domingo, 2 de dezembro de 2007

Guerra Civil / Existência Urbana

Guerra Civil

De tudo que já vi
Nessa injusta vida,
Uma guerra chocou-me mais.
Uma guerra descabida.

Num lugar onde poucos Homens
Com dor derramam
Sangue e suor
Pelas almas que as pessoas abandonam.

Onde poucos Homens
Em silêncio sofrem
Por quererem o bem
Dos que abandonados morrem.

Onde poucos Homens
Realmente sabem
O valor de um abraço
Para que de brotar as lágrimas parem.

Onde poucos Homens
Se enganam e sonham
Por amor àqueles
Que da vida apanham.

Onde poucos Homens
Subitamente param
Para socorrer os
Que da morte escaparam.

E continua
Essa guerra surda
Contra suas entranhas.

E continuo
A razão procurar
Nessas criaturas estranhas.
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Existência Urbana

O pobre e decadente pedaço de corpo
Senta à mais imunda e fria sarjeta,
Cerra os olhos e luta para que o não acometa
A mais cruel doença.
Que ela não pouse a fria mão sobre seu ombro torto.

Agoniza entre gemidos altos e chorosos.
A vida escorre para fora do corte aberto.
O chão desesperadamente rubro, a morte perto.
Lembranças da vida em flashes luminosos.

A pesada mão do pai a ferir-lhe a face,
A violência debaixo do teto que o vira nascer.
As fugas, o pranto, o quase padecer.
E o ácido. Como o mundo se calasse.

O cheiro dos becos sujos invadiam-lhe o nariz.
A cana barata queimava-lhe a garganta.
Os roubos de caixas em casa santa.
E carteiras batidas de turistas perto do chafariz.

Almoçava os podres detritos que tirava de latas.
Quando com sorte, um bom pedaço de carne verde achava.
Quando o azar acometia-lhe, um caco de garrafa ali estava
Para ferir-lhe dolorosamente as mãos atadas.

Um transeunte qualquer lhe presenteava com um real.
Um outro, a sorrir, com um escarro.
Ou a atingir-lhe o rosto triste uma bola de barro.
Talvez não fosse tão ruim este mundo deixar afinal.
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* Dois poemas do tempo de ensino médio. Provavelmente escritos em alguma aula de química, de matemática, artes, sei lá.
Não sei por que, mas gostei de ler esses poemas de novo. Tom nostálgico. Gostei de lembrar de quem eu era. Gostei da ingenuidade dos versos. Da técnica precária.
Enfim, escrita ruim de um garoto. Acho que vale pela sinceridade imatura. Vale por me lembrar por onde passei. Resolvi postar.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

1 Ano de Blog

“(...)Todas as gravadoras estão de portas fechadas.
E você vai continuar fazendo música?

Até os alternativos debandam pro outro lado.
E você vai continuar fazendo música?

A esperança não existe, a esperança é o caralho!
E você vai continuar fazendo música?

Nunca ganhou dinheiro. Muito pelo contrário.
E você vai continuar fazendo música?
(...)
Tenta uma outra coisa, um curso de informática...” *

Hoje este blog completa um ano de existência. Primeiro aniversário. Grande merda. De que serviu essa porra? Não tô mais rico. Não tenho mais amigos, nem inimigos por causa dele. Não me trouxe longevidade. Aliás, pelo contrário. Acho que minha saúde até piorou nesse último ano. A mental, eu digo. A física não faz essa diferença toda. Diabo de trabalho difícil. Escrever é difícil pra caralho. Estar em confronto constante com as próprias idéias. Tenho minhas dúvidas se isso faz bem. Porra, ter que pensar tudo o que digo, escrevo. Que inferno. Sei que falhei uma vez ou outra na tarefa. Paciência. É o preço que se paga por ser humano.

Por que diabos, então, continuo a escrever, se é tão penoso assim e paga tão pouco? Porque eu vou continuar fazendo música. Nem que seja menos por um motivo nobre que por mera teimosia. Porque eu gosto de fazer música. Porque, se não paga bem, ao menos me ajuda a dar os gritos de ódio (e de amor de vez em quando, por que não?) que eu preciso dar. Que todo mundo precisa dar. E, principalmente, porque é um meio que achei de passar a minha mensagem.

Se escrevo bem ou mal, não sei. Não interessa agora. Não que não me importe. Importa, claro. Mas não é o principal. O importante mesmo é a mensagem, e sei que isso eu venho passando bem, pra meu alívio. É essa certeza que me motiva a continuar colocando textos aqui. O universo que atinjo é pequeno, minúsculo. Eu sei disso. Mas se uma única pessoa lesse e entendesse, pra mim já seria suficiente. Não digo ter a pretensão de mudar o mundo. Afirmo, com todas as letras, que farei a minha parte. Os mais céticos que me perdoem, mas essa não é uma questão de argumento. Tomo as porradas que tiver que tomar sorrindo. Afinal, me mantém firme a teimosia. A teimosia de um humanista puto da vida. Quer argumento mais forte que esse?

Portanto, fica aqui meu grito de “EU VOU CONTINUAR FAZENDO MÚSICA!” Porque eu sou teimoso e acredito em heróis. E não me venham dizer que a tarefa é difícil. Quem disse que a vida é fácil? A vida é dura. Quem não agüenta pula do Pátio Brasil, vota no DEM, sei lá. Foda-se. Eu vou continuar avançando, porrada após porrada. Vou o mais longe que conseguir. É o único jeito de descansar quando a última porrada vier e acabar com a minha festa. Mas espero ter sido competente o suficiente pra essa porrada não acabar também com a minha raça. Eu ainda acredito em Marx, senhores. Apesar de todos os livros de sociologia e economia trazerem capítulos intitulados “Por que não acreditar em Marx” ou “Onde Marx errou”. Eu acredito. Foda-se. Eu ainda me visto de vermelho, voto nos comunistas. Não tenho camisa do Che, mas se tivesse usaria. Acho até que vou arrumar uma. Eu sou teimoso. E faço música. E me arrancam sorrisos as pessoas que também fazem.


