quarta-feira, 30 de julho de 2008

Fumaça

Parei de fumar. E o primeiro engraçadinho que me vier com um sorriso e um “Parabéns!” eu juro que quebro os dentes. Não parei por um motivo escroto qualquer. Não parei porque faz mal e agora eu quero vida nova. Não vou começar a acordar cedo pra correr no parque e tomar suco de graviola com leite. Vão se foder seus antitabagistas de vida saudável e ridícula. Continuo com meus pequenos prazeres sujos e proibidos. Só parei de fumar. E não digo isso com orgulho. Digo com vergonha, para ser sincero. Não fiz nenhum esforço pra parar. Pelo contrário. Nunca quis parar. Fiz esforço foi para continuar, mas não deu. Há duas carteiras que cada cigarro que acendo entre os lábios traz um gosto repulsivo. Simplesmente não gosto mais. Meu corpo não gosta mais. Como um dia deixou de gostar de Fanta Laranja, hoje não gosta mais de cigarro. O cigarro deixou de ser um dos meus pequenos prazeres sujos e proibidos. Corpo filho da puta. Burro! Como vou viver sem a droga do meu cigarro agora? Sem o meu Marlboro? O que os caras da Phillip Morris vão pensar de mim?

Pensei em trocar de cigarro. Comprar um mais fraco. Um de filtro branco, talvez? Para ver se não perdia o hábito. Só até o gosto pelo estoura-peito voltar. Desisti da idéia. Cigarro de filtro branco é ridículo. Coisa de quem não agüenta o tranco. Coisa de bambi. De tricolor. Além do mais, com que cara eu vou chegar pro cara da banca e pedir um Free!? E a vergonha? Tá maluco. É a mesma coisa que vestir uma camisa do Fluminense. Não. De jeito nenhum. Isso eu não faço. Com o todo o respeito ao velho Nelson Rodrigues, isso eu não faço.

Não me entendam mal. Nunca fui um fumante compulsivo. Mas sempre fui um fumante convicto. É a posição política da coisa, entende? No mundo de hoje, fumar é ir contra o sistema. Fumar é lembrar de tempos melhores. É anunciar ao mundo que se está cagando e andando para as suas novas tendências degradantes e robotizantes. Fumar é como ostentar um vasto bigode. É como usar chapéu panamá. Ser um monogâmico fiel, abrir a porta do carro para as moças. Fumar é como preferir os seios que cabem numa mão em concha aos seios estadunidenses, enormes como uma bola de futsal, mas muito mais vulgares. É como admitir em voz alta não ser viciado em sexo e não ter gosto por rodízio de mulheres como se o mundo fosse uma grande churrascaria. Enfim, fumar é desses hábitos que um dia foram glorificados, e hoje são demonizados. Fumar é relembrar dos anos cinqüenta, onde nada era perfeito, mas as coisas que importavam tinham sua posição correta na escala de prioridade. Fumar é ouvir o Elvis até hoje. Fumar é lindo. E até duas carteiras atrás, era gostoso. Caralho.

Tom Waits e Iggy Pop defendem, entre baforadas de Marlboro, que o bom de parar é que agora se pode apreciar um cigarro sem culpa. Já que parou mesmo, que mal pode fazer um cigarrinho de vez em quando?* É bonito. Pra quem um dia foi viciado. Eu, que nunca tive disso, que nunca precisei da nicotina pra fazer minha mão parar de tremer, só tinha prazer fumando, nunca desprazer. Eu já estava nesse cigarrinho de vez em quando. Talvez se aplique a mim também, de qualquer jeito. Vou acender um cigarro de vez em nunca, na esperança de que um dia eles voltem a ser gostosos. Até lá, preciso compensar a falta de despeito político. Acho que vou arrumar um chapéu panamá, já que o do meu pai não posso pedir emprestado. Não me cabe na cabeça.

*Cena do filme Sobre Café e Cigarros de Jim Jarmusch