domingo, 16 de setembro de 2007

Antropologia Urbana

Estendi o pote. O homem despejou um pouco de sua cerveja dentro. Era um daqueles potes de plástico, de sorvete. Achei esse pote em uma lata de lixo há alguns anos. Eu sorri em agradecimento, ele aquiesceu. Virei o gole de cerveja, limpei a boca na manta esburacada pelas traças que trazia jogada às costas e continuei a andar pelo botequim. Fui até o balcão. Parei ao lado de um homem que bebia cachaça. Ele me pagou uma dose. O atendente, que já me conhecia de longa data e não gostava de mim, pôs uma dose de cachaça num copo e deixou sobre o balcão. Peguei o copo e despejei a bebida no meu pote. “Vou levar pra viajem.” O homem que me pagou a bebida sorriu. O atendente fez cara de nojo. Acho que ele tinha nojo era de mim. Paciência. Se eu aturava aquele bigodinho ridículo dele, ele que aturasse meu pote e minha manta.

Saí do botequim andando em direção à esquina da Matilde, bebericando minha dose de cachaça. A esquina da Matilde era ladeira acima. Minhas pernas inchadas sempre reclamavam de subir essa ladeira. Mas eu gostava da Matilde. Valia o esforço. Matilde era uma prostituta muito gente fina. Me ajudou várias vezes nessa vida. Quando quebrei a perna, ela que cuidou de mim. Me deixou ficar na casa dela enquanto não tirava o gesso, fez comida pra mim, pagou as consultas no hospital. Quando tirei o gesso, ela ofereceu a casa pra eu ficar mais tempo, até morar, quem sabe. Não quis. Não ia dar certo. Não fui feito pra morar em casa com mulher. Disse isso a ela. Que não aceitava ficar atrapalhando, sendo sustentado por ela. Ela não precisava de um bêbado na vida dela. Não fiquei na casa. Mas a amiga eu mantenho.

A Matilde estava especialmente bonita. Os cabelos pretos jogados sobre os ombros, coxas de fora, salto alto. Um contraste com a minha barba enorme e fedorenta e o meu sorriso de dois dentes. Apesar dela também não ostentar muitos em sua boca. “Oi, bonitão.” Me disse, estalando um beijo na minha bochecha. Sorri sem-graça. “Como vão as coisas?” Perguntou rindo-se da minha timidez. “Vão como sempre foram.” “Isso é mal.” “Ainda não. Mal vai ser o dia que a cachaça do mundo secar.”

Um gordão chegou, combinou um preço com a Matilde e os dois saíram de mãos dadas. A Matilde cobra uma mixaria. Se eu tivesse dinheiro, pagaria três, quatro vezes o preço que ela cobra. É o maior mulherão. Ela devia se valorizar mais. É. Devia mesmo. Vou dizer isso a ela na próxima vez que a gente se esbarrar por aí. Mas, me corta o coração mesmo é ver ela apanhar do cafetão dela. Ou da polícia, sempre atrás de tóxico. Não sei qual é pior.

Ouvi gritos. Voz de mulher. “Pára, pára.” Voz conhecida. Procurei pela voz e vi a Hilda caída no chão. Vestido rasgado, filete de sangue descendo pela boca. Três garotos com roupas de classe média estavam em volta dela. A Hilda é minha ex-namorada. Quer dizer, acho que dá pra chamar assim. A gente trocou uns beijos uma vez. Mas ela me trocou por outro. Um malandro que andava por essas bandas. Foi morar com ele e tudo. E espalhou pra turma que meu pau era pequeno. Vaca. Se fodeu. O malandro, além de bater nela, deu-lhe um pé na bunda. Agora ela tava por aí. Vagando sem teto que nem eu. E tomando porrada de filhinho de papai entediado. Eu reconheci um dos garotos. Era o mesmo que tinha me pegado de porrada na outra semana. Sentei no meio-fio e assisti ao show em meio a goladas de cachaça. Os garotos chutavam a barriga da coitada, chutavam o rosto, tudo o que dava. Até que a arrastaram pelos cabelos pro beco, e eu vi as silhuetas deles revezando-se sobre a silhueta dela. Ela pediu “Por favor” e “Pelo amor de Deus” pra eles pararem várias vezes. Não adiantou porra nenhuma. Ninguém interveio. Nem eu, todo inchado e bêbado sentado na calçada, nem as pessoas do botequim, nem as putas pela rua. Ficou todo mundo fingindo não escutar os gritos e torcendo para aquilo acabar logo.

Quando eles acabaram, deixaram a silhueta da minha ex-namorada largada no beco, subiram as calças e foram embora de nariz empinado e sorriso no rosto. Eu andei até o beco, achei a Hilda no chão. Chorando, com o vestido trucidado. Toda vermelha de tanta porrada. Entreguei meu pote pra ela. “Bebe. Vai te ajudar, eu prometo.” Ela sorriu e deu uma golada. Ouvimos um barulho de freada, muito alto. Mais tarde fiquei sabendo que um motorista bêbado atropelou os três estupradores. Um morreu na hora, o outro quebrou a bacia e o último teve um braço arrancado. Fiquei sabendo também que todo mundo na rua, quando viu a cena, correu pra ajudar.