segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Bola Oito na Caçapa do Fundo

A solidão é a mãe da sabedoria.
(Laurence Sterne)

Com o corpo dobrado por sobre a mesa de madeira, o Marcos firmava os dedos da mão esquerda contra o feltro, formando uma ponte. O taco, seguro pela mão direita em uma extremidade, estando a outra apoiada na ponte, ia e voltava, num tique nervoso que servia de ajuste para o movimento final. De repente, parou. Olhou pro Hugo por cima dos óculos e da fumaça do cigarro que se lhe pendurava no canto da boca e disse

"Não entendi. Como assim?"

"Vou dar um exemplo."

Marcos voltou os olhos para a bola branca e soltou uma tacada cheia na cara da bola sete, que ricocheteou nas duas pontas da caçapa e perdeu-se de volta na mesa. O Hugo riu e continuou.

"Vocês são o meu grupo de amigos com quem eu tenho o maior entrosamento no campo das ideias. Valores, política, futebol. Menos mulher, que não é a praia do João. - e riu do dedo médio em riste que lhe ofereci em resposta. - A gente pensa na mesma direção desde a época de faculdade, cada com suas manias, idiossincrasias, mas não há dúvida que a gente joga no mesmo time"

"Como esse desgraçado consegue dizer "idiossincrasias" depois da oitava cerveja?"

"Deixa o cara terminar, caralho." ralhou o Turco.

O Marcos jogou as duas mãos pra cima, em um gesto de render-se.

"Meu ponto é: vocês são os seres humanos que, no planeta, tem a maior chance de concordar com alguma ideia minha, ou entendê-la, ou aperfeiçoar, enfim. Semana passada eu saí pra almoçar com um amigo de infância. A gente ficou amigo na segunda série - na época em que ainda se chamava segunda série - e estudou na mesma sala a vida inteira no colégio. Aí o cara foi estudar fora. Pra encurtar, a gente não tem lá muito contato hoje em dia. E, porra, a gente não fecha com nada. Ele é a encarnação da ideologia política que eu mais desprezo, torce pro time mais ridículo do país, tem um trabalhinho de engenheiro que exige zero habilidade de análise social, ganha o dinheiro individualista dele tranquilamente. E já estamos velhos demais pra falar de bandas de rock como se a felicidade do mundo dependesse de um riff perfeito."

Apoiei o taco na minha ponte e ataquei a bola branca à direita do centro. Com o efeito lateral, ela girou a bola doze no sentido contrário e, com uma leve ajuda da tabela longa, parou bem na boca de uma das caçapas do canto. O Hugo continuava de matraca aberta.

"Falando assim, a gente não tem motivo nenhum pra ser amigo. Mas tem alguns aspectos da minha cabeça que ele entende até bem melhor do que vocês. A gente se gosta pra caralho, no fim das contas. Louco isso, né."

O Turco tomou posição para jogar, baixando o corpo e apontando o taco. Mas no lugar de desferir o golpe, alongou a conversa.

"História pregressa, mano. Vocês têm uma bagagem enorme em comum. Várias histórias, coisas que aprenderam juntos. Principalmente quando vem da infância, vocês são personagens da formação do caráter um do outro. Isso faz uma diferença enorme. O cara conhece dimensões da tua pessoa que a gente nunca vai ter nem acesso. Isso é normal dos relacionamentos humanos."

"Exato!"

Buscou matar uma difícil bola onze na caçapa do meio. Sem sucesso, prosseguiu em suas conclusões.

"Por isso que ex-mulher é foda. Essa história pregressa conjunta dá a elas uma caralhada de ferramentas pra mexer na nossa cabeça na hora que elas resolvem perturbar o cidadão. Sabem cada calo pra apertar, e tal. Vários pontos fracos."

Hugo tentou uma tacada displicente na bola doze que eu posicionara. Bateu forte demais e afastou a desgraçada da caçapa. Me olhou com uma cara de "foi por pouco". Não tinha sido por pouco. O Marcos tomou posição enquanto falava

"É por isso também que é difícil não se abalar em certas horas. São quilômetros de intimidade construída, de carinho compartilhado. Aí se encontra na festa de aniversário do filho, é foda. Dá saudade das coisas boas do casamento. Tem que fazer uma puta força pra lembrar das ruins e não fazer uma bobagem."