*Trecho da música “Você vai continuar fazendo música” de Rogério Skylab.

sábado, 13 de outubro de 2007

Sobre a Delicadeza

“Hoje em dia, delicadeza é viadagem.”
“Na época em que os homens tinham bigode e usavam chapéu, as pessoas tomavam chopp depois do trabalho e pingado e pão-com-manteiga de manhã juntas.”
“Os homens ainda pagavam a conta, abriam a porta do carro pras suas mulheres e carregavam as sacolas pesadas pra elas, os materiais escolares.”
“Hoje em dia isso é machismo, ou bichice.”
“Hoje em dia as pessoas resolveram esconder sua fragilidade a qualquer preço. Têm medo de dizer que amam alguém porque se inventou que isso só pode ser depois de um número certo de ficadas. Se mutilam porque no século XXI, casar virgem virou um absurdo. Se reprimem porque temos de ser todos durões.”
“Ser machos. Homens e mulheres machos.”
“Nem sabem o que isso significa. Essa caçada ao machismo queima tanto os homens que estapeiam as mulheres quanto os homens de verdade.”
“Aquele argentino disse uma vez que devemos ser durões, mas sem perder a ternura jamais.”
“É isso. Esse cara devia torcer pro Flamengo, ou pro Boca. Ser macho não é pegar um monte de mulher, como num rodízio de churrascaria. O poeta disse uma vez que ‘pica todo mundo tem, homem tem que ter é caráter.’”
“Esse poeta era flamenguista?”
“Claro que era. E um macho de caráter. Que não deixa a delicadeza de lado. Falta às pessoas de hoje pagarem um chopp pro mendigo bêbado que o peça.”
“Chopp eu não pago, pago comida, quando pedem.”
“Esse é o problema. Essa mania de querer definir a necessidade alheia. Como você pode definir o que é mais importante pra ele? O problema é essa arrogância de querer saber mais da dificuldade da vida na rua que o cara. Me entristece é quando o cara aceita isso. ‘Come, que a comida faz mais bem a você que a cachaça.’ ‘Sim, senhora.’ Porra! Mendigo macho é o que pede a grana pra comer e compra uma 51. Mania horrível de querer sempre se adaptar ao que os outros pensam.”
“A modinha, né?”
“Porra de modinha. Porra de mundo moderno globalizado e ecologicamente viável. As emoções valem tão pouco que até o Campeonato Brasileiro virou de pontos corridos. Eu quero que essa classe-média nojenta pare de arrotar qualquer idéia torta que vê na TV, ou lê num livro conceituado. Quero que os porteiros voltem a deixar o bigode crescer. Que os homens parem de medir sua macheza pelo número de mulheres que comeram e largaram, ou pelo tamanho do pau. Hoje em dia todo mundo quer ser ator de filme pornô, porra. Que as mulheres deixem de lado essa idiotice de se sentirem rebaixadas quando um homem as trata com uma diferença gentil. Afinal, abrir a porta do carro pra elas é, no mínimo, um elogio. Elas têm que parar com essa mania de quererem ser iguais a nós. E eu quero muito, mas muito mesmo, que todos os playboys filhos-da-puta que alguma vez trocaram a esmola que deram por um boquete morram da forma mais dolorosa que se possa imaginar. Que essa ode à filha-da-putagem saia de moda, e que as pessoas possam voltar a se amar por serem pessoas. Não por representarem lucro pra alguém. Que a fragilidade de uma mulher volte a ser mais importante que a sua bunda torneada em academia.”

domingo, 16 de setembro de 2007

Antropologia Urbana

Estendi o pote. O homem despejou um pouco de sua cerveja dentro. Era um daqueles potes de plástico, de sorvete. Achei esse pote em uma lata de lixo há alguns anos. Eu sorri em agradecimento, ele aquiesceu. Virei o gole de cerveja, limpei a boca na manta esburacada pelas traças que trazia jogada às costas e continuei a andar pelo botequim. Fui até o balcão. Parei ao lado de um homem que bebia cachaça. Ele me pagou uma dose. O atendente, que já me conhecia de longa data e não gostava de mim, pôs uma dose de cachaça num copo e deixou sobre o balcão. Peguei o copo e despejei a bebida no meu pote. “Vou levar pra viajem.” O homem que me pagou a bebida sorriu. O atendente fez cara de nojo. Acho que ele tinha nojo era de mim. Paciência. Se eu aturava aquele bigodinho ridículo dele, ele que aturasse meu pote e minha manta.

Saí do botequim andando em direção à esquina da Matilde, bebericando minha dose de cachaça. A esquina da Matilde era ladeira acima. Minhas pernas inchadas sempre reclamavam de subir essa ladeira. Mas eu gostava da Matilde. Valia o esforço. Matilde era uma prostituta muito gente fina. Me ajudou várias vezes nessa vida. Quando quebrei a perna, ela que cuidou de mim. Me deixou ficar na casa dela enquanto não tirava o gesso, fez comida pra mim, pagou as consultas no hospital. Quando tirei o gesso, ela ofereceu a casa pra eu ficar mais tempo, até morar, quem sabe. Não quis. Não ia dar certo. Não fui feito pra morar em casa com mulher. Disse isso a ela. Que não aceitava ficar atrapalhando, sendo sustentado por ela. Ela não precisava de um bêbado na vida dela. Não fiquei na casa. Mas a amiga eu mantenho.

A Matilde estava especialmente bonita. Os cabelos pretos jogados sobre os ombros, coxas de fora, salto alto. Um contraste com a minha barba enorme e fedorenta e o meu sorriso de dois dentes. Apesar dela também não ostentar muitos em sua boca. “Oi, bonitão.” Me disse, estalando um beijo na minha bochecha. Sorri sem-graça. “Como vão as coisas?” Perguntou rindo-se da minha timidez. “Vão como sempre foram.” “Isso é mal.” “Ainda não. Mal vai ser o dia que a cachaça do mundo secar.”

