terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sobre Anéis, Dedos e Trocadilhos...

Ontem teve maratona "O Senhor dos Anéis". Os três filmes em sequência. Nove horas e vinte minutos de Terra-Média. Muito bom. Devia fazer uns dois anos desde que assisti à série pela última vez. Gostei de novo. Mas gostei mneos do que gostava. Quer dizer, o filme é demais. Impecável. A estória é um absurdo de tão boa. Mas me incomodou um pouco a limpeza do filme. Resolvi, então, escrever um final que me agradaria mais.

Eu escrevi um final diferente para "O Senhor dos Anéis". Sam, aquele gordinho meio bicha, casa-se com Rosinha, aquela hobbit feia. Até aí é plágio puro. Acontece que no meu final, o casamento funciona um pouco diferente. Ele bate nela e nos filhos. Regularmente, pra descontar a frustração. Frustrado porque, na verdade, ele queria era dar o anel pro senhor Frodo. Mas o cara nunca lhe quis comer o brioco.

Frodo, por sua vez, depois da instantânea fama miojo estilo BBB, vira um bêbado solitário e decadente, que conta a história de quando salvou o mundo para levar pra cama uma ou outra vagabunda mais fácil entre um porre desclassificante e outro.

Merry e Pippin morrem em decorrência de alguma idiotice infantilóide que aprontam. Aragorn casa-se com Arwen, a elfa gostosa, e a trai com Éowyn, aquela loirinha marromeno de Rohan. Arwen descobre, mas como já havia desistido da vida eterna mesmo, acaba aceitando uma relação a três pra não perder a viagem.

Legolas e Gimli, amigos inseparáveis, viram atores pornô. Legolas, o galã elfo metrosexual com o pau de dez centímetros. E Gimli, o anão pitoresco com o pau de trinta. Os dois revolucionam a indústria ao produzirem e protagonizarem o filme que trás uma cena dos dois em um ménage com a primeira Orc Fêmea do mundo. Na cena, Gimli, no melhor estilo interior de Minas Gerais, solta a famosa frase: "Até que ela (a orc fêmea) não é ruim, mas aquela égua do filme passado era melhor." A frase cai na boca do povo e vira mais um motivo para se zoar um orc. Como se os que já existiam fossem poucos.

Elron, o elfo pai, desiste daquelas viadagens elficas, bota um terno preto, um par de óculos escuros, corta o cabelo e vai brigar com um certo Sr. Anderson em um outro filme mais divertido. Galadriel, inconsolável, resolve viajar pelo mundo como uma sexóloga que ensina as mulheres a dizerem para seus maridos o que querem na cama através da telepatia.

Gandalf e Bilbo passam seus cem últimos anos reumáticos jogando gamão e lembrando do time do Botafogo da década de sessenta. Sauron renasce. Dessa vez num vibrador, deixando no ar a idéia de que haverá um quarto filme, provando a tendência de Hollywood de estragar boas estórias com sequências caça-níqueis como Rambo 2, a Missão; A Morte de Jason 3, Ele Renasce de Novo; Rocky 5; O Hobbit...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A Copa da Tradição

Terminaram as Eliminatórias para a Copa de 2010. O torneio do ano que vem será marcado pela tradição. Os sete campeões mundiais estão classificados, além de seleções com história na competição, como Espanha, Holanda, Portugal, Camarões, Paraguai. Só uma das trinta e duas seleções classificadas disputará uma Copa do Mundo pela primeira vez. A seleção da Eslováquia. Sinal dos tempos. O leste europeu mostrou, nestas eliminatórias, o motivo de suas seleções fazerem boas campanhas nas copas da guerra-fria. A Eslováquia classificou-se sem a necessidade da repescagem. Sua irmã República Tcheca, dessa vez ficou pelo caminho, mas não esqueceremos a seleção Tcheca da Copa e da Eurocopa passadas. Bonito de se ver. A Rússia caiu para a Eslovênia. Pena, mas é um país do Leste por outro. A Ucrânia foi até a repescagem, mas infelizmente perdeu a vaga para a Grécia. Não hei de esquecer também as belíssimas seleções da Romênia de 94 e da Bulgária de 94 e 98. E da antiga Iugoslávia, Sérvia e Eslovênia se classificaram. A Bósnia vendeu caro sua vaga para os metro-sexuais de Portugal na repescagem. A Croácia, que já abocanhou um terceiro lugar em 98, ficou pelo caminho, mas não pagou mico. Imaginem o que não faria a seleção da Iugoslávia se não tivesse sido desmembrada? Com uma seleção dessas seleções e o Petkovic de camisa dez? Eu, por exemplo, torceria por eles na Copa.

As seleções mais tradicionais da África, que ficaram de fora do Mundial passado, dessa vez não deram mole. Camarões e Nigéria estão de volta. Junto com as fortes seleções de Gana e Costa do Marfim, e as figurantes Argélia e África do Sul. Seis representantes do continente africano. Um recorde a ser exaltado. Na Copa da inclusão comedida, onde a África do Sul serve de escape para se chamar o mundial de “Copa da África”. A Copa é da África mesmo, do continente. É a primeira por lá. Mas vocês, senhores suíços da Fifa que querem proibir a paradinha nos pênaltis, não enganam ninguém. Todo mundo aqui sabe que esse papo de “Copa da África” e não “Copa da África do Sul” vem daquela idéia mais velha que o futebol de que na África, assim como os pretos que nela vivem, é tudo igual. Por essas e outras, ano que vem quebrarei minha tradição individual. Vou deixar de lado minha eterna torcida pela Holanda. Vou torcer pela África. Assim, como os velhos caquéticos da Fifa gostam. Pela África. Por qualquer dos seis países que conseguir o feito inédito de dar o título mundial não só para um país fora do eixo Europa-América do Sul, mas para um país africano. Vou torcer pela colônia. Seja inglesa, seja francesa. Se o bonito futebol holandês merece ganhar, um dia, uma Copa, o futebol africano merece ainda mais. Merece, dentro da sua casa, rugir na cara pálida dos atuais donos do futebol: "Aqui quem manda é a gente!"

Os jogos da repescagem foram ruins no geral. Tanto como futebol como pelos resultados. A camisa pesou na maioria dos casos, mas em alguns foi uma pena. A mão de Thierry Henry matou um cruzamento e empatou o jogo para a França. E tirou da Copa o povo irlandês que eu tanto admiro. Os bósnios montaram uma seleção forte, repleta daqueles coadjuvantes muito bons dos principais times do centro do futebol europeu. Um time que sabe jogar com a bola no chão. Domina, dribla e passa bem. Mas um time muito novo. A experiência e a técnica mais refinada dos metro-sexuais colonizadores da seleção de Portugal falou mais alto. Dois jogos duros. Dois gols de Portugal, um em cada jogo. E três bolas bósnias na trave portuguesa.

A seleção da Rússia jogou um futebol bonito. Tem uns dois ou três craques de bola no time. Arshavin é o principal deles. E venceu o primeiro jogo, em casa, por dois a um. Mas subiu no salto e perdeu o segundo jogo por um a zero. Acabou desclassificada pelo critério mais ridículo já inventado no futebol. O gol fora de casa que, como dizem alguns comentaristas mestres em matemática, vale por dois. Uma pena. Espero que a Eslovênia faça um bom papel.

Grécia e Ucrânia fizeram os dois jogos mais chatos da repescagem. Duas seleções burocráticas e retranqueiras. Infelizmente passou a pior das duas. A Ucrânia é uma seleção dura, joga feio, e se defende mais do que ataca. Mas perto da seleção grega, é um ícone do futebol arte. Os gregos são ridículos, e da mesma forma ridícula que venceram a Eurocopa de 2004, se classificaram agora para sua segunda Copa do Mundo. Horrível. Se repetir a campanha de 94, terá feito seis jogos em mundiais, perdido os seis e marcado zero gols. Patético.

Na África e na América do Sul, tivemos aquele futebol literalmente brigado que caracteriza as duas escolas. A guerra entre Argélia e Egito no Sudão terminou com a seleção mais fraca de futebol, mas mais forte no psicológico, vencedora. A Argélia vai à Copa, muito provavelmente, fazer figuração. Ninguém garante que o Egito fosse fazer papel melhor, mas o time sabe mais de futebol. Isso é indiscutível.

O primeiro campeão do mundo, o Uruguai, eliminou a Costa Rica no estilo uruguaio de se jogar futebol. Um time talentoso e desorganizado. Raçudo, brigão, catimbeiro e lindo de se ver jogar. A Costa Rica é dirigida por Renê Simões. O que diz muito sobre um time na hora das decisões. E a celeste olímpica honrou a camisa.

Por último, a Nova Zelândia passou pelo Bahrein. Ninguém prestou atenção. Ninguém lembra. Ninguém ligou.

sábado, 24 de outubro de 2009

Noir Bom Tem Cheiro de Café e Gosto de Cigarro

*I

Ela falava nervosamente, sem parar. Descarregava um caminhão de informações em cima de mim com aquela fala chiada, dificultando meu entendimento da situação. Só respirava quando precisava se concentrar para engolir um gole do seu café, ou o choro que teimava em interromper sua narrativa. Era difícil me concentrar na história que ela contava. Eu não conseguia parar de olhar para aqueles lábios vermelhos movendo-se tão rápido, deixando um rastro azul da fumaça do cigarro. Ou o queixo delicado, que se encolhia toda vez que sua voz embargava e os olhos azuis enchiam-se de lágrimas. Eu não podia ver uma mulher chorando. Levantei a mão espalmada num sinal para que ela parasse de falar. Ela parou. Tomei mais um longo gole de café.

“Moça, a senhora me desculpe, mas eu não sou o Humphrey Bogart. Isso aqui não é um filme americano dos anos quarenta não.”

Ela me olhou como se tivesse dificuldade de entender o que eu acabara de dizer. Os olhos azuis apertados, mirados direto dentro dos meus. A testa franzida e as sobrancelhas ligeiramente levantadas. Que rosto lindo. O cotovelo direito apoiado na mesa, sustentando o antebraço esticado para cima, mantendo o cigarro preso entre os dedos finos e longos, próximo à boca vermelha. Que mulher linda.

“O que, exatamente, o senhor quer dizer com isso?”

Respirei fundo e tirei um cigarro, três vezes mais vagabundo que os dela, de dentro do maço amarrotado que trazia no bolso da camisa. Levei calmamente o cilindro à boca e o prendi entre os lábios. Sem babar. Detesto quem baba no cigarro.

“Quero dizer que não sou um detetive particular desses durões de queixo quadrado que a gente vê nos filmes por aí.” – risquei o isqueiro e acendi um dos meus vícios – “Quando a senhora me pediu ajuda para encontrar sua amiga, me meter com bandido não era exatamente o que eu tinha em mente. Essa gente é perigosa. Eu fui polícia.”