"Foi aniversário do teu moleque essa semana né?"

Ele desferiu um tremenda porrada na bola sete - que rebateu na tabela, longe da caçapa onde ele a queria arremessar - e respondeu

"Foi."

De repente eu visualizei o que devia ser feito. Parti decidido em direção à bola branca, alcei o taco para o alto, num ângulo próximo dos quarenta graus e ataquei ao lado esquerdo do centro.

"A melhor coisa da relação com a ex-mulher é o sexo."

"Porra, não fala isso pro cara, Hugo! Já tá abaladão..."

A semi-massé funcionou, jogando a branquela numa curva linda para a direita, contornando duas bolas adversárias e empurrando lentamente a bola oito na caçapa do fundo. Sorri. Era de longe a jogada mais bonita da noite. Busquei a cumplicidade nos olhos dos meus companheiros, mas a atenção era toda do Hugo.

"É sério. Sexo com ex-mulher é demais. Já começa pela sensação gostosa de ceder à vontade. Os dois sabem que aquilo não tá certo, que o mais prudente era trocar um aperto de mãos e ir embora, cada um pra sua casa, se masturbar sozinho. Mas quando a vontade fala mais que a razão, não tem meia bomba, o serviço é sempre completo. E o entrosamento já tá lá, construído, firme e forte, alicerçado. Tem um sentimento de familiaridade na coisa. E ao mesmo tempo sempre rola um senso de novidade. É confortável, mas não é rotineiro, entendeu? Eu já me conformei com o fato de que nenhuma dessas trepadas de solteiro vai chegar aos pés da minha ex-mulher. Minha única chance de ter sexo dessa qualidade de novo é casando outra vez, a custo de muito investimento pra chegar nesse nível um dia."

"Porra! Fiz uma jogada de Rui Chapéu e vocês nem viram, seus filhos da puta!"

"João, caralho, a sinuca é só uma desculpa pra conversa!" ralhou o Marcos.

"Bilhar." corrigi.

"Como?"

"A gente tá jogando um jogo de bilhar. Sinuca é um jogo específico, com sete bolas."

Eles riram. - "Bêbado metido a intelectual é foda..." - Mas eu estava falando sério.

sábado, 23 de novembro de 2013

E Da Calma Fez-se O Vento (ou Notas Sobre o Fim)

De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

(Soneto da separação - Vinícius de Morais)

As palavras de chumbo que despejava lhe deixavam um gosto acre na boca. Subiam do peito apertado queimando seu caminho e eram arremessadas do fundo da garganta através das fileiras de dentes. Aterrissavam violentas no colo da mulher, sentada na cama à sua frente.

Quando julgou suficientes os impropérios que descarregava, girou nos calcanhares. Sem ouvir o fim das frases que ela lhe oferecia em resposta, deixou o quarto e o apartamento com o tranco da porta batendo às suas costas.

***

O cubículo que lhe cabe no latifúndio da repartição parecia ter encolhido. As paredes falsas oprimiram sua agitação pelo restante da semana. A agonia não parecia lhe caber no peito, e a descontrolada memória bombardeava cenas selecionadas de um passado parcial.

Sentados sobre a toalha estendida na grama molhada pelo sereno, ele sentiu que ela deixou o corpo pesar sobre o seu. Ombro contra ombro, sentiu-se confortável. Desviou a atenção do punhado de brancos sulamericanos que arranhavam um jazz no palco tímido metros à frente. Pendeu a cabeça para trás e olhou o céu negro. A nordeste, encontrou o que procurava. Dois pontos de luz azul muito próximos um do outro. Esticou o dedo para mostrar o achado e aproximou a boca dos ouvidos da moça.

"Está vendo? É uma estrela binária. São duas estrelas contíguas, uma presa no campo gravitacional da outra." Olhou nos seus olhos e continuou. "Dois sois girando eternamente em torno um do outro. Nunca separados, jamais se tocam."

"Isso é verdade?"

"Não sei. Vi um cara falar isso pra uma garota num filme. Achei bonito."

"E o que a garota fez? No filme, eu digo..."

"Tascou um puta beijo no cara."

