domingo, 31 de agosto de 2008

Coprofobia

Merda é algo nojento pra cacete. Não acredito que haja muitas incongruências de impressões nesse sentido. Ou seja, é difícil achar quem discorde. Mas eu me permito ir mais longe. Não há nada - Nada! - que cause um horror tão devastador, tão angustiante, quanto o causado por aquele maldito caroço de milho incrustado na bosta.

Fora uma tremenda cagada. Daquelas que só somos capazes de protagonizar poucas vezes na vida. Daquelas que nos aliviam tanto peso que nos julgamos capazes de correr três maratonas seguidas quando levantamos do vaso. Uma sensação deliciosa. A ponto de ser coroada com um cigarro. Uma montanha de bosta socada no fundo da privada. E dois corocinhos de milho caprichosamente posicionados. Um par de olhos fitando, apreensivos, seu criador.

Descarga. É aí que o mundo volta a ser horrível. A água inunda a cavidade de porcelana, irriga o monte fecal e a merda não desce. O vaso entope. Descarga de novo e os dois carocinhos de milho sobem, girando na água barrenta, sempre me olhando. Sobem até quase transbordar. Param. E descem lentos, preguiçosos, sem força suficiente para serem jogados cano adentro, para longe da minha vista. E lá repousa a montanha de bosta. Lá repousam os dois olhinhos, agora jocosos. Torço o nariz e penso “Que merda!”. A minha consciência, como que divertindo-se com meu calvário completa “Literalmente.” Eu rio, mais pelo desespero que cresce do que pela piada negra. Tento a descarga de novo. A pororoca de merda sobe, os carocinhos vêm me olhando no fundo dos olhos. A água desce devagar, nojenta, fraca, débil, irritante.

Não havia muito que eu pudesse fazer diante daquela cena escatológica. Era muita merda esparramada pelo fundo do vaso sanitário. Nem de brincadeira eu ia enfiar um desentupidor ali. Daria mais resultado catar tudo com a mão - devidamente coberta por um saco plástico – enfiar numa sacola de supermercado e dar fim naquele horror. Mas dar fim como? Não ia jogar um saco de bosta no lixo da cozinha. Tudo tem limite. Tentei a descarga mais uma vez. E lá vinha a pororoca de novo. Lá vinham os olhinhos malditos enfiados no tolete de merda. Eu queria chorar. Tive, então, a idéia brilhante de deixar aquilo ali por algum tempo, na esperança da merda dissolver um pouco, afim de facilitar uma descarga futura. Não custava tentar.

Custou. De meia em meia hora, passava por ali e tentava uma nova descarga. Nenhuma deu resultado. E cada vez que tentava, aquela merda toda se revirava, escurecia e fedia cada vez mais. O banheiro estava empesteado. Inutilizável. Lá pela terceira ou quarta tentativa, as moscas já vieram me rodear quando levantei a tampa da privada. E sempre a mesma coisa. Pororoca de merda. Caroço de milho rodando, caroço de milho no fundo do vaso me olhando. Será que eu devia estar achando isso engraçado? A situação do banheiro já estava calamitosa. A minha situação, desesperadora. Eu não sossegava. Cada vez que fechava os olhos via aquele monte de merda me olhando com os olhinhos amarelos. Quem mandou comer aquele creme de milho!? Passei o dia nessa agonia. Passei também a noite. Fechava os olhos no quarto escuro e tudo o que via eram os carocinhos de milho girando num lago de cocô. Eu suava frio. Quando conseguia cochilar, sonhava com aquele horror ressurgindo do fundo do vaso e me perseguindo pela casa, pela rua. Acordava aos prantos.

