quarta-feira, 23 de maio de 2007

Golfinhos de Miami

Ele usava um terno Armani quando nós o pegamos. Figurão de Wall Street no Brasil a negócios. Cabelinho cortado baixo, sapato lustrado, barba feita, pasta de couro caro e aquele olhar de Mamãe, eu sou gostoso. Até português ele falava. Na verdade era um viadinho. Quase se mijou quando viu minha pistola na cara dele. O cara ficou estático, lívido. Tentou falar alguma coisa, mas os lábios tremiam e a voz não vinha. Viadinho. Jogamos a figura dentro da Kombi e partimos. Ele não agüentou e se mijou no caminho.

Quando chegamos no velho galpão de sempre, amarramos o cara numa cadeira e nos revezamos dando tapas na cara do sujeito. Não chegamos a machucar o cara. Era só pela desmoralização mesmo. Ele começou a oferecer tudo pra gente. Dinheiro, carro, rolex de ouro, a bunda, a esposa, a mãe. Até emprego o filho da puta prometeu arrumar pra nós quatro. Quando ele viu que o nosso negócio não era esse, começou a chorar. Chorou como uma moça por muito tempo. Disse que tinha mulher, filhos. Aquele papelão de sempre. Cada vez que eu ouvia um marmanjo daqueles nesses choros, eu tinha vontade de vomitar. Ainda tenho, na verdade. Só de lembrar da história.

Tiramos a roupa dele. Eu fui encher a banheira antiga que estava jogada por lá. O Tijolo arrumou um galão de gasolina e um extintor de incêndio. O Rolha sacou a navalha e o Dado tirou a 22 da cintura. Primeiro foi a navalha. A gente sempre começava pela navalha. Cortaram fora as orelhas e o saco do infeliz. As pontas dos dedos, os bicos do peito. Escreveram “A Burguesia Fede” com a navalha no peito dele e abriram o sorriso do cara de orelha a orelha. Depois vem a 22. Teco no joelho, coronhada na testa. Teco na palma da mão, coronhada na boca. Teco no peito do pé, coronhada na cabeça do pau. A ordem variava. Mas o final era sempre o mesmo. Um tiro na boca do estômago. A partir daí o cara tinha certeza que ia morrer. Sem pressa.

Finalmente, a gasolina. Rolha e Dado seguraram a cabeça do mauricinho virada pro alto. A boca aberta. Nariz tampado. Ele teve que beber toda a gasolina que o Tijolo virou na sua boca. Depois, embeberam o pau do cara com a gasolina. Tijolo acendeu o isqueiro e jogou. O puto entrou em choque. Dado apontou o extintor pro fogo, e apagou. O pinto do maldito parecia uma torrada queimada. A banheira tava pronta.

Mergulhamos o cara na banheira cheia. Pegamos dois fios com as pontas desencapadas e mergulhamos na água. Um de cada lado da banheira. Li uma vez que os policiais do Rio usam essa tortura nos traficantes. Parece que eles chamam de “Golfinhos de Miami”. Era assim que nós a chamávamos também. E, realmente, o cara pulava pra fora d’água como um golfinho. Deixamos o filho da puta fazendo acrobacias na banheira durante um bom tempo e demos um fim no desgraçado.

No dia seguinte, a TV mostrou o corpo, encontrado pela polícia. Os comentaristas estavam chocados com a brutalidade do crime. Já era a terceira vítima executada com o mesmo padrão. Fizeram uma mesa redonda, e a opinião unânime da mesa era de que os homens haviam sido executados por terem resistido a colaborar com o seqüestro. Um sociólogo ainda tentou levantar a hipótese de puro assassinato a sangue frio, de um possível recado que a quadrilha queria dar. Mas ninguém deu ouvidos ao cara. Na semana seguinte, nós, filhos da classe média metidos a comunistas, pegamos nossa quarta vítima. Um alemão a caminho do aeroporto. Quando a televisão noticiou o caso, nós éramos um bando de favelados marginalizados e seqüestradores em busca de dinheiro. E omitiram o fato de que nós sempre devolvíamos as roupas, as carteiras, relógios e maletas das vítimas. Isso não interessava aos jornais. Mas os executivos da cidade agora andavam cagados de medo.