mas com o garoto não havia celular, não havia documento que fosse. Nem uma pista. A ambulância o levou direto para o hospital, onde chegou vivo. E saiu morto. Direto para o instituto médico legal. O mais novo habitante de um gavetão. Um gavetão de uma instituição mal-cuidada e que cuida mal. Sobretudo dos que não têm voz. Um gavetão que tantos outros já acolheu em seus braços podres.

***

Quinta-Feira, 15h

O sol castigou a cerimônia sem trégua. Os choros eram muitos, mas silenciosos. A resignação parecia ter feito ninho naqueles peitos castigados. Nunca há muito que se possa dizer em horas assim. Por mais que haja quem teime com essa verdade, não há muito a se dizer. Basta olhar com algum cuidado o rosto da mãe que enterra seu filho com caixão lacrado pra que os vermes que já lhe saem pelos buracos do corpo não venham freqüentar a festa. Não há cadeia de palavras em língua nenhuma capaz de ser mais eloqüente que o corpo dessa mãe. Assim como não haverá remédio para a ferida purulenta que se abre nesse momento. Quem disse uma vez que o tempo cura tudo, nunca sofreu dor de verdade.