domingo, 12 de outubro de 2008

Táticas de Guerra

Não existe tipo humano nesse mundo mais confiante que o ex-gordo. Por causa da mudança drástica, entende? O gordo não é levado a sério. O gordo é desengonçado. É execrado pela moral dietética moderna. O gordo chama atenção. O gordo ocupa espaço demais. A bunda do gordo sobra para os lados livres do assento da cadeira. O gordo não pode sentar na poltrona do meio do avião. O gordinho da galera é motivo de piada. Quando não é referência, escala de medida. Oposto perfeito do magro.

Ele era um ex-gordo. Aproveitava-se da nova condição de ser ouvido com atenção. Um poço de confiança, um predador. Sempre bem vestido, barbeado. A fala sempre mansa. Buscava ser admirado pelas pessoas, mas tinha o cuidado de não demonstrar isso. Quem o conhecia em sua nova fase o definia como um cara seguro de si. Auto-suficiente.

Já ela, procurava esconder o fato que já foi uma mulher normal um dia. Daquelas que assistem Friends. Que perdem ligeiramente o controle diante de certa quantidade acessível de chocolate. Daquelas que choram na TPM, ou ao menor sinal de drama na tela do cinema.

Mas isso foi antes da desgraça. O ex-marido a trocara por uma mulher mais lisa. Menos rugas, menos celulite. Quinze anos mais magra e uns vinte quilos mais nova.

Depois de um mês chorando a própria sorte, entrou na academia. Passou a freqüentar o salão de beleza com mais freqüência. E pôs-se a destruir o coração de todo e qualquer homem que fosse ingênuo o bastante para se entregar à dureza de seu olhar firme e à sensualidade das suas recentes curvas perfeitas.

O que um casal como esse poderia querer numa noite de sábado? Exatamente! Sexo depravado, melado, absorvente. E absolutamente casual. Sem ligações no dia seguinte.

Mas a vida, como o futebol, é uma caixinha de surpresas. E apaixonaram-se. Hoje, meus pais estão já velhinhos e ainda juntos. Moram sozinhos, só os dois, em uma casa a trinta metros da praia. Desde aquele sábado, nutrem uma mútua e enorme dependência afetiva. De uns anos pra cá, convivem também com uma dependência física. Papai abre a porta do carro pra mamãe, carrega as sacolas de compras, tira o chapéu em cumprimento e ostenta um branquíssimo bigode. Mamãe é incapaz de esconder o olhar de orgulho sempre que fala no velho. “O amor nos faz ridículos.”, meu pai dizia. E ainda diz. “Mas não adianta tentar resistir. O ridículo sempre nos vence. Como ser sóbrio à vista de um sorriso como aquele ali?”, e apontava pra mamãe.

***

“Que estória linda.”, ela disse quase gritando para se fazer ouvir em meio à música alta. Ela piscava à minha frente com um franco sorriso intermitente, por conta da luz da danceteria naquele sábado à noite. E uma hora depois, eu arrancava-lhe a calcinha em algum motel barato da cidade. Essa estória sempre funciona. Elas sempre abrem a guarda depois de ouvi-la. Quem disse que as mulheres modernas não gostam mais de romance?

domingo, 31 de agosto de 2008

Coprofobia

Merda é algo nojento pra cacete. Não acredito que haja muitas incongruências de impressões nesse sentido. Ou seja, é difícil achar quem discorde. Mas eu me permito ir mais longe. Não há nada - Nada! - que cause um horror tão devastador, tão angustiante, quanto o causado por aquele maldito caroço de milho incrustado na bosta.

Fora uma tremenda cagada. Daquelas que só somos capazes de protagonizar poucas vezes na vida. Daquelas que nos aliviam tanto peso que nos julgamos capazes de correr três maratonas seguidas quando levantamos do vaso. Uma sensação deliciosa. A ponto de ser coroada com um cigarro. Uma montanha de bosta socada no fundo da privada. E dois corocinhos de milho caprichosamente posicionados. Um par de olhos fitando, apreensivos, seu criador.

Descarga. É aí que o mundo volta a ser horrível. A água inunda a cavidade de porcelana, irriga o monte fecal e a merda não desce. O vaso entope. Descarga de novo e os dois carocinhos de milho sobem, girando na água barrenta, sempre me olhando. Sobem até quase transbordar. Param. E descem lentos, preguiçosos, sem força suficiente para serem jogados cano adentro, para longe da minha vista. E lá repousa a montanha de bosta. Lá repousam os dois olhinhos, agora jocosos. Torço o nariz e penso “Que merda!”. A minha consciência, como que divertindo-se com meu calvário completa “Literalmente.” Eu rio, mais pelo desespero que cresce do que pela piada negra. Tento a descarga de novo. A pororoca de merda sobe, os carocinhos vêm me olhando no fundo dos olhos. A água desce devagar, nojenta, fraca, débil, irritante.