“E o que o senhor tinha em mente, então?”, a pergunta veio num tom meio cantado, diferente da fala chiada que fizera questão de exprimir até então. Veio como um ataque direto à minha masculinidade. Um jeito elegante de me chamar de frouxo.

“Dar alguns telefonemas, ir a alguns abrigos, hospitais. Coisa muito mais simples do que a senhora tá me pedindo.”

Ela baixou a cabeça num misto de decepção e resignação. Fitou sua xícara por alguns instantes. Correu o dedo indicador acompanhando os detalhes dourados pintados na porcelana branca. Os cachos louros de seu cabelo escorreram para o seu rosto, mas não esconderam por completo as lágrimas que começavam a escorrer por suas bochechas. Tentou disfarçar o choro virando o rosto e fingindo que olhava alguma coisa pela janela da cafeteria no vigésimo andar daquele prédio comercial. Merda. Não posso ver uma mulher chorando. Eu ia ceder.

“Tá legal. Eu procuro a moça. Procuro da maneira que eu puder. Da maneira que for necessária. E prometo que encontro. Mas a senhora precisa me ajudar. A senhora me dis...”

“Você.”, um sorriso. Estava funcionando.

“Você me disse que ela só tinha a mãe. Eu quero conversar com essa senhora. Preciso que você me dê todas as informações possíveis sobre a moça e sobre as pessoas com quem ela estava metida. Mas não vai sair barato.”

“Se o senhor encon...”

“Você.”. Ela sorriu.

“Se você encontrar a Nina, o investimento vai ser bem feito. Eu só quero a minha amiga de volta. Quanto o senhor cobra?”

“Não sei. Depende do cliente. Ainda estou pensando no seu caso.”

“Pago cem por dia.”

“Moça, nesse serviço nem toda a grana fica pra gente. Às vezes a gente não acha quem dê informações. Mas sempre acha quem venda.”

“Cento e cinqüenta.”

“E a gasolina?”

“Mais a gasolina. Contanto que você não dê passeios demais às minhas custas.”

Eu sorri, para mostrar que entendera o trato. Eu estava fazendo uma puta besteira. E sabia muito bem disso. Ia me arrepender seriamente de ter me metido nessa confusão. Meu estômago já dava saltos gelados na minha barriga. Não tinha certeza de que minhas pernas me responderiam, se tivesse que levantar dali naquele momento. Mas, o que mais eu podia fazer? Não podia ver uma mulher chorando.

“Falo com a dona Leda ainda hoje. Combino esse encontro e te aviso.”

“Combinado. Você tem meu telefone.”

“Agora preciso ir. Obrigada por fazer isso.”

Eu sorri, como quem diz ‘Não é nada. Sempre arrisco meu pescoço por mulheres bonitas que não conheço direito.’ Ela levantou-se. O vestido de seda branca era justo com suas curvas. Um corpo delicado, e ao mesmo tempo sólido. Não consegui evitar uma olhada para suas coxas grossas, em cuja metade o seu vestido terminava com uma faixa de transparência maliciosa, daquelas que prometem visões do paraíso, mas acabam antes do recheio principal. Era linda. O tipo de mulher que sabe que é linda. E que se aproveita disso. Provavelmente era o que ela estava fazendo comigo. Não que eu me importasse.

Ela estalou um beijo na minha bochecha e sussurrou um até logo, colocando os óculos escuros no rosto. Pela grife dos óculos, sua conta bancária era invejável. Segui seu rebolado com os olhos até que ela saísse da cafeteria. Tirei a agenda do bolso da camisa procurei o nome do Guedes. Pedi ao garoto cheio de espinhas na cara que passava um pano no balcão de madeira para usar o telefone.

“Interurbano ou local?”

“Local.”

“É um e cinqüenta o minuto.” Disse tirando o aparelho de trás do balcão e colocando-o à minha frente. Eu aquiesci.

“Alô?”, aquela voz pastosa de quem estava dormindo. Ou trepando.

“Alô, Guedes? Te acordei?”

“Mais ou menos. Que horas são?”

“Onze da manhã já, seu cretino.”

“Porra.”

“Tá afim de almoçar comigo?”

“Pode ser.”

“Beleza. Te busco aí antes de uma da tarde. Tenho uma história pra te contar”

“Combinado.”
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*Primeiro capítulo de uma história ainda sem título que pretende ser um Romance Noir um dia. O resto está na cabeça. Quem sabe um dia não vai para o papel...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Raça, Amor e Paixão

Caralho!, ele pensou, Tenho que fazer tudo sozinho. Os tricolores comemoravam. Filhos da puta. Dentro da sua casa. Na frente da sua nação, do seu povo. Dos seus súditos. Os tricolores vieram, se encolheram, se apequenaram, tomaram sufoco. E na única subida ao ataque os putos marcaram. E essa porra desse goleiro mascarado não colabora. Isso lá é jeito de sair do gol, cacete! Vagabundo. Nunca ganhou bosta nenhuma na vida e já subiu no salto. Essa nova geração do futebol tem muito o que aprender. Geração de porcelana. Frescuras demais. Cortes de cabelo de viados demais. Chuteiras coloridas demais. E futebol pouco. Caráter, menos ainda.

Tudo bem. O Rubro-Negro não é time de morrer de véspera. O camisa dez, que humildemente trazia o número quarenta-e-três às costas, caminhou lentamente na direção do próprio gol. Enquanto os adversários comemoravam o gol marcado e se abraçavam na lateral do campo, ele entrou debaixo das traves, pegou a bola debaixo dos braços e caminhou. Lentamente, sem pressa, ele caminhou na direção do círculo central. A todos os companheiros que o olhavam com algum desespero, alguma agonia apressada, ele respondia com um olhar calmo. Inabalável. Passo em baixa velocidade após passo, crescia a aura de confiança em torno daquela figura. A certeza de que o jogo não acabaria daquele jeito. Sua postura e seus olhos azuis transpiravam a mensagem de que eles virariam aquele jogo.

Baixou a bola na marca que dividia o campo de jogo ao meio. Deu alguns passos calmos para fora do grande círculo e fez um leve sinal com a cabeça para que o Zé e aquele cara meio grosso com a camisa nove reiniciassem o jogo. Eles rolaram a bola, Zé rolou para o maestro. Ele pisou na bola e levantou a cabeça com a frieza, não de quem tem fé ou acredita, mas de quem sabe que enquanto o árbitro não soprar o apito, há tempo de sobra para se decidir um jogo.

O time respondeu ao comando. Partiu para cima, sufocou o adversário ainda com mais força do que havia feito antes de sofrer o gol. O lateral armador rubro-negro, aquele baixinho de sangue quente espanhol, pegou um rebote do goleiro. Emendou de primeira com o pé direito, que não é o bom, e o zagueiro salvou em cima da linha. Mais tarde, o cara meio grosso da camisa nove ajeitou uma bola pra trás e o lateral direito reserva - que não é craque, mas é sério e entende o espírito do time em que joga - acertou um foguete de pé direito. O goleiro pegou. Quando o relógio anunciava aos gritos o último minuto do primeiro tempo, apareceu uma falta dois passos à frente da linha do meio-de-campo. Foi a vez dele. O gringo camisa dez, que joga com a quarenta-e-três por humildade, ajeitou a bola. O time foi todo para a área do adversário. Ele bateu com os três dedos. Daqueles lançamentos que os comentaristas esportivos mais velhos tanto sentem saudade de ver. A bola atravessou metade do campo. E encontrou, perfeita, a cabeça do quarto-zagueiro, um nordestino magricelo e meio baixo que sangra sem remorso pelo time preto e vermelho. A cabeçada pôs a bola na direção exata do canto inferior do gol. Primorosa. O goleiro saltou e deu-lhe um tapa assustado. Escanteio. A sorte não estava do lado dos pobres nesse dia.

***

Só sabe o que aconteceu naquele vestiário quem estava lá. Felizes eles não estavam. Mas duvida-se muito, a ponto de ter gente que aposta a mãe nisso, que tivesse alguém cabisbaixo. Porque o Rubro-Negro não é disso. E o líder desse time não é disso. Certamente ele não falara muito. No Flamengo, não há necessidade de se falar muito. Quem naquele time entende o espírito da coisa, se mata no campo de jogo sem precisar ser convencido por ninguém de que esse é o melhor caminho. Simplesmente sabe. Aqueles que não entendem isso, passarão pelo time, como tantos outros passaram, e serão esquecidos. Alguns talvez ainda façam sucesso em algum outro lugar mais fácil.

Ele certamente se lembrou dos seus tempos de garoto. Da sua estréia como profissional, aos dezesseis anos, com a camisa vermelha do Radnički Niš. Da vitória por quatro a zero sobre um time de Sarajevo. Do tempo em que os companheiros de clube lhe chamavam Rambo. Naquele lugar de prédios de concreto aparente, ração de comida e gente dura. Foi assim que ele aprendeu o que é o futebol. Vinte anos de bola depois, em sua segunda passagem pelo clube, encontrou no Rubro-Negro Carioca a expressão máxima desse ideal de jogo. Petkovic nasceu na Iugoslávia. País que hoje não existe mais. Apesar de analista geopolítico nenhum do mundo conseguir lhe convencer desse desatino.

***

O segundo tempo começou com o time tocando a bola, crente, como seu líder, de que venceria aquele jogo a todo custo. O técnico, aquele negro que fora ídolo na cabeça-de-área desse mesmo Flamengo trinta anos antes, tirou o lateral armador para colocar aquele garoto raçudo que um dia foi craque e hoje é coração. Mais tarde, tirou também o cara meio grosso da camisa nove para colocar um garoto da base que nunca se deu muito bem no time profissional.

Era um arremesso lateral próximo à área dos tricolores. Jogada despretensiosa. Bola na área e o negrinho baixinho que um dia foi craque e hoje é coração chegou antes do tricolor na bola e a dominou com a ponta da chuteira. O tricolor chegou atrasado e tudo o que ele conseguiu chutar foi a batata da perna do negrinho. O árbitro apitou o pênalti e os tricolores gastaram alguns poucos minutos com reclamações.

Era a hora dele brilhar. O líder e craque do time. O especialista em bolas paradas. O gringo mais querido do país. O dez da nação. A bola colocada na marca penal. O goleiro adversário, um dos jogares mais politicamente corretos e mais chatos da história do futebol. Aquele baluarte da mediocridade esticava os braços para os lados tentando diminuir o gol. O iugoslavo, parado na meia-lua da área, esperava a autorização do juiz. Soou o apito. Ele partiu decidido para a bola. Pé direito. Canto esquerdo. Bateu mal. Meia-altura. Fraca. O goleiro pegou. O gringo se deu ao direito de, por um milésimo de segundo, aceitar que a sorte não estava do lado certo naquele dia. E levou rapidamente as mãos à cabeça.

