quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Out of My Blues

...Os papéis espalhados na mesa, cobrindo a cor avermelhada do mogno. Libero a fumaça pela boca e apoio o charuto no cinzeiro. As mãos procuram o copo de Bourbon com gelo. A bebida desce deixando uma ardência e um gosto bom na garganta. Cansado, recosto-me na cadeira olhando para o teto branco. Fecho os olhos. Vem, imediatamente, a imagem símbolo da minha agonia. Aquele meu pedaço de matéria afundado na água escarlate. O tom esverdeado da carne, a pele escura e quebradiça, colada aos ossos, mostram bem quantas folhas do calendário foram arrancadas desde aquele dia. Abro os olhos. O teto branco à minha frente. Volto-me para a mesa. Tantos papéis, tantas palavras, tanto sofrimento, tantas coisas a dizer, tanto carinho reprimido, e você, tão longe, tão indiferente. Mais um gole. Mais um trago. Sinto a vida escorrer por entre meus dedos. Tão difícil suportar esse coração pesado. Uma lágrima brota em meus olhos. Por hoje chega de literatura. Chega de filosofia. Vou terminar meu charuto e minha bebida. Depois, deitar-me, só, mais uma vez...

...Eu sentia o sangue correr amargo por minhas artérias enrijecidas. Sentia o álcool corroer-me o resto de consciência. O vento espalhava minhas lágrimas e meus lamentos. Eu já não sabia por que chorava. Os prédios erguiam-se negros à minha volta e a escuridão do beco mordia-me voraz com sua boca desdentada. O medo, o desespero, o desalento, o horror e as lágrimas. Tudo por um motivo esquecido. O piso frio ainda cheirava ao vômito das horas passadas e nele ressoavam meus passos trôpegos. Perdidos, meus olhos pulavam pelos cantos escuros sem saber o que procuravam. Fechei-os. Perdi a consciência antes que meu queixo tocasse o chão...