quinta-feira, 21 de junho de 2007

O Dentista e o Cidadão de Bem

Fio-dental. Porra, o mundo ruindo lá fora. Guerras civis, guerras religiosas, genocídios, mensalão. E a gente tem que se preocupar em passar fio-dental todo dia. Puta coisa inútil. Me sinto um alienado qualquer usando essa merda. Vegetando em frente ao espelho pescando sujeiras inventadas pelos verdadeiros pilantras do mundo moderno: os dentistas.

Nunca fui de usar fio-dental. Só uso mesmo na semana em que vou ao dentista. Pelo menos assim evito a chateação de ter que ouvir o mesmo discurso que ouvia na minha já ida segunda série sobre quanto o fio-dental é bom, e como usá-lo.

Cheguei ao consultório uns quinze minutos atrasado. Me sentei com uma daquelas revistas de fofocas que só tem fotos de pessoas famosas. Tinha de esperar o paciente marcado antes de mim sair. É impressionante como nenhum dentista nesse mundo tem a habilidade de te atender no horário marcado. E como nenhuma sala de espera de consultório tem coisas interessantes a serem lidas. É sempre o mesmo lixo. O mendigo encostado à porta só com uma caneca trincada, um dente na boca e um buraco no lugar do estômago corroído pela fome. E as madames e os playboys, todos com os dentes branquinhos e saudáveis de quem usa fio-dental todo dia, rindo-se das ditas celebridades e seus namoros de fachada.

O som daquele motorzinho cretino vazava da sala adjacente e me atingia como uma tijolada nos tímpanos. O estofado do sofá tinha marcas de unhas. Não eram minhas. Algumas eram antigas.Outras nem tanto. Sei que devo ter deixado uma fresquinha quando me levantei dali e rumei sala adentro para a tortura. Pessoas são engraçadas. Ninguém plenamente racional se prestaria àquilo mais de uma vez na vida. Quanto mais duas vezes por ano.

Me sentei na cadeira já querendo levantar. Abri boca e o ritual começou. E o desgraçado insensível ainda queria conversar. Eu com a boca aberta, cheia de aparelhos barulhentos para torturas medievais e o mal-caráter do dentista perguntando como ia minha mãe. Me perguntou como estava indo o pós-operatório da velha enquanto vinha com aquele motorzinho de novo pra cima de mim. “Câncer não é brincadeira. Ainda bem que foi descoberto ainda no início, né...” E eu respondia só com vogais.

Lá pelas tantas, “Se você quiser, mais tarde, fazer um tratamento de clareamento dos dentes, a gente pode marcar tudo certinho.” Eu meio que concordei, mas só pra ele saber que entendi a proposta, mas não estava interessado. Vou lá fazer clareamento pra quê, se o café e os cigarros vão amarelar tudo de novo. Eu lá sou maluco pra rasgar dinheiro assim?

Quando, finalmente, o desgraçado me liberou, quase duas horas depois, eu cambaleei até a sala da frente. Entreguei a carteirinha do plano de saúde à secretária. Foi quando me lembrei que eu pagava por aquilo. Me senti lesado. Passado pra trás. Naquela madrugada eu incendiei o prédio do consultório.

Excelência, se o senhor já foi ao dentista, vai entender a minha posição. Eu afirmo, Excelência, que não fazia idéia que o doutor estava no consultório durante a madrugada com a amante. Mas digo ao senhor que o teria incendiado mesmo que soubesse. Um dia existiu nesse país algo chamado “legítima defesa da honra”. Bom, o senhor, como bom cidadão comum, deve entender que minha honra foi brutalmente atacada quando do ocorrido. Assim, como é atacada a honra de todo mundo que acaba passando por isso pelo menos uma vez na vida.

***

Quando o juiz leu minha sentença, leu com uma emoção de clara cumplicidade. Eu fui condenado, é claro. Mas sei que doeu naquele homem me condenar pelo que fiz.