quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Out of My Blues

...Os papéis espalhados na mesa, cobrindo a cor avermelhada do mogno. Libero a fumaça pela boca e apoio o charuto no cinzeiro. As mãos procuram o copo de Bourbon com gelo. A bebida desce deixando uma ardência e um gosto bom na garganta. Cansado, recosto-me na cadeira olhando para o teto branco. Fecho os olhos. Vem, imediatamente, a imagem símbolo da minha agonia. Aquele meu pedaço de matéria afundado na água escarlate. O tom esverdeado da carne, a pele escura e quebradiça, colada aos ossos, mostram bem quantas folhas do calendário foram arrancadas desde aquele dia. Abro os olhos. O teto branco à minha frente. Volto-me para a mesa. Tantos papéis, tantas palavras, tanto sofrimento, tantas coisas a dizer, tanto carinho reprimido, e você, tão longe, tão indiferente. Mais um gole. Mais um trago. Sinto a vida escorrer por entre meus dedos. Tão difícil suportar esse coração pesado. Uma lágrima brota em meus olhos. Por hoje chega de literatura. Chega de filosofia. Vou terminar meu charuto e minha bebida. Depois, deitar-me, só, mais uma vez...

...Eu sentia o sangue correr amargo por minhas artérias enrijecidas. Sentia o álcool corroer-me o resto de consciência. O vento espalhava minhas lágrimas e meus lamentos. Eu já não sabia por que chorava. Os prédios erguiam-se negros à minha volta e a escuridão do beco mordia-me voraz com sua boca desdentada. O medo, o desespero, o desalento, o horror e as lágrimas. Tudo por um motivo esquecido. O piso frio ainda cheirava ao vômito das horas passadas e nele ressoavam meus passos trôpegos. Perdidos, meus olhos pulavam pelos cantos escuros sem saber o que procuravam. Fechei-os. Perdi a consciência antes que meu queixo tocasse o chão...

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Maracanazo

Jules Rimet pôs-se de pé. Era o presidente da Fifa e estava a minutos de entregar a taça, que levava seu nome, ao capitão da seleção campeã do mundo do ano de mil novecentos e cinqüenta. O placar do Maracanã, maior estádio do mundo, acusava a vitória mínima do time da casa. Um a zero. Gol de Friaça aos dois minutos da etapa final. O capitão da seleção brasileira, Augusto, esfregava as mãos que esperavam enlaçar a taça. Jules Rimet iniciou a descida da tribuna até o campo de jogo, onde se iniciaria a cerimônia assim que o apito final do árbitro inglês, George Reader, se fizesse ouvir.

Mas corria ainda a primeira metade do segundo tempo. E a seleção a enfrentar os brasileiros era a Celeste. Os primeiros campeões do mundo. Os Uruguaios. Vestia a camisa azul-celeste número cinco, Obdúlio Varela, um deus uruguaio que emocionava até os adversários ao comandar sua seleção. E vestia o número dez, Schiaffino. E foi ele que, aos vinte e um minutos da segunda etapa igualou o marcador.

O placar não se manteve igual por muito tempo. A Celeste não estava satisfeita. A raça e a vontade dos uruguaios não deram descanso aos brasileiros. Treze nervosos minutos depois do empate, veio o golpe final. O número sete estampado às costas de Ghigghia invadiu a área brasileira e o tiro foi mortal. Um tiro que transformaria Barbosa, um dos maiores goleiros a vestir o uniforme do Brasil, em vilão. Era a virada uruguaia.

Quando Jules Rimet finalmente chegou ao campo, o placar não mais marcava 1X0. Marcava 1X2. E quando o árbitro inglês pôs fim ao jogo, não foi Augusto quem recebeu a Taça Jules Rimet das mãos do próprio presidente. Foi Obdúlio Varela. O capitão que comandara a virada mais famosa do futebol das duas nações envolvidas.

Quando, sete anos, onze meses e vinte e três dias depois, a Seleção Brasileira finalmente venceu a Copa do Mundo pela primeira vez, nenhum dos jogadores presentes no Maracanã estava em campo. O novo esquadrão tinha novos craques e uma nova camisa. Um amarelo intenso, incapaz de apagar da memória do povo brasileiro o desastre que as camisas brancas de cinquenta não conseguiram evitar.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Raven Blues

Bateram à porta. Três batidas leves. Eu sabia de quem eram as mãos delicadas a socar a madeira. Não disse para que entrassem, mas me ignoraram o silêncio e entraram. Três mulheres. Esposa e filhas. A cada visita que delas recebo, maior é o esforço que desprendo para lembrar-me disso. Seus nomes há muito já me escaparam da memória. Não me tenhas por tolo, claro está que o número de golpes contra a porta e o número de mulheres a adentrar o quarto não passa de uma coincidência. Como das muitas que se passam no mundo. Nem mesmo um velho no meu estado de saúde e de espírito acreditaria em sinais por se tratar, o três, de um número cabalístico.