Ela inclinou o corpo, sorriu, e grudou os lábios nos dele. As bocas abriram-se lentamente. Sorviam o hálito quente um do outro.

"Mentira. Na verdade, ela tirou a roupa e eles se agarraram a noite inteira. No filme."

Ela sorriu, divertida.

"Quem sabe mais tarde..."

***

O telefone tocou histérico enquanto ela removia da cama o edredom e as almofadas. A marcha imperial do filme Guerra nas Estrelas ecoava em sua versão de guitarras distorcidas do Rage Against The Machine. Tomou nas mãos o celular e olhou a tela. Trabalho. Decidiu que era um desrespeito, àquela hora da noite. Não atendeu. Desligou o aparelho e o atirou de volta à mesa de cabeceira. Despiu-se e enfiou o corpo debaixo das cobertas. Afundou o rosto no travesseiro, torcendo para o cansaço vencer a odiosa mania do cérebro de trabalhar até mais tarde.

Ela dormia nua. Gostava das carícias das cobertas. Ele tentou acompanhá-la na época, mas a prática lhe era impossível. Repugnava-lhe a ideia de um filete de porra, desses que se desprendem vez em quando do pau excitado, espalhar-se pelo lençol onde ele esfregaria o corpo a noite toda. Ela sempre considerou aquilo uma tremenda frescura.

Enquanto ela secava o esperma de suas coxas com um pedaço de papel higiênico naquela noite, ele levantou-se e, vestindo a cueca, apresentou a teoria.

"Li num conto do Rubem Fonseca outro dia. Falando de um personagem que conseguiu se condicionar a transar sem gozar fisicamente, tipo sexo tântrico. Aí o casamento do cara foi pro ralo porque a mulher não gostava de transar sem ele gozar. A teoria dele é que o jato de porra era a evidência da vitória dela. O exaurimento dele, macho, representava o fortalecimento dela, fêmea."

"Ideia machista, hein..."

"Eu não acho. Acho bonita."

"A vitória da mulher é a gozada do homem? Puta ideia machista. A vitória da mulher é o gozo dela mesma, ora."

"Porra, você fodeu com o clima romântico."

"Eu não. Quem fodeu foi você. Você e o Rubem Fonseca."

***

Confeitaria Colombo. Sugestão dela. Ele achara a ideia estúpida, mas não quis causar outro atrito. Aceitara. Agora, no calor da discussão, arrependia-se.

"Quer saber do que mais? Eu não sei como você me ganhou com aquele papo de estrelas binárias! Conversa mais brega!"

"Já tinha ganho muito antes. Aquilo ali foi só a ponte pra fazer o que você já tava afim de fazer há meses."

"Só eu..."

"Só você, sim. Eu estive afim desde que te conheci, por todos os anos até aquele dia."

"Você tá ficando brega de novo. Chega desse assunto. Nós vamos pra sua casa buscar minhas coisas de uma vez ou não?"

"Espera, vamos conversar direito." ele esticou o braço buscando sua mão no tampo da mesa. Ela a recolheu.

"Não tem mais o que conversar. Quero buscar as coisas que faltam, botar logo um fim nisso."

"Você tá precipitando o fim disso."

"Já são dois meses! Acabou. Tá na hora da gente entender isso e seguir as nossas vidas..."

"Minha vida ainda é você."

Ela levantou-se, irritada. Com o movimento, a cadeira tombou para trás. Os olhares curiosos teriam sido atraídos pelo som da madeira quicando no chão de porcelana, caso já não tivessem vidrados na discussão. Ele baixou a cabeça. Levantou-se, resignado.

"Melhor pegar o metrô na carioca."

Quando saem da confeitaria, trazem os pescoços duros. Andam lado a lado na calçada, policiando os próprios movimentos. Não virar o rosto, não esbarrar as mãos. Na rua Sete de Setembro o mundo se acaba em água. Chuva, dilúvio, todas palavras débeis, sem vigor suficiente para descrever o que acontecia.

