quinta-feira, 9 de abril de 2009

Gosto de Concreto

Estendi o pote. O homem despejou um pouco de sua cerveja dentro. Era um daqueles potes de plástico, de sorvete. Achei esse pote em uma lata de lixo há alguns anos. Eu sorri em agradecimento, ele aquiesceu. Virei o gole de cerveja, limpei a boca na manta esburacada pelas traças que trazia jogada por sobre os ombros e continuei a andar pelo botequim. Fui até o balcão. Parei ao lado de um homem que bebia cachaça. Ele me pagou uma dose dupla. O atendente, que já me conhecia de longa data e não gostava de mim, pôs uma dose de cachaça num copo e deixou sobre o balcão. Peguei o copo e despejei a bebida no meu pote. “Vou levar pra viagem.” O homem que me pagou a bebida sorriu. O atendente fez cara de nojo. Me acostumei a despertar esse tipo de reação nas pessoas. Não sei se é o cheiro ou a barba. Ou o cheiro da barba. O fato é que as pessoas normalmente têm nojo de mim. O português encheu o copo americano de novo. Despejei a segunda dose no pote e agradeci a generosidade do homem mais uma vez.

Saí do botequim andando em direção à esquina da Matilde, bebericando minha dose de cachaça. A esquina da Matilde era ladeira acima. Minhas pernas inchadas sempre reclamavam da subida. Mas eu gostava da Matilde. Valia o esforço. Matilde era uma prostituta muito gente fina. Me ajudou várias vezes nessa vida. É ela que cuida de mim, passa veneno nos meus cabelos e na minha barba quando tenho piolhos por causa da convivência com aquela gente dos abrigos por onde ando às vezes. Quando quebrei a perna, ela que cuidou de mim. Me deixou ficar em sua casa enquanto não tirava o gesso, fez comida pra mim, pagou as consultas no hospital. Quando tirei o gesso, ela ofereceu a casa pra eu ficar mais tempo, até morar, quem sabe. Não quis. Não ia dar certo. Não fui feito pra morar em casa com mulher. Disse isso a ela. Que não aceitava ficar atrapalhando, sendo sustentado por ela. Ela não precisava de um bêbado na vida, que já era difícil o bastante. Além do mais, eu sei que não sou exatamente o tipo de pessoa com quem se pode contar. Tinha medo de me acomodar com a situação. De dever explicações que sabia não ter mais paciência para dar. Não fiquei na casa. Mas a amiga eu mantenho.

A Matilde estava especialmente bonita. Os cabelos pretos jogados sobre os ombros, coxas de fora, salto alto. Um contraste com a minha barba enorme, densa feito bloco de concreto e fedorenta feito cachorro molhado, e o meu sorriso de dois dentes. Apesar dela também não ostentar muitos em sua boca. “Oi, bonitão.” Me disse, estalando um beijo na minha bochecha. Sorri sem-graça. “Como vão as coisas?” Perguntou rindo-se da minha timidez. “Vão como sempre foram.” “Isso é mal.” “Ainda não. Mal vai ser o dia que a cachaça secar.
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Um gordão chegou, combinou um preço com a Matilde e os dois saíram de mãos dadas. A Matilde cobra uma mixaria. Se eu tivesse dinheiro, pagaria três, quatro vezes o preço que ela cobra. É o maior mulherão. Ela devia se valorizar mais. É. Devia mesmo. Vou dizer isso a ela na próxima vez que a gente se esbarrar por aí. Mas, me corta o coração mesmo é ver a coitada apanhar daquele cafetão. E da polícia. Não sei qual é pior
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Ouvi gritos. Voz de mulher. “Pára, pára.” Voz conhecida. Procurei pela voz e vi a Hilda caída no chão. Vestido rasgado, filete de sangue descendo pela boca. Três garotos com roupas de classe média estavam em volta dela. A Hilda é minha ex-namorada. Quer dizer, acho que dá pra chamar assim. A gente trocou uns beijos uma vez. Mas ela me trocou por outro. Um malandro que andava por essas bandas. Foi morar com ele e tudo. E espalhou pra turma que meu pau era pequeno. Vaca. Se fodeu. O malandro, depois de muito bater nela, deu-lhe um pé na bunda. Agora ela tá por aí. Vagando sem teto que nem eu. E tomando porrada de filhinho de papai entediado. Eu reconheci um dos garotos. Era o mesmo que quebrara minha perna. Sentei no meio-fio e assisti ao show em meio a goladas de cachaça. Os garotos chutavam a barriga da coitada, chutavam o rosto, tudo o que dava. Até que a arrastaram pelos cabelos pro beco, e eu vi as silhuetas deles revezando-se sobre a silhueta dela. Ela pediu “Por favor” e “Pelo amor de Deus” pra eles pararem várias vezes. Não adiantou porra nenhuma. Eles nunca param
.