Enquanto minha esposa me levava à boca colheradas do seu caldo verde, minhas filhas me contavam trivialidades das vidas que levavam do lado de fora daquele quarto. A mais nova me alisava a cabeça já lisa enquanto eu continuava a tentar contar o número de rachaduras na parede sem me perder.

Quando as duas moças deixaram o quarto, ainda me restavam as últimas colheradas de caldo verde. Olhei no fundo dos olhos da mulher que de mim cuidava. Janelas da alma, se é verdade que existe tal coisa, são de fato, os olhos. Os seus revelavam a tristeza que o seu sorriso tentava disfarçar. Eu vi o ar de choro que aquela doce mulher tentava conter. Vi as migalhas de um coração cansado. Vi o desespero mudo do seu olhar.

O caldo verde chegou ao seu fim. Como chegava ao fim aquela tarde. O céu já parecia sangrar quando voltei a ficar sozinho no quarto. Entretive-me a contar as rachaduras das paredes. Quando perdi a conta pela enésima vez, dei-me conta da sua presença. Seu pequeno corpo estava pousado na janela aberta. As penas negras brilhavam e os olhos frios pareciam vasculhar a minha alma. Era um belo corvo. Imponente, amedrontador. Mas, ainda assim, um belo pássaro. “És uma bela ave.”, eu disse. O corvo pareceu aquiescer, mas não desviou o olhar penetrante que me lançava. “Chamar-te-ei Nevermore, se não te importas. É o nome de um dos teus em um poema que li há muito. Se ainda me ajudasse a memória, o declamaria para ti.”. O corvo deteve-se ainda alguns segundos a olhar-me. E então alçou vôo sem nada me responder.

***

Acordei com novas batidas à porta. Uma, duas, “Entre!”, consegui gritar já atordoado com aquilo. Mais uma vez me acordavam no meio da tarde por causa daquele caldo verde. Nesse dia, só minha esposa e minha filha mais nova atravessaram a porta. Explicaram-me que a mais velha teve um contratempo qualquer com o filho, que estava na escola. Explicaram isso tudo antes mesmo que eu perguntasse por onde andava a mulher. Nem mesmo sei se perguntaria.

Minha filha parecia atordoada. Estava claramente distante. Não me importei. Quem mais me chamava a atenção era a mulher sentada à beira da minha cama e seu vaivém incessante com a colher cheia de caldo verde. Vieram tarde dessa vez. A noite já ensaiava a tomada do céu.

O corvo voltou. Dei por ele por ver os olhos trêmulos de minha filha pousados em suas penas negras. Mas o corvo fitava a mim, não a ela. A mesma postura da tarde anterior. Os olhos frios, fixos nos meus. “Chamo-o Nevermore.”, eu disse. “Como o do poema.”, sussurrou minha esposa. Aquiesci apenas. “Veio ontem me visitar. A esta mesma hora, creio.”. “É horripilante.”, resmungou minha filha. O corvo deixou seu lugar na janela e perdeu-se pelo fim de tarde. Não pareceu ofendido com o comentário.

***

Uma batida apenas, e a maçaneta girou. Apenas uma mulher atravessou o batente da porta. Minha esposa chegou-se perto de mim e pôs o maço de cigarros na palma da minha mão. Eu tremia como tremem os fracos, mas fui, ainda assim, capaz de levar um dos cigarros à boca e acendê-lo com o isqueiro prata que nunca deixava o seu lugar em baixo do meu travesseiro.

“Estás certo de que queres fazer isso?”, ela me perguntou. “Estou já com um pé no mundo dos idos. Não há mais, neste mundo, arma que me possa ferir.”. Ela não pareceu concordar, mas furtou-se de dizer qualquer coisa.

Por todo o tempo em que a olhei, pensei estar olhando alguém conhecido. Mas, de súbito, dei-me conta de que não reconhecia, naquela mulher à beira da minha cama, a menina com quem casei há tantas tardes. Não reconheci o olhar vivo e admirado de adolescente. Ou os cabelos, outrora longos, que mudavam de cor com as fases da lua. Não, a mulher que eu agora fitava não era aquela menina, mas a mulher a quem eu dizia amar quando me deitava na sua cama depois de possuir outras mulheres. Talvez ela soubesse que eu tinha outras mulheres. Talvez tenha aceitado a humilhação por algum motivo. Amor, quem sabe. A verdade era que eu nunca teria a coragem necessária para descobrir se ela sabia de tudo ou não. Aquela menina com quem casei saberia. Mas não a vejo mais. E, verdade seja dita, a não ser que minta o espelho e me traia minha mente, o garoto com quem ela se casou também não se faz presente nesse corpo moribundo.

