quinta-feira, 30 de julho de 2009

As Armas de Jorge

Eu tenho uma insônia do caralho. Por isso rodo de madrugada. O relógio de metal no meu pulso marcava nove e meia da noite. Eu fechei os últimos botões da camisa, escondendo o desenho no peito e as medalhas que pendiam do pescoço. A noite estava quente como o bafo do demônio, e a janela do meu apartamento pequeno já estava fechada. Algumas pequenas gotas de suor começavam a se desprender dos pêlos do meu sovaco e escorriam geladas pela lateral do meu corpo. Peguei as chaves do carro em cima da mesa, apaguei o cigarro no cinzeiro sujo. Parei por um instante de frente para uma vela e a imagem do santo guerreiro que repousam na cômoda. Fiz o sinal da cruz e saí recitando as orações mentalmente. São Jorge, guerreiro vencedor do dragão, rogai por nós. São Jorge, militar valoroso, que com a vossa lança abatestes e vencestes o dragão feroz, vinde em meu auxílio, nas tentações do demônio, nos perigos, nas dificuldades, nas aflições. Cobri-me com o vosso manto, ocultando-me dos meus inimigos, dos meus perseguidores. Protegido por vosso Manto, andarei por todos os caminhos, viajarei por todos os mares, de noite e de dia, e os meus inimigos não me verão, não me ouviram, não me acompanharão. Sob a vossa proteção, não cairei, não derramarei o meu sangue, não me perderei. Assim como o Salvador esteve nove meses no seio de Nossa Senhora, assim eu estarei bem guardado e protegido, sob o vosso manto, tendo sempre São Jorge à minha frente armado de sua lança e do seu escudo. Amém. Ó São Jorge, meu guerreiro, invencível na Fé em Deus, que trazeis em vosso rosto a esperança e confiança, abra os meus caminhos. Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer algum mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrar. Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, a Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos. Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel Ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós, sem se atreverem a ter um olhar sequer que me possa prejudicar. Assim seja com o poder de Deus e de Jesus Cristo e da Falange do Divino Espírito Santo. Amém.

A noite começou mal. Ainda estava cedo para aquele tipo de cena. Primeira corrida do turno. Um negão com cara de bandido batia boca com um traveco no banco de trás. Eu tentava não prestar muita atenção à confusão, tentava prestar atenção à rua já começando a se esvaziar. Mas é difícil ignorar certas coisas. Principalmente quando elas acontecem no banco de trás do seu carro. A confusão era sobre dinheiro. Claro. Dois terços das confusões no mundo são sobre dinheiro. O cara dizia que o traveco lhe devia cem pratas. O traveco negava. Dizia que o dinheiro era dele, ganhou com o próprio suor, essas coisas. O bate boca ficava mais áspero a cada segundo. Palavras duras. “O meu cú é arrombado toda noite e metade da grana é sua por que? Por que você não engole a porra de um desses clientes que você me arruma e fica com o dinheiro? A grana da porra que eu engulo é minha.” Baixo nível. As respostas também eram. “Se não fosse por mim você não engolia porra nenhuma nem ganhava dinheiro nenhum, sua vadia.” Eu queria acabar logo aquela corrida. Antes que os dois se estapeassem, esfaqueassem, sei lá. Mas não deu tempo.

O sangue do negão ferveu e ele enfiou a mão na cara do traveco. O tapa estalou alto, e ele fechou o punho anunciando o próximo golpe. Levei a mão direita até o trinco do porta-luvas e o abri. Puxei a quarenta e cinco que me custou quase seiscentos paus e eu nunca usei. Apoiei a arma no espaço do banco entre as minhas pernas e soltei a trava de segurança. Fechei o porta-luvas, joguei o carro no primeiro recuo e meti o pé no freio. Desci rápido do carro e abri a porta de trás com a Sig Sauer P250 apontada para o cara. “Desce, filho da puta.” Ele me olhou como se não tivesse certeza se eu atiraria, mas foi tirando o corpo de dentro do carro devagar, até que ficou em pé na minha frente. “Vaza.” Ele olhou com o canto do olho para o traveco no banco de trás do carro. O lábio cortado, começando a inchar. “Essa guerra não é sua.” “Vaza.”, repeti. “Você vai me pagar por isso.” Ele virou as costas, enfiou as mãos nos bolsos do casaco e começou a andar, deixando a ameaça no ar. Mantive a arma apontada na sua direção, até ele já ter andado uns trinta metros. Entrei no carro, engatei a primeira e saí rápido. “Pra onde agora?” perguntei. Entre lágrimas, ele me deu um endereço de uma quitinete. “Valeu.” “Não admito porrada no meu táxi.”

