domingo, 12 de outubro de 2008

Táticas de Guerra

Não existe tipo humano nesse mundo mais confiante que o ex-gordo. Por causa da mudança drástica, entende? O gordo não é levado a sério. O gordo é desengonçado. É execrado pela moral dietética moderna. O gordo chama atenção. O gordo ocupa espaço demais. A bunda do gordo sobra para os lados livres do assento da cadeira. O gordo não pode sentar na poltrona do meio do avião. O gordinho da galera é motivo de piada. Quando não é referência, escala de medida. Oposto perfeito do magro.

Ele era um ex-gordo. Aproveitava-se da nova condição de ser ouvido com atenção. Um poço de confiança, um predador. Sempre bem vestido, barbeado. A fala sempre mansa. Buscava ser admirado pelas pessoas, mas tinha o cuidado de não demonstrar isso. Quem o conhecia em sua nova fase o definia como um cara seguro de si. Auto-suficiente.

Já ela, procurava esconder o fato que já foi uma mulher normal um dia. Daquelas que assistem Friends. Que perdem ligeiramente o controle diante de certa quantidade acessível de chocolate. Daquelas que choram na TPM, ou ao menor sinal de drama na tela do cinema.

Mas isso foi antes da desgraça. O ex-marido a trocara por uma mulher mais lisa. Menos rugas, menos celulite. Quinze anos mais magra e uns vinte quilos mais nova.

Depois de um mês chorando a própria sorte, entrou na academia. Passou a freqüentar o salão de beleza com mais freqüência. E pôs-se a destruir o coração de todo e qualquer homem que fosse ingênuo o bastante para se entregar à dureza de seu olhar firme e à sensualidade das suas recentes curvas perfeitas.

O que um casal como esse poderia querer numa noite de sábado? Exatamente! Sexo depravado, melado, absorvente. E absolutamente casual. Sem ligações no dia seguinte.

Mas a vida, como o futebol, é uma caixinha de surpresas. E apaixonaram-se. Hoje, meus pais estão já velhinhos e ainda juntos. Moram sozinhos, só os dois, em uma casa a trinta metros da praia. Desde aquele sábado, nutrem uma mútua e enorme dependência afetiva. De uns anos pra cá, convivem também com uma dependência física. Papai abre a porta do carro pra mamãe, carrega as sacolas de compras, tira o chapéu em cumprimento e ostenta um branquíssimo bigode. Mamãe é incapaz de esconder o olhar de orgulho sempre que fala no velho. “O amor nos faz ridículos.”, meu pai dizia. E ainda diz. “Mas não adianta tentar resistir. O ridículo sempre nos vence. Como ser sóbrio à vista de um sorriso como aquele ali?”, e apontava pra mamãe.

***

“Que estória linda.”, ela disse quase gritando para se fazer ouvir em meio à música alta. Ela piscava à minha frente com um franco sorriso intermitente, por conta da luz da danceteria naquele sábado à noite. E uma hora depois, eu arrancava-lhe a calcinha em algum motel barato da cidade. Essa estória sempre funciona. Elas sempre abrem a guarda depois de ouvi-la. Quem disse que as mulheres modernas não gostam mais de romance?