sábado, 13 de outubro de 2007

Sobre a Delicadeza

“Hoje em dia, delicadeza é viadagem.”
“Na época em que os homens tinham bigode e usavam chapéu, as pessoas tomavam chopp depois do trabalho e pingado e pão-com-manteiga de manhã juntas.”
“Os homens ainda pagavam a conta, abriam a porta do carro pras suas mulheres e carregavam as sacolas pesadas pra elas, os materiais escolares.”
“Hoje em dia isso é machismo, ou bichice.”
“Hoje em dia as pessoas resolveram esconder sua fragilidade a qualquer preço. Têm medo de dizer que amam alguém porque se inventou que isso só pode ser depois de um número certo de ficadas. Se mutilam porque no século XXI, casar virgem virou um absurdo. Se reprimem porque temos de ser todos durões.”
“Ser machos. Homens e mulheres machos.”
“Nem sabem o que isso significa. Essa caçada ao machismo queima tanto os homens que estapeiam as mulheres quanto os homens de verdade.”
“Aquele argentino disse uma vez que devemos ser durões, mas sem perder a ternura jamais.”
“É isso. Esse cara devia torcer pro Flamengo, ou pro Boca. Ser macho não é pegar um monte de mulher, como num rodízio de churrascaria. O poeta disse uma vez que ‘pica todo mundo tem, homem tem que ter é caráter.’”
“Esse poeta era flamenguista?”
“Claro que era. E um macho de caráter. Que não deixa a delicadeza de lado. Falta às pessoas de hoje pagarem um chopp pro mendigo bêbado que o peça.”
“Chopp eu não pago, pago comida, quando pedem.”
“Esse é o problema. Essa mania de querer definir a necessidade alheia. Como você pode definir o que é mais importante pra ele? O problema é essa arrogância de querer saber mais da dificuldade da vida na rua que o cara. Me entristece é quando o cara aceita isso. ‘Come, que a comida faz mais bem a você que a cachaça.’ ‘Sim, senhora.’ Porra! Mendigo macho é o que pede a grana pra comer e compra uma 51. Mania horrível de querer sempre se adaptar ao que os outros pensam.”
“A modinha, né?”
“Porra de modinha. Porra de mundo moderno globalizado e ecologicamente viável. As emoções valem tão pouco que até o Campeonato Brasileiro virou de pontos corridos. Eu quero que essa classe-média nojenta pare de arrotar qualquer idéia torta que vê na TV, ou lê num livro conceituado. Quero que os porteiros voltem a deixar o bigode crescer. Que os homens parem de medir sua macheza pelo número de mulheres que comeram e largaram, ou pelo tamanho do pau. Hoje em dia todo mundo quer ser ator de filme pornô, porra. Que as mulheres deixem de lado essa idiotice de se sentirem rebaixadas quando um homem as trata com uma diferença gentil. Afinal, abrir a porta do carro pra elas é, no mínimo, um elogio. Elas têm que parar com essa mania de quererem ser iguais a nós. E eu quero muito, mas muito mesmo, que todos os playboys filhos-da-puta que alguma vez trocaram a esmola que deram por um boquete morram da forma mais dolorosa que se possa imaginar. Que essa ode à filha-da-putagem saia de moda, e que as pessoas possam voltar a se amar por serem pessoas. Não por representarem lucro pra alguém. Que a fragilidade de uma mulher volte a ser mais importante que a sua bunda torneada em academia.”