sábado, 24 de outubro de 2009

Noir Bom Tem Cheiro de Café e Gosto de Cigarro

*I

Ela falava nervosamente, sem parar. Descarregava um caminhão de informações em cima de mim com aquela fala chiada, dificultando meu entendimento da situação. Só respirava quando precisava se concentrar para engolir um gole do seu café, ou o choro que teimava em interromper sua narrativa. Era difícil me concentrar na história que ela contava. Eu não conseguia parar de olhar para aqueles lábios vermelhos movendo-se tão rápido, deixando um rastro azul da fumaça do cigarro. Ou o queixo delicado, que se encolhia toda vez que sua voz embargava e os olhos azuis enchiam-se de lágrimas. Eu não podia ver uma mulher chorando. Levantei a mão espalmada num sinal para que ela parasse de falar. Ela parou. Tomei mais um longo gole de café.

“Moça, a senhora me desculpe, mas eu não sou o Humphrey Bogart. Isso aqui não é um filme americano dos anos quarenta não.”

Ela me olhou como se tivesse dificuldade de entender o que eu acabara de dizer. Os olhos azuis apertados, mirados direto dentro dos meus. A testa franzida e as sobrancelhas ligeiramente levantadas. Que rosto lindo. O cotovelo direito apoiado na mesa, sustentando o antebraço esticado para cima, mantendo o cigarro preso entre os dedos finos e longos, próximo à boca vermelha. Que mulher linda.

“O que, exatamente, o senhor quer dizer com isso?”

Respirei fundo e tirei um cigarro, três vezes mais vagabundo que os dela, de dentro do maço amarrotado que trazia no bolso da camisa. Levei calmamente o cilindro à boca e o prendi entre os lábios. Sem babar. Detesto quem baba no cigarro.

“Quero dizer que não sou um detetive particular desses durões de queixo quadrado que a gente vê nos filmes por aí.” – risquei o isqueiro e acendi um dos meus vícios – “Quando a senhora me pediu ajuda para encontrar sua amiga, me meter com bandido não era exatamente o que eu tinha em mente. Essa gente é perigosa. Eu fui polícia.”

“E o que o senhor tinha em mente, então?”, a pergunta veio num tom meio cantado, diferente da fala chiada que fizera questão de exprimir até então. Veio como um ataque direto à minha masculinidade. Um jeito elegante de me chamar de frouxo.

“Dar alguns telefonemas, ir a alguns abrigos, hospitais. Coisa muito mais simples do que a senhora tá me pedindo.”

Ela baixou a cabeça num misto de decepção e resignação. Fitou sua xícara por alguns instantes. Correu o dedo indicador acompanhando os detalhes dourados pintados na porcelana branca. Os cachos louros de seu cabelo escorreram para o seu rosto, mas não esconderam por completo as lágrimas que começavam a escorrer por suas bochechas. Tentou disfarçar o choro virando o rosto e fingindo que olhava alguma coisa pela janela da cafeteria no vigésimo andar daquele prédio comercial. Merda. Não posso ver uma mulher chorando. Eu ia ceder.

“Tá legal. Eu procuro a moça. Procuro da maneira que eu puder. Da maneira que for necessária. E prometo que encontro. Mas a senhora precisa me ajudar. A senhora me dis...”

“Você.”, um sorriso. Estava funcionando.

“Você me disse que ela só tinha a mãe. Eu quero conversar com essa senhora. Preciso que você me dê todas as informações possíveis sobre a moça e sobre as pessoas com quem ela estava metida. Mas não vai sair barato.”

“Se o senhor encon...”

“Você.”. Ela sorriu.

“Se você encontrar a Nina, o investimento vai ser bem feito. Eu só quero a minha amiga de volta. Quanto o senhor cobra?”

“Não sei. Depende do cliente. Ainda estou pensando no seu caso.”

“Pago cem por dia.”

“Moça, nesse serviço nem toda a grana fica pra gente. Às vezes a gente não acha quem dê informações. Mas sempre acha quem venda.”

“Cento e cinqüenta.”