Mas o bandeirinha anulou o pênalti. O goleiro tricolor se adiantou à cobrança. Queimou a largada. Não pode. Repete-se a cobrança. Os tricolores ficaram loucos. Seis ou sete deles rodearam o bandeirinha e argumentaram sabe-se lá o que os jogadores argumentam numa hora dessas. Voltar atrás é que os árbitros não vão. Enquanto os adversários retardavam a segunda cobrança, a torcida sentiu-se necessária. E mais de sessenta mil pessoas começaram a gritar Pet! Pet! Pet! O gringo, assim que percebeu a marcação do trio de arbitragem, voltou ao seu posto na meia-lua e, com o rosto sereno, esperou. O lateral direito reserva, aquele que não é craque, mas é sério, encostou ao seu lado e disse, Mermão, você é o nosso ídolo, e um pênalti não vai mudar isso, Foda-se o pênalti. O maestro acenou levemente com a cabeça, indicando que entendera o recado.

Quando o goleiro tricolor voltou ao seu lugar debaixo das traves, ainda tentou catimbar a cobrança, saindo do gol para conversar com o árbitro, na esperança de desconcentrar o craque rubro-negro. O goleiro voltou ao seu lugar. O juiz apitou. O iugoslavo partiu para a bola, jogou a perna direita para trás, no movimento de quem vai bater com força na bola. O goleiro saltou para o mesmo lado da primeira cobrança. E assistiu, do chão, a bola viajar lentamente pelo ar e morrer, jocosamente na parte superior da rede. Rigorosamente no meio do gol. Com a finta no goleiro humilhado, a bola no filó e o placar empatado, o gringo correu apontando para a torcida com o braço direito estendido no ar. Depois rugiu para os companheiros. Uma comemoração de quem aprendeu futebol com gente dura. Da época em que jogador de futebol não rebolava depois de marcar um gol.

Mais alguns minutos mandando no jogo. Uma bola lançada pelo mesmo lateral direito para aquele garoto da base que não costuma se dar muito bem no time profissional. Um passe com o peito deixa a bola nos pés do iugoslavo. Ele domina com o pé direito, puxa bola para o esquerdo, e rola perfeita entre dois zagueiros do time adversário para o Zé que, na corrida, chega de frente para o goleiro. Ele só tem o trabalho de completar a assistência perfeita com um toque cruzado para o fundo do gol.

Daí pra frente, a tremedeira nas pernas tricolores e os carrinhos e desarmes precisos do dedicado time Rubro-Negro se encarregaram de conduzir o jogo para o seu fim. Um jogo em que o Flamengo foi Flamengo. Um jogo que arrancaria do poeta a verdade que versa: Tudo o que esse time precisa é um técnico preto e oprimido e um camisa dez que saiba jogar futebol. Não é por coisa pouca que um time chega a ter a maior torcida do mundo. E contra a sabedoria da massa, ninguém agüenta. A sorte, por exemplo, quando joga contra o Flamengo, joga no time errado. E perde.

sábado, 15 de agosto de 2009

(...)



Bom, com alguma surpresa, vi esses dias este blog indicado a este selo. A autora da indicação foi minha prima. Minha priminha, e por mais que os adolescentes tenham horror a esses diminutivos, ela é minha priminha. Vi essa moça nascer, não literalmente, claro. Frequentei a casa em Varginha(MG), que dava fundo para o terreno baldio onde teriam visto aquele ET (hehe). Ela era ainda a mais novinha do motim de revoltados que se juntavam e enburravam quando nossos pais resolviam ir à Praia Seca, em Araruama. Praia que ninguém parecia gostar. Lembro da sua viagem psicodélica ao examinar uma garrafa de azeite com forma estranha em uma pizzaria. Se você não lembra disso, prima, eu lembro. E conto e queimo o filme mesmo.

O fato é que essa garotinha hoje é uma moça. E eu fico me perguntando de onde saiu toda essa maturidade que os seus textos transbordam. De mim é que não foi. Da irmã hippie, também creio que não (já tô sabendo do seu comentário quanto à minha habilidade de fazer miojo, dona Mariana). Não sei. E, sinceramente, não importa. Não tanto quanto o fato de que essa maturidade existe. E os textos são de uma densidade, uma profundidade, que ao ler, as vezes tenho a sensação de que ela faz uns clássicos da delicadeza, enquanto o primo meio bronco aqui nunca consegue fazer mais que um Duro de Matar. Parabéns, Marina. Parabéns de verdade. Pelo selo e pelo talento. E te agradeço muito pela lembrança dos meus textos na sua vez de homenagear.

O protocolo diz que devo indicar mais quatro blogs para o prêmio. Bom, desculpem, mas vou me reservar o direito de quebrar a corrente dessa vez. De mudar um pouco o ritual. Já faz algum tempo desde que fiz isso pela última vez, mas acontece que meus blogs preferidos continuam os mesmos que indiquei da última vez. Com uma ou outra novidade, que já ganharam o selo. Todos os blogs das pessoas que indicaria tem link nessa página, vale a pena uma olhada.

Fim dos parênteses.
Beijos, Marina, obrigado.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

As Armas de Jorge

Eu tenho uma insônia do caralho. Por isso rodo de madrugada. O relógio de metal no meu pulso marcava nove e meia da noite. Eu fechei os últimos botões da camisa, escondendo o desenho no peito e as medalhas que pendiam do pescoço. A noite estava quente como o bafo do demônio, e a janela do meu apartamento pequeno já estava fechada. Algumas pequenas gotas de suor começavam a se desprender dos pêlos do meu sovaco e escorriam geladas pela lateral do meu corpo. Peguei as chaves do carro em cima da mesa, apaguei o cigarro no cinzeiro sujo. Parei por um instante de frente para uma vela e a imagem do santo guerreiro que repousam na cômoda. Fiz o sinal da cruz e saí recitando as orações mentalmente. São Jorge, guerreiro vencedor do dragão, rogai por nós. São Jorge, militar valoroso, que com a vossa lança abatestes e vencestes o dragão feroz, vinde em meu auxílio, nas tentações do demônio, nos perigos, nas dificuldades, nas aflições. Cobri-me com o vosso manto, ocultando-me dos meus inimigos, dos meus perseguidores. Protegido por vosso Manto, andarei por todos os caminhos, viajarei por todos os mares, de noite e de dia, e os meus inimigos não me verão, não me ouviram, não me acompanharão. Sob a vossa proteção, não cairei, não derramarei o meu sangue, não me perderei. Assim como o Salvador esteve nove meses no seio de Nossa Senhora, assim eu estarei bem guardado e protegido, sob o vosso manto, tendo sempre São Jorge à minha frente armado de sua lança e do seu escudo. Amém. Ó São Jorge, meu guerreiro, invencível na Fé em Deus, que trazeis em vosso rosto a esperança e confiança, abra os meus caminhos. Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer algum mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrar. Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, a Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos. Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel Ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós, sem se atreverem a ter um olhar sequer que me possa prejudicar. Assim seja com o poder de Deus e de Jesus Cristo e da Falange do Divino Espírito Santo. Amém.

A noite começou mal. Ainda estava cedo para aquele tipo de cena. Primeira corrida do turno. Um negão com cara de bandido batia boca com um traveco no banco de trás. Eu tentava não prestar muita atenção à confusão, tentava prestar atenção à rua já começando a se esvaziar. Mas é difícil ignorar certas coisas. Principalmente quando elas acontecem no banco de trás do seu carro. A confusão era sobre dinheiro. Claro. Dois terços das confusões no mundo são sobre dinheiro. O cara dizia que o traveco lhe devia cem pratas. O traveco negava. Dizia que o dinheiro era dele, ganhou com o próprio suor, essas coisas. O bate boca ficava mais áspero a cada segundo. Palavras duras. “O meu cú é arrombado toda noite e metade da grana é sua por que? Por que você não engole a porra de um desses clientes que você me arruma e fica com o dinheiro? A grana da porra que eu engulo é minha.” Baixo nível. As respostas também eram. “Se não fosse por mim você não engolia porra nenhuma nem ganhava dinheiro nenhum, sua vadia.” Eu queria acabar logo aquela corrida. Antes que os dois se estapeassem, esfaqueassem, sei lá. Mas não deu tempo.

O sangue do negão ferveu e ele enfiou a mão na cara do traveco. O tapa estalou alto, e ele fechou o punho anunciando o próximo golpe. Levei a mão direita até o trinco do porta-luvas e o abri. Puxei a quarenta e cinco que me custou quase seiscentos paus e eu nunca usei. Apoiei a arma no espaço do banco entre as minhas pernas e soltei a trava de segurança. Fechei o porta-luvas, joguei o carro no primeiro recuo e meti o pé no freio. Desci rápido do carro e abri a porta de trás com a Sig Sauer P250 apontada para o cara. “Desce, filho da puta.” Ele me olhou como se não tivesse certeza se eu atiraria, mas foi tirando o corpo de dentro do carro devagar, até que ficou em pé na minha frente. “Vaza.” Ele olhou com o canto do olho para o traveco no banco de trás do carro. O lábio cortado, começando a inchar. “Essa guerra não é sua.” “Vaza.”, repeti. “Você vai me pagar por isso.” Ele virou as costas, enfiou as mãos nos bolsos do casaco e começou a andar, deixando a ameaça no ar. Mantive a arma apontada na sua direção, até ele já ter andado uns trinta metros. Entrei no carro, engatei a primeira e saí rápido. “Pra onde agora?” perguntei. Entre lágrimas, ele me deu um endereço de uma quitinete. “Valeu.” “Não admito porrada no meu táxi.”

***

A noite na cidade grande não é para menininhos. Disso pode-se ter certeza. É para gente grande. Marcada. Cicatrizada. Pra gente com o caráter tão duro quanto o punho. Senão o mundo te engole. Mastiga. Tritura pele, carne, osso, dignidade, sanidade. Depois engole. Não cospe nem o bagaço.

Quando encostei o carro perto da portaria do prédio, as duas moças se aproximaram. “Alicia?” “Sou eu.”, respondeu a loira, que sentou-se no banco da frente. Saia curta, preta. As coxas grossas completamente nuas. Uma bota com um cano até o meio da canela e um salto quinze. A blusa branca deixava os braços e a parte inferior da barriga seca e dura à mostra e o decote mostrava o colo, o inicio dos seios e as duas tiras do sutiã vermelho. Corpo de atriz de novela. Ela me entregou um pedaço de papel cortado reto, com régua. O nome de um hotel de luxo que eu já conhecia e o endereço. “Mas precisamos passar pra buscar uma amiga no caminho, tudo bem?” Por mim estava tudo bem. A morena vestia um sapato de salto alto, meia-calça escura e um short curto, que também lhe exibia as pernas. E uma tira de pano vermelho que só lhe cobria os peitos e seu equivalente às costas. A primeira parte do caminho desenrolou-se sem muita conversa. Alguns comentários esparsos que as duas trocavam. Minha mão por umas duas ou três vezes resvalou na coxa esquerda da loira quando precisei manobrar a alavanca do câmbio. Ela não pareceu se importar. Não moveu a perna. Eu tinha que me encolher todo para evitar que acontecesse de novo.