Ninguém interveio. Nem eu, todo inchado e bêbado sentado na calçada, nem as pessoas do botequim, nem as putas pela rua. Ficou todo mundo fingindo não escutar os gritos e torcendo para aquilo acabar logo
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Quando eles acabaram, deixaram a silhueta da minha ex-namorada largada no beco, subiram as calças e foram embora de nariz empinado e sorriso no rosto. Eu andei até o beco, achei a Hilda no chão. Chorando, com o vestido trucidado. Toda vermelha de tanta porrada e a cara enfiada na calçada. O rosto sujo de alguma coisa que escorria das caçambas de lixo ao redor. Entreguei meu pote pra ela. “Bebe. Vai te ajudar, eu prometo. Vai tirar o gosto de concreto da boca.” Ela sorriu e deu uma golada. Ouvimos um barulho de freada, muito alto. Mais tarde me disseram que foi um motorista bêbado que atropelou os três estupradores. Um morreu na hora, o outro quebrou a bacia e o último teve um braço arrancado. Disseram também que todo mundo na rua, quando viu a cena, correu pra ajudar. “Porra nenhuma.”, pensei, cético e amargurado, mas crente na justiça divina. “Essa gente gosta é de sangue. Correram foi pra ver a desgraça de perto. Olhar a morte no olho. A morte dos outros. Quando for a deles, os covardes vão desviar o olhar, como todo mundo.
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*Versão revista do texto postado nesse blog em 16 de setembro de 2007 sob o título de Antropologia Urbana.

domingo, 5 de abril de 2009

Odisséia

“Pra onde você vai agora?”

“Pra casa da minha avó.”

“Entra aí que eu te levo.”

Abri a porta do carro pra que ela entrasse. Ela sentou o corpo no banco do carona. Fechei a porta e dei a volta no carro. A barriga tremeu. Roncou. Cacete. Sentei-me ao volante torcendo pra dar tudo certo. Dei a partida e saí com o carro. Uma curva, outra. Um retorno. A barriga tremeu de novo. Roncou de novo. O cú piscou. Queria ser religioso nessas horas. Mas não era. Não tinha um deus pra quem eu pudesse pedir pra segurar a merda mais um pouco. Meu diálogo era só com o meu rabo mesmo. E ele não dava sinais de que queria cooperar. Mais uma curva.

“Eita, olha quem ta ali!.”, ela disse me apontando um amigo que andava ao sol. Certamente estávamos indo para o mesmo lado. Parei o carro rapidamente na rua.

“Entra aí, Zé.”

Ele entrou. Não me lembro, em absoluto, da conversa daí pra frente. Mas papeamos os três. Mais os dois, eu dirigia. E rezava. Depois de um outro retorno, o cú piscou mais uma vez. Os pêlos do meu braço se arrepiaram. Tentei esconder. Vislumbrei a possibilidade de usar um banheiro qualquer, uma moita. Qualquer coisa. Comecei a duvidar de que daria tempo de chegar em casa. Curva, curva, curva. Encostei o carro. “Falou, moleque.” Engatei a primeira, segunda, terceira, curva. Cú piscando. Curva. Parei o carro na frente do prédio. Eu queria pedir pra subir, pra usar o banheiro. Queria muito. Dona Lili nunca mais olharia na minha cara, se a bomba que eu estava pra soltar fosse tão feia quanto eu imaginava. Não me importava. Qualquer coisa seria mais fácil de agüentar do que aquilo. Eu queria pedir pra subir.

“Tchau, amor.”

“Tchau.”

Ela desceu do carro, me jogou um beijo que eu não lembro se retribuí. Arranquei com o carro. Retorno, curva, quebra-mola. Não! Quebra-mola é maldade. A barriga virou de cabeça pra baixo. Todo arrepiado de novo. Saquei o celular e disquei o número da minha mãe.

“Alô.”

“Alô, mãe?”

“Oi. Já chegou?”

“Não. Ué, já terminou o que tinha que fazer?”

“Já. A loja tava fechada.”

“Já posso te buscar então?”

“Já.”

“Então deixa pra lá.”

“O que você queria?”

“Nada. Depois eu te explico. Tô chegando aí.”

Curva. Faixa meio vazia. Agradeci. Sessenta por hora. Pardal. Cento e vinte. Sessenta. Pardal. É o último aqui. Cento e vinte. Reduzi. Curva. Curva. Cento e vinte. Curva aberta a cento e vinte mesmo. Sessenta. Pardal. Pisei fundo de novo. Setenta. Pardal. Pisei de novo. Curva. Sinal verde! Quase chorei de alegria. Rotatória, curva. Puta que pariu! Um Gol preto andando a vinte por hora! Não dava pra ultrapassar. Caralho! Agonia. Muita agonia. O Gol virou à esquerda, enfim. Pisei fundo, curva. Vaga! Desliguei o carro e desci. Minha mãe já vinha em minha direção. Ainda bem. Comecei a acreditar que tudo ficaria bem de novo.

“Oi.”