Um gordão chegou, combinou um preço com a Matilde e os dois saíram de mãos dadas. A Matilde cobra uma mixaria. Se eu tivesse dinheiro, pagaria três, quatro vezes o preço que ela cobra. É o maior mulherão. Ela devia se valorizar mais. É. Devia mesmo. Vou dizer isso a ela na próxima vez que a gente se esbarrar por aí. Mas, me corta o coração mesmo é ver ela apanhar do cafetão dela. Ou da polícia, sempre atrás de tóxico. Não sei qual é pior.

Ouvi gritos. Voz de mulher. “Pára, pára.” Voz conhecida. Procurei pela voz e vi a Hilda caída no chão. Vestido rasgado, filete de sangue descendo pela boca. Três garotos com roupas de classe média estavam em volta dela. A Hilda é minha ex-namorada. Quer dizer, acho que dá pra chamar assim. A gente trocou uns beijos uma vez. Mas ela me trocou por outro. Um malandro que andava por essas bandas. Foi morar com ele e tudo. E espalhou pra turma que meu pau era pequeno. Vaca. Se fodeu. O malandro, além de bater nela, deu-lhe um pé na bunda. Agora ela tava por aí. Vagando sem teto que nem eu. E tomando porrada de filhinho de papai entediado. Eu reconheci um dos garotos. Era o mesmo que tinha me pegado de porrada na outra semana. Sentei no meio-fio e assisti ao show em meio a goladas de cachaça. Os garotos chutavam a barriga da coitada, chutavam o rosto, tudo o que dava. Até que a arrastaram pelos cabelos pro beco, e eu vi as silhuetas deles revezando-se sobre a silhueta dela. Ela pediu “Por favor” e “Pelo amor de Deus” pra eles pararem várias vezes. Não adiantou porra nenhuma. Ninguém interveio. Nem eu, todo inchado e bêbado sentado na calçada, nem as pessoas do botequim, nem as putas pela rua. Ficou todo mundo fingindo não escutar os gritos e torcendo para aquilo acabar logo.

Quando eles acabaram, deixaram a silhueta da minha ex-namorada largada no beco, subiram as calças e foram embora de nariz empinado e sorriso no rosto. Eu andei até o beco, achei a Hilda no chão. Chorando, com o vestido trucidado. Toda vermelha de tanta porrada. Entreguei meu pote pra ela. “Bebe. Vai te ajudar, eu prometo.” Ela sorriu e deu uma golada. Ouvimos um barulho de freada, muito alto. Mais tarde fiquei sabendo que um motorista bêbado atropelou os três estupradores. Um morreu na hora, o outro quebrou a bacia e o último teve um braço arrancado. Fiquei sabendo também que todo mundo na rua, quando viu a cena, correu pra ajudar.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

O Dentista e o Cidadão de Bem

Fio-dental. Porra, o mundo ruindo lá fora. Guerras civis, guerras religiosas, genocídios, mensalão. E a gente tem que se preocupar em passar fio-dental todo dia. Puta coisa inútil. Me sinto um alienado qualquer usando essa merda. Vegetando em frente ao espelho pescando sujeiras inventadas pelos verdadeiros pilantras do mundo moderno: os dentistas.

Nunca fui de usar fio-dental. Só uso mesmo na semana em que vou ao dentista. Pelo menos assim evito a chateação de ter que ouvir o mesmo discurso que ouvia na minha já ida segunda série sobre quanto o fio-dental é bom, e como usá-lo.

Cheguei ao consultório uns quinze minutos atrasado. Me sentei com uma daquelas revistas de fofocas que só tem fotos de pessoas famosas. Tinha de esperar o paciente marcado antes de mim sair. É impressionante como nenhum dentista nesse mundo tem a habilidade de te atender no horário marcado. E como nenhuma sala de espera de consultório tem coisas interessantes a serem lidas. É sempre o mesmo lixo. O mendigo encostado à porta só com uma caneca trincada, um dente na boca e um buraco no lugar do estômago corroído pela fome. E as madames e os playboys, todos com os dentes branquinhos e saudáveis de quem usa fio-dental todo dia, rindo-se das ditas celebridades e seus namoros de fachada.

O som daquele motorzinho cretino vazava da sala adjacente e me atingia como uma tijolada nos tímpanos. O estofado do sofá tinha marcas de unhas. Não eram minhas. Algumas eram antigas.Outras nem tanto. Sei que devo ter deixado uma fresquinha quando me levantei dali e rumei sala adentro para a tortura. Pessoas são engraçadas. Ninguém plenamente racional se prestaria àquilo mais de uma vez na vida. Quanto mais duas vezes por ano.

Me sentei na cadeira já querendo levantar. Abri boca e o ritual começou. E o desgraçado insensível ainda queria conversar. Eu com a boca aberta, cheia de aparelhos barulhentos para torturas medievais e o mal-caráter do dentista perguntando como ia minha mãe. Me perguntou como estava indo o pós-operatório da velha enquanto vinha com aquele motorzinho de novo pra cima de mim. “Câncer não é brincadeira. Ainda bem que foi descoberto ainda no início, né...” E eu respondia só com vogais.

Lá pelas tantas, “Se você quiser, mais tarde, fazer um tratamento de clareamento dos dentes, a gente pode marcar tudo certinho.” Eu meio que concordei, mas só pra ele saber que entendi a proposta, mas não estava interessado. Vou lá fazer clareamento pra quê, se o café e os cigarros vão amarelar tudo de novo. Eu lá sou maluco pra rasgar dinheiro assim?

Quando, finalmente, o desgraçado me liberou, quase duas horas depois, eu cambaleei até a sala da frente. Entreguei a carteirinha do plano de saúde à secretária. Foi quando me lembrei que eu pagava por aquilo. Me senti lesado. Passado pra trás. Naquela madrugada eu incendiei o prédio do consultório.

Excelência, se o senhor já foi ao dentista, vai entender a minha posição. Eu afirmo, Excelência, que não fazia idéia que o doutor estava no consultório durante a madrugada com a amante. Mas digo ao senhor que o teria incendiado mesmo que soubesse. Um dia existiu nesse país algo chamado “legítima defesa da honra”. Bom, o senhor, como bom cidadão comum, deve entender que minha honra foi brutalmente atacada quando do ocorrido. Assim, como é atacada a honra de todo mundo que acaba passando por isso pelo menos uma vez na vida.

