quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Terrorismo de Deus

“Terremoto é o terrorismo da natureza. É programático, é estratégico. A natureza é terrorista, é estratégica. Terremoto é o terrorismo da natureza. É programático, é estratégico. A natureza é terrorista. É a estratégia de deus.”

Música alta, batidas graves daquelas que se sente no estômago. A banda cantava. A pequena multidão aos pés do palco parecia dançar e repetir a letra sem atentar muito pro seu significado. Três moleques dançavam com garrafas de doses individuais de vodca nas mãos. Eu nunca os tinha visto antes. Estava há pouco mais de um minuto observando e já odiava os três. As calças jeans com riscos de azul claro e escuro, formando estampas abstratas. As camisas pareciam ser de um número menor do que eles deveriam estar usando. Apertadas. Curtas. E de cores berrantes. Os tênis pareciam ter sido limpos minutos antes do show começar. Agora estavam já um pouco sujos, principalmente nas molas aparentes que os enfeitavam. Os braços jogados pro alto, as pernas arqueadas para encaixar na primeira bunda que lhes cruzasse o caminho.

“Os inocentes pagam por nada representarem. Por serem destituídos. Por nada deixarem. Por serem sem destino, sem nome. Pelo crime de não fazerem falta. Terror. Error. No poder wachear. Ni poder ser escuchado. La naturaleza se aliviana. Y el hombre se encaja.”

Aproximaram-se de um grupo de três moças que dançavam juntas. Foram poucos momentos de conversa mole até um deles enlaçar uma delas pela cintura, enfiar o nariz em seu pescoço e ganhar um beijo em retribuição. E ali se enroscaram sem o menor pudor. As mãos corriam os corpos de parte a parte e as línguas se esfregavam com tamanha força que, fossem feitas de pedra, fariam fogo. A menina não parecia ter mais que dezesseis anos. Os seios já chamavam a atenção. Os cabelos eram negros e muito lisos. Duas grandes argolas de prata pendiam de suas orelhas. Estava escuro para ver a cor dos olhos com nitidez, mas a pele era de um moreno claro comum. O corpo não era exatamente de uma modelo. Não era, isso percebia-se com clareza, a mais bonita das três. No entanto, também não era a mais feia.

“Error. No poder wachear. Ni poder ser escuchado. La naturaleza se aliviana. Y el hombre se encaja. Mas quem tem groove tem tudo. Yeah. Quem tem groove tem tudo.”

Os outros dois garotos não tiveram a mesma sorte. Nenhuma das outras duas moças se prestou a esfregar-se neles. Deixaram então o amigo a se divertir, e foram tentar a sorte com um grupo de mulheres já mais velhas, mais velhas inclusive que eles. Das quatro mulheres, apenas uma não exibia aquele corpo de freqüentadora de academia. Os cabelos louros - imagino que todas as quatro deviam isso aos produtos das farmácias próximas às suas casas - eram bem cuidados e lisos. A pele bronzeada no sol do clube, ou na câmara artificial de seus spas. Os garotos as entretiveram por um tempo, certamente lhes massageando o ego, que em muitos casos é o mesmo que massagear o clitóris. Uma delas parecia mais animada com a conversa e, enquanto falava, arrastava a mão pelos braços e pelo peito de um nos moleques. Quando ele finalmente segurou-lhe os cabelos e forçou a boca contra a sua, a mulher pendurou-se em seu pescoço e sua saia curta mostrou-lhe um pedaço da minúscula calcinha branca. As carnes de sua bunda, como as da perna, que já andava a mostra, eram tão rígidas que pareciam forçar a pele a esticar-se, até quase rasgar. Era, sem dúvidas, muito mais bonita que a ninfeta que o outro garoto agarrava.

“Deus é o terror. É o terror dos inocentes. Deus é o terror. É o terror dos inocentes. A cegueira do terrorista é o terror. É a cegueira de deus. Deus é o terror. É o terror dos inocentes. Deus é o terror. É o terror dos inocentes. A cegueira do terrorista é o terror. É a cegueira de deus.”