Parei o carro. A terceira moça também já esperava na portaria. Ruiva. Não parecia cabelo tingido, parecia natural. Mesmo padrão. Pouco pano, muita pele à mostra. E salto alto. Eu contive um sorriso. Ruiva, Loira e Morena. Parecia alguma fantasia clichê. A moça entrou no carro e cumprimentou as outras duas. “Esses caras são meio doentes, né?” perguntou. A loira sorriu ao meu lado. “Vai se acostumando. Até que essa de uma loira, uma morena e uma ruiva tá leve. Já vi coisa pior.” E, virando-se pra trás para olhar nos olhos da moça, “Você também vai ver.” Ela sorriu, mas prosseguiu com as perguntas. “Mas e essas roupas?” “Dona Mirtes disse que o que eles pediram foi: uma morena, uma loura e uma ruiva. Vestidas como se trabalhassem na rua, não na sua agência.” “São doentes. Eu disse. Querem fantasiar que estão comendo uma puta de rua, mas não tem coragem de encarar as feiosas que ficam nas ruas. Doentes. E quanto vão pagar afinal?” Foi a vez da morena responder. “Dona Mirtes disse que a gente fica com trezentos cada uma. Ela deve tá cobrando pelo menos uns mil e duzentos por nós três.” “A parte dela não é muito grande não? Quer dizer, são os clientes dela, mas é o nosso rabo.” “Você ainda é nova. Vai aprender que nessa vida tudo é assim. Você é o burro de carga dos outros. Até um dia ser esperta e dar sorte o suficiente pra mudar de papel e arranjar alguém pra ser o seu burro.”

Parei o carro. As duas de trás desceram. A loira perguntou quanto devia. O taxímetro marcava quarenta e um e setenta. “São quarenta merréis.” Ela tirou uma nota de cinqüenta da bolsa e me entregou. Tirei um bolo de notas do bolso da camisa, puxei uma de dez e a entreguei. Ela sorriu. “Boa noite para o senhor.” “Boa noite pra vocês também, meninas.”

***

Eu ainda terminava meu café quando me chamaram no rádio e pediram que buscasse uma Bianca num festival de música eletrônica no estacionamento do autódromo. Cheguei lá em poucos minutos e encontrei um casal de garotos cuidando de uma menina que parecia passar mal. Desci do carro e os ajudei a colocá-la no banco de trás, onde os dois também se acomodaram. Seus movimentos eram pouco precisos, quase que em câmera lenta, as línguas se enrolavam ao falar. O cheiro de álcool era flagrante no seu hálito, no seu suor.

Durante o caminho, a menina deixava a cabeça pender para todos os lados, solta na ponta do pescoço fino. Os olhos, quando abertos, não pareciam focalizar nada. A outra menina e o rapaz se beijavam. Ele parecia animado com os beijos e logo começou a percorrer o corpo da menina com a mão. Ela parecia cansada demais, ou alcoolizada demais, para reagir. Não parecia à vontade, mas não o repelia. A mão do rapaz corria seus seios por cima da blusa, depois baixou para a barriga, escondeu-se por dentro da roupa e voltou aos seios. Ela tentou afastar-la uma ou duas vezes, mas ele insistiu nas carícias e ela não parecia ter energias para ser mais firme. A mão desceu mais uma vez e pousou entre as pernas da menina por um tempo. Ele deve ter forçado a mão contra sua pele, pois ela logo a tirou de lá. Mas aquela mão voltou, algumas vezes. Assim como explorou outros lugares. Nunca violenta, mas sempre insistente.

Quando parei o carro, a menina que passava mal abriu a porta de supetão, começou o vômito no banco do carro e terminou no asfalto. Desci do carro e os casal me acompanhou. Ajudamos a menina a se levantar. Ela me olhou com vergonha e murmurou um pedido de desculpas. Me sentindo deprimido, respondi que estava tudo bem. A moça se virou para o rapaz e disse que talvez fosse melhor ele não dormir ali essa noite. “Porra, Bianca, mas a gente combinou!” “Eu sei, mas eu to cansada, a Lu não ta bem... Acho melhor não.” Ele fechou a cara, pensou por alguns segundos e saiu pisando firme “Então se vira pra pagar a porra do táxi, que eu vou pra casa a pé mesmo.” “Quanto é?” ela me perguntou. “Vinte e cinco.”, respondi quase me sentindo orgulhoso da menina. “E a lavagem do banco?” “Não é nada. Pode deixar.” Ela me entregou os vinte e cinco e voltou-se para a amiga. Eu ainda lhe sorri um sorriso paternal, mas ela não notou.

***

Não foi a primeira vez que tive de limpar vômito do banco de trás. Já aconteceu de ter de limpar esperma também. E já era dia claro quando terminei. Com os olhos pesados e as pernas doendo, tirei o carro da garagem da empresa. Quando parei no portão, ouvi uma pequena explosão, o barulho do vidro da porta do motorista estourando. Meu ombro deu um tranco e ardeu. O negão que eu tinha expulsado do meu táxi no início do turno avançou, meteu a mão na maçaneta e abriu a porta do carro. Agarrou a parte de trás da gola da minha camisa e me puxou para fora. Estava transtornado, os olhos injetados, mexia-se compulsivamente. Caí de bruços no chão e assim fiquei. Ele encostou o cano curto do revolver na parte de trás da minha cabeça e puxou o gatilho. Pipocou. Mas não sei se ele percebeu. Fiquei imóvel. Ele enfiou a mão no bolso da minha camisa e levou o maço de notas que guardo para o troco. Fugiu.

Quando não conseguia mais ouvir seus passos, me virei com dificuldade. Não conseguia mexer o braço esquerdo. Com a mão direita, abri os botões da camisa. Tirei. A secretária da empresa apareceu ofegante dizendo que tinha uma ambulância a caminho, que ela tinha visto tudo. Quando mostrei meu peito nu, ela sorriu. A minha tatuagem com o desenho de São Jorge estava manchada de sangue, mas via-se bem o furo da bala sobre o desenho do escudo do santo. No ombro. “Quebrou a clavícula. Nada mais grave”, me disse o médico mais tarde.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Gosto de Concreto

Estendi o pote. O homem despejou um pouco de sua cerveja dentro. Era um daqueles potes de plástico, de sorvete. Achei esse pote em uma lata de lixo há alguns anos. Eu sorri em agradecimento, ele aquiesceu. Virei o gole de cerveja, limpei a boca na manta esburacada pelas traças que trazia jogada por sobre os ombros e continuei a andar pelo botequim. Fui até o balcão. Parei ao lado de um homem que bebia cachaça. Ele me pagou uma dose dupla. O atendente, que já me conhecia de longa data e não gostava de mim, pôs uma dose de cachaça num copo e deixou sobre o balcão. Peguei o copo e despejei a bebida no meu pote. “Vou levar pra viagem.” O homem que me pagou a bebida sorriu. O atendente fez cara de nojo. Me acostumei a despertar esse tipo de reação nas pessoas. Não sei se é o cheiro ou a barba. Ou o cheiro da barba. O fato é que as pessoas normalmente têm nojo de mim. O português encheu o copo americano de novo. Despejei a segunda dose no pote e agradeci a generosidade do homem mais uma vez.

Saí do botequim andando em direção à esquina da Matilde, bebericando minha dose de cachaça. A esquina da Matilde era ladeira acima. Minhas pernas inchadas sempre reclamavam da subida. Mas eu gostava da Matilde. Valia o esforço. Matilde era uma prostituta muito gente fina. Me ajudou várias vezes nessa vida. É ela que cuida de mim, passa veneno nos meus cabelos e na minha barba quando tenho piolhos por causa da convivência com aquela gente dos abrigos por onde ando às vezes. Quando quebrei a perna, ela que cuidou de mim. Me deixou ficar em sua casa enquanto não tirava o gesso, fez comida pra mim, pagou as consultas no hospital. Quando tirei o gesso, ela ofereceu a casa pra eu ficar mais tempo, até morar, quem sabe. Não quis. Não ia dar certo. Não fui feito pra morar em casa com mulher. Disse isso a ela. Que não aceitava ficar atrapalhando, sendo sustentado por ela. Ela não precisava de um bêbado na vida, que já era difícil o bastante. Além do mais, eu sei que não sou exatamente o tipo de pessoa com quem se pode contar. Tinha medo de me acomodar com a situação. De dever explicações que sabia não ter mais paciência para dar. Não fiquei na casa. Mas a amiga eu mantenho.

A Matilde estava especialmente bonita. Os cabelos pretos jogados sobre os ombros, coxas de fora, salto alto. Um contraste com a minha barba enorme, densa feito bloco de concreto e fedorenta feito cachorro molhado, e o meu sorriso de dois dentes. Apesar dela também não ostentar muitos em sua boca. “Oi, bonitão.” Me disse, estalando um beijo na minha bochecha. Sorri sem-graça. “Como vão as coisas?” Perguntou rindo-se da minha timidez. “Vão como sempre foram.” “Isso é mal.” “Ainda não. Mal vai ser o dia que a cachaça secar.
"

Um gordão chegou, combinou um preço com a Matilde e os dois saíram de mãos dadas. A Matilde cobra uma mixaria. Se eu tivesse dinheiro, pagaria três, quatro vezes o preço que ela cobra. É o maior mulherão. Ela devia se valorizar mais. É. Devia mesmo. Vou dizer isso a ela na próxima vez que a gente se esbarrar por aí. Mas, me corta o coração mesmo é ver a coitada apanhar daquele cafetão. E da polícia. Não sei qual é pior
.

Ouvi gritos. Voz de mulher. “Pára, pára.” Voz conhecida. Procurei pela voz e vi a Hilda caída no chão. Vestido rasgado, filete de sangue descendo pela boca. Três garotos com roupas de classe média estavam em volta dela. A Hilda é minha ex-namorada. Quer dizer, acho que dá pra chamar assim. A gente trocou uns beijos uma vez. Mas ela me trocou por outro. Um malandro que andava por essas bandas. Foi morar com ele e tudo. E espalhou pra turma que meu pau era pequeno. Vaca. Se fodeu. O malandro, depois de muito bater nela, deu-lhe um pé na bunda. Agora ela tá por aí. Vagando sem teto que nem eu. E tomando porrada de filhinho de papai entediado. Eu reconheci um dos garotos. Era o mesmo que quebrara minha perna. Sentei no meio-fio e assisti ao show em meio a goladas de cachaça. Os garotos chutavam a barriga da coitada, chutavam o rosto, tudo o que dava. Até que a arrastaram pelos cabelos pro beco, e eu vi as silhuetas deles revezando-se sobre a silhueta dela. Ela pediu “Por favor” e “Pelo amor de Deus” pra eles pararem várias vezes. Não adiantou porra nenhuma. Eles nunca param
.