***

Quando o juiz leu minha sentença, leu com uma emoção de clara cumplicidade. Eu fui condenado, é claro. Mas sei que doeu naquele homem me condenar pelo que fiz.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Golfinhos de Miami

Ele usava um terno Armani quando nós o pegamos. Figurão de Wall Street no Brasil a negócios. Cabelinho cortado baixo, sapato lustrado, barba feita, pasta de couro caro e aquele olhar de Mamãe, eu sou gostoso. Até português ele falava. Na verdade era um viadinho. Quase se mijou quando viu minha pistola na cara dele. O cara ficou estático, lívido. Tentou falar alguma coisa, mas os lábios tremiam e a voz não vinha. Viadinho. Jogamos a figura dentro da Kombi e partimos. Ele não agüentou e se mijou no caminho.

Quando chegamos no velho galpão de sempre, amarramos o cara numa cadeira e nos revezamos dando tapas na cara do sujeito. Não chegamos a machucar o cara. Era só pela desmoralização mesmo. Ele começou a oferecer tudo pra gente. Dinheiro, carro, rolex de ouro, a bunda, a esposa, a mãe. Até emprego o filho da puta prometeu arrumar pra nós quatro. Quando ele viu que o nosso negócio não era esse, começou a chorar. Chorou como uma moça por muito tempo. Disse que tinha mulher, filhos. Aquele papelão de sempre. Cada vez que eu ouvia um marmanjo daqueles nesses choros, eu tinha vontade de vomitar. Ainda tenho, na verdade. Só de lembrar da história.

Tiramos a roupa dele. Eu fui encher a banheira antiga que estava jogada por lá. O Tijolo arrumou um galão de gasolina e um extintor de incêndio. O Rolha sacou a navalha e o Dado tirou a 22 da cintura. Primeiro foi a navalha. A gente sempre começava pela navalha. Cortaram fora as orelhas e o saco do infeliz. As pontas dos dedos, os bicos do peito. Escreveram “A Burguesia Fede” com a navalha no peito dele e abriram o sorriso do cara de orelha a orelha. Depois vem a 22. Teco no joelho, coronhada na testa. Teco na palma da mão, coronhada na boca. Teco no peito do pé, coronhada na cabeça do pau. A ordem variava. Mas o final era sempre o mesmo. Um tiro na boca do estômago. A partir daí o cara tinha certeza que ia morrer. Sem pressa.

Finalmente, a gasolina. Rolha e Dado seguraram a cabeça do mauricinho virada pro alto. A boca aberta. Nariz tampado. Ele teve que beber toda a gasolina que o Tijolo virou na sua boca. Depois, embeberam o pau do cara com a gasolina. Tijolo acendeu o isqueiro e jogou. O puto entrou em choque. Dado apontou o extintor pro fogo, e apagou. O pinto do maldito parecia uma torrada queimada. A banheira tava pronta.

Mergulhamos o cara na banheira cheia. Pegamos dois fios com as pontas desencapadas e mergulhamos na água. Um de cada lado da banheira. Li uma vez que os policiais do Rio usam essa tortura nos traficantes. Parece que eles chamam de “Golfinhos de Miami”. Era assim que nós a chamávamos também. E, realmente, o cara pulava pra fora d’água como um golfinho. Deixamos o filho da puta fazendo acrobacias na banheira durante um bom tempo e demos um fim no desgraçado.

No dia seguinte, a TV mostrou o corpo, encontrado pela polícia. Os comentaristas estavam chocados com a brutalidade do crime. Já era a terceira vítima executada com o mesmo padrão. Fizeram uma mesa redonda, e a opinião unânime da mesa era de que os homens haviam sido executados por terem resistido a colaborar com o seqüestro. Um sociólogo ainda tentou levantar a hipótese de puro assassinato a sangue frio, de um possível recado que a quadrilha queria dar. Mas ninguém deu ouvidos ao cara. Na semana seguinte, nós, filhos da classe média metidos a comunistas, pegamos nossa quarta vítima. Um alemão a caminho do aeroporto. Quando a televisão noticiou o caso, nós éramos um bando de favelados marginalizados e seqüestradores em busca de dinheiro. E omitiram o fato de que nós sempre devolvíamos as roupas, as carteiras, relógios e maletas das vítimas. Isso não interessava aos jornais. Mas os executivos da cidade agora andavam cagados de medo.

domingo, 22 de abril de 2007

Opostos

“O que te faz feliz?”
“Um tiro na testa de um homem de terno e gravata.”
“Não tem isso no comercial.”
“Foda-se.”
“Não, vamo tentar lembrar das coisas do comercial. Chocolate, paixão, dormir cedo, acordar tarde...”
“Ah, não. Nada de mundinho cor-de-rosa. Vamo fazer o nosso próprio texto. Onze de setembro, gol de mão do Maradona, Guerra do Vietnã, Comuna de Paris. Ou serão os filmes do Scorsese que te fazem feliz?”
“Você é muito macabro.”
“Sou realista.”
“O real também tem coisa boa.”
“Ué, e não foi coisa boa o que eu citei?”
“Esqueceu do amor.”
“Sid Vicious e Nancy Spungen.”
“O quê?”
“Sexo, drogas e Rock n’ Roll. E eles ainda acharam tempo pra se amar.”
“Você me dá medo às vezes.”
“E você é senso-comum demais.”
“Mas sou feliz.”
“Com um namorado macabro.”
“É. Mas você é menos macabro que o Sid Vicious, pelo menos.”
“Você que pensa.”

sexta-feira, 13 de abril de 2007

A Justiça do Gatilho

Eu bati. Ninguém respondeu, mas entrei assim mesmo. Fechei a enorme porta de madeira às minhas costas e engatilhei a arma. Era uma escopeta. Eu tinha uma 9mm no cinto, mas a verdade é que eu nunca gostei das armas pequenas. Sempre preferi as grandes. Aquelas que fazem buracos enormes. Sempre gostei de grudar as entranhas dos caras na parede com um tiro a queima roupa. Quanto mais sangue e órgãos eu espalhar, mais satisfeito comigo mesmo eu fico. E eu estava prestes a estourar a cabeça de uns babacas.

