sábado, 24 de fevereiro de 2007

Clássico é Clássico e Vice-Versa

O estádio estava lotado. O quebra-pau lá de fora não era nada comparado à guerra de gritos e provocações que sacudiam o estádio por dentro. No campo de jogo, jogadores das duas equipes davam a mesma entrevista para a televisão. Os dois prometiam equipes ofensivas e, se Deus quisesse, venceriam a partida. E estava eu na arquibancada imaginando, entre um gole de cerveja e outro, para que time torceria Deus. Provavelmente um time europeu. Está na moda torcer pra times europeus. Isso se é que ele se interessa pelo jogo, claro. Sinceramente, eu é que não estava preocupado com Seus interesses. Nunca, desculpe a blasfêmia, precisamos de Deus. Um santo sempre nos bastou. São Judas Tadeu. Fazia minha prece a ele enquanto limpava o pouco de cerveja que derramei na minha camisa da sorte. Não sou religioso. Nem supersticioso. Mas sabe como é final de campeonato. A gente tenta de tudo. É das poucas situações em que o fim justifica qualquer meio e não deixa remorso.

Quando a bola rolou, a gritaria arrepiava qualquer ser humano. Não demorou muito para a nossa torcida tomar conta. Sempre fomos mais numerosos. E mais criativos e organizados. Atendendo aos brados dos seus fiéis, nosso time abriu o placar. O nosso meia-esquerda recebeu um passe em profundidade, evitou uma solada de um volante, uma tentativa de rasteira de um zagueiro e, da meia-lua da área adversária acertou um chute lindo no ângulo. Gritamos todos quase em uníssono. O meia-esquerda batia no peito depois de beijar o escudo do time costurado ao manto que trajava. Seu nome ecoava pelo estádio. A nossa torcida cuida dos seus. Sabemos retribuir alegrias.

Efêmera foi a alegria, é bem verdade. Ido o segundo terço do primeiro tempo, uma bola sobrou, rebatida pela nossa zaga, na entrada da área. O lateral-esquerdo deles deu um chutinho despretensioso. Na mão do nosso goleiro que, numa ação ridícula, deixou a bola escorregar por entre suas mãos. A maldita da bola caiu dentro do gol. “Ah, goleirão!”, lamentou um senhor de bigode sentado atrás de mim no espaço de tempo entre o gol e a comemoração da torcida adversária, que demorou a acreditar na falha do nosso guarda-redes. Eles comemoraram, enfim. O preto e branco daquela família de portugueses. Gritaram, achincalharam. Era o empate.

O empate também não durou muito. Num lance de nervosismo, nosso zagueiro central deu um bico e cedeu um escanteio. Ato falho do becão. Eles cobraram o escanteio na cabeça do poste trombador que veste a camisa nove deles. Ele subiu e tocou de cabeça. Cabeçada como manda a cartilha, para o chão. Nosso goleiro não teve chance. Viraram o jogo, os putos. Dessa vez a torcida foi rápida na comemoração. O grito veio quase que instantaneamente, logo que viram a bola cruzar a linha.

Poucos minutos antes do fim do primeiro tempo, o mesmo beque, em uma cobrança de escanteio a nosso favor, foi derrubado. Pênalti. A torcida vibrou. Alguns jogadores se cumprimentaram. Não gostei. Estavam cantando vitória antes do tempo. O meia-esquerda se apresentou pra bater. Ajeitou a bola. Nossa torcida em silêncio absoluto. A torcida deles gritava para tentar desconcentrar o nosso camisa sete. Ele correu para a bola e bateu forte buscando o canto. Na trave. A torcida deles comemorou. A nossa lamentou, xingou, chutou a cadeira da frente. Foda.

Foda mesmo foi agüentar a gritaria deles durante todo o intervalo. Precisei ir ao banheiro. Culpa da cerveja. Porra, banheiro de estádio é coisa de louco. Banheiro de estádio em dia de clássico piora. Mas banheiro de estádio em clássico e final de campeonato é absurdo. Agradeci a mamãe e papai por ter sido homem. Se fosse mulher, eu mijava nas calças, mas não abaixava naquele banheiro de jeito nenhum. Mijar em banheiro sujo com seu time perdendo pro maior rival na final do carioca e com a torcida deles gritando lá fora é algo que eu não desejo pra ninguém. Aliás, desejo pra cada um daqueles cruz-maltinos lá fora. Ainda tinha o segundo tempo. Eles iam engolir aqueles gritos, eu tinha certeza.