Não havia muito que eu pudesse fazer diante daquela cena escatológica. Era muita merda esparramada pelo fundo do vaso sanitário. Nem de brincadeira eu ia enfiar um desentupidor ali. Daria mais resultado catar tudo com a mão - devidamente coberta por um saco plástico – enfiar numa sacola de supermercado e dar fim naquele horror. Mas dar fim como? Não ia jogar um saco de bosta no lixo da cozinha. Tudo tem limite. Tentei a descarga mais uma vez. E lá vinha a pororoca de novo. Lá vinham os olhinhos malditos enfiados no tolete de merda. Eu queria chorar. Tive, então, a idéia brilhante de deixar aquilo ali por algum tempo, na esperança da merda dissolver um pouco, afim de facilitar uma descarga futura. Não custava tentar.

Custou. De meia em meia hora, passava por ali e tentava uma nova descarga. Nenhuma deu resultado. E cada vez que tentava, aquela merda toda se revirava, escurecia e fedia cada vez mais. O banheiro estava empesteado. Inutilizável. Lá pela terceira ou quarta tentativa, as moscas já vieram me rodear quando levantei a tampa da privada. E sempre a mesma coisa. Pororoca de merda. Caroço de milho rodando, caroço de milho no fundo do vaso me olhando. Será que eu devia estar achando isso engraçado? A situação do banheiro já estava calamitosa. A minha situação, desesperadora. Eu não sossegava. Cada vez que fechava os olhos via aquele monte de merda me olhando com os olhinhos amarelos. Quem mandou comer aquele creme de milho!? Passei o dia nessa agonia. Passei também a noite. Fechava os olhos no quarto escuro e tudo o que via eram os carocinhos de milho girando num lago de cocô. Eu suava frio. Quando conseguia cochilar, sonhava com aquele horror ressurgindo do fundo do vaso e me perseguindo pela casa, pela rua. Acordava aos prantos.

Na manhã seguinte, minha mulher me encontrou tremendo, deitado no chão do quarto. Cheio de tiques nervosos, sem conseguir formular uma frase que fizesse sentido. Eu via a pororoca de merda com seus olhinhos de milho em todo lugar. Ela chamou uma ambulância. Quando cheguei ao hospital, me encaminharam para a emergência psiquiátrica. O enfermeiro me acomodou na cama e comentou com um colega “Olha só. Cara casado, com filhos, renda boa. Viu a mulher dele aí no saguão? Uma beleza. Trinta aninhos muito bem distribuídos. E dá um ataque desses. A vida é uma merda mesmo.” Eu sorri aliviado. Estava em boas mãos.

domingo, 17 de agosto de 2008

Harlem Blues

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/08/harlem-blues.html

Andar na rua 125 me entristece hoje em dia. Entristece e irrita. Caralho. Loja de departamento, especulação imobiliária, dinheiro branco entrando. Eu paro de frente pro velho Teatro Apollo. Não chego a chorar. Mas também não contenho a primeira lágrima. Meu pai trabalhava no Apollo. Era faxineiro. Hoje, esse letreiro amarelo e vermelho é a única coisa que me lembra o velho Harlem. James Brown e B.B. King já tocaram aí. Muito mais gente.

Quando eu era garoto, os brancos endinheirados não vinham aqui. Tinham medo de não saírem vivos. Filhos da puta. Eu queria que o pesadelo deles fosse verdade. Mas descobriram que não era. Agora tão trazendo o progresso pra cá. O progresso. Entra o dinheiro, entram as lojas de desconto, os brancos, os ternos. Entram todos pela porta da frente. E arrastam pra fora os pretos, os pobres, as putas. Os drogados. Todos defenestrados pela porta dos fundos. A porra do progresso. O fedor do Harlem está mudando de suor pra lavanda. O Harlem está começando a feder a consultório de dentista. Sinto falta do cheiro de gasolina. E de pólvora.

Entro na Malcolm X Boulevard. Tento não imaginar o que esses grandes pretos do passado pensariam se vissem no que o Harlem está se transformando. Meu pai me contava que o Harlem já foi um bairro da elite, há muitos anos. Antes das migrações negras, ele dizia. Tem gente que diz que o bairro está voltando às suas origens. Eu não acredito nisso. Não posso. A fidelidade aos meus anos de garoto me impede. Muita gente brigou pela dignidade desse lugar. Ali, Malcolm X, Luther King. Não, o Harlem é dos pobres. Dos pretos. Dos cucarachas. Foi assim que eu conheci o Harlem. Foi assim que aprendi a amá-lo. E é assim que deve permanecer.

“Ta na hora, negão.” Era o Harry, que me esperava na varanda da casa, já perto da 135th. Fiz que sim com a cabeça. Um Ford antigo parou perto da gente. Jim no volante. Entramos no carro. Eu na frente, Harry atrás. Tirei a Desert Eagle do cinto e deixei no meu colo. Passei a maior parte do caminho alisando o gatilho da pistola. O Jim olhava pra mim e ria. “Que cara de babaca você faz quando começa a masturbar essa porra dessa arma.” “Vai se foder.” Passamos pelo Schomburg Center. Aprendi a gostar desse lugar. Passamos pelo Harlem YMCA, “Malcolm X já ficou ali, cara.” Entramos na Frederick Douglas Blvd.