A igreja estava um caco. Caminhei por entre os bancos dando uma olhada no lugar. Aquela merda tava caindo aos pedaços. No altar, tinha uma imagem de Jesus pregado na sua cruz. Faltava o braço direito da imagem. Caminhei em direção ao confessionário. Eu conhecia o cheiro que vinha dali. Chutei a porta. Ela abriu de uma vez. Dois garotos, que deviam ter uns catorze anos, se tanto, estavam fumando um baseado. Eles me olharam como se eu fosse um duende qualquer que veio direto de um conto de fadas pra foder com eles. Eles choraram quando viram a escopeta. Eu disse pra eles vazarem dali. Saíram correndo. O loirinho ainda deixou cair um saco cheio de bagulho. Eu peguei o saco do chão e guardei no bolso. Podia ser útil depois do serviço.

As escadas ficavam atrás do altar. Levei um tempo pra descobrir isso. Desci. Os alojamentos dos padres ficavam lá embaixo. Era o que eu procurava. Entrei no primeiro quarto devagar, sem fazer barulho. Minhas mãos não tremiam. Elas nunca tremem. Mas meu coração batia tão forte que eu podia ouvir meu peito subindo e descendo. É isso que me faz ser bom nesse trabalho. Eu adoro esse momento. Me realizo nesses serviços. Não existe sentimento melhor que o tesão de saber que você está a segundos de explodir a cabeça de um anormal qualquer.

Os dois padres estavam naquele quarto. E um garoto. Onze, doze anos. Não sei direito. Estavam nus. Os três. O padre mais novo estava segurando o garoto contra o chão. O mais velho estava… Bom, só sei que aquilo deve doer pra caralho. O garoto estava chorando. Eu puxei o gatilho. Acertei o mais velho. Foi o pinto dele que eu estourei, não a cabeça. Ainda. Puxei a pistola da cintura e atirei no joelho do mais novo. Disse pro garoto sumir dali. Eu não queria que ele visse o que eu estava a ponto de fazer. Ele se mandou. Pus o cano duplo da escopeta dentro da boca do velho. Agora foi a cabeça dele que eu estourei. O mais novo começou a chorar. Ele estava coberto de sangue e pedaços de cérebro. Tenho certeza que ele sentia o gosto do outro padre. “Deus nos ensinou a perdoar. Ele abomina a violência.” Ele disse. “Esse é um problema que você vai ter que resolver com ele pessoalmente. Meu trabalho é só marcar o encontro.” Fiz ele se levantar. A queima roupa. As entranhas dele ficaram grudadas na parede às suas costas. Se me senti mal com isso? Você se sente mal quando dá a descarga?

Eu sentei no chão lavado de sangue, peguei o saquinho de erva e mandei ver. É bom relaxar depois de um dia duro de trabalho.

domingo, 1 de abril de 2007

Suspiro

O último gole de café.
Apago o último cigarro do maço.
A caneta corre o papel branco
E desenha a última palavra do poema.

Em cada letra disforme,
Em cada palavra impublicável,
Em cada verso torto,
Em cada estrofe empoeirada,
Grito meus versos de cólera.

Ninguém ousa dizer as palavras que ouço
Ou pensar as que escrevo.
Minha caneta minha adaga
Fere, impiedosa, o papel.

Uma revoada de anjos e corvos,
Todos feios, mancos e de asas quebradas,
Vem sussurrar-me ao ouvido
Minha sina. Meu impasse.
Vem ensinar-me a ser errado
Ensinar-me a ser humano.

A boca mal se move
E a mente já não trabalha.
O poema aos poucos morre
No fino corte da navalha.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Quando Soa O Gongo

Os respingos voaram no meu rosto. Parte sangue, parte suor. O Tony tava levando uma surra. Já cansei de repetir pra ele. “Levanta a guarda!”, eu vivo lembrando. Ele simplesmente não aprende. É um bom lutador. Tem uma patada de direita. E assimila a porrada como poucos. Mas não tem técnica. Não tem muito equilíbrio. E nunca se lembra de se defender. Ainda tinha um minuto até o gongo soar. Peguei meu maço de Lucky Strike e acendi um. Torci para ele agüentar pelo menos mais aquele round.

Ele agüentou. Sentou-se com dificuldade no canto do ringue. O cutman tentava dar um jeito na cara destruída dele. “Tony, você só vence se for um nocaute! Lembra da luta passada? Foi a mesma coisa.” Ele me olhou como se estivesse entendendo, mas não estava. Era um retardado. Pancadas demais na cabeça, eu acho. “Hoje você apanhou mais, mas se encaixar o direto, o cara cai!” Me senti um idiota dizendo isso. Encaixar o direto era tudo o que o coitado estava tentando fazer desde que a luta começou.

Voltou para o centro do ringue bufando feito um touro. E levou olé feito um touro também. A cada tentativa de direto, era uma esquiva. E um contra-golpe. Até que, numa dessas combinações, um gancho de esquerda jogou o Tony no chão. O curativo no supercílio se desfez. Ele se levantou meio grogue ainda, mas o juiz mandou a luta seguir. Sempre admirei a capacidade do Tony de assimilar os golpes. Um lutador comum, depois de apanhar o que ele apanhou hoje, já teria pedido arrego. O Tony não. Se deixar, ele luta até desmaiar, ou coisa pior. E era o que ele estava disposto a fazer nessa luta. Mas eu não.

O décimo round se arrastava para o fim, e o Tony continuava apanhando feito um bandido numa delegacia. Apanhava de pé. Os olhos já estavam fechados de tanta porrada, o sangue escorria pelo seu rosto e as pernas já falhavam. Um massacre. E o puto do juiz deixava a luta correr. Essas lutas pequenas em ginásios de subúrbio são foda. Nego quer ver sangue. Seqüelas. Até morte, se calhar. E o retardado do Tony com aquele maldito orgulho não se entregava. Então, faço eu.