Procuram abrigo debaixo de uma marquise, que só apresentou-se depois de cinquenta metros corridos debaixo d'água. O vento sopra frio em suas espinhas e joga o fluxo de água quase na horizontal. Ela bate os queixos. Os corpos molhados se procuram, os braços se enlaçam. E a água fria não é capaz de dissipar o calor de um beijo lascivo que os dois sabem ser sua despedida.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

La Mala Sangre

Versão atualizada publicada na Revista Benfazeja:
http://www.benfazeja.bravowebdesign.net/2014/07/la-mala-sangre.html

"Eu quero saber quem foi que desenhou caralhinhos voadores na parede do banheiro!" - Seu Noronha (Lima Duarte), em Os Sete Gatinhos, 1980.

Vovó estava estirada em meio às paredes de madeira do funesto artefato. Sobre uma bancada, em posição central, convergia a atenção de todos no recinto, ainda que com ela não se interagisse. Um tanto por senso do ridículo, outro tanto por dar-se prioridade, nestas ocasiões, a quem fica. Sua expressão era serena. Não soubesse eu, de fato, que estava morta, poderia jurar que acordaria a qualquer minuto com aquela agitação à sua volta, reclamando seus palavrões de hábito. Vovó cheirava a lavanda, alfazema. Mas não hoje. Não se distinguia cheiro naquela sala que não fosse o dos malditos crisântemos que papai mandou colocar nas coroas.

Vinha já doente nos últimos anos de vida a vovó. "Es la mala sangre.", dizia. Explicava que quando se envelhece, o sangue perde qualidade. Sangue velho é ruim, causa doenças. Vovó nascera em um desses vilarejos no interior da América onde o tempo ainda não aprendeu a correr. Mas as piores doenças que o sangue ruim pode trazer, vovó dizia que jamais teria. "La tristeza y la solitud.", apontava. Males de que jamais padeceria.

Um dia, me disse que muito gostaria de fazer uma viagem. Queria voltar ao povoado onde crescera e queria que eu a acompanhasse. "Mas abuela, no seu estado..." compreendi pela sua expressão que havia cometido um erro. Ouvi um sermão de quase uma hora em que ela se dizia muito aborrecida e decepcionada comigo. Não fazia ideia de que sua própria neta era desses "pendejos" e "pelotudos" que acham os velhos indignos de viver e sonhar. Que seu estado tinha nome: viva. E enquanto isso não mudasse, podia ser feliz como bem entendesse. Depois, que deus se encarregasse do resto.

Sorri e expliquei-lhe que tratava-se apenas de cuidado. "Excesso de carinho, abuela.". Mas se ela realmente quisesse voltar ao povoado, eu teria imenso prazer em acompanhá-la e conhecer melhor as suas origens. Ela manteve uma expressão um tanto contrariada, que eu sabia ser apenas para marcar sua posição. Um gesto de teimosia com o qual eu já estava acostumada.

***

Vovó, no povoado, parecia uma criança. O sorriso eternizou-se em seu rosto, enquanto rodávamos as pequenas ruas de pedra do lugar. Mostrava-me a praça em que pegou nas mãos de um menino pela primeira vez. A igreja e o muro em seus fundos que acobertara os primeiros beijos apaixonados que trocara com vovô. Contava histórias de pessoas que viveram nas casas por onde passávamos. Histórias engraçadas, histórias gastronômicas. Por vezes histórias trágicas. Cheirava todos os jardins que pudesse e perguntava aos mais velhos a respeito de personagens de sua memória.

Um dia decidiu que visitaria seu antigo colégio. Era período de férias e, no pátio, alguns meninos jogavam futebol. Tratavam-se por nomes de jogadores da seleção, que jogava a Copa América naqueles dias. Vovó mostrou-me as salas de aula em que fora aluna, uma a uma, contando histórias e explicando quem eram seus amigos em cada série que cursara.

Em uma das paredes, jazia recostado um balde de tinta branca. Dentro dele um pincel. O rodapé havia sido pintado até aquele ponto, e o serviço esperava por ser retomado. Vovó abaixou-se e tomou o pincel nas mãos. Me entregou o objeto com os olhinhos brilhando. "Vamos a escribir algo muy lindo en la pared!". Eu ri, devolvendo o pincel ao balde. Vovó franziu o cenho, abaixou-se, pegou o pincel e me devolveu. "En serio.". Hesitei, mas não por muito mais que alguns segundos. Perguntei-lhe o que queria escrever. "Aquel verso de Leminski que a mi me encanta.". "Mas o verso é em português, abuela.". "No hay problema, chica. Eso es una escuela. Dale!".