Nevermore retornou. Mais uma vez pousou seu corpo na janela. Os olhos permaneciam imóveis a fitar os meus. A mulher levantou-se. Caminhou hesitante até o corvo e acariciou-lhe a pequena cabeça. Ele não pareceu tomar conhecimento do afago. Insistia em olhar-me frio, como se tivesse algo a dizer. Deteve-se por um tempo maior dessa vez, mas, por fim, ganhou os ares de mais um fim de tarde ainda sem dizer-me o que tinha a dizer.

***

Eu fumava outro cigarro quando ele veio. Apareceu cedo dessa vez, antes de qualquer batida na porta. Antes que qualquer companhia adentrasse o quarto. Antes mesmo que viessem os raios do sol. Não pousou na janela, mas ao pé da cama. Fitava-me de modo diferente. Seu olhar era muito mais que frio, era quase cruel. “Não devias estar a fumar. Não sabes que essa porcaria pode pôr-te fim à vida?”. Sua voz era horrenda. Metálica e rouca, reverberava pelo quarto. Gelou-me o sangue nas veias, aquela voz. “Quem és?”, perguntei. “Bem sabes quem sou.”. “Vai-te daqui, demônio! Volta para as sombrias chamas de onde saíste! Vai assombrar outra alma que essa já de assombro não precisa! Vai-te reto pelos umbrais que adentraras!”. O corvo nada dizia. Nada fazia. “Vieste me levar, criatura?”. Ele se chegou perto do meu ouvido devagar e sussurrou: “Vim te buscar.”.

***

De tudo isso hás de saber, já que de tudo nesse mundo e no outro tens ciência. Mas responde-me, deus de poucos, pra que me torturaste com aquele bicho do inferno? Por que me levar de súbito, à vista de tão horrenda cena? Vai-te também pro inferno que há de ser teu lugar, se com tanto cinismo me respondes e me torturas! Se era o tormento de minha alma que querias, aqui o tens! Deste-me algo para temer pela eternidade! Deste-me uma última lembrança que nem mesmo o demônio me concederia. A morte é um prato a ser servido morno. Para evitar o choque do espírito sem corpo. Mas serviram-mo frio. E isso não hei de perdoar.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Sudão, 20 de abril de 2006, Século XXI

...A ferida foi profunda. Perto demais do osso, eu acho. O sangue se aglomerava negro, duro. Os dentes, violentamente arrancados do homem, jaziam no chão de tábuas de madeira quente. Pareciam boiar no sangue que fervia ali. As lágrimas escorriam pela pele escura dos rostos dos dois adultos. O sargento, postado ao meu lado, deixou a metralhadora ir ao chão. Vi que ele levou a mão lentamente à pistola enfiada na parte de trás da calça. Fechou os dedos grossos em torno do cabo da arma. Com um movimento rápido, a apontou para o homem. Vi os olhos do negro transparecerem terror e não tardou para o cheiro dos seus excrementos se fazer presente no ar. O sargento disparou. Um buraco se abriu entre os olhos do homem. A garotinha gritou. A mulher alternava, em choque, olhares para o corpo do marido e a filha, que não conseguia desvencilhar-se do brutamontes às minhas costas. Rezei. Pedi a Alá que permitisse que o barqueiro daquela gente os levasse à terra deles. Sabia que não teriam moedas de cobre nos olhos. Agora o sargento apontava a pistola para a garotinha. Avancei sobre ele. A Smith&Wesson foi ao chão antes do disparo. Meus companheiros, todos soldados como eu, correram para me tirar de cima dele. Me agarraram, me mantiveram de pé. O sargento atacado levantou-se, pegou a pistola do chão e pôs na minha mão. Tirou a arma que eu trazia no cinto e apontou o cano para a minha têmpora. Empurraram a garota e a mulher para a minha linha de fogo. Eu sabia o que eles queriam que eu fizesse. A mulher tirou o cordão que usava no pescoço e colocou-o no meu. Pediu-me que a matasse primeiro. Afastou-se alguns passos e esperou. Atirei. Vi a menina saltar de susto por conta do estrondo. Ela me olhava com toda a gravidade dos seus sete ou oito anos. Apontei a arma para ela. O cordão pesava em volta do meu pescoço. Dois estrondos. Seguidos. A minha arma e a do sargento...