sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A Copa da Tradição

Terminaram as Eliminatórias para a Copa de 2010. O torneio do ano que vem será marcado pela tradição. Os sete campeões mundiais estão classificados, além de seleções com história na competição, como Espanha, Holanda, Portugal, Camarões, Paraguai. Só uma das trinta e duas seleções classificadas disputará uma Copa do Mundo pela primeira vez. A seleção da Eslováquia. Sinal dos tempos. O leste europeu mostrou, nestas eliminatórias, o motivo de suas seleções fazerem boas campanhas nas copas da guerra-fria. A Eslováquia classificou-se sem a necessidade da repescagem. Sua irmã República Tcheca, dessa vez ficou pelo caminho, mas não esqueceremos a seleção Tcheca da Copa e da Eurocopa passadas. Bonito de se ver. A Rússia caiu para a Eslovênia. Pena, mas é um país do Leste por outro. A Ucrânia foi até a repescagem, mas infelizmente perdeu a vaga para a Grécia. Não hei de esquecer também as belíssimas seleções da Romênia de 94 e da Bulgária de 94 e 98. E da antiga Iugoslávia, Sérvia e Eslovênia se classificaram. A Bósnia vendeu caro sua vaga para os metro-sexuais de Portugal na repescagem. A Croácia, que já abocanhou um terceiro lugar em 98, ficou pelo caminho, mas não pagou mico. Imaginem o que não faria a seleção da Iugoslávia se não tivesse sido desmembrada? Com uma seleção dessas seleções e o Petkovic de camisa dez? Eu, por exemplo, torceria por eles na Copa.

As seleções mais tradicionais da África, que ficaram de fora do Mundial passado, dessa vez não deram mole. Camarões e Nigéria estão de volta. Junto com as fortes seleções de Gana e Costa do Marfim, e as figurantes Argélia e África do Sul. Seis representantes do continente africano. Um recorde a ser exaltado. Na Copa da inclusão comedida, onde a África do Sul serve de escape para se chamar o mundial de “Copa da África”. A Copa é da África mesmo, do continente. É a primeira por lá. Mas vocês, senhores suíços da Fifa que querem proibir a paradinha nos pênaltis, não enganam ninguém. Todo mundo aqui sabe que esse papo de “Copa da África” e não “Copa da África do Sul” vem daquela idéia mais velha que o futebol de que na África, assim como os pretos que nela vivem, é tudo igual. Por essas e outras, ano que vem quebrarei minha tradição individual. Vou deixar de lado minha eterna torcida pela Holanda. Vou torcer pela África. Assim, como os velhos caquéticos da Fifa gostam. Pela África. Por qualquer dos seis países que conseguir o feito inédito de dar o título mundial não só para um país fora do eixo Europa-América do Sul, mas para um país africano. Vou torcer pela colônia. Seja inglesa, seja francesa. Se o bonito futebol holandês merece ganhar, um dia, uma Copa, o futebol africano merece ainda mais. Merece, dentro da sua casa, rugir na cara pálida dos atuais donos do futebol: "Aqui quem manda é a gente!"

Os jogos da repescagem foram ruins no geral. Tanto como futebol como pelos resultados. A camisa pesou na maioria dos casos, mas em alguns foi uma pena. A mão de Thierry Henry matou um cruzamento e empatou o jogo para a França. E tirou da Copa o povo irlandês que eu tanto admiro. Os bósnios montaram uma seleção forte, repleta daqueles coadjuvantes muito bons dos principais times do centro do futebol europeu. Um time que sabe jogar com a bola no chão. Domina, dribla e passa bem. Mas um time muito novo. A experiência e a técnica mais refinada dos metro-sexuais colonizadores da seleção de Portugal falou mais alto. Dois jogos duros. Dois gols de Portugal, um em cada jogo. E três bolas bósnias na trave portuguesa.

A seleção da Rússia jogou um futebol bonito. Tem uns dois ou três craques de bola no time. Arshavin é o principal deles. E venceu o primeiro jogo, em casa, por dois a um. Mas subiu no salto e perdeu o segundo jogo por um a zero. Acabou desclassificada pelo critério mais ridículo já inventado no futebol. O gol fora de casa que, como dizem alguns comentaristas mestres em matemática, vale por dois. Uma pena. Espero que a Eslovênia faça um bom papel.

Grécia e Ucrânia fizeram os dois jogos mais chatos da repescagem. Duas seleções burocráticas e retranqueiras. Infelizmente passou a pior das duas. A Ucrânia é uma seleção dura, joga feio, e se defende mais do que ataca. Mas perto da seleção grega, é um ícone do futebol arte. Os gregos são ridículos, e da mesma forma ridícula que venceram a Eurocopa de 2004, se classificaram agora para sua segunda Copa do Mundo. Horrível. Se repetir a campanha de 94, terá feito seis jogos em mundiais, perdido os seis e marcado zero gols. Patético.

Na África e na América do Sul, tivemos aquele futebol literalmente brigado que caracteriza as duas escolas. A guerra entre Argélia e Egito no Sudão terminou com a seleção mais fraca de futebol, mas mais forte no psicológico, vencedora. A Argélia vai à Copa, muito provavelmente, fazer figuração. Ninguém garante que o Egito fosse fazer papel melhor, mas o time sabe mais de futebol. Isso é indiscutível.

O primeiro campeão do mundo, o Uruguai, eliminou a Costa Rica no estilo uruguaio de se jogar futebol. Um time talentoso e desorganizado. Raçudo, brigão, catimbeiro e lindo de se ver jogar. A Costa Rica é dirigida por Renê Simões. O que diz muito sobre um time na hora das decisões. E a celeste olímpica honrou a camisa.

Por último, a Nova Zelândia passou pelo Bahrein. Ninguém prestou atenção. Ninguém lembra. Ninguém ligou.