Pus-me a desenhar a letra efe na parede com cuidado. Nem bem terminei a primeira palavra, a moça aproximou-se e, com voz dura, perguntou o que significava aquilo. Vovó explicou que era antiga aluna do colégio e que a poesia nas paredes aquece os corações muito mais que o austero reboco monocromático. A bedel, no entanto não pareceu concordar. Desatinou num discurso colérico e disse não acreditar que uma senhora com aquela idade podia se prestar a traquinagens daquela sorte. Vovó não aceitou ser repreendida, e eu podia ver através de seus olhos, enquanto sua cabeça classificava a jovem bedel: una pelotuda! Insensível ao fuzilamento ocular a que vovó a submetia, a moça nos escoltou até a sala do diretor, onde nos sentamos em frente a uma mesa vazia.

O homem cruzou a porta pisando firme em seu terno cinza. Sobre a esticada camisa branca, uma gravata azul repousava muito bem alinhada. O homem sentou-se de frente para nós duas, deitou os óculos de aros grossos sobre a mesa e respirou fundo. Repetiu, em tom mais severo e menos afetado, a ladainha a que nos submetera a bedel alguns minutos antes. Repreendeu vovó por, em sua idade, andar por aí aprontando traquinagens. Repreendeu-me, não só por ser incapaz de colocar juízo na cabeça da velha, mas ainda corroborar com a sua indisciplina. Nada respondemos. Quando o diretor encerrou seu discurso, vovó levantou-se e anunciou que precisava ir ao banheiro. "Si esto no es también prohibido.". O homem indicou-lhe que havia um banheiro contíguo a sua sala.

Quando voltou a nossa companhia, vovó dizia que era melhor ir andando. E como fosse o colégio um tanto afastado da cidade, para nós que andávamos a pé, eu também devia ir ao banheiro, em caráter preventivo. Respondi que não havia necessidade, mas vovó insistiu de modo perturbador. Entrei e segurei para que meu riso não denunciasse a vingança. No espelho, escrito com batom, lia-se "Que se vayan de este mundo todos los pelotudos!". O desenho de um dedo médio em riste assinava a obra.

***

Quando voltamos, vovó investiu uma semana visitando todos os parentes, para mostrar que a viagem não lhe fizera mal. Muito pelo contrário. Ao cabo da semana, recolheu-se à cama no seu horário habitual, fechou os olhos de sono e não mais os abriu.

Agora, sentada naquela capela austera, meus lábios respondiam à doçura da lembrança abrindo-se em um sorriso. As faces pesadas no recinto, no entanto, faziam do sorriso impróprio. Vovó desaprovaria aquele clima de velório. Ainda que o acontecimento fosse, de fato, um velório. Paradoxalmente, vovó já não estava mais ali para julgar, ou ensinar, fosse o que fosse. O evento não era mais seu. Era dos que ficaram. E estes pareciam achar muito pertinente que o clima fosse de velório.

Levantei-me e levei meu sorriso para o banheiro, tentando disfarçá-lo no caminho. Parei em frente ao espelho, debrucei-me sobre a pia e arreganhei os dentes. Senti, ao fazê-lo, que honrava a lembrança da minha avó. Abri a bolsa, tirei de dentro o batom vermelho e o encostei sobre os lábios. Voltei-me, conservando a arma entre os dedos, e avancei sobre a parede branca:

"faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja
"
p. l.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Sol, o Mar e o Absurdo

Também eu me senti pronto para reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio. (O Estrangeiro - Albert Camus)

A porra do dia estava mais quente que o café. Que era uma bosta, diga-se. Pozinho vagabundo de licitação pública. O ar condicionado central do prédio funcionava a meia bomba, como sempre. Mesmo assim, a discussão corria animada pela salinha do café.

- Se você quer mesmo tirar a prova se está apaixonada por ela, faz o teste. Viagem juntas e, sem querer, entre no banheiro quando tiver certeza que ela está passando um fax.

- Passando o quê?