***

A boate tava meio vazia. Lucille fazia o número dela no poste de ferro. Eu trazia a arma na mão. Kate nos guiava até um quartinho nos fundos da boate. Falava rápido, explicava várias coisas sobre como o cara fora parar ali, e como ela descobriu quem ele era. Quando chegamos na porta, ela enfiou a chave na fechadura, bateu de leve na madeira e entrou. Pediu pra menina que atendia o cara sair. Nós entramos.

Minha pistola o tempo todo na reta da sua testa. Ele ficou amarelo de medo. As pernas tremiam escandalosamente. Jim acertou-lhe uma coronhada que botou o coroa desacordado. Amarramos os braços e as pernas. Amordaçamos sua boca. Kate chamou um dos seguranças pra nos ajudar a carregar o cara até o carro. Trancamos o figura no porta-malas e caímos fora.

***

Quando cheguei em casa, minha mãe estava chorando, sentada no sofá com as mãos cobrindo o rosto negro e enrugado. Soluçava. Dizia que tinham pego meu irmão. “Quem, mãe?” “A polícia.”

“O Mark apareceu aqui, desesperado, dizendo que pegaram ele.” “Onde?” Ela explodiu em lágrimas de novo. Os soluços pioraram. Pareciam espasmos. “Ele estava lá de novo, meu filho. Naquele lugar horrível.” “Puta merda...” “Não fala assim. Ele estava lá. A polícia chegou batendo em todo mundo e saiu carregando o Antony. Ninguém mais sabe dele. Não apareceu mais.” Eu fechei os olhos com força. Engoli o choro e a vontade de quebrar a mesa à minha frente. “A senhora fica em casa, mãe. Eu vou resolver isso.”

Saí de casa pisando firme. O sangue ardia nas veias de tanto ódio. Rangia os dentes, respirava fundo. Minutos andando. Pareceram horas. Semanas. Engolindo em seco por todo o caminho. Tive vontade de soltar uma seqüência de palavrões emendados. Não diminuiria a angustia, só me faria sentir ridículo quando acabasse meu repertório. Calei.

***

Quanto mais fundo eu descia a escada, mais úmido ficava o ar. Vários fedores condensados. Suor, sexo, vômito. Mijo. Fumaça. Cada vez mais escuro. Arranhei o braço várias vezes me apoiando na parede de reboco aparente.

A escada acabava num salão abandonado. Alguns sofás velhos, todos rasgados e cheios de traças estavam espalhados por todo lado, assim como tapetes não em melhor estado. Pretos e latinos magros, doentes, ocupavam o lugar. Um porto-riquenho especialmente franzino trepava com uma negra de pele cinza em um dos tapetes. Mark estava deitado em um sofá de olhos fechados. A seringa ainda estava pendurada em seu braço.

“Acorda, filho da puta.” Dizia dando-lhe tapas no rosto. Ele abriu os olhos com dificuldade. “Cadê meu irmão?” Ele piscou lentamente e fechou os olhos de novo. Outro tapa. “Cadê meu irmão, porra?!” Ele murmurou um “Não sei” sem nem abrir os olhos. Puxei a pistola, encostei-lhe no joelho. “Fala comigo, cretino.” Ele não esboçou reação. Puxei o gatilho. O estrondo do tiro e o grito de dor do desgraçado assustaram os outros fodidos do salão. Encostei o cano da pistola na sua testa. “Só vou perguntar mais uma vez. Cadê o meu irmão?” “Não sei, caralho! Os canas bateram aqui, pegaram ele com pedras de crack. Encheram o coitado de porrada na frente de todo mundo. Ele desmaiou. Os caras desesperaram, jogaram ele dentro do camburão e se mandaram. Não sei dele desde ontem!” “Quem eram os canas?” “Não conheço. São os caras novos. Aqueles que tão chegando na área por causa dos brancos que tão se mudando pra cá. Dizem que tem uns comerciantes que pagam por fora pra eles darem essas batidas.”

***

Eu estava na metade do caminho para a delegacia. Os sacos de lixo estavam espalhados pelo chão de um dos becos. Tinha alguém deitado encostado à parede. Parecia um mendigo dormindo, mas a posição não me parecia nada confortável. Entrei no beco. O rosto do sujeito estava virado para a parede. Cheguei perto e cutuquei. Não tive certeza se ele estava respirando. Às vezes parecia que sim, às vezes que não. Virei o corpo pra mim. Meu estômago gelou. Era o Antony. Todo fodido. O rosto moído de porrada. E respirava.

***

Toquei a campainha. Senhora Johnson atendeu a porta. “Posso falar com o Harry?” “Entre, meu filho. Ele está lá embaixo, no porão, com o Jim e o moço que vocês pegaram.”

Desci com a arma apontada pro cara. Ele estava amarrado numa cadeira, pelado, com um corte na testa. “Vou perguntar uma vez só. É verdade que vocês pagam os policiais novos no bairro por fora pra dar batida em antro de drogado?” Ele fez que sim com a cabeça. “Jim, com o nosso cara de dentro, dá pra descobrir o nome dos canas da batida de ontem?” “Dá sim, fácil.” O telefone tocou. Harry foi atender. Olhei nos olhos do comerciante. Acho que ele sabia o que ia acontecer. Começou a amarelar de novo. Começou a chorar. O Harry voltou com o semblante sério. “Era sua mãe. O Antony morreu, cara.” Baixei a cabeça por uns instantes. Jim se virou pro branquelo. “Deu azar, cara.”

