segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

The Killer Won’t Be Up Until Dawn

“Direto pra sala de interrogatório.”, eu disse quando o Guedes veio me avisar que tinham chegado com o garoto. Caso mais besta. Não dava pra ser mais óbvio. Toda vez que um crime de racismo vem à tona, culpam um branquelo azedo da zona sul. Dessa vez foi mesmo um branquelo azedo da zona sul. Um moleque. Dezoito anos, o nariz entupido de pó e o cérebro, de merda. O garoto tinha matado um casal de pretos num ponto de ônibus. Os policiais da ronda pegaram o infeliz no ato, enquanto escrevia “Macacos de merda” na barriga da moça com um canivete.

Tirei os óculos e limpei o suor do rosto com o lenço de bolso. Bebi o resto da água que esquentava no copo, passei o lenço na careca, pus os óculos e saí da sala. No corredor, a caminho da sala de interrogatório, encontrei o cabo Ramires. “O pessoal da Jaula tá louco, doutor. Já tão sabendo o que o garoto fez.”, ele me disse. Jaula era como chamávamos uma das celas que tínhamos ali. Uma que só tinha detentos de cor negra. Todos perigosos, todos pretos. Pretos como o cabo Ramires, que depois de relutar, agora também usava o apelido para a cela. “Tão fazendo a maior baderna.”, completou. “Vem comigo, Ramires.”

Entramos os dois na sala. O garoto estava lá, sentado. Algemado. Os tornozelos presos aos pés da cadeira. Os olhos castanho-claros exalavam arrogância. Eu já estava incomodado. Tirei o lenço do bolso e sequei a careca de novo. “Bom dia.”, eu disse, ríspido. Sentei-me de frente pra ele. Ramires se manteve em pé, às minhas costas. Tirei os óculos, cansado do plantão. Olhei fundo nos olhos do moleque. “Então, filho. O que aconteceu?”. Ele não me respondeu. Manteve os olhos fixos nos meus de modo desafiador. “Acho bom responder o doutor, garoto.”, disse Ramires. O garoto não desviou o olhar, piscou lentamente e perguntou “O que esse orangotango tá fazendo aqui, respirando o mesmo ar que a gente?”. Ramires levou a mão ao cacetete.

***

O garoto parou de falar quando bateram na porta. O Guedes entreabriu a porta e pôs a cabeça pela fresta. “Posso falar com o senhor?”. Levantei e saí da sala.

“Então, doutor? Como tá?”

“O garoto é um marica. Chegou aqui querendo pagar de machão, mas deu a história na primeira porrada no joelho. E, Guedes, me faz um favor. Cala a boca dessa negada da Jaula. Se um filho da puta qualquer dos direitos humanos houve esses vagabundos gritando que ‘cabe uma bunda branquinha na jaula apertadinha’ eu vou ter que escrever milhões de relatórios.”

“Certo. Deixa comigo. Tenho aqui uma primeira avaliação dos corpos.”

“Manda”, eu disse enxugando mais uma vez a careca.

“Esse moleque tem problema, doutor. Atacou os dois com um canivete. O corpo do homem tem trinta perfurações. Vinte e duas no peito, três na barriga e cinco no pescoço.”

“Prossiga.”

“O garoto é doente, tô te falando. A mulher tem cinqüenta e sete perfurações no corpo. Quarenta e uma na barriga, doze no pescoço, três no peito. E um pedaço de carne mijada arrancado. Mais aquela frase linda na barriga.”

“Carne mijada?”

“Um pedaço da vagina da vítima, doutor.”

“Respeito com a moça morta, Guedes. Caralho.”

“Desculpe. Pelo que parece, ele tentou arrancar o clitóris da garota. Fez isso com a precisão de um açougueiro cego e com mal de Parkinson. Delicado, o menino.”

“Isso ele não contou. Tá certo, Guedes. Obrigado.”, eu disse voltando para a sala.

“Nada, doutor.”

***

Entrei na sala com sangue nos olhos. Queria dar um tiro naquele garoto.

“Tá legal, moleque. Por que rasgar a vagina da moça?”

“Ela já era rasgada, doutor. Como toda boceta.”

Tomei o cacetete da mão de Ramires e acertei o queixo do garoto. Ele não chegou a cair da cadeira, mas os olhos encheram de lágrimas.

“Eu não to de brincadeira com você, filho.”

“Rasguei por que animal não merece gozar. Macaco não devia trepar. Já tem muito no mundo.”

Ramires avançou, mas segurei-lhe o braço. Fiz um sinal com a cabeça e ele voltou a se postar às minhas costas.

“Então, você tá limpando o mundo?”

“Exatamente.”

“É um gari.”, eu disse sorrindo pro Ramires.

“Eu não me arrependo, vocês tão ouvindo? Faria de novo se tivesse a chance.”

“Não se arrepende, é...”

“Não vou perder o sono por eles. Não vou acordar de madrugada com remorso, não vou ver o sol nascer sem dormir de arrependimento.”

“Isso eu posso garantir.”

Levantei-me, fui até a porta e abri. Gritei pelo Guedes. O sargento postou-se à minha frente.

“Tranca o garoto, Guedes. O interrogatório acabou.”, fiz uma pausa, olhei para o garoto e continuei, “Joga ele na Jaula.”

“Na Jaula, doutor?”

“É, Guedes. Faz o que eu mandei. Eu já tava querendo me aposentar mesmo.”

Nessa noite, eu dormi como não dormia há anos. Não acordei de madrugada com remorso. Não vi o amanhecer sem dormir de arrependimento. Nem o garoto.