- Um fax. Soltando um barrão, chapiscando a porcelana, matriculando o Robinho na natação. Escorregando o moreno!

A Martinha continuava com o cenho franzido. Em uma expressão difícil de definir se denunciando a incompreensão de tão vasto arcabouço metafórico para uma simples cagada, ou se em choque justamente pela sua compreensão.

- Fazendo número dois... - insistiu o Fraga.

- Porra, Fraga, custa dizer "dando uma cagada" e resolver logo o assunto?

- Martinha, meu bem, acredite: eu não poderia ter sido mais explícito do que eu fui.

- Tá legal, tá legal, mas o que diabos tem a ver a cagada da Beatriz com eu saber se estou apaixonada ou não?

- Se você entrar no banheiro e, diante da cena da moça obrando, você ainda a achar linda, não tem erro. É amor. - sentenciou o Fraga.

- Por que?

- Você, por acaso, consegue conceber cena mais dantesca que alguém cagando? Se você for capaz de, diante da mais indigna das cenas, achar um ser humano nessa situação lindo, tenha certeza: é amor verdadeiro.

- Olha, não sei, não. - Martinha discordava. - Não é a cena mais dantesca possível. - o Fraga grudou os olhos nela, interessado na explicação. - Quer dizer, o cheiro às vezes é foda, mas a posição de alguém no trono não é nada indigna. É até um tanto helênica, eu diria. - E continuou, apesar das risadas do Fraga - É sério. Lembra O Pensador. Não é, nem de longe, tão dantesca quanto a cena de alguém passando fio dental. Você, por acaso, já imaginou uma estátua num jardim grego de alguém com os braços no ar, desengonçados, enfiando os dedos no fundo da boca? Já imaginou uma estátua grega de um pedacinho de carne mastigada espirrando no espelho? Muito mais perturbador que a posição de uma cagada.

- Eu chupo a carninha que fica grudada na linha. - riu-se o Fraga. E continuou - Martinha, isso é papo de mulher. Porque vocês fazem número um e dois na mesma posição. Pra homem é diferente. Mas se quiser, faz o teste com o fio dental, então...

- E o que você acha, Lacerda?

- Acho a cagada pior. - não que eu tivesse argumentos para defender minha opinião. Ou mesmo interesse em fazê-lo.

Martinha e Fraga eram os colegas de trabalho com quem eu mais passava meu tempo de escritório. Não digo que eu gostasse dos dois. Eu gostava com a mesma intensidade de todos na repartição: pouco. Mas os dois, por algum comportamento social humano que eu não sei explicar, me incluíam nas conversas como parte de sua rodinha.

O Fraga é racista. Vez em quando engata monólogos longos sobre os defeitos da pele escura, o nariz de barracão e o cabelo crespo. Mas nunca o vi destratar nenhum dos funcionários negros do prédio. Porteiros, copeiras, serventes. Sempre lhes oferece um sorriso e uma fala mansa. "Deve-se tratar com cortesia até mesmo aos inferiores. Sobretudo aos inferiores.", ele diz. "Subjugar o mais fraco não é coisa de gente civilizada.", completa. Um verdadeiro cavalheiro.

Com a Martinha, no entanto, ele se dá muito bem. Me pergunto se escolhemos, de alguma maneira, os preconceitos que queremos propagar. Talvez seja apenas aquela velha canalhice masculina de enxergar em todo casal de lésbicas um convite ao ménage. Se bem que não posso garantir que não haja um outro grupo de amigos para quem ele faça longos discursos sobre os malefícios da homossexualidade. No caso, a feminina.

Nada disso me faz desgostar do personagem mais do que desgosto de qualquer um. Não me envolvo nas convicções alheias. O que é uma boa estratégia para não ser cobrado pela falta das minhas próprias. A Martinha, nos dias em que está mais atacada, resolve argumentar. Eles discutem longamente, até que um deles me pergunta o que eu penso. Emito, então, uma opinião curta, não mais de duas sentenças, a favor do outro, em represália por ter me incluído na discussão.