Puxei o gatilho. Senhora Johnson, lá em cima, na cozinha, deixou a panela cair com o susto.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Fumaça

Parei de fumar. E o primeiro engraçadinho que me vier com um sorriso e um “Parabéns!” eu juro que quebro os dentes. Não parei por um motivo escroto qualquer. Não parei porque faz mal e agora eu quero vida nova. Não vou começar a acordar cedo pra correr no parque e tomar suco de graviola com leite. Vão se foder seus antitabagistas de vida saudável e ridícula. Continuo com meus pequenos prazeres sujos e proibidos. Só parei de fumar. E não digo isso com orgulho. Digo com vergonha, para ser sincero. Não fiz nenhum esforço pra parar. Pelo contrário. Nunca quis parar. Fiz esforço foi para continuar, mas não deu. Há duas carteiras que cada cigarro que acendo entre os lábios traz um gosto repulsivo. Simplesmente não gosto mais. Meu corpo não gosta mais. Como um dia deixou de gostar de Fanta Laranja, hoje não gosta mais de cigarro. O cigarro deixou de ser um dos meus pequenos prazeres sujos e proibidos. Corpo filho da puta. Burro! Como vou viver sem a droga do meu cigarro agora? Sem o meu Marlboro? O que os caras da Phillip Morris vão pensar de mim?

Pensei em trocar de cigarro. Comprar um mais fraco. Um de filtro branco, talvez? Para ver se não perdia o hábito. Só até o gosto pelo estoura-peito voltar. Desisti da idéia. Cigarro de filtro branco é ridículo. Coisa de quem não agüenta o tranco. Coisa de bambi. De tricolor. Além do mais, com que cara eu vou chegar pro cara da banca e pedir um Free!? E a vergonha? Tá maluco. É a mesma coisa que vestir uma camisa do Fluminense. Não. De jeito nenhum. Isso eu não faço. Com o todo o respeito ao velho Nelson Rodrigues, isso eu não faço.

Não me entendam mal. Nunca fui um fumante compulsivo. Mas sempre fui um fumante convicto. É a posição política da coisa, entende? No mundo de hoje, fumar é ir contra o sistema. Fumar é lembrar de tempos melhores. É anunciar ao mundo que se está cagando e andando para as suas novas tendências degradantes e robotizantes. Fumar é como ostentar um vasto bigode. É como usar chapéu panamá. Ser um monogâmico fiel, abrir a porta do carro para as moças. Fumar é como preferir os seios que cabem numa mão em concha aos seios estadunidenses, enormes como uma bola de futsal, mas muito mais vulgares. É como admitir em voz alta não ser viciado em sexo e não ter gosto por rodízio de mulheres como se o mundo fosse uma grande churrascaria. Enfim, fumar é desses hábitos que um dia foram glorificados, e hoje são demonizados. Fumar é relembrar dos anos cinqüenta, onde nada era perfeito, mas as coisas que importavam tinham sua posição correta na escala de prioridade. Fumar é ouvir o Elvis até hoje. Fumar é lindo. E até duas carteiras atrás, era gostoso. Caralho.

Tom Waits e Iggy Pop defendem, entre baforadas de Marlboro, que o bom de parar é que agora se pode apreciar um cigarro sem culpa. Já que parou mesmo, que mal pode fazer um cigarrinho de vez em quando?* É bonito. Pra quem um dia foi viciado. Eu, que nunca tive disso, que nunca precisei da nicotina pra fazer minha mão parar de tremer, só tinha prazer fumando, nunca desprazer. Eu já estava nesse cigarrinho de vez em quando. Talvez se aplique a mim também, de qualquer jeito. Vou acender um cigarro de vez em nunca, na esperança de que um dia eles voltem a ser gostosos. Até lá, preciso compensar a falta de despeito político. Acho que vou arrumar um chapéu panamá, já que o do meu pai não posso pedir emprestado. Não me cabe na cabeça.

*Cena do filme Sobre Café e Cigarros de Jim Jarmusch

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Marginal

Cravo-te os dentes nos lábios
Cravas-me as unhas nas costas
Aperto-te a carne
No furor de fundi-la à minha
Espremo-te contra a parede crua
Bebo-te o suor
E o veneno do hálito
Arranco-te as lágrimas
Arranco-te os gritos
Explodimos, tu e eu,
No gozo bandido

Abotoa-me a calça
Arreio-te a saia
Perco-te no escuro do beco
No cheiro de lixo, de mijo
De Sexo.

terça-feira, 15 de abril de 2008

No Deserto As Rosas Não Nascem

Era noite. Mas não era uma noite qualquer. Eu sabia disso. Desde a hora em que acordei naquele dia eu sabia que algo grande estava para acontecer. Algo grande. Não sabia o quê. Mas essa sensação só fizera crescer durante o dia. Agora eu tinha certeza absoluta. O rumo de muita gente estava para mudar nas próximas horas.