***

A noite na cidade grande não é para menininhos. Disso pode-se ter certeza. É para gente grande. Marcada. Cicatrizada. Pra gente com o caráter tão duro quanto o punho. Senão o mundo te engole. Mastiga. Tritura pele, carne, osso, dignidade, sanidade. Depois engole. Não cospe nem o bagaço.

Quando encostei o carro perto da portaria do prédio, as duas moças se aproximaram. “Alicia?” “Sou eu.”, respondeu a loira, que sentou-se no banco da frente. Saia curta, preta. As coxas grossas completamente nuas. Uma bota com um cano até o meio da canela e um salto quinze. A blusa branca deixava os braços e a parte inferior da barriga seca e dura à mostra e o decote mostrava o colo, o inicio dos seios e as duas tiras do sutiã vermelho. Corpo de atriz de novela. Ela me entregou um pedaço de papel cortado reto, com régua. O nome de um hotel de luxo que eu já conhecia e o endereço. “Mas precisamos passar pra buscar uma amiga no caminho, tudo bem?” Por mim estava tudo bem. A morena vestia um sapato de salto alto, meia-calça escura e um short curto, que também lhe exibia as pernas. E uma tira de pano vermelho que só lhe cobria os peitos e seu equivalente às costas. A primeira parte do caminho desenrolou-se sem muita conversa. Alguns comentários esparsos que as duas trocavam. Minha mão por umas duas ou três vezes resvalou na coxa esquerda da loira quando precisei manobrar a alavanca do câmbio. Ela não pareceu se importar. Não moveu a perna. Eu tinha que me encolher todo para evitar que acontecesse de novo.

Parei o carro. A terceira moça também já esperava na portaria. Ruiva. Não parecia cabelo tingido, parecia natural. Mesmo padrão. Pouco pano, muita pele à mostra. E salto alto. Eu contive um sorriso. Ruiva, Loira e Morena. Parecia alguma fantasia clichê. A moça entrou no carro e cumprimentou as outras duas. “Esses caras são meio doentes, né?” perguntou. A loira sorriu ao meu lado. “Vai se acostumando. Até que essa de uma loira, uma morena e uma ruiva tá leve. Já vi coisa pior.” E, virando-se pra trás para olhar nos olhos da moça, “Você também vai ver.” Ela sorriu, mas prosseguiu com as perguntas. “Mas e essas roupas?” “Dona Mirtes disse que o que eles pediram foi: uma morena, uma loura e uma ruiva. Vestidas como se trabalhassem na rua, não na sua agência.” “São doentes. Eu disse. Querem fantasiar que estão comendo uma puta de rua, mas não tem coragem de encarar as feiosas que ficam nas ruas. Doentes. E quanto vão pagar afinal?” Foi a vez da morena responder. “Dona Mirtes disse que a gente fica com trezentos cada uma. Ela deve tá cobrando pelo menos uns mil e duzentos por nós três.” “A parte dela não é muito grande não? Quer dizer, são os clientes dela, mas é o nosso rabo.” “Você ainda é nova. Vai aprender que nessa vida tudo é assim. Você é o burro de carga dos outros. Até um dia ser esperta e dar sorte o suficiente pra mudar de papel e arranjar alguém pra ser o seu burro.”

Parei o carro. As duas de trás desceram. A loira perguntou quanto devia. O taxímetro marcava quarenta e um e setenta. “São quarenta merréis.” Ela tirou uma nota de cinqüenta da bolsa e me entregou. Tirei um bolo de notas do bolso da camisa, puxei uma de dez e a entreguei. Ela sorriu. “Boa noite para o senhor.” “Boa noite pra vocês também, meninas.”