Como nenhuma das três demonstrasse o apetite da amiga, o último dos garotos despediu-se, um tanto contrariado e pôs-se a vagar só, a procura de uma vítima. Puxou conversa com uma morena linda, de olhos castanhos e cabelos ondulados. A moça não teve tempo de terminar o ‘não’ que ensaiava com a cabeça. O marido apareceu do meio da multidão, abraçou-lhe com dois copos de cerveja nas mãos e encarou o moleque como se perguntasse se ele entendera o recado. Ele entendeu. Desculpou-se timidamente e saiu. Esperou uma loira de vestido vermelho sair do meio de um grupo de meninas e, no meio do caminho até a banquinha de bebidas, ofereceu-se para enfiar a língua em sua boca. A idéia não pareceu atrativa à menina, que deixou o garoto falando sozinho. Tentou uma estratégia mais ousada. Ofereceu sua garrafa de vodca a uma moça mais gordinha. Ela aceitou. Conversaram por alguns instantes. O moleque decidiu que era hora de arriscar. Encostou-se ao ouvido da moça e cochichou algo que imagino ser o que ele gostaria de fazer com ela. A gordinha não teve dúvidas. Cuspiu imediatamente a dose de vodca que trazia ainda na boca no rosto do rapaz e devolveu-lhe a garrafa.

“Mas quem tem groove tem tudo. Yeah. Quem tem groove tem tudo. Yeh. Mas quem tem groove tem tudo. Yeah. Quem tem groove tem tudo. Yeh. Mas quem tem groove tem tudo. Yeah. Quem tem groove tem tudo. Yeh. Mas quem tem groove tem tudo. Yeah. Quem tem groove tem tudo. Yeh.”

A moça que trabalhava na banca de bebidas reagiu rápido. Abandonou seu posto de trabalho e foi até onde o garoto permanecia estático, pasmo. Tomou-lhe pela mão e levou até o carro velho que estava parado atrás da banca, onde estava guardado o estoque do que seria vendido. Seu rosto era um desses rostos de gente pobre. Aqueles rostos de vinte anos que aparentam quarenta. O corpo franzino, enfiado em uma saia rota e uma camisa de propaganda de alguém que foi candidato a deputado federal há uns cinco anos. Seus olhos, no entanto, eram os olhos de alguém, não que sonha, mas que sabe que dias melhores a esperam no dobrar da esquina. Ela ofereceu ao garoto um pano para que ele se enxugasse, e ajudou-lhe a tirar a camisa molhada. Ele pegou a mão fina da moça e acariciou o próprio peito. Ela lançou-lhe um olhar espantado e, quando ele curvou o corpo para beijá-la, afastou-se em recusa. O garoto tirou a carteira do bolso de trás da calça, pegou algumas notas e ofereceu a ela. Ela recusou com veemência. Ele guardou a carteira de volta no bolso e avançou em direção a ela. Segurou-lhe pelos braços, virou-a de costas e a pôs apoiada no capô do carro. Levantou-lhe a saia, puxou a calcinha de lado e abriu as próprias calças. Ele foi rápido. Mas imagino que a moça não tenha tido a mesma sensação. Quando terminou o serviço, fechou as calças, vestiu a camisa e voltou para o show cantarolando “Deus é o terrôoor. É o terror dos inoceentees.”*

*Da música “Quem Tem Bit Tem Tudo”, gravada pela banda Mundo Livre S/A.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Mendicância

No escuro breu
Da noite que tudo envolve,
O corpo nu,
Na calçada gelada estirado,
Arfava,
Babava.
O gélido ar riscava a garganta.
Secava o pulmão indigente.
Os dedos roxos e duros e doloridos.
O pequeno retângulo de papelão
Alguns centímetros distante demais.
E os solavancos dos músculos retesados,
De uma tremedeira angustiada,
A hora derradeira anunciavam.
E o coração, já gelado,
Já duro, já seco,
Já amargo,
Já abandonado,
Rendia-se.
Silenciava.
Sem o trago reconfortante
Do cigarro ou da cachaça,
Morria sozinho.
Debatendo-se no escarro dos outros,
No mijo quente e próprio.
Na bosta sem consistência
Do corpo sem importância.