Eu não conhecia nenhum dos quatro trabalhadores. Mas sentia a raiva correr quente e áspera pelas minhas veias. Eu via nos olhos de todos os presentes no enterro que eu não era o único. Quatro mortos. Quatro dos nossos. Não fora um acidente. Todos ali sabiam disso. O veículo dos colonos batera no carro dos quatro trabalhadores de propósito. E matara os quatro. Quatro dos nossos. Mais quatro. Isso não ficaria assim. Nós não íamos deixar.

Nós marchamos. Deixamos o cemitério e marchamos. Pelas poças de lama que chamam de rua nesse lugar. Pelas casas simples de reboco e teto de zinco. Nós marchamos. Furiosos. E mais pessoas se juntavam a nós ao longo da caminhada. Nós gritávamos, cantávamos, amaldiçoávamos. Nós marchamos. Com os olhos espremidos e amedrontadores. Com os punhos em riste socando o ar. Com as vozes unidas e embebidas de ódio puro e mortal. Nós marchamos. Até o quartel-general dos colonos nós marchamos.

Quando invadimos, alguns soldados estavam do lado de fora da construção, sentados a uma mesa jogando baralho. Naquele momento, eles não eram mais o nosso pesadelo. Naquele momento, eles não eram mais as figuras que nos amedrontavam, seqüestravam e torturavam. Eles não eram mais o demônio a ser temido. Não eram mais intocáveis. Não eram invencíveis. Um homem junto a mim enrolou seu kaffiyeh no rosto, deixando somente seus olhos a mostra. Outros fizeram o mesmo. Naquele momento, aqueles soldados eram alvos.

Milhares de pedras. Foi isso que caiu na cabeça dos soldados. Nós jogávamos pedras do tamanho de punhos com a mesma gana que jogávamos as pequenas. Os soldados tentavam nos empurrar para trás. Não recuamos. As pedras continuaram voando. Começaram a atirar contra o céu negro. As pedras continuaram voando. Uma delas acertou o rosto de um soldado bem à minha frente. Ele me olhou com olhos esbugalhados de medo, o sangue escorria do corte na maçã do rosto. Eu sorri para a ele. O sorriso mais sádico que consegui. Vieram jipes e caminhões para nos impedir. As pedras continuaram voando. E os soldados começaram a recuar. Entraram no quartel em pânico e lá ficaram.

***

Quando voltava pra casa, já depois da meia-noite, ainda ouvia a agitação de várias manifestações que ainda eclodiam. Vi um gato enterrado na lama da rua. Sua barriga tinha sido pisada contra o barro. Estava morto. Pisoteado, ao que parecia. Ao seu lado, uma lata enferrujada com uma planta crescendo em seu interior. A planta era de um verde inspirador. Peguei a lata e a levei comigo.

Fechei a porta do quarto que dividia com meus sete irmãos. Caminhei ruidosamente sobre o chão de terra até uma prateleira, presa à parede de alumínio comprimido. Pus a lata com a planta em cima da prateleira. Quando meu irmão mais novo perguntou o que aquela planta horrível fazia ali, respondi que no deserto não nascem rosas. Na guerra, os poemas são secundários. Que aquele restinho de verde era o melhor que podíamos fazer. Disse que a chamava de Intifada.


sexta-feira, 28 de março de 2008

Balas de Morango e de Chumbo

A chave deslizou fechadura adentro. O som dos pinos de travamento subindo chegou alto aos meus ouvidos. O estacionamento era subterrâneo, e não muito grande. Entrei no carro. Pus a chave no contato e girei. Acendi os faróis, apertei o cinto de segurança e bufei. Estava cansado. Fora uma noite difícil na delegacia. Soltei o freio-de-mão.

Parei o carro. Sinal vermelho. Vi garotos invadindo a pista. Três, quatro. Um deles parou ao lado da janela do meu carro. A bandeja de madeira cheia de doces pendia do pescoço, fazendo o garoto curvar. Não comprei nada. Mantive a atenção no motorista do carro à minha frente. Pegou duas moedas que estavam espalhadas pelo assoalho do carro e comprou um pacote de balas de morango. Daquelas que você mastiga e grudam no dente. Devia haver mais ou menos uns quinze carros parados no sinal. Só o homem à minha frente comprou doces.

Os garotos voltaram para a esquina de onde saíram. Uma mulher os esperava, sentada no chão, encostada a um muro cinza e enrolada em uma manta suja. Estendeu a mão ao garoto que vendera a bala. O garoto disse algo que, por conta da distância, não ouvi. A mulher ouviu. E não gostou. Levantou-se de um pulo. O garoto, que parecia o mais novo do grupo, uns sete, oito anos, recuou assustado botando a mão com as moedas pra trás do corpo franzino. O sinal abriu. E o estalo do tapa só foi ouvido por quem prestava atenção à cena. Eu, a mulher e os meninos. O garoto menor rodopiou e caiu sentado na beira da calçada. Ainda no chão, envergonhado, estendeu a mão e depositou as moedas na mão da mulher. O carro atrás de mim buzinou de leve. Saí com o carro, deixando pra trás o grupo de garotos e um sorriso triunfante de mulher.