Joguei a toalha. O árbitro encerrou a luta e o Tony me olhou com ódio nos olhos. Ele vai me matar amanhã. Na verdade, mataria a alguns anos atrás. Amanhã ele não vai se agüentar de dor em tudo que é canto do corpo. As mãos inchadas, os olhos sensíveis. É o preço que todo boxeador em fim de carreira paga. Ele já está se acostumando com isso. Há dias em que a direita entra. Há dias em que não. Depois dos trinta e cinco, a segunda alternativa é bem mais presente. Isso, ele ainda não entendeu. Eu disse, é um retardado. Mas é um homem. Hombridade ele entende. É um bom garoto, afinal.

sábado, 17 de março de 2007

Suor

...Ele me ama um amor simples. Um amor sem profunda filosofia, sem digressões de poesia. Ama-me simplesmente. E me toma, como que a força. Enlaça-me o corpo nu, me arranca dos lábios o gosto de batom e de suor. E me corre o corpo com a língua ardente de volúpia me atiçando a pele quente. E arrasta as coxas por entre as minhas coxas e me põe em brasas ao beijar o meu ventre e apertar com dedos firmes os meus seios. A sua voz rouca e fatigada que sussurra indecências ao meu ouvido, enquanto me aperta e me acompanha no rebolar dos meus quadris. E me roça a nuca com a barba mal-feita e me crava os dentes que quase me machuca. E eu repouso murcha de cansaço em seus braços exaustos. E ele dorme com a boca enfiada em meus cabelos a esperar que os primeiros fios de sol vençam a cortina e façam brilhar os meus cachos. Ele me ama assim, como um bicho. Simplesmente...

sábado, 3 de março de 2007

Amores Brutos

...Click! Câmara vazia. Senti medo. Antes de puxar o gatilho, sentia-me intocável. Invulnerável. Agora, minhas mãos tremiam e suavam um suor gelado. Ela me olhava com ansiedade nos olhos verde-acinzentados. Sorri um sorriso amarelo. Pus o revolver nas mãos dela. O objeto de ferro negro parecia enorme naquelas mãos frágeis. Ela nem parecia ter força para levantar a arma. Engatilhou-a e rapidamente levou o cano à sua têmpora. “Te amo”, eu disse. Ela apertou os olhos e puxou o gatilho. Nada. Sorriu nervosa. Seus tremores pareciam espasmos. “Eu também”. Engraçado como vencer a morte nos torna prepotentes. Peguei a arma novamente. Beijei sua boca como se agradecesse a prova de amor. Engatilhei o revolver. O tambor se posicionou. Enfiei o cano na boca. Eu sabia que nada aconteceria. Havia vencido a morte instantes antes e a venceria de novo, agora. Uma em quatro. Forcei o gatilho. Gosto de pólvora. Tarde demais para desistir. Eu sabia o que viria a seguir. Sangue e massa encefálica jorrariam na parede branca às minhas costas. Tive pena da camareira do hotel quando entrasse naquele quarto. Engraçado o que se pensa na hora da morte. Olhos verde-acinzentados me fitavam. Gosto de pólvora. Acho que uma lágrima escorreu dos olhos dela. Talvez ela também soubesse. Olhei-a no fundo dos olhos. Senti-me triste por estragar a lua-de-mel. Agora era tarde. Tinha pólvora na minha língua. Despedi-me com um gemido gutural. Puxei o gatilho. Ainda pude ouvir o estrondo...

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Clássico é Clássico e Vice-Versa

O estádio estava lotado. O quebra-pau lá de fora não era nada comparado à guerra de gritos e provocações que sacudiam o estádio por dentro. No campo de jogo, jogadores das duas equipes davam a mesma entrevista para a televisão. Os dois prometiam equipes ofensivas e, se Deus quisesse, venceriam a partida. E estava eu na arquibancada imaginando, entre um gole de cerveja e outro, para que time torceria Deus. Provavelmente um time europeu. Está na moda torcer pra times europeus. Isso se é que ele se interessa pelo jogo, claro. Sinceramente, eu é que não estava preocupado com Seus interesses. Nunca, desculpe a blasfêmia, precisamos de Deus. Um santo sempre nos bastou. São Judas Tadeu. Fazia minha prece a ele enquanto limpava o pouco de cerveja que derramei na minha camisa da sorte. Não sou religioso. Nem supersticioso. Mas sabe como é final de campeonato. A gente tenta de tudo. É das poucas situações em que o fim justifica qualquer meio e não deixa remorso.

Quando a bola rolou, a gritaria arrepiava qualquer ser humano. Não demorou muito para a nossa torcida tomar conta. Sempre fomos mais numerosos. E mais criativos e organizados. Atendendo aos brados dos seus fiéis, nosso time abriu o placar. O nosso meia-esquerda recebeu um passe em profundidade, evitou uma solada de um volante, uma tentativa de rasteira de um zagueiro e, da meia-lua da área adversária acertou um chute lindo no ângulo. Gritamos todos quase em uníssono. O meia-esquerda batia no peito depois de beijar o escudo do time costurado ao manto que trajava. Seu nome ecoava pelo estádio. A nossa torcida cuida dos seus. Sabemos retribuir alegrias.

Efêmera foi a alegria, é bem verdade. Ido o segundo terço do primeiro tempo, uma bola sobrou, rebatida pela nossa zaga, na entrada da área. O lateral-esquerdo deles deu um chutinho despretensioso. Na mão do nosso goleiro que, numa ação ridícula, deixou a bola escorregar por entre suas mãos. A maldita da bola caiu dentro do gol. “Ah, goleirão!”, lamentou um senhor de bigode sentado atrás de mim no espaço de tempo entre o gol e a comemoração da torcida adversária, que demorou a acreditar na falha do nosso guarda-redes. Eles comemoraram, enfim. O preto e branco daquela família de portugueses. Gritaram, achincalharam. Era o empate.

O empate também não durou muito. Num lance de nervosismo, nosso zagueiro central deu um bico e cedeu um escanteio. Ato falho do becão. Eles cobraram o escanteio na cabeça do poste trombador que veste a camisa nove deles. Ele subiu e tocou de cabeça. Cabeçada como manda a cartilha, para o chão. Nosso goleiro não teve chance. Viraram o jogo, os putos. Dessa vez a torcida foi rápida na comemoração. O grito veio quase que instantaneamente, logo que viram a bola cruzar a linha.

