terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Juízo Final

Acordei com as batidas do cacetete na grade. Eram três guardas. Dois deles eu conhecia. O terceiro, de uniforme engomado, eu só via em dia de execução. Cada vez que ele aparecia na carceragem, uma das celas do corredor perdia um habitante. E eu sabia de quem era a vez. Sabia qual era a cela a ser esvaziada. Pela primeira vez nesses últimos anos, eu senti medo. Cinco anos trancado aqui nesse mesmo buraco, dizendo a mim mesmo que não tinha medo da morte, que nenhuma ossuda encapuzada me levaria embora a calma. E agora eu sentia medo.

Os homens traziam comida. Abriram a porta da cela. O primeiro entrou, deixou a bandeja sobre a mesa de madeira e saiu. Ficaram os três ainda a me observar pelas barras de ferro. Não me importei. Nunca tive privacidade nem para as necessidades fisiológicas. Não me importava que me vissem comer.

Eles trouxeram tudo o que pedi. Bife mal passado, com muito alho, arroz e purê de batata. E a minha cerveja. Eu já até cogitava a possibilidade de morrer feliz. Perguntaram-me se eu queria a visita de um padre.

- Você sabe, para a extrema-unção.

Engoli o pedaço de bife que mastigava, tomei um longo gole de cerveja e respondi que não havia necessidade.

- Tem certeza? É sua última chance.

- Eu passo. - respondi.

Os dois guardas que eu conhecia foram-se embora. Só ficou a me vigiar o engomadinho. Postura aristocrática. Nariz sempre apontando para o alto. Seguro de que seu trabalho era honesto. Orgulhoso de dar a sua contribuição para o nosso quadro social. Guardião da ordem, ele diria. Escravo do status quo, peão dos valores dos poderosos, eu diria. Tenho certeza que se eu dissesse algo do tipo em voz alta, ele me olharia com profundo asco e desdém e me chamaria de anarquista, ou algo parecido.

- Por que recusaste a extrema-unção? – perguntou, surpreendendo-me.

- Não acredito nessas coisas. Pra mim isso não passa de um doido usando vestido, fazendo gestos estranhos e falando umas palavras que nem ele mesmo sabe o que significam.

- Não queres ser salvo?

- Por acaso vais me abrir as portas e me deixar ir embora?

- Claro que não! – respondeu indignado.

- Então estou condenado. Deus salva as almas, não os corpos. E alma eu não tenho.

- Será que não vês que vais sofrer as torturas do inferno por toda a eternidade?

- Inferno!? Eu estou trancado em uma jaula há cinco anos. Daqui a algumas horas vão fritar o meu cérebro, e um maldito crente faz questão de me encher a paciência enquanto eu tento aproveitar meu último momento minimamente bom. Quer coisa pior? – ele se calou. Eu continuei – E mesmo que exista essa história de céu e inferno. Prefiro meu lugar nas chamas e na devassidão das grandes pessoas que foram para lá do que ser condenado a tocar harpa e me vestir de branco ouvindo papinho de gente zen pelo resto dos dias.

- Tenho pena de você. – aquele olhar de asco e desdém de que eu falava.
Sorri. Ignorei o fato dele me dar as costas e me concentrei apenas no sabor da comida, que até que não estava tão ruim, e da cerveja.

Faltou o cigarro. Só percebi isso quando terminei minha refeição. Devia ter pedido um cigarro. Parei de fumar há anos, mas é impublicável o que eu não daria agora por um trago. Pedi ao engomadinho um cigarro. Ele nem mesmo se virou. Respondeu-me, de costas mesmo, que não fumava. Grande coisa. Eu também não fumo. Só queria um cigarro agora.

Deitei-me na cama e esperei. O próximo passo seria raspar minha cabeça. Lá se vai todo o dinheiro que gastei em xampu durante a minha vida. Vou acabar careca de qualquer jeito. Piada besta.

***

Ódio. Era o sentimento presente naquela sala. Os olhares das pessoas eram tão cruéis que me furavam a carne como se fossem lâminas de aço lançadas com ódio contra mim. Garanto que muitos ali teriam imenso prazer em lançar lâminas contra mim e me ver sangrar. Não podiam. Teriam que se contentar em me ver estrebuchar enquanto não sei quantos mil ampères de corrente elétrica me fritavam. Eles vão gostar do show, isso com certeza. O que me alegra é que dificilmente será suficiente para acalmar esse povo. Provavelmente achariam a idéia das lâminas mais satisfatória. Sorrio ao pensar que as lâminas não passarão de uma metáfora, e que a satisfação deles não passa de uma ilusão de algo que eles pensam que terão. Adoro a alma humana. Tão rasa. Seus anseios são tão previsíveis e mundanos que me arrancam sorrisos de escárnio. Até que não me sinto mal de abandonar esse mundo. Pena ser este o único.

Me amarraram na cadeira, fizeram todo aquele discurso batido sobre a cadeira elétrica e os crimes que eu cometi. Diziam que atentei contra a liberdade. Ora, fosse esse o crime que me levara à cadeira elétrica, não sobraria muita gente viva, já que é o crime mais comum desse mundo. Li uma vez que liberdade é todo homem e mulher livres serem julgados pelos seus atos de acordo com as leis da sua comunidade, com a condição de, livremente, consentirem em ser parte dessa comunidade. De tal grandeza de espírito não tenho conhecimento. Nunca conheci ninguém a quem se tenha perguntado se gostaria de fazer parte de alguma comunidade. Simplesmente nos jogam no meio de um monte de gente, nos lêem as suas leis e nos mandam respeitá-las. E eu atentei contra a liberdade das minhas vítimas. Eu provavelmente mereço meu destino, mas o discurso não é esse. Eu matei, sim, aquelas meninas. As seqüestrei, mantive em minha casa, as estuprei e matei. Eu mereço o que estou por sofrer. Se me dissessem isso assim, alto e claro, eu aceitaria. Mas não dizem. Mascaram os fatos com expressões eruditas e jargões. Enfiam os direitos humanos na discussão, a lei e a ordem. Idiotas. Vão matar-me sem nem admitir por quê o fazem. Talvez nem o saibam.

Ligaram a chave. Era o fim das minhas divagações. Só lembro de não ter gritado, nem chorado. Só fiz uma careta. Afinal, não sei quantos mil ampères de corrente elétrica atravessando seu corpo dói pra cacete.