***

Na hora do almoço, como ficasse o prédio da repartição no Largo da Carioca, tínhamos por costume descer a Rua da Assembleia até a Presidente Antônio Carlos. Cruzávamos o Paço Imperial em direção a um restaurante árabe na esquina da Rua do Mercado com a Rua do Ouvidor. O dono do restaurante era amigo do Fraga. Um português que comprara o estabelecimento antes dos projetos de revitalização do centro. Apesar de seguir rigorosamente o cardápio étnico, sempre nos servia, por conta da casa, uma generosa porção de bolinhos de bacalhau, que eu comia com mais gosto que o prato principal.

Quando sentamos, a Martinha explicava pro Fraga, pela enésima vez naquele mês, por que não sentia falta de se relacionar com homens. Apoiei a bochecha na palma da mão, entediado mais que aborrecido, e vasculhei a área externa pela janela, com olhos despretensiosos.

- Lacerda, porra, me ajuda a defender a classe! - era o Fraga.

- Não ouvi o que vocês falavam, desculpe. - disse, tirando sem pressa o olhar da janela.

- Martinha está dizendo que os homens são bons amigos, mas péssimos namorados, maridos, amantes...

- Concordo. Eu também não namoro homens. - respondi voltando o olhar para a rua lá fora.

Na outra calçada, vinha em direção ao restaurante um personagem recorrente naquelas paragens. A caixa de madeira sem tampa repousava à frente da sua barriga, presa por uma tira de couro que lhe circundava o pescoço magro. O vietnamita atravessou a rua e entrou no restaurante. Ofereceu de mesa em mesa as quinquilharias brilhantes que distribuíam-se dentro da caixa. Ninguém mostrou-se interessado. Eu observava seu peito magro coberto por uma camisa da seleção brasileira de futebol, seus braços amarelos, de veias azuis e saltadas. O homem de cabelos muito negros e lisos fixou seus pequenos olhos nos meus e mostrou a mercadoria cintilante. Uns pacotes de pilhas alcalinas repousavam, também à venda, no canto do recipiente. Fiz um gesto com a cabeça em agradecimento. Não estava interessado. Está há tempos no Brasil, mas não fala quase nada de português. Eu gostaria de lhe perguntar o que faz por aqui. Que sucessão de arbitrariedades teria sido necessária para que esse amarelo viesse parar justo aqui. Mas eu também não falo porra nenhuma de vietnamita.

Comemos. No caminho de volta, Martinha e Fraga falavam a respeito do chefe. Falavam do espaço que nos separa a todos, sobre as pessoas que escondem-se detrás de suas ilusões e não se permitem vislumbrar um fio de verdade antes que seja tarde demais, antes que a inevitabilidade da morte lhes bata à porta. Sobre as pessoas que, sozinhas, conquistam o mundo em troca das próprias almas. Que, trancadas em seus escritórios, quanto mais multiplicam seus feitos, menos amam. Falavam com pesar, desgostosos dessa gente. Desgostosos do chefe.

A conversa me atordoava mais que aborrecia. Pensava que o mundo não tem lastro. A vida é absurdo. Arbitrária. Gratuita. De que outra maneira um amarelo cruzaria o planeta para abraçar uma vida ruim entre estranhos que só lhe têm desprezo a oferecer? Não pode haver propósito nesse homem haver nascido tão longe, apenas acaso. Só pode ser se formos estranhos em qualquer lugar. Estamos sozinhos em qualquer lugar. O mundo nada nos prometeu, portanto nada nos deve. Nem mesmo explicações. O mundo simplesmente é, sem importar-se de que juízo fazemos a seu respeito. O mundo acontece, em seu absurdo, desordenado. Quem batalha para lhe atribuir razão somos nós, carentes de uma racionalidade inventada. Então de que me importa se o cavaleiro discursa de trás para frente, se a lógica e a proporção não existem de fato? A única forma de chegarmos a um significado para a cadeia sem sentido de acontecimentos da vida é, portanto, criarmos essa significação por nós mesmos. É o indivíduo, não o ato, que atribui sentido ao mundo. Nisso implica nossa liberdade. A vida é o que entendemos dela. E foda-se.

- E se o mundo desmente o entendimento que fazemos dele? - Martinha me perguntava de olhos arregalados.

- Inventamos outro. - respondi surpreso. Eu não percebera que minha voz partilhava, sem filtro, do meu pensamento.

- Outro o que?