Poucos minutos antes do fim do primeiro tempo, o mesmo beque, em uma cobrança de escanteio a nosso favor, foi derrubado. Pênalti. A torcida vibrou. Alguns jogadores se cumprimentaram. Não gostei. Estavam cantando vitória antes do tempo. O meia-esquerda se apresentou pra bater. Ajeitou a bola. Nossa torcida em silêncio absoluto. A torcida deles gritava para tentar desconcentrar o nosso camisa sete. Ele correu para a bola e bateu forte buscando o canto. Na trave. A torcida deles comemorou. A nossa lamentou, xingou, chutou a cadeira da frente. Foda.

Foda mesmo foi agüentar a gritaria deles durante todo o intervalo. Precisei ir ao banheiro. Culpa da cerveja. Porra, banheiro de estádio é coisa de louco. Banheiro de estádio em dia de clássico piora. Mas banheiro de estádio em clássico e final de campeonato é absurdo. Agradeci a mamãe e papai por ter sido homem. Se fosse mulher, eu mijava nas calças, mas não abaixava naquele banheiro de jeito nenhum. Mijar em banheiro sujo com seu time perdendo pro maior rival na final do carioca e com a torcida deles gritando lá fora é algo que eu não desejo pra ninguém. Aliás, desejo pra cada um daqueles cruz-maltinos lá fora. Ainda tinha o segundo tempo. Eles iam engolir aqueles gritos, eu tinha certeza.

Nosso time voltou para o segundo tempo jogando melhor. Pressionava o adversário, marcava a saída de bola deles. Pressão. Como nada em dia de clássico dura muito, lá se foi a nossa pressão. Nosso camisa dez errou um passe de menos de cinco metros. Deu a bola nos pés do atacante adversário. ”Poucas vezes o camisa dez da gávea foi tão ruim de bola!”, bradou o senhor de bigode às minhas costas. Contra-ataque. Três cruz-maltinos contra dois beques. Gol. Eles tabelaram, um deles deixou o goleiro sentado comendo grama e rolou para aquele poste camisa nove. Ele só escorou pra dentro do gol. Bosta. Lá se vai a nossa moral. A nossa torcida assistia atônita ao festejo dos rivais.

O técnico mexeu no time. Demorou pra mexer, se você me perguntar, mas mexeu. Tirou o camisa dez e pôs um garoto pra jogar. O moleque vinha das divisões de base e já tinha entrado no time umas três ou quatro vezes durante o campeonato. Na primeira bola que o garoto recebeu, em posição de impedimento, como fiquei sabendo pela televisão no dia seguinte, ele dominou com um pé, bateu com o outro. Golaço. A torcida explodiu em gritos. “Bota a camisa dez nesse garoto!”, era o velho atrás de mim de novo. Era esperança na voz da nossa torcida. Ainda dava tempo de erguer aquela taça.

O grito de gol entalou na garganta da torcida lá pelos quarenta minutos do segundo tempo. O meia-esquerda entrou na área pela linha de fundo e rolou pra trás. O garoto bateu de primeira. A bola acertou o travessão em cheio. O estrondo foi ouvido por todos no estádio. “Que varada!”, comentou o velho do bigode.
Já passava dos quarenta e cinco minutos quando o meia-esquerda sofreu falta na entrada da área. Ele mesmo ajeitou a bola para cobrar a falta, mas recuou. O garoto pediu pra cobrar. Ele deixou. O moleque tomou posição e cobrou de pé esquerdo. O goleiro voou na bola e espalmou errado. A bola sobrou no meio da área e o nosso centro-avante foi rápido o suficiente para empurrar a bola pro gol vazio. O empate. O estádio veio abaixo. A nossa torcida comemorando. A deles lamentando o ocorrido. O velho atrás de mim gritava enlouquecido.

Nosso time partiu para o ataque sem medo. Queria decidir a partida de uma vez. Aos quarenta e oito, o mesmo centro-avante foi puxado pela camisa dentro da área. O juiz não deu o pênalti. Filho da puta. Só apitou de novo para acabar com o jogo. Três a três. Decisão por pênaltis. “Eu vou enfartar!”, o velho de bigode de novo. Eu sorri.

***

Foram três pênaltis para cada lado. Todos convertidos. Nosso goleiro não acertou o canto em nenhuma das cobranças. O velho de bigode já não tinha mais nomes em seu repertório para chamar o goleiro. Era a vez deles cobrarem. O tal trombador que vestia a camisa nove avançou, ensaiou uma paradinha e bateu. O goleiro se esticou todo e pegou a bola. A torcida vibrou com a defesa. Foi aí que eu tive a certeza. Seríamos campeões. O moleque foi bater o pênalti. Tinha dezenove anos. O número dezessete estampado às suas costas. Bateu com personalidade e categoria. Deslocou o goleiro, que não saiu nem na foto. A responsabilidade agora era deles. Se o cruz-maltino perdesse o pênalti, o título era nosso. Se fizesse, a decisão estaria no último pênalti, que era nosso. Ele correu de um jeito meio indeciso para a bola, bateu mal, o goleiro pulou para o lado certo, mas não pegou. Eles converteram. A responsabilidade era nossa.

O meia-esquerda foi para a bola. O velho atrás de mim resmungava algo que não entendi direito. Só sei que era a respeito do pênalti que ele perdera ainda no primeiro tempo. O camisa sete partiu decidido para a bola e encheu o pé. No meio do gol. O goleiro saltara. Era o gol. Era o título. A gritaria tomou conta. Os jogadores no campo, a torcida na arquibancada, todos pulavam, todos gritavam. No campo, o presidente do clube dizia à equipe de televisão que o garoto prata-da-casa usaria a camisa dez daquele dia em diante. Eu não estava perto do velho quando ele soube, mas ele deve ter vibrado com a notícia.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Juízo Final

Acordei com as batidas do cacetete na grade. Eram três guardas. Dois deles eu conhecia. O terceiro, de uniforme engomado, eu só via em dia de execução. Cada vez que ele aparecia na carceragem, uma das celas do corredor perdia um habitante. E eu sabia de quem era a vez. Sabia qual era a cela a ser esvaziada. Pela primeira vez nesses últimos anos, eu senti medo. Cinco anos trancado aqui nesse mesmo buraco, dizendo a mim mesmo que não tinha medo da morte, que nenhuma ossuda encapuzada me levaria embora a calma. E agora eu sentia medo.