“E a gasolina?”

“Mais a gasolina. Contanto que você não dê passeios demais às minhas custas.”

Eu sorri, para mostrar que entendera o trato. Eu estava fazendo uma puta besteira. E sabia muito bem disso. Ia me arrepender seriamente de ter me metido nessa confusão. Meu estômago já dava saltos gelados na minha barriga. Não tinha certeza de que minhas pernas me responderiam, se tivesse que levantar dali naquele momento. Mas, o que mais eu podia fazer? Não podia ver uma mulher chorando.

“Falo com a dona Leda ainda hoje. Combino esse encontro e te aviso.”

“Combinado. Você tem meu telefone.”

“Agora preciso ir. Obrigada por fazer isso.”

Eu sorri, como quem diz ‘Não é nada. Sempre arrisco meu pescoço por mulheres bonitas que não conheço direito.’ Ela levantou-se. O vestido de seda branca era justo com suas curvas. Um corpo delicado, e ao mesmo tempo sólido. Não consegui evitar uma olhada para suas coxas grossas, em cuja metade o seu vestido terminava com uma faixa de transparência maliciosa, daquelas que prometem visões do paraíso, mas acabam antes do recheio principal. Era linda. O tipo de mulher que sabe que é linda. E que se aproveita disso. Provavelmente era o que ela estava fazendo comigo. Não que eu me importasse.

Ela estalou um beijo na minha bochecha e sussurrou um até logo, colocando os óculos escuros no rosto. Pela grife dos óculos, sua conta bancária era invejável. Segui seu rebolado com os olhos até que ela saísse da cafeteria. Tirei a agenda do bolso da camisa procurei o nome do Guedes. Pedi ao garoto cheio de espinhas na cara que passava um pano no balcão de madeira para usar o telefone.

“Interurbano ou local?”

“Local.”

“É um e cinqüenta o minuto.” Disse tirando o aparelho de trás do balcão e colocando-o à minha frente. Eu aquiesci.

“Alô?”, aquela voz pastosa de quem estava dormindo. Ou trepando.

“Alô, Guedes? Te acordei?”

“Mais ou menos. Que horas são?”

“Onze da manhã já, seu cretino.”

“Porra.”

“Tá afim de almoçar comigo?”

“Pode ser.”

“Beleza. Te busco aí antes de uma da tarde. Tenho uma história pra te contar”

“Combinado.”
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*Primeiro capítulo de uma história ainda sem título que pretende ser um Romance Noir um dia. O resto está na cabeça. Quem sabe um dia não vai para o papel...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Raça, Amor e Paixão

Caralho!, ele pensou, Tenho que fazer tudo sozinho. Os tricolores comemoravam. Filhos da puta. Dentro da sua casa. Na frente da sua nação, do seu povo. Dos seus súditos. Os tricolores vieram, se encolheram, se apequenaram, tomaram sufoco. E na única subida ao ataque os putos marcaram. E essa porra desse goleiro mascarado não colabora. Isso lá é jeito de sair do gol, cacete! Vagabundo. Nunca ganhou bosta nenhuma na vida e já subiu no salto. Essa nova geração do futebol tem muito o que aprender. Geração de porcelana. Frescuras demais. Cortes de cabelo de viados demais. Chuteiras coloridas demais. E futebol pouco. Caráter, menos ainda.

Tudo bem. O Rubro-Negro não é time de morrer de véspera. O camisa dez, que humildemente trazia o número quarenta-e-três às costas, caminhou lentamente na direção do próprio gol. Enquanto os adversários comemoravam o gol marcado e se abraçavam na lateral do campo, ele entrou debaixo das traves, pegou a bola debaixo dos braços e caminhou. Lentamente, sem pressa, ele caminhou na direção do círculo central. A todos os companheiros que o olhavam com algum desespero, alguma agonia apressada, ele respondia com um olhar calmo. Inabalável. Passo em baixa velocidade após passo, crescia a aura de confiança em torno daquela figura. A certeza de que o jogo não acabaria daquele jeito. Sua postura e seus olhos azuis transpiravam a mensagem de que eles virariam aquele jogo.