Nosso time voltou para o segundo tempo jogando melhor. Pressionava o adversário, marcava a saída de bola deles. Pressão. Como nada em dia de clássico dura muito, lá se foi a nossa pressão. Nosso camisa dez errou um passe de menos de cinco metros. Deu a bola nos pés do atacante adversário. ”Poucas vezes o camisa dez da gávea foi tão ruim de bola!”, bradou o senhor de bigode às minhas costas. Contra-ataque. Três cruz-maltinos contra dois beques. Gol. Eles tabelaram, um deles deixou o goleiro sentado comendo grama e rolou para aquele poste camisa nove. Ele só escorou pra dentro do gol. Bosta. Lá se vai a nossa moral. A nossa torcida assistia atônita ao festejo dos rivais.

O técnico mexeu no time. Demorou pra mexer, se você me perguntar, mas mexeu. Tirou o camisa dez e pôs um garoto pra jogar. O moleque vinha das divisões de base e já tinha entrado no time umas três ou quatro vezes durante o campeonato. Na primeira bola que o garoto recebeu, em posição de impedimento, como fiquei sabendo pela televisão no dia seguinte, ele dominou com um pé, bateu com o outro. Golaço. A torcida explodiu em gritos. “Bota a camisa dez nesse garoto!”, era o velho atrás de mim de novo. Era esperança na voz da nossa torcida. Ainda dava tempo de erguer aquela taça.

O grito de gol entalou na garganta da torcida lá pelos quarenta minutos do segundo tempo. O meia-esquerda entrou na área pela linha de fundo e rolou pra trás. O garoto bateu de primeira. A bola acertou o travessão em cheio. O estrondo foi ouvido por todos no estádio. “Que varada!”, comentou o velho do bigode.
Já passava dos quarenta e cinco minutos quando o meia-esquerda sofreu falta na entrada da área. Ele mesmo ajeitou a bola para cobrar a falta, mas recuou. O garoto pediu pra cobrar. Ele deixou. O moleque tomou posição e cobrou de pé esquerdo. O goleiro voou na bola e espalmou errado. A bola sobrou no meio da área e o nosso centro-avante foi rápido o suficiente para empurrar a bola pro gol vazio. O empate. O estádio veio abaixo. A nossa torcida comemorando. A deles lamentando o ocorrido. O velho atrás de mim gritava enlouquecido.

Nosso time partiu para o ataque sem medo. Queria decidir a partida de uma vez. Aos quarenta e oito, o mesmo centro-avante foi puxado pela camisa dentro da área. O juiz não deu o pênalti. Filho da puta. Só apitou de novo para acabar com o jogo. Três a três. Decisão por pênaltis. “Eu vou enfartar!”, o velho de bigode de novo. Eu sorri.

***

Foram três pênaltis para cada lado. Todos convertidos. Nosso goleiro não acertou o canto em nenhuma das cobranças. O velho de bigode já não tinha mais nomes em seu repertório para chamar o goleiro. Era a vez deles cobrarem. O tal trombador que vestia a camisa nove avançou, ensaiou uma paradinha e bateu. O goleiro se esticou todo e pegou a bola. A torcida vibrou com a defesa. Foi aí que eu tive a certeza. Seríamos campeões. O moleque foi bater o pênalti. Tinha dezenove anos. O número dezessete estampado às suas costas. Bateu com personalidade e categoria. Deslocou o goleiro, que não saiu nem na foto. A responsabilidade agora era deles. Se o cruz-maltino perdesse o pênalti, o título era nosso. Se fizesse, a decisão estaria no último pênalti, que era nosso. Ele correu de um jeito meio indeciso para a bola, bateu mal, o goleiro pulou para o lado certo, mas não pegou. Eles converteram. A responsabilidade era nossa.

O meia-esquerda foi para a bola. O velho atrás de mim resmungava algo que não entendi direito. Só sei que era a respeito do pênalti que ele perdera ainda no primeiro tempo. O camisa sete partiu decidido para a bola e encheu o pé. No meio do gol. O goleiro saltara. Era o gol. Era o título. A gritaria tomou conta. Os jogadores no campo, a torcida na arquibancada, todos pulavam, todos gritavam. No campo, o presidente do clube dizia à equipe de televisão que o garoto prata-da-casa usaria a camisa dez daquele dia em diante. Eu não estava perto do velho quando ele soube, mas ele deve ter vibrado com a notícia.