domingo, 6 de janeiro de 2008

O Tijolo

Fechei a porta de lata do ginásio com um estrondo. Uns cascos de ferrugem foram ao chão. Detesto essa porta escandalosa. O ar viciado me invadiu os pulmões em cheio. O fedor do suor diluído no ar, o cheiro do couro das luvas. Os gritos vindos do ringue, da seção de sparring. O som seco dos golpes duros e precisos nos sacos, as chicotadas ritmadas das cordas no chão. O fedor do éter e do sangue dos machucados. É preciso ser um retardado pra gostar de boxe. Pra gostar desse ambiente, pra gostar de ver dois homens subirem no ringue e esmurrarem-se até a exaustão. E para fazer igual. Nobre arte. Mas uma arte que vem do estômago, das entranhas. Não do cérebro.

O foda do boxe é o dia seguinte. Os inchaços, as ardências. Os músculos que reclamam de cada degrau de escada que você sobe. A visão meio embaçada, a dor de cabeça. As pessoas acham que é macho quem agüenta porrada em cima do ringue pelo simbolismo da porrada. Macho mesmo é quem agüenta os efeitos colaterais de uma luta. Quem agüenta o dia seguinte. Levar porrada no ringue é mole. A adrenalina tá nas alturas, nem se sente. Mas levantar da cama todo fodido de manhã dói de verdade.

Eu tinha acabado de me trocar quando ele chegou. Ginásio adentro como se fosse mais um freqüentador qualquer. As pessoas demoraram a perceber que ele estava ali. Quando perceberam, o silêncio reinou. Nenhuma tiete, ninguém gritou seu nome em tom estridente, nem correu para abraçá-lo. Só fizemos silêncio, e era o suficiente pra ele saber o quanto o respeitávamos. Ele atravessou o ginásio todo em direção ao vestiário, seguido por vários olhares, mergulhado no silêncio. A atitude era de um fodido como todos ali. As roupas, o jeito de andar, a cabeça meio curvada para baixo. O único som que ecoou pelo ginásio foi o grito do treinador de “Johnny, caralho, finalmente. Cê tá atrasado, pô!” Johnny entrou no vestiário, e nós, meros mortais, voltamos ao nosso treino.

***

Johnny “The Brick” Harrys nascera ali mesmo no bairro. Aprendeu a lutar boxe pra vencer as lutas de rua e a guerra de gangues. Preto, pobre, mal aluno. Mas forte pra caralho. Num bairro fodido de uma cidade de contrastes.

Johnny, como todos os garotos do bairro, aprendeu que é um ser inferior. Um ser humano menor. Aprendeu a andar olhando pro chão quando cruzava com um branco na rua e a empinar o nariz quando cruzava com um negro. Quando a adolescência chegou, e com ela uma maior consciência do que acontecia, inverteu o jogo. Passou a defender os negros acima de tudo e a odiar os homens brancos com toda a sua força. Por sorte, ou azar - sabe-se lá - não havia muitos brancos no bairro. E um velho treinador, Harry Flynt, acreditou no potencial de Johnny.

Eu era ainda um garoto, e Johnny já começava a despontar como amador. Eu e os garotos da minha idade íamos a todas as lutas de Johnny, o seguíamos pelo bairro. Ele detestava isso. Cansou de escorraçar a gente dos seus treinos, ou quando o seguíamos até a padaria. Na verdade, ele é a razão de eu hoje também lutar boxe. Ele sabe disso, mas não acredito que goste da idéia.

O fato é que Johnny “The Brick” hoje é um lutador profissional respeitado. Tem o cartel perfeito depois de mais de trinta lutas e, quando entrou no ginásio aquela manhã, estava a uma semana da última luta antes de disputar o título mundial dos pesos pesados. Johnny se recusou a se mudar do bairro, se recusou a usar cordões grossos de ouro, pulseiras brilhantes e roupas chamativas. Ele se dizia só mais um preto do bairro. E agia como tal. Johnny continuava aquele negão forte, simples e calado que sempre fora. E que no ringue mostrava uma raça inspiradora e um ódio assustador. Mas quando andava na rua, as pessoas paravam para olhar. As crianças brincavam de lutar na frente de casa e diziam ser Johnny “The Brick” Harrys. E eu, quando dei minha primeira entrevista depois da terceira vitória como amador, disse com sinceridade que Johnny era meu modelo de ser humano. É isso que o boxe faz. O boxe faz surgir um vencedor num bairro de perdedores. E nem toda a simplicidade de Johnny Harrys pode mudar isso.