“Oi, mãe.” Entramos no carro.

“O que você queria aquela hora?”

“Queria perguntar se você se importava de esperar mais um pouco, se ainda não tivesse terminado de resolver as coisas. Queria passar em casa antes. Aí voltava pra te buscar. Acho que to passando mal.”

“O que foi?”

“Dor de barriga.”

“Vixe.”

Rotatória. Ia ter que entrar na via principal. Sinal fechado pra eles. Agradeci aos céus. Retorno. Caralho. No retorno não tinha sinal. Era esperar parar de vir carro. Ia demorar. A quantidade de carros que vinha me ocupar a pista era um absurdo. Cidadezinha pra ter carro. Puta merda. Não, merda não. Por enquanto não. O cú piscava, os pêlos se eriçavam. A barriga era um terremoto permanente.

“Esse retorno a essa hora é um inferno.”

“Ô.”

Finalmente. Um Versailles vinho mantinha uma distância boa de um Celta prata. Não dava pra ficar ali, mas dava pra passar à faixa da direita, que estava livre. O Versailles passou. Entrei na pista. Faixa da direita. Pé fundo no acelerador. Ou não. Muito carro. O Celta passou por mim, pulei pra faixa da esquerda. Ninguém passava de sessenta por hora. Agonia. Muita agonia. Eu já balançava compulsivamente a perna esquerda. A barriga roncava. Eu me arrepiava. Gotas de um suor gelado escorriam da minha testa pelo rosto. Freio! Dois carros à minha frente, freando para não entrarem na traseira de um inconseqüente que cruzou a faixa fechando todo mundo para pegar um retorno. O susto serviu, pelo menos, pra dar uma trancada. Mas o mal-estar só aumentava com a agonia. Começamos a andar de novo. Ninguém passava de sessenta. As duas faixas cheias de carro. Desespero. O suor frio pingava. Liberou a faixa da direita, pulei pra ela. Pisei fundo. Costurei alguns carros, sem precisar reduzir a velocidade.

“Filho, me deixa aqui no supermercado então, que eu tenho uma coisa pra fazer. Vai pra casa, resolve sua vida aí e depois volta pra me pegar.”

Entrei no recuo para o estacionamento. Parei o carro. Minha mãe desceu. Arranquei com o carro. Precisava voltar à via principal para pegar a entrada para a quadra onde moro. Puta merda. Milhões de carros de novo. Muitos. Muitos carros. O desespero me consumia. Não conseguia pensar. Quase entrei na pista umas três vezes sem ter espaço. Cacete! Eu já estava nessa pista! Sair pra voltar é brincadeira! A entrada era logo ali! Abriu uma brecha. Enfiei o carro e fui até o acostamento. Fui pelo acostamento mesmo até a entrada da quadra, torcendo para que nenhum policial do posto ali em frente visse a manobra e me mandasse parar. Não viram. Entrei. Agora estava perto. Era uma rotatória e uma curva. Ia dar tudo certo. Desci até a rotatória. Colei em um Uno verde escuro, que estava colado na traseira de uma van escolar. A van fazia a manobra devagar-quase-parando. Xinguei um sem número de gerações do motorista da van. Por que é que quando estamos chegando perto do destino, a dor de barriga vai piorando? Por que é mais difícil de segurar uma caganeira quando se está perto de casa? A van terminou a rotatória. Quebra-mola. A van entrou à direita. Dei graças a deus, em quem eu já até acreditava a essa altura do campeonato. O Uno não acelerou. Manteve-se à minha frente à mesma velocidade de quando perseguia a van escolar. Uma loira dirigia, papeando, como estivesse em um salão de beleza, com os outros três ocupantes do carro. Tentei a ultrapassagem. Uma bicicleta. Sim, uma bicicleta vinha no meio da outra pista, no sentido contrário. Um carro despontava às suas costas. Não dava pra passar. Voltei a colar na traseira do Uno e esperei a eternidade que ele levou para liberar minha entrada à direita. Entrei, por fim. Desci até a casa quase sem saber se era mais difícil conter as lágrimas ou a merda. Parei o carro e acionei o portão eletrônico. A grade de ferro demorou três vezes mais que o normal para deslizar e abrir espaço pro meu desespero. Entrei, mandei o portão fechar às minhas costas. Parei o carro, peguei a chave de casa no porta-luvas e corri. Entrei em casa e fechei a porta sem trancar. Disparei para o banheiro. Entrei, tranquei a porta. Levantei a tampa do vaso, baixei as calças, a cueca e me sentei. Raios e trovões e terremotos. Um fedor terrível. E uma enxurrada de excremento. E o alívio. Uma conferida na cueca. Nem um pingo. Nenhuma freada. Vitória!

Quando terminei, levantei-me e olhei para o lado. Sem papel. Sem problemas. Tomo um banho. Apertei o botão da descarga. A água inundou a cavidade da privada. Encheu. E a água não desceu. Entupiu. Vida escrota.