domingo, 22 de março de 2009

Surpresa

A cabeça parecia ter três vezes o tamanho normal. Gosto metálico na boca seca. Princípio de náusea. Virei o rosto no travesseiro. Lá estava ela. Nua. Respirando fundo em seu sono. Achei-a feia. Não feia a um ponto repugnante. Mas feia. Quis lembrar-me do nome dela. Quis muito. Não consegui. Virei-me na cama e fitei o teto. Deixei que alguns minutos corressem. Não era a primeira vez que acordava em uma cama estranha, com uma mulher estranha, depois de uma noite como aquela. Os poucos flashes de memórias da noite anterior a que ainda tinha acesso invadiam-me a mente tão dolorosos que não gastava minhas energias tentando lembrar de nada. Olhava para o teto. Só olhava para o teto. Quase não me mexia.

Ela revirou-se ao meu lado e sua mão encontrou meu peito. Estalou a língua como se tentasse descolá-la da boca. Suspirou fundo e, ainda soltando o ar, sussurrou um “Bom dia”. “Bom dia”, respondi forçando, mas não muito, um sorriso nos lábios. “Quer tomar café?”, a pergunta veio da pequena fresta entre seus lábios e o travesseiro, contra o qual seu rosto estava amassado. “Pode deixar que eu me viro, se não quiser levantar ainda.” “Tem certeza?” “Claro.” “Tá bom, então. Você sabe onde fica a cozinha.” Não, eu não sabia onde era a cozinha. Mas num apartamento daquele tamanho não seria difícil de achar.

Andar só de cueca na casa dos outros é como andar pelado na multidão. Não me lembrava se ela tinha filhos que podiam acordar e me ver pela casa daquele jeito. A idéia também só me ocorreria tarde demais. Quando cheguei à cozinha, que não fora mesmo difícil de encontrar, pus-me a abrir alguns dos poucos armários à procura de uma leiteira. Encontrei uma. Enchi com água do filtro de barro, acendi o fogão e encaixei o fundo da leiteira na grade de uma das bocas.

Conseguia lembrar-me bastante bem do momento em que cheguei à festa na noite passada. Mas o que aconteceu depois disso, durante a festa, só me chegava em alguns poucos flashes. Lembro que bebia uísque com gelo de água-de-coco. Não lembrava de ter bebido nada diferente durante a festa. Na verdade, só de pensar no cheiro do malte e do álcool, meu estômago já embrulhava. A boate estava cheia, demorei a encontrar Paula, a aniversariante. Quando a encontrei, depois do abraço e dos votos de praxe, ela me apresentou a loira. A loira! É ela a culpada pela ressaca que me acompanha agora.

Abri a garrafa térmica que estava em cima da mesa e despejei o resto de café na pia. Abri mais algumas portas de armário e encontrei um funil e uma caixa de filtros de papel. Acomodei um filtro de papel, acompanhando o contorno interno do funil e deixei separado ao lado da garrafa. Um pote grande de plástico trazia uma etiqueta com “café” escrito. Enchi o funil até a metade com o pó de café.

Eu gostei da tal loira. Gostei muito. Jéssica. Ela me cumprimentou com um beijo estalado no rosto e um sorriso lindo. Acho que eu já estava apaixonado a essa altura. Ela era a mulher mais bonita da festa, sem dúvidas. Conversamos durante muito tempo. Uma mulher linda, que gostava de futebol, filmes violentos e fast food. Eu queria casar com ela. E ela também gostou de mim. A noite apresentava um potencial de perfeição altíssimo. Eu estava encantado, hipnotizado. Não devia existir outra mulher no mundo com características tão perfeitas. Nós nos beijamos. Além de tudo a desgraçada beijava bem. Eu estava absorvido pelo massagear calmo de sua língua e pelas curvas de sua cintura, que eu tomei em meus braços. De repente tudo acabou. Ela me afastou. Cortou o beijo antes do fim. Baixou os olhos e, livrando-se de meu abraço anunciou a tragédia. “Não posso. Me caso semana que vem.” “Eu odeio ele.” “Ela”, corrigiu, “Vou casar com uma mulher.” Girou nos calcanhares e saiu. Não a vi mais.

A água ferveu. Apaguei o fogo e peguei a leiteira. Despejei parte da água na garrafa térmica, mexi, e despejei na pia. Repeti o processo. Quando julguei que a garrafa devia estar limpa, encaixei o funil com o filtro e o pó de café na boca da garrafa e enchi de água até a boca. Esperei a água baixar, e enchi mais uma vez. Repeti o movimento até que a água fervida se acabasse. Fechei a garrafa térmica, joguei no lixo o filtro e o pó que sobrou e deitei na pia a leiteira e o funil. Achei na geladeira um bolo pela metade, e cortei um pedaço.

A rejeição da loira foi demais pra mim. Resolvi beber de verdade. Enchi o pote. Passei da conta. Foi quando encontrei essa feiosa que está no quarto agora. Eu estava terrivelmente bêbado, ela se aproximou, se insinuou. Não lembro de termos conversado muito. Trocamos poucas palavras no caminho. Não lembro sobre o que. Foi ela que me trouxe pra cá. Não lembro muito bem do que fizemos naquele quarto.

Eu sentei à mesa com uma xícara de café e um pedaço de bolo com gosto de geladeira. Passava os olhos pelo apartamento enquanto comia. O enjôo já estava melhorando. Foi quando aconteceu. Barulho de chave na porta de entrada. Quando olhei na direção da porta, ela se abria. Um homem parou na entrada quando percebeu minha presença. Por algum motivo suas feições não me eram estranhas. Baixei os olhos para os porta-retratos na mesinha de canto. Meu sangue gelou. Lembrei de onde conhecia aquele rosto. Me lembro de ter pego aquele mesmo porta-retrato nas mãos na noite anterior. “Você é casada?”, perguntei meio espantado. “Ele está viajando.” O desespero tomou conta da minha mente. O homem levou a mão direita ao bolso dentro do casaco e puxou um Taurus .38 com um olhar algo confuso e algo decidido lançado na minha direção. Tudo o que eu consegui dizer foi “Você só devia voltar na terça-feira.” Ele puxou o gatilho. Nos segundos em que o buraco no meu peito ainda não me matara ele respondeu, “Era pra ser uma surpresa.”. E foi, de fato, uma surpresa.