Na manhã seguinte, minha mulher me encontrou tremendo, deitado no chão do quarto. Cheio de tiques nervosos, sem conseguir formular uma frase que fizesse sentido. Eu via a pororoca de merda com seus olhinhos de milho em todo lugar. Ela chamou uma ambulância. Quando cheguei ao hospital, me encaminharam para a emergência psiquiátrica. O enfermeiro me acomodou na cama e comentou com um colega “Olha só. Cara casado, com filhos, renda boa. Viu a mulher dele aí no saguão? Uma beleza. Trinta aninhos muito bem distribuídos. E dá um ataque desses. A vida é uma merda mesmo.” Eu sorri aliviado. Estava em boas mãos.

domingo, 17 de agosto de 2008

Harlem Blues

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/08/harlem-blues.html

Andar na rua 125 me entristece hoje em dia. Entristece e irrita. Caralho. Loja de departamento, especulação imobiliária, dinheiro branco entrando. Eu paro de frente pro velho Teatro Apollo. Não chego a chorar. Mas também não contenho a primeira lágrima. Meu pai trabalhava no Apollo. Era faxineiro. Hoje, esse letreiro amarelo e vermelho é a única coisa que me lembra o velho Harlem. James Brown e B.B. King já tocaram aí. Muito mais gente.

Quando eu era garoto, os brancos endinheirados não vinham aqui. Tinham medo de não saírem vivos. Filhos da puta. Eu queria que o pesadelo deles fosse verdade. Mas descobriram que não era. Agora tão trazendo o progresso pra cá. O progresso. Entra o dinheiro, entram as lojas de desconto, os brancos, os ternos. Entram todos pela porta da frente. E arrastam pra fora os pretos, os pobres, as putas. Os drogados. Todos defenestrados pela porta dos fundos. A porra do progresso. O fedor do Harlem está mudando de suor pra lavanda. O Harlem está começando a feder a consultório de dentista. Sinto falta do cheiro de gasolina. E de pólvora.

Entro na Malcolm X Boulevard. Tento não imaginar o que esses grandes pretos do passado pensariam se vissem no que o Harlem está se transformando. Meu pai me contava que o Harlem já foi um bairro da elite, há muitos anos. Antes das migrações negras, ele dizia. Tem gente que diz que o bairro está voltando às suas origens. Eu não acredito nisso. Não posso. A fidelidade aos meus anos de garoto me impede. Muita gente brigou pela dignidade desse lugar. Ali, Malcolm X, Luther King. Não, o Harlem é dos pobres. Dos pretos. Dos cucarachas. Foi assim que eu conheci o Harlem. Foi assim que aprendi a amá-lo. E é assim que deve permanecer.

“Ta na hora, negão.” Era o Harry, que me esperava na varanda da casa, já perto da 135th. Fiz que sim com a cabeça. Um Ford antigo parou perto da gente. Jim no volante. Entramos no carro. Eu na frente, Harry atrás. Tirei a Desert Eagle do cinto e deixei no meu colo. Passei a maior parte do caminho alisando o gatilho da pistola. O Jim olhava pra mim e ria. “Que cara de babaca você faz quando começa a masturbar essa porra dessa arma.” “Vai se foder.” Passamos pelo Schomburg Center. Aprendi a gostar desse lugar. Passamos pelo Harlem YMCA, “Malcolm X já ficou ali, cara.” Entramos na Frederick Douglas Blvd.

***

A boate tava meio vazia. Lucille fazia o número dela no poste de ferro. Eu trazia a arma na mão. Kate nos guiava até um quartinho nos fundos da boate. Falava rápido, explicava várias coisas sobre como o cara fora parar ali, e como ela descobriu quem ele era. Quando chegamos na porta, ela enfiou a chave na fechadura, bateu de leve na madeira e entrou. Pediu pra menina que atendia o cara sair. Nós entramos.

Minha pistola o tempo todo na reta da sua testa. Ele ficou amarelo de medo. As pernas tremiam escandalosamente. Jim acertou-lhe uma coronhada que botou o coroa desacordado. Amarramos os braços e as pernas. Amordaçamos sua boca. Kate chamou um dos seguranças pra nos ajudar a carregar o cara até o carro. Trancamos o figura no porta-malas e caímos fora.

***

Quando cheguei em casa, minha mãe estava chorando, sentada no sofá com as mãos cobrindo o rosto negro e enrugado. Soluçava. Dizia que tinham pego meu irmão. “Quem, mãe?” “A polícia.”

“O Mark apareceu aqui, desesperado, dizendo que pegaram ele.” “Onde?” Ela explodiu em lágrimas de novo. Os soluços pioraram. Pareciam espasmos. “Ele estava lá de novo, meu filho. Naquele lugar horrível.” “Puta merda...” “Não fala assim. Ele estava lá. A polícia chegou batendo em todo mundo e saiu carregando o Antony. Ninguém mais sabe dele. Não apareceu mais.” Eu fechei os olhos com força. Engoli o choro e a vontade de quebrar a mesa à minha frente. “A senhora fica em casa, mãe. Eu vou resolver isso.”

