domingo, 22 de abril de 2007

Opostos

“O que te faz feliz?”
“Um tiro na testa de um homem de terno e gravata.”
“Não tem isso no comercial.”
“Foda-se.”
“Não, vamo tentar lembrar das coisas do comercial. Chocolate, paixão, dormir cedo, acordar tarde...”
“Ah, não. Nada de mundinho cor-de-rosa. Vamo fazer o nosso próprio texto. Onze de setembro, gol de mão do Maradona, Guerra do Vietnã, Comuna de Paris. Ou serão os filmes do Scorsese que te fazem feliz?”
“Você é muito macabro.”
“Sou realista.”
“O real também tem coisa boa.”
“Ué, e não foi coisa boa o que eu citei?”
“Esqueceu do amor.”
“Sid Vicious e Nancy Spungen.”
“O quê?”
“Sexo, drogas e Rock n’ Roll. E eles ainda acharam tempo pra se amar.”
“Você me dá medo às vezes.”
“E você é senso-comum demais.”
“Mas sou feliz.”
“Com um namorado macabro.”
“É. Mas você é menos macabro que o Sid Vicious, pelo menos.”
“Você que pensa.”

sexta-feira, 13 de abril de 2007

A Justiça do Gatilho

Eu bati. Ninguém respondeu, mas entrei assim mesmo. Fechei a enorme porta de madeira às minhas costas e engatilhei a arma. Era uma escopeta. Eu tinha uma 9mm no cinto, mas a verdade é que eu nunca gostei das armas pequenas. Sempre preferi as grandes. Aquelas que fazem buracos enormes. Sempre gostei de grudar as entranhas dos caras na parede com um tiro a queima roupa. Quanto mais sangue e órgãos eu espalhar, mais satisfeito comigo mesmo eu fico. E eu estava prestes a estourar a cabeça de uns babacas.

A igreja estava um caco. Caminhei por entre os bancos dando uma olhada no lugar. Aquela merda tava caindo aos pedaços. No altar, tinha uma imagem de Jesus pregado na sua cruz. Faltava o braço direito da imagem. Caminhei em direção ao confessionário. Eu conhecia o cheiro que vinha dali. Chutei a porta. Ela abriu de uma vez. Dois garotos, que deviam ter uns catorze anos, se tanto, estavam fumando um baseado. Eles me olharam como se eu fosse um duende qualquer que veio direto de um conto de fadas pra foder com eles. Eles choraram quando viram a escopeta. Eu disse pra eles vazarem dali. Saíram correndo. O loirinho ainda deixou cair um saco cheio de bagulho. Eu peguei o saco do chão e guardei no bolso. Podia ser útil depois do serviço.

As escadas ficavam atrás do altar. Levei um tempo pra descobrir isso. Desci. Os alojamentos dos padres ficavam lá embaixo. Era o que eu procurava. Entrei no primeiro quarto devagar, sem fazer barulho. Minhas mãos não tremiam. Elas nunca tremem. Mas meu coração batia tão forte que eu podia ouvir meu peito subindo e descendo. É isso que me faz ser bom nesse trabalho. Eu adoro esse momento. Me realizo nesses serviços. Não existe sentimento melhor que o tesão de saber que você está a segundos de explodir a cabeça de um anormal qualquer.

Os dois padres estavam naquele quarto. E um garoto. Onze, doze anos. Não sei direito. Estavam nus. Os três. O padre mais novo estava segurando o garoto contra o chão. O mais velho estava… Bom, só sei que aquilo deve doer pra caralho. O garoto estava chorando. Eu puxei o gatilho. Acertei o mais velho. Foi o pinto dele que eu estourei, não a cabeça. Ainda. Puxei a pistola da cintura e atirei no joelho do mais novo. Disse pro garoto sumir dali. Eu não queria que ele visse o que eu estava a ponto de fazer. Ele se mandou. Pus o cano duplo da escopeta dentro da boca do velho. Agora foi a cabeça dele que eu estourei. O mais novo começou a chorar. Ele estava coberto de sangue e pedaços de cérebro. Tenho certeza que ele sentia o gosto do outro padre. “Deus nos ensinou a perdoar. Ele abomina a violência.” Ele disse. “Esse é um problema que você vai ter que resolver com ele pessoalmente. Meu trabalho é só marcar o encontro.” Fiz ele se levantar. A queima roupa. As entranhas dele ficaram grudadas na parede às suas costas. Se me senti mal com isso? Você se sente mal quando dá a descarga?

Eu sentei no chão lavado de sangue, peguei o saquinho de erva e mandei ver. É bom relaxar depois de um dia duro de trabalho.

domingo, 1 de abril de 2007

Suspiro

O último gole de café.
Apago o último cigarro do maço.
A caneta corre o papel branco
E desenha a última palavra do poema.

Em cada letra disforme,
Em cada palavra impublicável,
Em cada verso torto,
Em cada estrofe empoeirada,
Grito meus versos de cólera.

Ninguém ousa dizer as palavras que ouço
Ou pensar as que escrevo.
Minha caneta minha adaga
Fere, impiedosa, o papel.

Uma revoada de anjos e corvos,
Todos feios, mancos e de asas quebradas,
Vem sussurrar-me ao ouvido
Minha sina. Meu impasse.
Vem ensinar-me a ser errado
Ensinar-me a ser humano.

A boca mal se move
E a mente já não trabalha.
O poema aos poucos morre
No fino corte da navalha.