quinta-feira, 22 de março de 2007

Quando Soa O Gongo

Os respingos voaram no meu rosto. Parte sangue, parte suor. O Tony tava levando uma surra. Já cansei de repetir pra ele. “Levanta a guarda!”, eu vivo lembrando. Ele simplesmente não aprende. É um bom lutador. Tem uma patada de direita. E assimila a porrada como poucos. Mas não tem técnica. Não tem muito equilíbrio. E nunca se lembra de se defender. Ainda tinha um minuto até o gongo soar. Peguei meu maço de Lucky Strike e acendi um. Torci para ele agüentar pelo menos mais aquele round.

Ele agüentou. Sentou-se com dificuldade no canto do ringue. O cutman tentava dar um jeito na cara destruída dele. “Tony, você só vence se for um nocaute! Lembra da luta passada? Foi a mesma coisa.” Ele me olhou como se estivesse entendendo, mas não estava. Era um retardado. Pancadas demais na cabeça, eu acho. “Hoje você apanhou mais, mas se encaixar o direto, o cara cai!” Me senti um idiota dizendo isso. Encaixar o direto era tudo o que o coitado estava tentando fazer desde que a luta começou.

Voltou para o centro do ringue bufando feito um touro. E levou olé feito um touro também. A cada tentativa de direto, era uma esquiva. E um contra-golpe. Até que, numa dessas combinações, um gancho de esquerda jogou o Tony no chão. O curativo no supercílio se desfez. Ele se levantou meio grogue ainda, mas o juiz mandou a luta seguir. Sempre admirei a capacidade do Tony de assimilar os golpes. Um lutador comum, depois de apanhar o que ele apanhou hoje, já teria pedido arrego. O Tony não. Se deixar, ele luta até desmaiar, ou coisa pior. E era o que ele estava disposto a fazer nessa luta. Mas eu não.

O décimo round se arrastava para o fim, e o Tony continuava apanhando feito um bandido numa delegacia. Apanhava de pé. Os olhos já estavam fechados de tanta porrada, o sangue escorria pelo seu rosto e as pernas já falhavam. Um massacre. E o puto do juiz deixava a luta correr. Essas lutas pequenas em ginásios de subúrbio são foda. Nego quer ver sangue. Seqüelas. Até morte, se calhar. E o retardado do Tony com aquele maldito orgulho não se entregava. Então, faço eu.

Joguei a toalha. O árbitro encerrou a luta e o Tony me olhou com ódio nos olhos. Ele vai me matar amanhã. Na verdade, mataria a alguns anos atrás. Amanhã ele não vai se agüentar de dor em tudo que é canto do corpo. As mãos inchadas, os olhos sensíveis. É o preço que todo boxeador em fim de carreira paga. Ele já está se acostumando com isso. Há dias em que a direita entra. Há dias em que não. Depois dos trinta e cinco, a segunda alternativa é bem mais presente. Isso, ele ainda não entendeu. Eu disse, é um retardado. Mas é um homem. Hombridade ele entende. É um bom garoto, afinal.

sábado, 17 de março de 2007

Suor

...Ele me ama um amor simples. Um amor sem profunda filosofia, sem digressões de poesia. Ama-me simplesmente. E me toma, como que a força. Enlaça-me o corpo nu, me arranca dos lábios o gosto de batom e de suor. E me corre o corpo com a língua ardente de volúpia me atiçando a pele quente. E arrasta as coxas por entre as minhas coxas e me põe em brasas ao beijar o meu ventre e apertar com dedos firmes os meus seios. A sua voz rouca e fatigada que sussurra indecências ao meu ouvido, enquanto me aperta e me acompanha no rebolar dos meus quadris. E me roça a nuca com a barba mal-feita e me crava os dentes que quase me machuca. E eu repouso murcha de cansaço em seus braços exaustos. E ele dorme com a boca enfiada em meus cabelos a esperar que os primeiros fios de sol vençam a cortina e façam brilhar os meus cachos. Ele me ama assim, como um bicho. Simplesmente...

sábado, 3 de março de 2007

Amores Brutos

...Click! Câmara vazia. Senti medo. Antes de puxar o gatilho, sentia-me intocável. Invulnerável. Agora, minhas mãos tremiam e suavam um suor gelado. Ela me olhava com ansiedade nos olhos verde-acinzentados. Sorri um sorriso amarelo. Pus o revolver nas mãos dela. O objeto de ferro negro parecia enorme naquelas mãos frágeis. Ela nem parecia ter força para levantar a arma. Engatilhou-a e rapidamente levou o cano à sua têmpora. “Te amo”, eu disse. Ela apertou os olhos e puxou o gatilho. Nada. Sorriu nervosa. Seus tremores pareciam espasmos. “Eu também”. Engraçado como vencer a morte nos torna prepotentes. Peguei a arma novamente. Beijei sua boca como se agradecesse a prova de amor. Engatilhei o revolver. O tambor se posicionou. Enfiei o cano na boca. Eu sabia que nada aconteceria. Havia vencido a morte instantes antes e a venceria de novo, agora. Uma em quatro. Forcei o gatilho. Gosto de pólvora. Tarde demais para desistir. Eu sabia o que viria a seguir. Sangue e massa encefálica jorrariam na parede branca às minhas costas. Tive pena da camareira do hotel quando entrasse naquele quarto. Engraçado o que se pensa na hora da morte. Olhos verde-acinzentados me fitavam. Gosto de pólvora. Acho que uma lágrima escorreu dos olhos dela. Talvez ela também soubesse. Olhei-a no fundo dos olhos. Senti-me triste por estragar a lua-de-mel. Agora era tarde. Tinha pólvora na minha língua. Despedi-me com um gemido gutural. Puxei o gatilho. Ainda pude ouvir o estrondo...