Ninguém interveio. Nem eu, todo inchado e bêbado sentado na calçada, nem as pessoas do botequim, nem as putas pela rua. Ficou todo mundo fingindo não escutar os gritos e torcendo para aquilo acabar logo
.

Quando eles acabaram, deixaram a silhueta da minha ex-namorada largada no beco, subiram as calças e foram embora de nariz empinado e sorriso no rosto. Eu andei até o beco, achei a Hilda no chão. Chorando, com o vestido trucidado. Toda vermelha de tanta porrada e a cara enfiada na calçada. O rosto sujo de alguma coisa que escorria das caçambas de lixo ao redor. Entreguei meu pote pra ela. “Bebe. Vai te ajudar, eu prometo. Vai tirar o gosto de concreto da boca.” Ela sorriu e deu uma golada. Ouvimos um barulho de freada, muito alto. Mais tarde me disseram que foi um motorista bêbado que atropelou os três estupradores. Um morreu na hora, o outro quebrou a bacia e o último teve um braço arrancado. Disseram também que todo mundo na rua, quando viu a cena, correu pra ajudar. “Porra nenhuma.”, pensei, cético e amargurado, mas crente na justiça divina. “Essa gente gosta é de sangue. Correram foi pra ver a desgraça de perto. Olhar a morte no olho. A morte dos outros. Quando for a deles, os covardes vão desviar o olhar, como todo mundo.
"
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*Versão revista do texto postado nesse blog em 16 de setembro de 2007 sob o título de Antropologia Urbana.

domingo, 5 de abril de 2009

Odisséia

“Pra onde você vai agora?”

“Pra casa da minha avó.”

“Entra aí que eu te levo.”

Abri a porta do carro pra que ela entrasse. Ela sentou o corpo no banco do carona. Fechei a porta e dei a volta no carro. A barriga tremeu. Roncou. Cacete. Sentei-me ao volante torcendo pra dar tudo certo. Dei a partida e saí com o carro. Uma curva, outra. Um retorno. A barriga tremeu de novo. Roncou de novo. O cú piscou. Queria ser religioso nessas horas. Mas não era. Não tinha um deus pra quem eu pudesse pedir pra segurar a merda mais um pouco. Meu diálogo era só com o meu rabo mesmo. E ele não dava sinais de que queria cooperar. Mais uma curva.

“Eita, olha quem ta ali!.”, ela disse me apontando um amigo que andava ao sol. Certamente estávamos indo para o mesmo lado. Parei o carro rapidamente na rua.

“Entra aí, Zé.”

Ele entrou. Não me lembro, em absoluto, da conversa daí pra frente. Mas papeamos os três. Mais os dois, eu dirigia. E rezava. Depois de um outro retorno, o cú piscou mais uma vez. Os pêlos do meu braço se arrepiaram. Tentei esconder. Vislumbrei a possibilidade de usar um banheiro qualquer, uma moita. Qualquer coisa. Comecei a duvidar de que daria tempo de chegar em casa. Curva, curva, curva. Encostei o carro. “Falou, moleque.” Engatei a primeira, segunda, terceira, curva. Cú piscando. Curva. Parei o carro na frente do prédio. Eu queria pedir pra subir, pra usar o banheiro. Queria muito. Dona Lili nunca mais olharia na minha cara, se a bomba que eu estava pra soltar fosse tão feia quanto eu imaginava. Não me importava. Qualquer coisa seria mais fácil de agüentar do que aquilo. Eu queria pedir pra subir.

“Tchau, amor.”

“Tchau.”

Ela desceu do carro, me jogou um beijo que eu não lembro se retribuí. Arranquei com o carro. Retorno, curva, quebra-mola. Não! Quebra-mola é maldade. A barriga virou de cabeça pra baixo. Todo arrepiado de novo. Saquei o celular e disquei o número da minha mãe.

“Alô.”

“Alô, mãe?”

“Oi. Já chegou?”

“Não. Ué, já terminou o que tinha que fazer?”

“Já. A loja tava fechada.”

“Já posso te buscar então?”

“Já.”

“Então deixa pra lá.”

“O que você queria?”

“Nada. Depois eu te explico. Tô chegando aí.”

Curva. Faixa meio vazia. Agradeci. Sessenta por hora. Pardal. Cento e vinte. Sessenta. Pardal. É o último aqui. Cento e vinte. Reduzi. Curva. Curva. Cento e vinte. Curva aberta a cento e vinte mesmo. Sessenta. Pardal. Pisei fundo de novo. Setenta. Pardal. Pisei de novo. Curva. Sinal verde! Quase chorei de alegria. Rotatória, curva. Puta que pariu! Um Gol preto andando a vinte por hora! Não dava pra ultrapassar. Caralho! Agonia. Muita agonia. O Gol virou à esquerda, enfim. Pisei fundo, curva. Vaga! Desliguei o carro e desci. Minha mãe já vinha em minha direção. Ainda bem. Comecei a acreditar que tudo ficaria bem de novo.

“Oi.”

“Oi, mãe.” Entramos no carro.

“O que você queria aquela hora?”

“Queria perguntar se você se importava de esperar mais um pouco, se ainda não tivesse terminado de resolver as coisas. Queria passar em casa antes. Aí voltava pra te buscar. Acho que to passando mal.”

“O que foi?”

“Dor de barriga.”

“Vixe.”

Rotatória. Ia ter que entrar na via principal. Sinal fechado pra eles. Agradeci aos céus. Retorno. Caralho. No retorno não tinha sinal. Era esperar parar de vir carro. Ia demorar. A quantidade de carros que vinha me ocupar a pista era um absurdo. Cidadezinha pra ter carro. Puta merda. Não, merda não. Por enquanto não. O cú piscava, os pêlos se eriçavam. A barriga era um terremoto permanente.

“Esse retorno a essa hora é um inferno.”

“Ô.”

Finalmente. Um Versailles vinho mantinha uma distância boa de um Celta prata. Não dava pra ficar ali, mas dava pra passar à faixa da direita, que estava livre. O Versailles passou. Entrei na pista. Faixa da direita. Pé fundo no acelerador. Ou não. Muito carro. O Celta passou por mim, pulei pra faixa da esquerda. Ninguém passava de sessenta por hora. Agonia. Muita agonia. Eu já balançava compulsivamente a perna esquerda. A barriga roncava. Eu me arrepiava. Gotas de um suor gelado escorriam da minha testa pelo rosto. Freio! Dois carros à minha frente, freando para não entrarem na traseira de um inconseqüente que cruzou a faixa fechando todo mundo para pegar um retorno. O susto serviu, pelo menos, pra dar uma trancada. Mas o mal-estar só aumentava com a agonia. Começamos a andar de novo. Ninguém passava de sessenta. As duas faixas cheias de carro. Desespero. O suor frio pingava. Liberou a faixa da direita, pulei pra ela. Pisei fundo. Costurei alguns carros, sem precisar reduzir a velocidade.

“Filho, me deixa aqui no supermercado então, que eu tenho uma coisa pra fazer. Vai pra casa, resolve sua vida aí e depois volta pra me pegar.”

Entrei no recuo para o estacionamento. Parei o carro. Minha mãe desceu. Arranquei com o carro. Precisava voltar à via principal para pegar a entrada para a quadra onde moro. Puta merda. Milhões de carros de novo. Muitos. Muitos carros. O desespero me consumia. Não conseguia pensar. Quase entrei na pista umas três vezes sem ter espaço. Cacete! Eu já estava nessa pista! Sair pra voltar é brincadeira! A entrada era logo ali! Abriu uma brecha. Enfiei o carro e fui até o acostamento. Fui pelo acostamento mesmo até a entrada da quadra, torcendo para que nenhum policial do posto ali em frente visse a manobra e me mandasse parar. Não viram. Entrei. Agora estava perto. Era uma rotatória e uma curva. Ia dar tudo certo. Desci até a rotatória. Colei em um Uno verde escuro, que estava colado na traseira de uma van escolar. A van fazia a manobra devagar-quase-parando. Xinguei um sem número de gerações do motorista da van. Por que é que quando estamos chegando perto do destino, a dor de barriga vai piorando? Por que é mais difícil de segurar uma caganeira quando se está perto de casa? A van terminou a rotatória. Quebra-mola. A van entrou à direita. Dei graças a deus, em quem eu já até acreditava a essa altura do campeonato. O Uno não acelerou. Manteve-se à minha frente à mesma velocidade de quando perseguia a van escolar. Uma loira dirigia, papeando, como estivesse em um salão de beleza, com os outros três ocupantes do carro. Tentei a ultrapassagem. Uma bicicleta. Sim, uma bicicleta vinha no meio da outra pista, no sentido contrário. Um carro despontava às suas costas. Não dava pra passar. Voltei a colar na traseira do Uno e esperei a eternidade que ele levou para liberar minha entrada à direita. Entrei, por fim. Desci até a casa quase sem saber se era mais difícil conter as lágrimas ou a merda. Parei o carro e acionei o portão eletrônico. A grade de ferro demorou três vezes mais que o normal para deslizar e abrir espaço pro meu desespero. Entrei, mandei o portão fechar às minhas costas. Parei o carro, peguei a chave de casa no porta-luvas e corri. Entrei em casa e fechei a porta sem trancar. Disparei para o banheiro. Entrei, tranquei a porta. Levantei a tampa do vaso, baixei as calças, a cueca e me sentei. Raios e trovões e terremotos. Um fedor terrível. E uma enxurrada de excremento. E o alívio. Uma conferida na cueca. Nem um pingo. Nenhuma freada. Vitória!

Quando terminei, levantei-me e olhei para o lado. Sem papel. Sem problemas. Tomo um banho. Apertei o botão da descarga. A água inundou a cavidade da privada. Encheu. E a água não desceu. Entupiu. Vida escrota.

domingo, 22 de março de 2009

Surpresa

A cabeça parecia ter três vezes o tamanho normal. Gosto metálico na boca seca. Princípio de náusea. Virei o rosto no travesseiro. Lá estava ela. Nua. Respirando fundo em seu sono. Achei-a feia. Não feia a um ponto repugnante. Mas feia. Quis lembrar-me do nome dela. Quis muito. Não consegui. Virei-me na cama e fitei o teto. Deixei que alguns minutos corressem. Não era a primeira vez que acordava em uma cama estranha, com uma mulher estranha, depois de uma noite como aquela. Os poucos flashes de memórias da noite anterior a que ainda tinha acesso invadiam-me a mente tão dolorosos que não gastava minhas energias tentando lembrar de nada. Olhava para o teto. Só olhava para o teto. Quase não me mexia.