***

Na noite seguinte, recebemos um chamado. Fomos, eu e uns colegas, resolver uma briga de bar, perto da esquina em que vira os garotos. Uns branquelos daqueles que usam camisetas rosa-choque e bermudas verde-limão tinham quebrado tudo num bar. Por causa de garotas. Não acreditei. Pra mim eles são todos veados. Depois de alguma discussão, o Machado ainda levou uns três pra prestar esclarecimentos. Ele e o França voltaram na viatura. Eu disse que me viraria sozinho. Tinha algo pra resolver antes de voltar à delegacia.

Fui até a esquina dos garotos. Entrei em um botequim e fui até o banheiro. Pus um casaco preto por cima da farda, peguei a arma que trazia presa ao tornozelo e prendi no cinto. Tirei uma máscara de esqui do bolso e enrolei na mão.

Andei até a esquina e parei ao lado da mulher, que estava em pé, encostada no mesmo muro e enrolada na mesma manta. Mostrei discretamente o cano da arma. “Vem comigo.”. Ela arregalou os olhos, mas não resistiu quando a arrastei pelo braço até um beco próximo dali. Os garotos nos seguiram.

Pus a máscara no rosto e mandei que a mulher ajoelhasse. Ela começou a chorar, mas teve o cuidado de chorar em volume baixo. Acho que pra não me irritar. Talvez ela ainda tivesse esperanças de escapar. Chutei-lhe as pernas finas e ela ajoelhou-se. Tirei a arma do cinto e encostei o cano na nuca da mulher. Os garotos se agitaram. Pedi a eles que tampassem os ouvidos com as mãos. O menor recusou-se. Perguntei se ele queria trocar as balas de morango pelas de chumbo, oferecendo-lhe o cabo da arma, ainda encostada à nuca da mulher. Ele disse que não. Que não tinha força pra puxar o gatilho. E ficou esperando que eu fizesse o que ameaçava. Só encolheu os ombros quando dei o tiro. Não piscou, não gritou. Só encolheu os ombros de leve e sorriu.

sábado, 8 de março de 2008

Fazendo Emendas...

Bom... Eu peço desculpas, pois este post será muito pouco original... Acontece que poucas vezes na vida eu perdi as palavras, e essa ocasião é uma delas.

E mesmo assim, tenho a pachorra de dizer que este post é uma declaração de amor.

Eu tenho uma foto. Da qual não me orgulho muito, é verdade, mas pelo mesmo motivo por que não me orgulho de nenhuma foto que me mostre o rosto. Essa foto está na mesa do meu computador. Na verdade, olho pra ela nesse exato momento. Na imagem, um sofá preto à frente de uma parede branca. No sofá estou eu. Uns 3 anos de idade aproximadamente. Fantasiado de Tartaruga Ninja, de Leonardo, o azul. Ao meu lado, a moça a quem declaro meu amor. Devia ter 1 aninho apenas, se minhas contas e minha memória não me pregam peças. Fantasiada de gatinha. Meu sorriso era largo, franco. No rosto dela, uma expressão perturbada. Um quase choro, incomodada com as frescuras da fantasia, que lhe pinicavam a pele. Eu sei que ela também se lembra dessa foto. E sei que também não se orgulha dela. Mas não há nada mais prazeroso que expor quem se ama ao ridículo, não é?

Hoje ela me dedicou um selo (foram três selos, na verdade) em seu blog. Hoje ela contou uma história que eu não conhecia. É verdade, Mari, que nossas mães nos arrumavam fantasias estranhas. É verdade que éramos, e acredito que ainda sejamos, melhores amigos. É verdade que, apesar de nunca termos morado perto, sempre que a gente se encontra parece que nos falamos no dia anterior. E é verdade também que nós crescemos.

Além disso tudo, essa moça hoje diz que escreve por minha causa. Que ter lido os meus rabiscos fez com que ela também se arriscasse a dar seus vôos. E diz que montou o blog com medo que eu lesse e achasse um lixo.

Sabendo, hoje, de tudo isso, prima, eu só posso dizer que me sinto muito honrado, além de muito feliz, por ter despertado algo tão óbvio e bonito, que é o seu talento. E, como acontece naturalmente nos processos da vida, digo feliz que a criatura superou seu criador mais uma vez.

Portanto, não tenhas medo. És um achado. Já provaste isso. =)

E acrescento o seu blog nas minhas indicações que você ainda não tem.




Outro Quintal (Belo Blog da minha prima Mariana)

Beijos, prima.

Desculpem o jabá, galera.

terça-feira, 4 de março de 2008

Homenagens...

Como sempre acaba acontecendo em tudo o que eu digo, paguei a língua.

No post comemorando o primeiro aniversário desse blog, disse que ele(o blog) nada me rendera. Nem novos amigos ou reconhecimento. Paguei a língua. Agradeço aqui a honra a mim concedida pelo Caio Sarack ao me indicar pro "Eu tenho um blog de Elite".