Os homens traziam comida. Abriram a porta da cela. O primeiro entrou, deixou a bandeja sobre a mesa de madeira e saiu. Ficaram os três ainda a me observar pelas barras de ferro. Não me importei. Nunca tive privacidade nem para as necessidades fisiológicas. Não me importava que me vissem comer.

Eles trouxeram tudo o que pedi. Bife mal passado, com muito alho, arroz e purê de batata. E a minha cerveja. Eu já até cogitava a possibilidade de morrer feliz. Perguntaram-me se eu queria a visita de um padre.

- Você sabe, para a extrema-unção.

Engoli o pedaço de bife que mastigava, tomei um longo gole de cerveja e respondi que não havia necessidade.

- Tem certeza? É sua última chance.

- Eu passo. - respondi.

Os dois guardas que eu conhecia foram-se embora. Só ficou a me vigiar o engomadinho. Postura aristocrática. Nariz sempre apontando para o alto. Seguro de que seu trabalho era honesto. Orgulhoso de dar a sua contribuição para o nosso quadro social. Guardião da ordem, ele diria. Escravo do status quo, peão dos valores dos poderosos, eu diria. Tenho certeza que se eu dissesse algo do tipo em voz alta, ele me olharia com profundo asco e desdém e me chamaria de anarquista, ou algo parecido.

- Por que recusaste a extrema-unção? – perguntou, surpreendendo-me.

- Não acredito nessas coisas. Pra mim isso não passa de um doido usando vestido, fazendo gestos estranhos e falando umas palavras que nem ele mesmo sabe o que significam.

- Não queres ser salvo?

- Por acaso vais me abrir as portas e me deixar ir embora?

- Claro que não! – respondeu indignado.

- Então estou condenado. Deus salva as almas, não os corpos. E alma eu não tenho.

- Será que não vês que vais sofrer as torturas do inferno por toda a eternidade?

- Inferno!? Eu estou trancado em uma jaula há cinco anos. Daqui a algumas horas vão fritar o meu cérebro, e um maldito crente faz questão de me encher a paciência enquanto eu tento aproveitar meu último momento minimamente bom. Quer coisa pior? – ele se calou. Eu continuei – E mesmo que exista essa história de céu e inferno. Prefiro meu lugar nas chamas e na devassidão das grandes pessoas que foram para lá do que ser condenado a tocar harpa e me vestir de branco ouvindo papinho de gente zen pelo resto dos dias.

- Tenho pena de você. – aquele olhar de asco e desdém de que eu falava.
Sorri. Ignorei o fato dele me dar as costas e me concentrei apenas no sabor da comida, que até que não estava tão ruim, e da cerveja.

Faltou o cigarro. Só percebi isso quando terminei minha refeição. Devia ter pedido um cigarro. Parei de fumar há anos, mas é impublicável o que eu não daria agora por um trago. Pedi ao engomadinho um cigarro. Ele nem mesmo se virou. Respondeu-me, de costas mesmo, que não fumava. Grande coisa. Eu também não fumo. Só queria um cigarro agora.

Deitei-me na cama e esperei. O próximo passo seria raspar minha cabeça. Lá se vai todo o dinheiro que gastei em xampu durante a minha vida. Vou acabar careca de qualquer jeito. Piada besta.

***

Ódio. Era o sentimento presente naquela sala. Os olhares das pessoas eram tão cruéis que me furavam a carne como se fossem lâminas de aço lançadas com ódio contra mim. Garanto que muitos ali teriam imenso prazer em lançar lâminas contra mim e me ver sangrar. Não podiam. Teriam que se contentar em me ver estrebuchar enquanto não sei quantos mil ampères de corrente elétrica me fritavam. Eles vão gostar do show, isso com certeza. O que me alegra é que dificilmente será suficiente para acalmar esse povo. Provavelmente achariam a idéia das lâminas mais satisfatória. Sorrio ao pensar que as lâminas não passarão de uma metáfora, e que a satisfação deles não passa de uma ilusão de algo que eles pensam que terão. Adoro a alma humana. Tão rasa. Seus anseios são tão previsíveis e mundanos que me arrancam sorrisos de escárnio. Até que não me sinto mal de abandonar esse mundo. Pena ser este o único.

Me amarraram na cadeira, fizeram todo aquele discurso batido sobre a cadeira elétrica e os crimes que eu cometi. Diziam que atentei contra a liberdade. Ora, fosse esse o crime que me levara à cadeira elétrica, não sobraria muita gente viva, já que é o crime mais comum desse mundo. Li uma vez que liberdade é todo homem e mulher livres serem julgados pelos seus atos de acordo com as leis da sua comunidade, com a condição de, livremente, consentirem em ser parte dessa comunidade. De tal grandeza de espírito não tenho conhecimento. Nunca conheci ninguém a quem se tenha perguntado se gostaria de fazer parte de alguma comunidade. Simplesmente nos jogam no meio de um monte de gente, nos lêem as suas leis e nos mandam respeitá-las. E eu atentei contra a liberdade das minhas vítimas. Eu provavelmente mereço meu destino, mas o discurso não é esse. Eu matei, sim, aquelas meninas. As seqüestrei, mantive em minha casa, as estuprei e matei. Eu mereço o que estou por sofrer. Se me dissessem isso assim, alto e claro, eu aceitaria. Mas não dizem. Mascaram os fatos com expressões eruditas e jargões. Enfiam os direitos humanos na discussão, a lei e a ordem. Idiotas. Vão matar-me sem nem admitir por quê o fazem. Talvez nem o saibam.

Ligaram a chave. Era o fim das minhas divagações. Só lembro de não ter gritado, nem chorado. Só fiz uma careta. Afinal, não sei quantos mil ampères de corrente elétrica atravessando seu corpo dói pra cacete.