Ela revirou-se ao meu lado e sua mão encontrou meu peito. Estalou a língua como se tentasse descolá-la da boca. Suspirou fundo e, ainda soltando o ar, sussurrou um “Bom dia”. “Bom dia”, respondi forçando, mas não muito, um sorriso nos lábios. “Quer tomar café?”, a pergunta veio da pequena fresta entre seus lábios e o travesseiro, contra o qual seu rosto estava amassado. “Pode deixar que eu me viro, se não quiser levantar ainda.” “Tem certeza?” “Claro.” “Tá bom, então. Você sabe onde fica a cozinha.” Não, eu não sabia onde era a cozinha. Mas num apartamento daquele tamanho não seria difícil de achar.

Andar só de cueca na casa dos outros é como andar pelado na multidão. Não me lembrava se ela tinha filhos que podiam acordar e me ver pela casa daquele jeito. A idéia também só me ocorreria tarde demais. Quando cheguei à cozinha, que não fora mesmo difícil de encontrar, pus-me a abrir alguns dos poucos armários à procura de uma leiteira. Encontrei uma. Enchi com água do filtro de barro, acendi o fogão e encaixei o fundo da leiteira na grade de uma das bocas.

Conseguia lembrar-me bastante bem do momento em que cheguei à festa na noite passada. Mas o que aconteceu depois disso, durante a festa, só me chegava em alguns poucos flashes. Lembro que bebia uísque com gelo de água-de-coco. Não lembrava de ter bebido nada diferente durante a festa. Na verdade, só de pensar no cheiro do malte e do álcool, meu estômago já embrulhava. A boate estava cheia, demorei a encontrar Paula, a aniversariante. Quando a encontrei, depois do abraço e dos votos de praxe, ela me apresentou a loira. A loira! É ela a culpada pela ressaca que me acompanha agora.

Abri a garrafa térmica que estava em cima da mesa e despejei o resto de café na pia. Abri mais algumas portas de armário e encontrei um funil e uma caixa de filtros de papel. Acomodei um filtro de papel, acompanhando o contorno interno do funil e deixei separado ao lado da garrafa. Um pote grande de plástico trazia uma etiqueta com “café” escrito. Enchi o funil até a metade com o pó de café.

Eu gostei da tal loira. Gostei muito. Jéssica. Ela me cumprimentou com um beijo estalado no rosto e um sorriso lindo. Acho que eu já estava apaixonado a essa altura. Ela era a mulher mais bonita da festa, sem dúvidas. Conversamos durante muito tempo. Uma mulher linda, que gostava de futebol, filmes violentos e fast food. Eu queria casar com ela. E ela também gostou de mim. A noite apresentava um potencial de perfeição altíssimo. Eu estava encantado, hipnotizado. Não devia existir outra mulher no mundo com características tão perfeitas. Nós nos beijamos. Além de tudo a desgraçada beijava bem. Eu estava absorvido pelo massagear calmo de sua língua e pelas curvas de sua cintura, que eu tomei em meus braços. De repente tudo acabou. Ela me afastou. Cortou o beijo antes do fim. Baixou os olhos e, livrando-se de meu abraço anunciou a tragédia. “Não posso. Me caso semana que vem.” “Eu odeio ele.” “Ela”, corrigiu, “Vou casar com uma mulher.” Girou nos calcanhares e saiu. Não a vi mais.

A água ferveu. Apaguei o fogo e peguei a leiteira. Despejei parte da água na garrafa térmica, mexi, e despejei na pia. Repeti o processo. Quando julguei que a garrafa devia estar limpa, encaixei o funil com o filtro e o pó de café na boca da garrafa e enchi de água até a boca. Esperei a água baixar, e enchi mais uma vez. Repeti o movimento até que a água fervida se acabasse. Fechei a garrafa térmica, joguei no lixo o filtro e o pó que sobrou e deitei na pia a leiteira e o funil. Achei na geladeira um bolo pela metade, e cortei um pedaço.

A rejeição da loira foi demais pra mim. Resolvi beber de verdade. Enchi o pote. Passei da conta. Foi quando encontrei essa feiosa que está no quarto agora. Eu estava terrivelmente bêbado, ela se aproximou, se insinuou. Não lembro de termos conversado muito. Trocamos poucas palavras no caminho. Não lembro sobre o que. Foi ela que me trouxe pra cá. Não lembro muito bem do que fizemos naquele quarto.

Eu sentei à mesa com uma xícara de café e um pedaço de bolo com gosto de geladeira. Passava os olhos pelo apartamento enquanto comia. O enjôo já estava melhorando. Foi quando aconteceu. Barulho de chave na porta de entrada. Quando olhei na direção da porta, ela se abria. Um homem parou na entrada quando percebeu minha presença. Por algum motivo suas feições não me eram estranhas. Baixei os olhos para os porta-retratos na mesinha de canto. Meu sangue gelou. Lembrei de onde conhecia aquele rosto. Me lembro de ter pego aquele mesmo porta-retrato nas mãos na noite anterior. “Você é casada?”, perguntei meio espantado. “Ele está viajando.” O desespero tomou conta da minha mente. O homem levou a mão direita ao bolso dentro do casaco e puxou um Taurus .38 com um olhar algo confuso e algo decidido lançado na minha direção. Tudo o que eu consegui dizer foi “Você só devia voltar na terça-feira.” Ele puxou o gatilho. Nos segundos em que o buraco no meu peito ainda não me matara ele respondeu, “Era pra ser uma surpresa.”. E foi, de fato, uma surpresa.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Paris, Texas: A Redenção De Um Solitário

Não sou dado a fazer críticas cinematográficas. Não por escrito, pelo menos. Sempre fui um apaixonado por cinema. Até onde consigo voltar minhas memórias, o mais perto que consigo chegar dos meus primeiros dias, me confirmam isso. Sempre gostei muito dos filmes. Mas nunca passou disso. Nunca fui de conhecimentos lá muito técnicos. Sinceramente, nunca me peguei imaginando se uma cena seria melhor filmada num plano geral, ou num plano médio. Entendo a diferença. Mas não é o que me chama mais atenção quando sento pra assistir alguma coisa.

Bom, por razão de uma matéria na faculdade, me vi obrigado a passar para o papel minhas impressões sobre algum filme que eu escolhesse. O filme de Wim Wenders “Paris, Texas” ganhou a palma de ouro, no Festival de Cannes, em 1984. Assim como o Prêmio Ecumênico do Júri e o Prêmio FIPRESCI no mesmo festival. Recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e ao Cesar, também de Melhor Filme Estrangeiro. Ganhou o Prêmio Bodil de Melhor Filme Europeu e ganhou o BAFTA de Melhor Diretor, além de ter sido indicado nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora. Mas nada disso corresponde à razão por que escolhi escrever sobre “Paris, Texas”. O fato é que, já que ia ter que escrever de qualquer jeito, melhor pegar um filme que eu goste. E “Paris, Texas” faz parte do meu Top 5. Ao lado de “O Poderoso Chefão” (Francis Ford Coppola, 1972), “Era Uma Vez no Oeste” (Sergio Leone, 1969), “Os Imperdoáveis” (Clint Eastwood, 1992) e “Taxi Driver” (Martin Scorsese, 1976). Acontece que, como sou fã do cinema americano, “Paris, Texas” é o mais Cult, mais alternativo dos cinco. Bom, achei que, lidando com os cults da faculdade de comunicação, onde pegava a matéria, era melhor do que escrever sobre bang-bangs e filmes de gangsters.

Para quem ainda não assistiu, recomendo fortemente “Paris, Texas”. Como recomendo fortemente os outros quatro. Mas acredito que o texto é melhor absorvido por quem já assistiu ao filme. Portanto, se eu fosse você, assistira antes de ler esse ensaio (que, aliás, está repleto de spoilers). Na verdade, nem precisa ler o ensaio, é o de menos. Mas assista ao filme, vale a pena.

(PARIS, TEXAS; Wim Wenders, Alemanha/França, 1984)

Introdução
O expectador que assiste a “Paris, Texas” pela primeira vez é, logo de cara, apresentado a Travis (Harry Dean Stanton). Vagando pelos secos pedaços de terra do Deserto de Mojave, belissimamente captado pela fotografia de Robby Müller, Travis é um verdadeiro trapo. Um terno negro e um boné vermelho de beisebol sujos de poeira e ensopados de suor. O corpo magro, a pele do rosto castigada pelo sol inclemente do deserto, a barba grande e vasta e os olhos injetados como os de alguém que ainda se recupera de um enorme porre. Travis desmaia em uma birosca no meio de lugar nenhum, desidratado, e é socorrido por um médico local. É quando o expectador descobre que Travis está mudo. Mais tarde, percebe também indícios de amnésia, além de ser informado que ninguém tem notícias daquele homem há quatro anos.

Parece natural, diante de um diagnóstico tão perturbador, que esse expectador imagine se tratar de um filme sobre o que aconteceu na vida daquele homem para levá-lo àquele estado. Que tipo de problema seria capaz de fazê-lo acabar assim. Se enganaria o expectador, se assim pensasse. O que Wim Wenders nos apresenta nessas belíssimas primeiras cenas – de um filme repleto de belas cenas – é nada mais que o início da história. Não há flashbacks em “Paris, Texas”. Apesar desse passado misterioso e, certamente, trágico ser premissa do filme e estar presente durante toda a projeção, se revelando aos poucos, o objetivo principal do filme não é mostrar toda sorte de tragédias que podem ocorrer na vida de um homem. O objetivo é, pelo contrário, narrar a redenção desse homem. Seu ressurgimento das cinzas de sua própria vida e da de seus entes mais próximos.

Paris, Texas: Um road movie com destino à cicatrização das feridas
O road movie é um gênero clássico do cinema estadunidense. Muitas vezes referido no Brasil por sua tradução literal, filme de estrada, o gênero costuma abrigar “personagens solitárias, errantes, que vagam incessantemente de um lugar a outro, fugindo de um passado tão doloroso quanto misterioso, única forma encontrada de expiar a culpa que carregam pela sua história.”. É mais ou menos assim que Travis é apresentado no início do filme. Um belíssimo plano geral e uma leve plongée reverenciam a vastidão e a aridez do deserto visto de cima, e Travis é um ponto negro vagando sem rumo por aquela imensidão. Errante. Solitário. Esmagado contra o chão, engolido pela paisagem ao seu redor. O vazio interior do personagem nos é apresentado tão profundo e devastador quanto o vazio do deserto, aquele vácuo de civilização.

O médico que atende Travis por conta de seu desmaio consegue, através de um cartão que encontra na carteira do andarilho, contatar Walt (Dean Stockwell), irmão de Travis. Walt sai de Los Angeles, onde mora, até o sul do Texas para buscar o irmão, de quem não tem notícia alguma há quatro anos. Quando chega à clínica, no entanto, o médico lhe explica que seu irmão está mudo, e que desapareceu de novo na manhã daquele mesmo dia. Walt encontra o irmão andando sem rumo próximo a uma estrada. Travis demora e reconhecê-lo, mas concorda em entrar no carro.