Saí de casa pisando firme. O sangue ardia nas veias de tanto ódio. Rangia os dentes, respirava fundo. Minutos andando. Pareceram horas. Semanas. Engolindo em seco por todo o caminho. Tive vontade de soltar uma seqüência de palavrões emendados. Não diminuiria a angustia, só me faria sentir ridículo quando acabasse meu repertório. Calei.

***

Quanto mais fundo eu descia a escada, mais úmido ficava o ar. Vários fedores condensados. Suor, sexo, vômito. Mijo. Fumaça. Cada vez mais escuro. Arranhei o braço várias vezes me apoiando na parede de reboco aparente.

A escada acabava num salão abandonado. Alguns sofás velhos, todos rasgados e cheios de traças estavam espalhados por todo lado, assim como tapetes não em melhor estado. Pretos e latinos magros, doentes, ocupavam o lugar. Um porto-riquenho especialmente franzino trepava com uma negra de pele cinza em um dos tapetes. Mark estava deitado em um sofá de olhos fechados. A seringa ainda estava pendurada em seu braço.

“Acorda, filho da puta.” Dizia dando-lhe tapas no rosto. Ele abriu os olhos com dificuldade. “Cadê meu irmão?” Ele piscou lentamente e fechou os olhos de novo. Outro tapa. “Cadê meu irmão, porra?!” Ele murmurou um “Não sei” sem nem abrir os olhos. Puxei a pistola, encostei-lhe no joelho. “Fala comigo, cretino.” Ele não esboçou reação. Puxei o gatilho. O estrondo do tiro e o grito de dor do desgraçado assustaram os outros fodidos do salão. Encostei o cano da pistola na sua testa. “Só vou perguntar mais uma vez. Cadê o meu irmão?” “Não sei, caralho! Os canas bateram aqui, pegaram ele com pedras de crack. Encheram o coitado de porrada na frente de todo mundo. Ele desmaiou. Os caras desesperaram, jogaram ele dentro do camburão e se mandaram. Não sei dele desde ontem!” “Quem eram os canas?” “Não conheço. São os caras novos. Aqueles que tão chegando na área por causa dos brancos que tão se mudando pra cá. Dizem que tem uns comerciantes que pagam por fora pra eles darem essas batidas.”

***

Eu estava na metade do caminho para a delegacia. Os sacos de lixo estavam espalhados pelo chão de um dos becos. Tinha alguém deitado encostado à parede. Parecia um mendigo dormindo, mas a posição não me parecia nada confortável. Entrei no beco. O rosto do sujeito estava virado para a parede. Cheguei perto e cutuquei. Não tive certeza se ele estava respirando. Às vezes parecia que sim, às vezes que não. Virei o corpo pra mim. Meu estômago gelou. Era o Antony. Todo fodido. O rosto moído de porrada. E respirava.

***

Toquei a campainha. Senhora Johnson atendeu a porta. “Posso falar com o Harry?” “Entre, meu filho. Ele está lá embaixo, no porão, com o Jim e o moço que vocês pegaram.”

Desci com a arma apontada pro cara. Ele estava amarrado numa cadeira, pelado, com um corte na testa. “Vou perguntar uma vez só. É verdade que vocês pagam os policiais novos no bairro por fora pra dar batida em antro de drogado?” Ele fez que sim com a cabeça. “Jim, com o nosso cara de dentro, dá pra descobrir o nome dos canas da batida de ontem?” “Dá sim, fácil.” O telefone tocou. Harry foi atender. Olhei nos olhos do comerciante. Acho que ele sabia o que ia acontecer. Começou a amarelar de novo. Começou a chorar. O Harry voltou com o semblante sério. “Era sua mãe. O Antony morreu, cara.” Baixei a cabeça por uns instantes. Jim se virou pro branquelo. “Deu azar, cara.”

Puxei o gatilho. Senhora Johnson, lá em cima, na cozinha, deixou a panela cair com o susto.