sexta-feira, 28 de março de 2008

Balas de Morango e de Chumbo

A chave deslizou fechadura adentro. O som dos pinos de travamento subindo chegou alto aos meus ouvidos. O estacionamento era subterrâneo, e não muito grande. Entrei no carro. Pus a chave no contato e girei. Acendi os faróis, apertei o cinto de segurança e bufei. Estava cansado. Fora uma noite difícil na delegacia. Soltei o freio-de-mão.

Parei o carro. Sinal vermelho. Vi garotos invadindo a pista. Três, quatro. Um deles parou ao lado da janela do meu carro. A bandeja de madeira cheia de doces pendia do pescoço, fazendo o garoto curvar. Não comprei nada. Mantive a atenção no motorista do carro à minha frente. Pegou duas moedas que estavam espalhadas pelo assoalho do carro e comprou um pacote de balas de morango. Daquelas que você mastiga e grudam no dente. Devia haver mais ou menos uns quinze carros parados no sinal. Só o homem à minha frente comprou doces.

Os garotos voltaram para a esquina de onde saíram. Uma mulher os esperava, sentada no chão, encostada a um muro cinza e enrolada em uma manta suja. Estendeu a mão ao garoto que vendera a bala. O garoto disse algo que, por conta da distância, não ouvi. A mulher ouviu. E não gostou. Levantou-se de um pulo. O garoto, que parecia o mais novo do grupo, uns sete, oito anos, recuou assustado botando a mão com as moedas pra trás do corpo franzino. O sinal abriu. E o estalo do tapa só foi ouvido por quem prestava atenção à cena. Eu, a mulher e os meninos. O garoto menor rodopiou e caiu sentado na beira da calçada. Ainda no chão, envergonhado, estendeu a mão e depositou as moedas na mão da mulher. O carro atrás de mim buzinou de leve. Saí com o carro, deixando pra trás o grupo de garotos e um sorriso triunfante de mulher.

***

Na noite seguinte, recebemos um chamado. Fomos, eu e uns colegas, resolver uma briga de bar, perto da esquina em que vira os garotos. Uns branquelos daqueles que usam camisetas rosa-choque e bermudas verde-limão tinham quebrado tudo num bar. Por causa de garotas. Não acreditei. Pra mim eles são todos veados. Depois de alguma discussão, o Machado ainda levou uns três pra prestar esclarecimentos. Ele e o França voltaram na viatura. Eu disse que me viraria sozinho. Tinha algo pra resolver antes de voltar à delegacia.

Fui até a esquina dos garotos. Entrei em um botequim e fui até o banheiro. Pus um casaco preto por cima da farda, peguei a arma que trazia presa ao tornozelo e prendi no cinto. Tirei uma máscara de esqui do bolso e enrolei na mão.

Andei até a esquina e parei ao lado da mulher, que estava em pé, encostada no mesmo muro e enrolada na mesma manta. Mostrei discretamente o cano da arma. “Vem comigo.”. Ela arregalou os olhos, mas não resistiu quando a arrastei pelo braço até um beco próximo dali. Os garotos nos seguiram.

Pus a máscara no rosto e mandei que a mulher ajoelhasse. Ela começou a chorar, mas teve o cuidado de chorar em volume baixo. Acho que pra não me irritar. Talvez ela ainda tivesse esperanças de escapar. Chutei-lhe as pernas finas e ela ajoelhou-se. Tirei a arma do cinto e encostei o cano na nuca da mulher. Os garotos se agitaram. Pedi a eles que tampassem os ouvidos com as mãos. O menor recusou-se. Perguntei se ele queria trocar as balas de morango pelas de chumbo, oferecendo-lhe o cabo da arma, ainda encostada à nuca da mulher. Ele disse que não. Que não tinha força pra puxar o gatilho. E ficou esperando que eu fizesse o que ameaçava. Só encolheu os ombros quando dei o tiro. Não piscou, não gritou. Só encolheu os ombros de leve e sorriu.

sábado, 8 de março de 2008

Fazendo Emendas...

Bom... Eu peço desculpas, pois este post será muito pouco original... Acontece que poucas vezes na vida eu perdi as palavras, e essa ocasião é uma delas.

E mesmo assim, tenho a pachorra de dizer que este post é uma declaração de amor.

Eu tenho uma foto. Da qual não me orgulho muito, é verdade, mas pelo mesmo motivo por que não me orgulho de nenhuma foto que me mostre o rosto. Essa foto está na mesa do meu computador. Na verdade, olho pra ela nesse exato momento. Na imagem, um sofá preto à frente de uma parede branca. No sofá estou eu. Uns 3 anos de idade aproximadamente. Fantasiado de Tartaruga Ninja, de Leonardo, o azul. Ao meu lado, a moça a quem declaro meu amor. Devia ter 1 aninho apenas, se minhas contas e minha memória não me pregam peças. Fantasiada de gatinha. Meu sorriso era largo, franco. No rosto dela, uma expressão perturbada. Um quase choro, incomodada com as frescuras da fantasia, que lhe pinicavam a pele. Eu sei que ela também se lembra dessa foto. E sei que também não se orgulha dela. Mas não há nada mais prazeroso que expor quem se ama ao ridículo, não é?

Hoje ela me dedicou um selo (foram três selos, na verdade) em seu blog. Hoje ela contou uma história que eu não conhecia. É verdade, Mari, que nossas mães nos arrumavam fantasias estranhas. É verdade que éramos, e acredito que ainda sejamos, melhores amigos. É verdade que, apesar de nunca termos morado perto, sempre que a gente se encontra parece que nos falamos no dia anterior. E é verdade também que nós crescemos.

Além disso tudo, essa moça hoje diz que escreve por minha causa. Que ter lido os meus rabiscos fez com que ela também se arriscasse a dar seus vôos. E diz que montou o blog com medo que eu lesse e achasse um lixo.

Sabendo, hoje, de tudo isso, prima, eu só posso dizer que me sinto muito honrado, além de muito feliz, por ter despertado algo tão óbvio e bonito, que é o seu talento. E, como acontece naturalmente nos processos da vida, digo feliz que a criatura superou seu criador mais uma vez.

Portanto, não tenhas medo. És um achado. Já provaste isso. =)

E acrescento o seu blog nas minhas indicações que você ainda não tem.




Outro Quintal (Belo Blog da minha prima Mariana)

Beijos, prima.

Desculpem o jabá, galera.

terça-feira, 4 de março de 2008

Homenagens...

Como sempre acaba acontecendo em tudo o que eu digo, paguei a língua.

No post comemorando o primeiro aniversário desse blog, disse que ele(o blog) nada me rendera. Nem novos amigos ou reconhecimento. Paguei a língua. Agradeço aqui a honra a mim concedida pelo Caio Sarack ao me indicar pro "Eu tenho um blog de Elite".



Então, seguindo a corrente, aqui vão meus indicados:

Contra a Maré
Velha Usuária

Obrigado.