Walt teria que buscar Travis pela estrada ainda mais uma vez, depois que o protagonista foge dos cuidados do irmão enquanto estava sozinho em um quarto de hotel. Dessa vez, Travis segue uma linha de trem cujo destino é o horizonte. Ele só volta para o carro com o irmão e para a viagem até Los Angeles quando Walt o convence que não há nada para Travis naquele destino incerto. É a partir daí que temos a realização plena do road movie. Travis não concorda em viajar de avião, e os dois irmãos seguem a viagem de carro. E é também a partir daí que o contato com o irmão vai despertando em Travis as primeiras lembranças do que aconteceu à sua vida, e o início de sua viajem rumo à redenção quando, já com vinte e cinco minutos de projeção, Travis quebra seu silêncio e diz sua primeira palavra: “Paris”.Como bem coloca Diego Anami, "é interessante o fato de sermos conduzidos à história do protagonista aos poucos, na mesma medida em que ele vai se deparando com seu passado, vamos nos deparando com os elementos da história, a linha narrativa do filme seguindo a perspectiva de Travis gera empatia e é interessante, há um grande passado que é premissa do filme, porém, enquanto o protagonista não se confronta com tal, nós não o sabemos. Portanto, mesmo que Paris, Texas utilize uma narrativa linear clássica, há uma forma um tanto fragmentada no modo como somos conduzidos pela história junto com o pouco comunicativo Travis."

A primeira das lembranças de Travis na construção desse caminho rumo à sua redenção nos é apresentada através de uma fotografia que o protagonista traz consigo. Na foto, não há nada mais que um terreno vazio, um pedaço de deserto, muito parecido com o cenário por onde Travis vagava. A Walt ele explica que aquela é uma foto de um pedaço de Paris. Um terreno que comprara pelo correio alguns anos antes. Na cidade de Paris, estado do Texas. Mas só algum tempo depois de dar essa explicação é que Travis consegue se lembrar por que comprara o tal terreno. Sua mãe lhe dissera que fora em Paris, Texas que “fizera amor” com seu pai pela primeira vez. Travis vê aquele pedaço de chão como sua origem. Como o lugar onde foi concebido. E é esse o seu ponto de partida no pedaço de sua vida que é narrada por Wim Wenders.
Walt explica que quando Travis desaparecera, quatro anos antes, Hunter (Hunter Carson), filho de Travis, aparecera em sua porta e ele e Anne (Aurore Clément), sua esposa, passaram a cuidar do menino. Hunter só conseguia dizer que alguém o levara de carro até a casa de Walt e Anne e não sabia explicar o que tinha acontecido a seu pai, Travis, ou sua mãe, Jane (Nastassja Kinski). Walt explica também que tentou encontrar Jane e não conseguiu, assim como não conseguiu encontrar o próprio Travis. Assim é posto, portanto o primeiro desafio de Travis: a reconciliação com o filho, assim que ele e Walt chegam a Los Angeles.

Quanto à reaproximação de Travis e Hunter, “a câmera de Wenders acompanha o processo de longe, sem pressa.”. Assim como Travis age sem pressa em relação a Hunter, entendendo a dificuldade do menino em assimilar a nova situação, dando o espaço de que ele precisa. ”Wenders evita os closes, prefere deixar algum espaço entre seus personagens e a platéia. Assim, não invadimos por completo as intimidades de Travis e Hunter."

Após uma tentativa frustrada de reaproximação – Travis pede para buscar Hunter na escola, mas o menino o rejeita, ele não quer voltar para casa a pé, “Todo mundo vai de carro...” – Travis, Walt, Anne e Hunter sentam-se para assistir a um vídeo caseiro, em Super-8, feito por Walt alguns anos antes, quando Travis, Jane e Hunter ainda estavam juntos em um fim de semana na praia acompanhados por Walt e Anne. Intercalando cenas de uma família feliz no passado e as reações de Travis no presente ao assistir às cenas, Wenders produz um dos mais belos fragmentos da história do cinema. De uma força e sutileza incríveis. O filme em Super-8, inundado de luz, granulado, de câmera na mão e embalado pela música de Ry Cooder mostra uma família feliz em um típico filme caseiro. O presente sempre cheio de pontos escuros, em jogos de luz e sombra perfeitos, é triste, comedido e silencioso.
http://www.youtube.com/watch?v=Dt42lwoHp9U


Ao fim do filme caseiro, Hunter, que era até então separado de Travis por um balcão, está ao lado do pai. E é assim que o chama, de pai, quando despede-se de todos, mandado para a cama por Anne. A memória de tempos felizes trazida pelo vídeo serve de empurrão para a reaproximação definitiva dos dois. Assim como serve de empurrão para que Travis decida que deve remediar a situação em que se encontram os personagens daquela estória.

No dia seguinte, Travis procura se parecer com um “pai”. Com a ajuda da empregada da casa, muda as roupas, o olhar, a postura e o caminhar. A tentativa de transformar sua figura em uma figura de um pai é recompensada quando vai buscar Hunter na escola. Desta vez os dois voltam andando. Hunter em uma calçada, de um lado da rua. Travis do outro. Os dois vão olhando-se, sorrindo, e fazendo graça um para o outro. Ao fim da cena, Travis atravessa a rua em direção a Hunter e o lírico acorde da guitarra de Ry Cooder reforça o simbolismo da belíssima cena. Travis e Hunter terminam o caminho andando lado a lado. Pai e filho reconciliados enfim.

A segunda parte da redenção de Travis se apresenta quando Anne conta-lhe que Jane ligava, logo que deixara Hunter com ela e Walt, para saber do menino. Conta também que já não falava com Jane há pouco mais de um ano, mas que ela a havia pedido para abrir uma conta bancária para Hunter e depositava, no dia cinco de todo mês uma quantia em dinheiro para o futuro do filho. A seu pedido, o banco havia rastreado os depósitos. Vinham de um banco em Houston, Texas. E é através dessa informação que Travis decide tentar encontrar Jane. Quando conta a Hunter o que vai fazer, o menino se prontifica a ir junto.

No dia cinco de novembro, Travis e Hunter chegam a Houston. Os dois vão ao banco em que Jane faz os depósitos na esperança de encontrá-la. Pai e filho separam-se para cobrir uma área maior, e comunicam-se por um par de walkie-talkies. Tanto Travis quanto Hunter, no entanto, caem no sono. O menino acorda exatamente a tempo de reconhecer a mãe em um dos carros que está saindo do banco. Travis demora a acordar e atender o chamado do filho pelo walkie-talkie, o que obriga os dois a seguirem de longe o carro de Jane até seu local de trabalho pelas movimentadas vias expressas de Houston.

Travis entra sozinho, deixando Hunter no carro, à procura de Jane, para descobrir que a mulher trabalha em cabines de peep-show. A cena é perfeita. A subjetiva frontal nos coloca na perspectiva de Travis, que vê Jane dentro da cabine através de um vidro especial que não permite que ela o veja. E ele não se identifica. Uma delicada composição de quadro põe Jane no centro da tela, onde reina absoluta. O centro da atenção de Travis e da nossa.
http://www.youtube.com/watch?v=zL3xjLymeLo&eurl=http://www.ufscar.br/rua/site/?p=761


A experiência é um baque para Travis, que deixa o estabelecimento, visivelmente atordoado, direto para um bar, nos arredores da cidade. É quando mostra a Hunter a fotografia do terreno em Paris, Texas. “Comprei quando estávamos juntos, eu, você e sua mãe. Esperava que nós pudéssemos morar lá um dia.”. “Na terra?”, pergunta Hunter, do fundo de sua marcante objetividade. Travis sorri. É isso. Paris, Texas não será possível. Não há maneira de os três voltarem a formar uma família. Em Paris, Texas não há uma casa, ou um trailer onde viver. Só há terra. Assim como na relação entre Travis e Jane há amor, mas não há estrutura que a mantenha de pé.

O dia seguinte é decisivo, é a hora de terminar a viajem pelo passado. Travis deixa Hunter em um quarto de hotel, com uma mensagem de despedida na memória de um gravador, e segue em direção a Jane.

O segundo encontro entre os dois é apresentado de forma diferente. De volta à cabine de peep-show, dessa vez não há subjetivas. Vemos Jane fazendo parte da composição do quadro, atrás do vidro, fragilizada. Travis, no primeiro plano, recusa a condição de voyeur instaurada pela cabine virando sua poltrona de costas para o vidro, como que tentando estabelecer uma igualdade de condições em relação a Jane, que não pode vê-lo. Ao expectador não é permitido o mesmo subterfúgio. Nossa condição de voyeurs é irremediável e fragiliza os personagens. Sobretudo Jane. Os movimentos de Travis aparentam ser controlados demais, deixando claro que o homem está, na verdade, à beira do descontrole. A forma cuidadosa como apóia o telefone em cima da mesa, como levanta-se e vira sua poltrona de costas para Jane deixam claro o esforço desprendido por Travis para manter-se controlado.
A partir desse quadro, Travis começa a narrar a história dos dois, sempre em terceira pessoa, para Jane que, desde o início demonstra identificar-se com a narrativa familiar. A partir do momento em que não há dúvidas para ela que a estória contada no tom monocórdio da voz de Travis diz respeito à sua própria história, Jane deixa de conter o choro e é só a partir de seu choro que Wenders passa a utilizar close-ups em seu rosto fragilizado. Essa é a grande prova de que Paris, Texas é uma estória sobre a redenção de um homem, não sobre sua queda. A opção de Wenders – e do roteirista Sam Shepard – de privilegiar esse relato e não nos mostrar em flashback as imagens dramáticas da tragédia por que passaram Travis, Jane e Hunter, deixam claras as prioridades da estória. Ao fim do relato, ela aproxima-se do vidro, demonstrando ter reconhecido seu interlocutor. Travis volta sua poltrona para a posição normal e, então, em uma genialidade gritante de Wenders e Müller, as imagens dos rostos de Travis e Jane sobrepõe-se no vidro. Suas almas, ainda unidas. Mas seus corpos agora não dividem sequer o mesmo cômodo. Quando Jane entra no quarto de hotel de Hunter, depois de receber de Travis a informação necessária para encontrá-lo, Wenders nos brinda com o mais belo abraço da história do cinema. Mãe e filho reconciliados, enfim. A cena final ainda nos trás Travis dirigindo, aparentemente sem rumo. Errante e solitário, como no início do filme. Agora, no entanto com a certeza do dever cumprido.

http://www.youtube.com/watch?v=_ki9CjApBZ4


Um hino da solidão
Dois aspectos contribuem imensamente tanto para a narrativa quanto para a beleza da paisagem fílmica de Paris, Texas. A primeira é a música de Ry Cooder. A segunda, a fotografia de Robby Müller.