Baixou a bola na marca que dividia o campo de jogo ao meio. Deu alguns passos calmos para fora do grande círculo e fez um leve sinal com a cabeça para que o Zé e aquele cara meio grosso com a camisa nove reiniciassem o jogo. Eles rolaram a bola, Zé rolou para o maestro. Ele pisou na bola e levantou a cabeça com a frieza, não de quem tem fé ou acredita, mas de quem sabe que enquanto o árbitro não soprar o apito, há tempo de sobra para se decidir um jogo.

O time respondeu ao comando. Partiu para cima, sufocou o adversário ainda com mais força do que havia feito antes de sofrer o gol. O lateral armador rubro-negro, aquele baixinho de sangue quente espanhol, pegou um rebote do goleiro. Emendou de primeira com o pé direito, que não é o bom, e o zagueiro salvou em cima da linha. Mais tarde, o cara meio grosso da camisa nove ajeitou uma bola pra trás e o lateral direito reserva - que não é craque, mas é sério e entende o espírito do time em que joga - acertou um foguete de pé direito. O goleiro pegou. Quando o relógio anunciava aos gritos o último minuto do primeiro tempo, apareceu uma falta dois passos à frente da linha do meio-de-campo. Foi a vez dele. O gringo camisa dez, que joga com a quarenta-e-três por humildade, ajeitou a bola. O time foi todo para a área do adversário. Ele bateu com os três dedos. Daqueles lançamentos que os comentaristas esportivos mais velhos tanto sentem saudade de ver. A bola atravessou metade do campo. E encontrou, perfeita, a cabeça do quarto-zagueiro, um nordestino magricelo e meio baixo que sangra sem remorso pelo time preto e vermelho. A cabeçada pôs a bola na direção exata do canto inferior do gol. Primorosa. O goleiro saltou e deu-lhe um tapa assustado. Escanteio. A sorte não estava do lado dos pobres nesse dia.

***

Só sabe o que aconteceu naquele vestiário quem estava lá. Felizes eles não estavam. Mas duvida-se muito, a ponto de ter gente que aposta a mãe nisso, que tivesse alguém cabisbaixo. Porque o Rubro-Negro não é disso. E o líder desse time não é disso. Certamente ele não falara muito. No Flamengo, não há necessidade de se falar muito. Quem naquele time entende o espírito da coisa, se mata no campo de jogo sem precisar ser convencido por ninguém de que esse é o melhor caminho. Simplesmente sabe. Aqueles que não entendem isso, passarão pelo time, como tantos outros passaram, e serão esquecidos. Alguns talvez ainda façam sucesso em algum outro lugar mais fácil.

Ele certamente se lembrou dos seus tempos de garoto. Da sua estréia como profissional, aos dezesseis anos, com a camisa vermelha do Radnički Niš. Da vitória por quatro a zero sobre um time de Sarajevo. Do tempo em que os companheiros de clube lhe chamavam Rambo. Naquele lugar de prédios de concreto aparente, ração de comida e gente dura. Foi assim que ele aprendeu o que é o futebol. Vinte anos de bola depois, em sua segunda passagem pelo clube, encontrou no Rubro-Negro Carioca a expressão máxima desse ideal de jogo. Petkovic nasceu na Iugoslávia. País que hoje não existe mais. Apesar de analista geopolítico nenhum do mundo conseguir lhe convencer desse desatino.

***

O segundo tempo começou com o time tocando a bola, crente, como seu líder, de que venceria aquele jogo a todo custo. O técnico, aquele negro que fora ídolo na cabeça-de-área desse mesmo Flamengo trinta anos antes, tirou o lateral armador para colocar aquele garoto raçudo que um dia foi craque e hoje é coração. Mais tarde, tirou também o cara meio grosso da camisa nove para colocar um garoto da base que nunca se deu muito bem no time profissional.