***

Eu ainda terminava meu café quando me chamaram no rádio e pediram que buscasse uma Bianca num festival de música eletrônica no estacionamento do autódromo. Cheguei lá em poucos minutos e encontrei um casal de garotos cuidando de uma menina que parecia passar mal. Desci do carro e os ajudei a colocá-la no banco de trás, onde os dois também se acomodaram. Seus movimentos eram pouco precisos, quase que em câmera lenta, as línguas se enrolavam ao falar. O cheiro de álcool era flagrante no seu hálito, no seu suor.

Durante o caminho, a menina deixava a cabeça pender para todos os lados, solta na ponta do pescoço fino. Os olhos, quando abertos, não pareciam focalizar nada. A outra menina e o rapaz se beijavam. Ele parecia animado com os beijos e logo começou a percorrer o corpo da menina com a mão. Ela parecia cansada demais, ou alcoolizada demais, para reagir. Não parecia à vontade, mas não o repelia. A mão do rapaz corria seus seios por cima da blusa, depois baixou para a barriga, escondeu-se por dentro da roupa e voltou aos seios. Ela tentou afastar-la uma ou duas vezes, mas ele insistiu nas carícias e ela não parecia ter energias para ser mais firme. A mão desceu mais uma vez e pousou entre as pernas da menina por um tempo. Ele deve ter forçado a mão contra sua pele, pois ela logo a tirou de lá. Mas aquela mão voltou, algumas vezes. Assim como explorou outros lugares. Nunca violenta, mas sempre insistente.

Quando parei o carro, a menina que passava mal abriu a porta de supetão, começou o vômito no banco do carro e terminou no asfalto. Desci do carro e os casal me acompanhou. Ajudamos a menina a se levantar. Ela me olhou com vergonha e murmurou um pedido de desculpas. Me sentindo deprimido, respondi que estava tudo bem. A moça se virou para o rapaz e disse que talvez fosse melhor ele não dormir ali essa noite. “Porra, Bianca, mas a gente combinou!” “Eu sei, mas eu to cansada, a Lu não ta bem... Acho melhor não.” Ele fechou a cara, pensou por alguns segundos e saiu pisando firme “Então se vira pra pagar a porra do táxi, que eu vou pra casa a pé mesmo.” “Quanto é?” ela me perguntou. “Vinte e cinco.”, respondi quase me sentindo orgulhoso da menina. “E a lavagem do banco?” “Não é nada. Pode deixar.” Ela me entregou os vinte e cinco e voltou-se para a amiga. Eu ainda lhe sorri um sorriso paternal, mas ela não notou.

***

Não foi a primeira vez que tive de limpar vômito do banco de trás. Já aconteceu de ter de limpar esperma também. E já era dia claro quando terminei. Com os olhos pesados e as pernas doendo, tirei o carro da garagem da empresa. Quando parei no portão, ouvi uma pequena explosão, o barulho do vidro da porta do motorista estourando. Meu ombro deu um tranco e ardeu. O negão que eu tinha expulsado do meu táxi no início do turno avançou, meteu a mão na maçaneta e abriu a porta do carro. Agarrou a parte de trás da gola da minha camisa e me puxou para fora. Estava transtornado, os olhos injetados, mexia-se compulsivamente. Caí de bruços no chão e assim fiquei. Ele encostou o cano curto do revolver na parte de trás da minha cabeça e puxou o gatilho. Pipocou. Mas não sei se ele percebeu. Fiquei imóvel. Ele enfiou a mão no bolso da minha camisa e levou o maço de notas que guardo para o troco. Fugiu.

Quando não conseguia mais ouvir seus passos, me virei com dificuldade. Não conseguia mexer o braço esquerdo. Com a mão direita, abri os botões da camisa. Tirei. A secretária da empresa apareceu ofegante dizendo que tinha uma ambulância a caminho, que ela tinha visto tudo. Quando mostrei meu peito nu, ela sorriu. A minha tatuagem com o desenho de São Jorge estava manchada de sangue, mas via-se bem o furo da bala sobre o desenho do escudo do santo. No ombro. “Quebrou a clavícula. Nada mais grave”, me disse o médico mais tarde.