Ry Cooder é um especialista na técnica de slide guitar. Não trai essa condição em Paris, Texas. Com frases que retomam a canção “Dark was the night, Cold was the ground” de Blind Willie Johnson, Cooder intercala a secura e melancolia de sua guitarra com a aridez do deserto texano e a solidão de um homem que busca a redenção consigo mesmo. Os acordes exercem com perfeição o papel ora dramático, ora lírico da trilha sonora.

Buscando um estilo musical típico do sul dos Estados Unidos e apresentando canções em um formato exclusivamente instrumental e realizadas por um único violonista – expressão da solidão de um único conjunto de cordas ao invés de orquestras inteiras – Cooder mostra-se em perfeita harmonia com o ambiente apresentado por Wim Wenders.

Outro aspecto importante é o que Pedro Marcondes chamou de “respeito ao silêncio com longos planos marcados pela sonoridade ambiente, como um entendimento da reflexão pessoal.”. Essa opção por respeitar os momentos de silêncio – marca não só da trilha sonora, como também dos diálogos esparsos, tornando o ritmo do filme mais lento – é um dos principais fatores que tornam a abordagem de Paris, Texas realista.

No entanto, devo concordar com a conclusão a que chega Pedro Marcondes de que “a mais valiosa lição desta trilha(...)é, sobretudo, a utilização da música como uma ferramenta cíclica, repetitiva, assim como sentimentos que invariavelmente nos invadem e perturbam.

Fotografando a incomunicabilidade
A fotografia de Robby Müller é a perfeição. O abuso dos planos gerais de tirar o fôlego fragiliza e diminui os personagens, fazendo questão de integrá-los ao todo, sempre grandioso que os cerca e aumentando o espaço entre eles. Com externas sempre inundadas de luz, seja na vastidão e aridez do deserto, seja na melancólica e deserta paisagem urbana.

Além dos grandiosos planos gerais, as cores quentes também marcam profundamente a fotografia de Paris, Texas. Ao longo de todo o filme, as cores são dotadas de uma vivacidade tocante. O vermelho predominante e saturado marca na construção do humor dos personagens.

O jogo de luz e sombra é digno de um filme dirigido por um alemão. “O contraste e as sombras também estão muito bem colocados. Silhuetas e recortes que escondem rostos, mas mostram muito mais, fecham a construção de uma fotografia exemplar e original...”. Uma cena marcante nesse aspecto é quando Travis cantarola uma música típica da fronteira entre os Estados Unidos e o México enquanto lava os pratos. No andar de cima, Anne, nua, da cama abre mais a fresta da porta para ouvir a canção. As sombras do quarto escuro, a luz que vêm do corredor iluminado, as belas cores em tons escuros da cena e a composição de quadro com Anne parcialmente envolta nos lençóis deitada na cama conseguem transformar a tomada das costas nuas de uma mulher em uma cena marcada por uma sensualidade tocante, poética.

A estética da bondade
Paris, Texas apresenta uma característica pouco comum, tanto no cinema quanto na literatura. É um filme sem vilões. É um filme exclusivamente de mocinhos. Seus personagens são realistas, tem defeitos e qualidades, mas são todos dotados de uma moral absolutamente respeitadora no que diz respeito ao trato com outros seres humanos.

Travis é um solitário. Ainda mais no início do filme que em seu final, mas é um solitário sempre. Lugar nenhum lhe parece familiar, então ele nunca pára. Ninguém lhe parece familiar, então não conversa. No entanto, à medida que vai se reintroduzindo na vida em sociedade, Travis se mostra capaz de gentilezas, como engraxar os sapatos da família e lavar a louça. Apesar de sua fragilidade no início do filme, Travis se mostra firme no seu objetivo de reunir mãe e filho.

Jane é felicidade. Sua presença nos primeiros noventa e sete minutos de filme se resume aos diálogos, fotos e ao filme em Super-8. No entanto, ela é sempre sinônimo daquele passado feliz onde era figura presente. Jane é amor, daí vem a convicção de Travis – em muito influenciado pela relação com a própria mãe, de quem fala durante o filme – de que é imprescindível a re-união entre ela e Hunter.

Hunter é a objetividade de uma criança inteligente encarnada. Surpreende no seu movimento espontâneo de reaproximar-se de Travis e no vigor do desejo que demonstra em reencontrar a mãe.

Walt é um pai de família. Mora nos subúrbios, tem dificuldades financeiras com a casa que foi muito cara e seu trabalho lhe toma tempo demais. É a figura do sonho americano. Demonstra com Travis e com Hunter e mesma paciência, e mostra-se sempre prestativo. É o grande responsável por garantir os aspectos práticos da empreitada de Travis, como dinheiro e cartões de crédito.

Anne é uma mulher carinhosa e uma mãe zelosa. Mostra para com Travis um carinho de mãe. Em todas as cenas em que os dois dividem a tela, ela demonstra uma atenção especial a ele, e quase sempre procura tocá-lo, seja com um braço passado por seu ombro, um beijo no rosto ou um afago com as costas da mão em seus cabelos.

A América segundo Wim Wenders
Laura Cánepa explica que "o Cinema Novo alemão foi uma escola com características únicas: os temperamentos individuais e os interesses estilísticos de cada um dos seus diretores eram muito variados, fazendo com que seu movimento fosse reconhecido sobretudo por suas condições de produção.(...) Esse sistema, que deu independência econômica aos cineastas em relação às bilheterias, permitiu-lhes trabalhar de maneira bastante pessoal e até idiossincrática, desenvolvendo trabalhos autorais e personas com status de grandes estrelas do mundo do cinema."

Mais adiante, comenta: “(...)de todos os cineastas do Cinema Novo alemão, Wenders foi o que mais discutiu a presença da cultura norte-americana em seu país, o que ajuda a explicar sua relação tão próxima e ao mesmo tempo tão crítica a Hollywood.

Paris, Texas é um belo exemplo dessa relação de Wenders com a cultura norte-americana. Todo o filme é marcado por um olhar estrangeiro sobre os Estados Unidos da América. Um olhar cheio de reverência, e ao mesmo tempo, cheio de melancolia. Wenders elogia e ataca a América a todo o tempo. A cena em que Travis e Hunter estão no banco em Houston é marcante. A câmera começa a percorrer os arredores, acompanhando os binóculos de Travis, quase que aleatoriamente, até que encontra, tremulando ao vento, a bandeira americana. Vista por um estrangeiro, sob as lentes dos binóculos, com direito a fade-out e acorde da guitarra de Ry Cooder.

Luiz Carlos Oliveira Jr comenta o interesse de Wenders nos Estados Unidos: "O cinema de Wim Wenders chega aos EUA e encontra um espaço amplo, com planícies a perder de vista, paisagens semidesérticas que cedem sua face lisa à projeção de miragens. Ele não vai a Nova York, não quer se deparar com arranha-céus, mas sim com as cidades de baixa estatura, na horizontal, intercaladas aqui e ali por vácuos de civilização – por isso vai ao Texas, vai a Los Angeles. Os grandes planos gerais de Paris, Texas revelam uma paisagem monótona, com quarteirões uniformizados e pouquíssimos prédios, ou sem quarteirões e sem prédios, a terra se unindo ao céu num horizonte que mergulha na profundidade de campo."

Assim, Wenders passeia pelo blues, pelas imagens do deserto, os sons da cidade grande e o road movie. Assim Wenders representa o que lhe interessa e fascina. Assim, enxerga nos Estados Unidos um país submerso em imagens. E assim o retrata em Paris, Texas.

A começar pela fotografia do terreno em Paris, Texas. As lembranças são todas motivadas por imagens. No início do filme, Travis vaga pelo deserto em busca do terreno da foto, que acredita ser sua origem. Quando deixa o quarto de hotel para vagar sem rumo de novo, Travis o faz após ver sua imagem no espelho do banheiro, e tudo o que ela representa, sua busca, seu passado dolorido. Ao chegar à casa de Walt, Travis se vê fascinado pelas fotografias na parede da escada. O filme em Super-8 funciona como um álbum de recordações, instigando a memória de Travis e Hunter, principalmente, através das imagens de um tempo feliz. Travis busca uma figura de pai para si, na ânsia de reaproximar-se do filho, e assim que isso acontece, os dois folheiam um álbum de antigas fotografias da família juntos. Durante a viajem para Houston, Travis dá uma fotografia de Jane a Hunter, para que ele se lembre dela por alguma outra fonte, diferente do filme Super-8. Jane, em sua cabine de peep-show, é também imagem a ser consumida, fetichizada. E no fim do filme, Hunter abraça a mulher que entra em seu quarto de hotel por que a reconhece da fotografia e do filme caseiro. Walt trabalha com outdoors publicitários, que Travis diz achar muito bonitos. Que melhor maneira de representar a enxurrada de estímulos visuais que a vida urbana da América proporciona? São as imagens que ligam os pontos da história do filme. As imagens e, principalmente, as memórias que elas despertam.

Fica também a importância da tecnologia nesse mundo, nessa América que Wenders enxerga. A tecnologia da filmadora, capaz de produzir o filme Super-8. A tecnologia das máquinas fotográfica. A tecnologia da luz e dos espelhos da cabine de peep-show. A tecnologia que fascina Hunter, quando repete teorias físicas, ou quando se vê surpreso por ir procurar pela mãe em Houston, onde fica o centro espacial. Até mesmo a tecnologia de um par de walkie-talkies que ligam Travis e Hunter, comunicando-se por termos de filmes de ação. E a mediação da tecnologia nas relações humanas. O gravador que se despede de Hunter em nome de Travis, e a tecnologia do interfone da cabine de peep-show, de que Travis, nem Jane abrem mão em seu diálogo de reencontro. O que preocupa Wenders é a dificuldade dessa gente de se comunicar olho no olho. A necessidade de um aparato que facilite a fala em terceira pessoa de Travis. A dificuldade de se comunicar, enfim. Quão atual será essa crítica?

Bibliografia
ABREU, Felipe. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984): A sutileza e a força de Wim Wenders. Disponível em http://www.ufscar.br/rua

ANAMI, Diego Y. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984) – Uma reflexão: A reconstrução após as cinzas. Disponível em http://www.ufscar.br/rua

CÁNEPA, Laura Loguercio. Cinema Novo Alemão. In: MASCARELLO, Fernando. Historia do Cinema Mundial. Campinas, SP: Papirus, 2006.

CARREIRO, Rodrigo. Paris, Texas: Wim Wenders leva a temática da incomunicabilidade ao poeirento deserto dos EUA. Disponível em http://www.cinereporter.com.br

FRANÇA, André. Paris, Texas. Disponível em http://www.andrefranca.com/andre

MARCONDES, Pedro. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984): A reflexão pela música de Ry Cooder em Paris, Texas. Disponível em http://www.ufscar.br/rua

MARTIN, Marcel. A Linguagem Cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 2003.

OLIVEIRA JR, Luiz Carlos. Sobre Paris, Texas. Disponível em http://www.paralelocentro.com.br