terça-feira, 15 de abril de 2008

No Deserto As Rosas Não Nascem

Era noite. Mas não era uma noite qualquer. Eu sabia disso. Desde a hora em que acordei naquele dia eu sabia que algo grande estava para acontecer. Algo grande. Não sabia o quê. Mas essa sensação só fizera crescer durante o dia. Agora eu tinha certeza absoluta. O rumo de muita gente estava para mudar nas próximas horas.

Eu não conhecia nenhum dos quatro trabalhadores. Mas sentia a raiva correr quente e áspera pelas minhas veias. Eu via nos olhos de todos os presentes no enterro que eu não era o único. Quatro mortos. Quatro dos nossos. Não fora um acidente. Todos ali sabiam disso. O veículo dos colonos batera no carro dos quatro trabalhadores de propósito. E matara os quatro. Quatro dos nossos. Mais quatro. Isso não ficaria assim. Nós não íamos deixar.

Nós marchamos. Deixamos o cemitério e marchamos. Pelas poças de lama que chamam de rua nesse lugar. Pelas casas simples de reboco e teto de zinco. Nós marchamos. Furiosos. E mais pessoas se juntavam a nós ao longo da caminhada. Nós gritávamos, cantávamos, amaldiçoávamos. Nós marchamos. Com os olhos espremidos e amedrontadores. Com os punhos em riste socando o ar. Com as vozes unidas e embebidas de ódio puro e mortal. Nós marchamos. Até o quartel-general dos colonos nós marchamos.

Quando invadimos, alguns soldados estavam do lado de fora da construção, sentados a uma mesa jogando baralho. Naquele momento, eles não eram mais o nosso pesadelo. Naquele momento, eles não eram mais as figuras que nos amedrontavam, seqüestravam e torturavam. Eles não eram mais o demônio a ser temido. Não eram mais intocáveis. Não eram invencíveis. Um homem junto a mim enrolou seu kaffiyeh no rosto, deixando somente seus olhos a mostra. Outros fizeram o mesmo. Naquele momento, aqueles soldados eram alvos.

Milhares de pedras. Foi isso que caiu na cabeça dos soldados. Nós jogávamos pedras do tamanho de punhos com a mesma gana que jogávamos as pequenas. Os soldados tentavam nos empurrar para trás. Não recuamos. As pedras continuaram voando. Começaram a atirar contra o céu negro. As pedras continuaram voando. Uma delas acertou o rosto de um soldado bem à minha frente. Ele me olhou com olhos esbugalhados de medo, o sangue escorria do corte na maçã do rosto. Eu sorri para a ele. O sorriso mais sádico que consegui. Vieram jipes e caminhões para nos impedir. As pedras continuaram voando. E os soldados começaram a recuar. Entraram no quartel em pânico e lá ficaram.

***

Quando voltava pra casa, já depois da meia-noite, ainda ouvia a agitação de várias manifestações que ainda eclodiam. Vi um gato enterrado na lama da rua. Sua barriga tinha sido pisada contra o barro. Estava morto. Pisoteado, ao que parecia. Ao seu lado, uma lata enferrujada com uma planta crescendo em seu interior. A planta era de um verde inspirador. Peguei a lata e a levei comigo.

Fechei a porta do quarto que dividia com meus sete irmãos. Caminhei ruidosamente sobre o chão de terra até uma prateleira, presa à parede de alumínio comprimido. Pus a lata com a planta em cima da prateleira. Quando meu irmão mais novo perguntou o que aquela planta horrível fazia ali, respondi que no deserto não nascem rosas. Na guerra, os poemas são secundários. Que aquele restinho de verde era o melhor que podíamos fazer. Disse que a chamava de Intifada.