- Outro entendimento. Que diferença faz pro mundo que ideia fazemos dele? Só faz diferença a nível individual. Perceba: ninguém além de nós mesmos pode nos mudar. E a vida segue com ou sem nosso consentimento. Com ou sem nossa participação. Não fazemos diferença pro mundo, apenas para nossas próprias trajetórias. É nisso que implica a liberdade. O mundo não dá a mínima, façamos da nossa vida livre o que dela julgarmos correto!

Na praça XV, eu tonteava, envolvido pela cólera. Na extremidade oposta da praça, Serjão almoçava. Uma vasilha de papel alumínio na mão esquerda, um garfo de plástico na direita. O mendigo estava em pé, com as costas coladas à parede da antiga construção do império. O corpo negro era velho e forte. Adivinhava-se os músculos dos braços e do abdômen por baixo da pele espessa. Os cabelos longos caiam em gomos individuais pelas suas costas e a barba branca conservava grãos de arroz e feijão. A vassoura, que eu já o vira usar para varrer o chão onde dormia frequentemente, a poucos metros dali, repousava ao seu lado, também encostada à parede.

Dois garotos, pelo meio dos seus vinte anos, aproximaram-se do negro. O primeiro deu-lhe um tapa na marmita, que foi ao chão. O segundo empurrou sua cabeça contra a parede. Serjão tomou a vassoura nas mãos e quebrou-lhe o cabo em dois pedaços no braço do primeiro. Foi o suficiente para que o outro lhe desferisse um cruzado no queixo, jogando-o ao chão. O mendigo levou, então, os braços ao rosto e aceitou a saraivada de pontapés, defendendo os poucos dentes que lhe restavam.

***

Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então atirei quatro vezes ainda num corpo inerte em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça. (O Estrangeiro - Albert Camus)

De pé no limiar da liberdade, em seu litoral, esperei pelo sol. Essa era, sem dúvida, a vida mais estranha que jamais conhecera. Quando uma pequena nuvem deslizou da frente do astro, a luz do sol segou-me os olhos inquietos por alguns segundos. Caminhei até a confusão. Os pedaços do cabo de vassoura jaziam no chão, sem despertar maior interesse de nenhum dos protagonistas. Tomei nas mãos o que me pareceu ter criado a ponta mais afiada. Cravei-o no pescoço de um dos agressores. O corpo caiu. Amassei-lhe a boca com a sola do sapato, para puxar a arma de volta com mais eficiência. Serjão levantou-se e segurou o outro contra a parede. Cravei-lhe o pedaço de madeira na jugular. Ele escorregou lentamente até o chão.

- Sai fora antes que dê merda, Serjão. - o homem me agradeceu, meio desconcertado, mastigando pedaços de frases e partiu em desabalada carreira na direção da estação das barcas.

Por alguns instantes, pensei em sentar-me no chão e esperar pelas autoridades. Mudei de ideia. Resolvi não me levar pela perversa juventude de espírito que só compreende a paixão e a crueldade. A rebeldia é o meio por que somos condenados a buscar o nosso senso de moralidade na vida. Sem rebelar-se contra o mundo, somos tão amorais quanto o cenário. E nesta porra deste mundo engessado, onde ser feliz é sintoma de rebeldia, decidi que seria feliz até as tripas saltarem. Preferi ser ferido pelo meu próprio sorriso antes da adaga insossa do jogo de ilusões reinante. É assim, de tanto acreditar no que achamos tão certo, que fazemos floresta do deserto. Basta de vender fácil o que não tem preço. Nada nos fere quando abraçamos verdadeiramente nossa estrada, nossa própria lei. Se a nós nos cabe dar sentido ao mundo como indivíduos, eu serei feliz a despeito do mundo. Nem que isso implique ser contra o mundo.

Segui até a parada de ônibus mais próxima, e embarquei na primeira condução que me pudesse levar a uma praia qualquer. Sentei-me na janela, buscando no ar o reconfortante cheiro de sal, à medida que o ônibus seguia rumo ao mar.

PS:
The Doors - Waiting For The Sun

Belchior - Paralelas

The Beatles - Within You Without You

Legião Urbana - Andrea Doria

Jefferson Airplane - White Rabbit