Era um arremesso lateral próximo à área dos tricolores. Jogada despretensiosa. Bola na área e o negrinho baixinho que um dia foi craque e hoje é coração chegou antes do tricolor na bola e a dominou com a ponta da chuteira. O tricolor chegou atrasado e tudo o que ele conseguiu chutar foi a batata da perna do negrinho. O árbitro apitou o pênalti e os tricolores gastaram alguns poucos minutos com reclamações.

Era a hora dele brilhar. O líder e craque do time. O especialista em bolas paradas. O gringo mais querido do país. O dez da nação. A bola colocada na marca penal. O goleiro adversário, um dos jogares mais politicamente corretos e mais chatos da história do futebol. Aquele baluarte da mediocridade esticava os braços para os lados tentando diminuir o gol. O iugoslavo, parado na meia-lua da área, esperava a autorização do juiz. Soou o apito. Ele partiu decidido para a bola. Pé direito. Canto esquerdo. Bateu mal. Meia-altura. Fraca. O goleiro pegou. O gringo se deu ao direito de, por um milésimo de segundo, aceitar que a sorte não estava do lado certo naquele dia. E levou rapidamente as mãos à cabeça.

Mas o bandeirinha anulou o pênalti. O goleiro tricolor se adiantou à cobrança. Queimou a largada. Não pode. Repete-se a cobrança. Os tricolores ficaram loucos. Seis ou sete deles rodearam o bandeirinha e argumentaram sabe-se lá o que os jogadores argumentam numa hora dessas. Voltar atrás é que os árbitros não vão. Enquanto os adversários retardavam a segunda cobrança, a torcida sentiu-se necessária. E mais de sessenta mil pessoas começaram a gritar Pet! Pet! Pet! O gringo, assim que percebeu a marcação do trio de arbitragem, voltou ao seu posto na meia-lua e, com o rosto sereno, esperou. O lateral direito reserva, aquele que não é craque, mas é sério, encostou ao seu lado e disse, Mermão, você é o nosso ídolo, e um pênalti não vai mudar isso, Foda-se o pênalti. O maestro acenou levemente com a cabeça, indicando que entendera o recado.

Quando o goleiro tricolor voltou ao seu lugar debaixo das traves, ainda tentou catimbar a cobrança, saindo do gol para conversar com o árbitro, na esperança de desconcentrar o craque rubro-negro. O goleiro voltou ao seu lugar. O juiz apitou. O iugoslavo partiu para a bola, jogou a perna direita para trás, no movimento de quem vai bater com força na bola. O goleiro saltou para o mesmo lado da primeira cobrança. E assistiu, do chão, a bola viajar lentamente pelo ar e morrer, jocosamente na parte superior da rede. Rigorosamente no meio do gol. Com a finta no goleiro humilhado, a bola no filó e o placar empatado, o gringo correu apontando para a torcida com o braço direito estendido no ar. Depois rugiu para os companheiros. Uma comemoração de quem aprendeu futebol com gente dura. Da época em que jogador de futebol não rebolava depois de marcar um gol.

Mais alguns minutos mandando no jogo. Uma bola lançada pelo mesmo lateral direito para aquele garoto da base que não costuma se dar muito bem no time profissional. Um passe com o peito deixa a bola nos pés do iugoslavo. Ele domina com o pé direito, puxa bola para o esquerdo, e rola perfeita entre dois zagueiros do time adversário para o Zé que, na corrida, chega de frente para o goleiro. Ele só tem o trabalho de completar a assistência perfeita com um toque cruzado para o fundo do gol.

Daí pra frente, a tremedeira nas pernas tricolores e os carrinhos e desarmes precisos do dedicado time Rubro-Negro se encarregaram de conduzir o jogo para o seu fim. Um jogo em que o Flamengo foi Flamengo. Um jogo que arrancaria do poeta a verdade que versa: Tudo o que esse time precisa é um técnico preto e oprimido e um camisa dez que saiba jogar futebol. Não é por coisa pouca que um time chega a ter a maior torcida do mundo. E contra a sabedoria da massa, ninguém agüenta. A sorte, por exemplo, quando joga contra o Flamengo, joga no time errado. E perde.