Então, seguindo a corrente, aqui vão meus indicados:

Contra a Maré
Velha Usuária

Obrigado.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

The Killer Won’t Be Up Until Dawn

“Direto pra sala de interrogatório.”, eu disse quando o Guedes veio me avisar que tinham chegado com o garoto. Caso mais besta. Não dava pra ser mais óbvio. Toda vez que um crime de racismo vem à tona, culpam um branquelo azedo da zona sul. Dessa vez foi mesmo um branquelo azedo da zona sul. Um moleque. Dezoito anos, o nariz entupido de pó e o cérebro, de merda. O garoto tinha matado um casal de pretos num ponto de ônibus. Os policiais da ronda pegaram o infeliz no ato, enquanto escrevia “Macacos de merda” na barriga da moça com um canivete.

Tirei os óculos e limpei o suor do rosto com o lenço de bolso. Bebi o resto da água que esquentava no copo, passei o lenço na careca, pus os óculos e saí da sala. No corredor, a caminho da sala de interrogatório, encontrei o cabo Ramires. “O pessoal da Jaula tá louco, doutor. Já tão sabendo o que o garoto fez.”, ele me disse. Jaula era como chamávamos uma das celas que tínhamos ali. Uma que só tinha detentos de cor negra. Todos perigosos, todos pretos. Pretos como o cabo Ramires, que depois de relutar, agora também usava o apelido para a cela. “Tão fazendo a maior baderna.”, completou. “Vem comigo, Ramires.”

Entramos os dois na sala. O garoto estava lá, sentado. Algemado. Os tornozelos presos aos pés da cadeira. Os olhos castanho-claros exalavam arrogância. Eu já estava incomodado. Tirei o lenço do bolso e sequei a careca de novo. “Bom dia.”, eu disse, ríspido. Sentei-me de frente pra ele. Ramires se manteve em pé, às minhas costas. Tirei os óculos, cansado do plantão. Olhei fundo nos olhos do moleque. “Então, filho. O que aconteceu?”. Ele não me respondeu. Manteve os olhos fixos nos meus de modo desafiador. “Acho bom responder o doutor, garoto.”, disse Ramires. O garoto não desviou o olhar, piscou lentamente e perguntou “O que esse orangotango tá fazendo aqui, respirando o mesmo ar que a gente?”. Ramires levou a mão ao cacetete.

***

O garoto parou de falar quando bateram na porta. O Guedes entreabriu a porta e pôs a cabeça pela fresta. “Posso falar com o senhor?”. Levantei e saí da sala.

“Então, doutor? Como tá?”

“O garoto é um marica. Chegou aqui querendo pagar de machão, mas deu a história na primeira porrada no joelho. E, Guedes, me faz um favor. Cala a boca dessa negada da Jaula. Se um filho da puta qualquer dos direitos humanos houve esses vagabundos gritando que ‘cabe uma bunda branquinha na jaula apertadinha’ eu vou ter que escrever milhões de relatórios.”

“Certo. Deixa comigo. Tenho aqui uma primeira avaliação dos corpos.”

“Manda”, eu disse enxugando mais uma vez a careca.

“Esse moleque tem problema, doutor. Atacou os dois com um canivete. O corpo do homem tem trinta perfurações. Vinte e duas no peito, três na barriga e cinco no pescoço.”

“Prossiga.”

“O garoto é doente, tô te falando. A mulher tem cinqüenta e sete perfurações no corpo. Quarenta e uma na barriga, doze no pescoço, três no peito. E um pedaço de carne mijada arrancado. Mais aquela frase linda na barriga.”

“Carne mijada?”

“Um pedaço da vagina da vítima, doutor.”

“Respeito com a moça morta, Guedes. Caralho.”

“Desculpe. Pelo que parece, ele tentou arrancar o clitóris da garota. Fez isso com a precisão de um açougueiro cego e com mal de Parkinson. Delicado, o menino.”

“Isso ele não contou. Tá certo, Guedes. Obrigado.”, eu disse voltando para a sala.

“Nada, doutor.”

***

Entrei na sala com sangue nos olhos. Queria dar um tiro naquele garoto.

“Tá legal, moleque. Por que rasgar a vagina da moça?”

“Ela já era rasgada, doutor. Como toda boceta.”

Tomei o cacetete da mão de Ramires e acertei o queixo do garoto. Ele não chegou a cair da cadeira, mas os olhos encheram de lágrimas.

“Eu não to de brincadeira com você, filho.”

“Rasguei por que animal não merece gozar. Macaco não devia trepar. Já tem muito no mundo.”

Ramires avançou, mas segurei-lhe o braço. Fiz um sinal com a cabeça e ele voltou a se postar às minhas costas.

“Então, você tá limpando o mundo?”

“Exatamente.”

“É um gari.”, eu disse sorrindo pro Ramires.

“Eu não me arrependo, vocês tão ouvindo? Faria de novo se tivesse a chance.”

“Não se arrepende, é...”

“Não vou perder o sono por eles. Não vou acordar de madrugada com remorso, não vou ver o sol nascer sem dormir de arrependimento.”

“Isso eu posso garantir.”

Levantei-me, fui até a porta e abri. Gritei pelo Guedes. O sargento postou-se à minha frente.

“Tranca o garoto, Guedes. O interrogatório acabou.”, fiz uma pausa, olhei para o garoto e continuei, “Joga ele na Jaula.”

“Na Jaula, doutor?”

“É, Guedes. Faz o que eu mandei. Eu já tava querendo me aposentar mesmo.”

Nessa noite, eu dormi como não dormia há anos. Não acordei de madrugada com remorso. Não vi o amanhecer sem dormir de arrependimento. Nem o garoto.

domingo, 6 de janeiro de 2008

O Tijolo

Fechei a porta de lata do ginásio com um estrondo. Uns cascos de ferrugem foram ao chão. Detesto essa porta escandalosa. O ar viciado me invadiu os pulmões em cheio. O fedor do suor diluído no ar, o cheiro do couro das luvas. Os gritos vindos do ringue, da seção de sparring. O som seco dos golpes duros e precisos nos sacos, as chicotadas ritmadas das cordas no chão. O fedor do éter e do sangue dos machucados. É preciso ser um retardado pra gostar de boxe. Pra gostar desse ambiente, pra gostar de ver dois homens subirem no ringue e esmurrarem-se até a exaustão. E para fazer igual. Nobre arte. Mas uma arte que vem do estômago, das entranhas. Não do cérebro.

O foda do boxe é o dia seguinte. Os inchaços, as ardências. Os músculos que reclamam de cada degrau de escada que você sobe. A visão meio embaçada, a dor de cabeça. As pessoas acham que é macho quem agüenta porrada em cima do ringue pelo simbolismo da porrada. Macho mesmo é quem agüenta os efeitos colaterais de uma luta. Quem agüenta o dia seguinte. Levar porrada no ringue é mole. A adrenalina tá nas alturas, nem se sente. Mas levantar da cama todo fodido de manhã dói de verdade.

Eu tinha acabado de me trocar quando ele chegou. Ginásio adentro como se fosse mais um freqüentador qualquer. As pessoas demoraram a perceber que ele estava ali. Quando perceberam, o silêncio reinou. Nenhuma tiete, ninguém gritou seu nome em tom estridente, nem correu para abraçá-lo. Só fizemos silêncio, e era o suficiente pra ele saber o quanto o respeitávamos. Ele atravessou o ginásio todo em direção ao vestiário, seguido por vários olhares, mergulhado no silêncio. A atitude era de um fodido como todos ali. As roupas, o jeito de andar, a cabeça meio curvada para baixo. O único som que ecoou pelo ginásio foi o grito do treinador de “Johnny, caralho, finalmente. Cê tá atrasado, pô!” Johnny entrou no vestiário, e nós, meros mortais, voltamos ao nosso treino.

***

Johnny “The Brick” Harrys nascera ali mesmo no bairro. Aprendeu a lutar boxe pra vencer as lutas de rua e a guerra de gangues. Preto, pobre, mal aluno. Mas forte pra caralho. Num bairro fodido de uma cidade de contrastes.

Johnny, como todos os garotos do bairro, aprendeu que é um ser inferior. Um ser humano menor. Aprendeu a andar olhando pro chão quando cruzava com um branco na rua e a empinar o nariz quando cruzava com um negro. Quando a adolescência chegou, e com ela uma maior consciência do que acontecia, inverteu o jogo. Passou a defender os negros acima de tudo e a odiar os homens brancos com toda a sua força. Por sorte, ou azar - sabe-se lá - não havia muitos brancos no bairro. E um velho treinador, Harry Flynt, acreditou no potencial de Johnny.

Eu era ainda um garoto, e Johnny já começava a despontar como amador. Eu e os garotos da minha idade íamos a todas as lutas de Johnny, o seguíamos pelo bairro. Ele detestava isso. Cansou de escorraçar a gente dos seus treinos, ou quando o seguíamos até a padaria. Na verdade, ele é a razão de eu hoje também lutar boxe. Ele sabe disso, mas não acredito que goste da idéia.

O fato é que Johnny “The Brick” hoje é um lutador profissional respeitado. Tem o cartel perfeito depois de mais de trinta lutas e, quando entrou no ginásio aquela manhã, estava a uma semana da última luta antes de disputar o título mundial dos pesos pesados. Johnny se recusou a se mudar do bairro, se recusou a usar cordões grossos de ouro, pulseiras brilhantes e roupas chamativas. Ele se dizia só mais um preto do bairro. E agia como tal. Johnny continuava aquele negão forte, simples e calado que sempre fora. E que no ringue mostrava uma raça inspiradora e um ódio assustador. Mas quando andava na rua, as pessoas paravam para olhar. As crianças brincavam de lutar na frente de casa e diziam ser Johnny “The Brick” Harrys. E eu, quando dei minha primeira entrevista depois da terceira vitória como amador, disse com sinceridade que Johnny era meu modelo de ser humano. É isso que o boxe faz. O boxe faz surgir um vencedor num bairro de perdedores. E nem toda a simplicidade de Johnny Harrys pode mudar isso.